Este novo disco, 'Fala', gira muito em torno do universo feminino e conta com várias mulheres convidadas. O que motivou este conceito?
O conceito começou há já alguns anos, em 2012, quando fiz um espetáculo chamado 'The Other Woman' em que interpretava canções escritas por mulheres de todo o mundo. Na altura, até fiz uma digressão com esse conceito, mas fiquei com pena de ficar apenas por isso. Há dois anos, no entanto, esta ideia voltou a ganhar forma e pensei então em fazer um disco, mas desta feita só com autoras portuguesas. Felizmente nos últimos anos apareceram muitas mulheres a escrever. Por isso achei que este disco fazia todo o sentido nesta altura e fazer uma homenagem às minhas colegas. São mulheres que eu admiro muito não só como pessoas mas pela pertinência do seu trabalho.
Depois desse espetáculo de 2012 lançou, em 2016, um tema chamado 'Mulher' em que já falava de "igualdade e desalinho", "sem vergonha de vencer". Que fascínio exerce sobre si o universo feminino?
Primeiro há um fascínio obviamente por ser mulher, mas também é mais uma preocupação. À conta deste disco, dei-me conta de que o meu primeiro single, em 2007, se chamava 'Dream On Girl' e de que em todos os meus discos havia sempre uma canção que abordava sempre esta temática. A minha preocupação, enquanto ser humano, mulher e mãe de uma menina é que haja um sentido muito mais humanista no mundo. Esta questão de feminismo às vezes é interpretada como uma luta, uma guerra, quase uma separação entre mulheres e homens e isso para mim não faz sentido nenhum. A desigualdade sempre existiu e mesmo na arte as mulheres sempre tiveram dificuldade em ter uma voz. Isto foi passado de gerações e gerações, sempre a causar sofrimento. E depois temos a questão da violência doméstica, que vitima mais as mulheres, a desigualdade de salários ou de oportunidades e este disco alerta para a necessidade de falar e pensar sobre isto.
E cantar pode ser uma forma diferente de falar destas coisas?
Sim. Eu acredito que a arte tem a capacidade de colocar as coisas numa perspetiva que nos leva a pensar em novas possibilidades e saídas para situações problemáticas. E a música tem ao longo da história um papel muito grande no despertar de consciências.
Dizia que há cada vez mais mulheres a compor e a escrever. Porque acha que durante tanto tempo houve esta lacuna no mercado?
Hoje em dia até há mulheres que desempenham funções técnicas na música, que era algo que nem existia quando eu lancei o meu primeiro disco em 2008. Acho que isto tem a ver com um processo. A própria ideia das mulheres irem para a música era para cantar ou tocar piano. Hoje temos muitas mulheres baixistas, bateristas, guitarristas e a aprender música. Também houve uma abertura maior do ensino e as ideias feitas foram-se quebrando. Daí veio maior liberdade para aparecerem mulheres instrumentistas, mas também autoras.
E acredita que existe uma escrita feminina diferente da escrita masculina?
Eu acho que não existe no sentido de ser melhor ou pior, mas acho que há temáticas que preocupam mais as mulheres e que por isso também aparecem mais textos sobre essas temáticas. Mas temos homens a escrever para mulheres e muito bem e mulheres a escrever para homens.
Mas acha que as mulheres têm outra sensibilidade para escrever sobre determinados temas?
É natural que quando as coisas nos tocam na pele, falemos delas de forma diferente. É natural, por exemplo, que o tema da maternidade seja falado pelas mulheres com um conhecimento de causa que os homens não conseguem ter. Mas também é verdade que há homens a escrever muito bem sobre estas temáticas, de tal forma que às vezes nem sabemos se é homem ou mulher (risos).
E já que fala em maternidade, a sua filha já está com oito anos. Como é que ela se relaciona com a música da Rita Redshoes?
A minha filha gosta muito de música mas em relação ao que a mãe faz acho que não tem grande interesse. E eu acho isso ótimo (risos). Ser mãe é a minha maior função da vida dela. Claro que já foi a concertos meus mas não é minha fã. Espero que seja mais minha fã enquanto mãe (risos).
Mas vê nela alguma apetência para as artes?
Ela gosta muito de dançar, mas não a vejo muito interessada em instrumentos. Eu acho que aprender é sempre muito importante mas não tenho expectativas nenhumas. Também se me perguntarem se desejo uma vida de artista para a minha filha, acho que não. Gostava de algo mais estável para ela, embora no mundo atual isso seja muito difícil em qualquer profissão.
Se as contas não falham passam agora 30 anos desde que começou a tocar bateria na escola. O que se recorda dessa altura?
Eu sou muito ligada às memórias e sobretudo àquelas que me marcaram pela positiva. E dessa altura da adolescência, tenho de facto memórias muito boas, quando comecei a tocar bateria e de quando tive uma banda com o meu irmão. Foi aí que perdi alguma da minha timidez. A música permitiu-me maior autoconfiança e autoconhecimento. Foi um período muito mágico para mim.
E porquê a bateria?
Porque o meu irmão queria ser baterista, tinha uma banda de grunge e pediu uma bateria aos meus pais. E basicamente era o que eu tinha à mão (risos).
Isso quer dizer que descobre primeiro o instrumento e só depois a voz!
Sim. Eu gostava de cantar e era afinadinha, mas não tinha essa consciência de vir a ser cantora, até por causa da minha timidez. Subir a um palco e cantar para pessoas era uma coisa que estava fora de questão. Mas é engraçado porque é hoje a música que me faz subir ao palco e que me faz ultrapassar as minhas dificuldades e os meus dilemas.
E quando é que descobre que podia fazer alguma coisa com a voz?
Foi um dia quando fui assistir aos ensaios da banda do meu irmão, os Atomic Bees. O vocalista faltou e eu como sabia as músicas todas ofereci-me para cantar. Acho que foi nesse dia que percebi que podia e conseguia cantar. Acho que aquilo foi obra do acaso. Eu sempre achei que ia ser jornalista ou coisa parecida.
E a timidez de que falava passou?
Não. O que acontece é que eu fui arranjando muletas e estratégias para lidar com isso. Eu era tão tímida em criança que tinha pavor de ir para a escola porque teria que me expor. Nunca gostei de exposição. Quando comecei a cantar, até as pessoas da minha família tiveram dificuldade em acreditar.
E como é que se dá a volta a isso?
Dá-se a volta quando percebes que a música é mais importante do que tu própria. É por isso que isto é tão viciante. Subir a um palco é mágico e é isso que ajuda muitos artistas a passar por cima da timidez ou do medo do palco.