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Received — 17 October 2026 ⏭ Jornal do Algarve

Crucifixo de papel

17 October 2026 at 14:04

20 – Uma vida nova

Três dias depois de nascer, David teve alta do hospital e foi para casa com o pai, instalar-se no quartinho azul.

Guete despertou do coma ao décimo dia de internamento. Na cadeira de visitas, sentado à sua frente, estava Vinícius com o bebé ao colo, ambos numa espera ansiosa e contínua por vê-la regressar à vida.

O pequeno ia crescendo com a saúde dos fortes, inundado de amor por uns pais que faziam os possíveis para afastar da lembrança aqueles episódios traumáticos do hospital. Recordar a chegada de David, era recordar os abusos clínicos, a negligência e a desumanidade gratuita pela qual passaram.

A indignação pelos maus-tratos recebidos não tinha sequer ombro onde pousar, levitava somente, como um mostro incorpóreo contra o qual nada podiam fazer. Não adiantava recorrer às instituições, zelar por justiça, sonhar com a reparação dos danos. Nunca adiantou. Por isso, o jeito era fugir do presente, seguir para um futuro incógnito – pelo menos, no que ainda não se conhece, pode haver alguma esperança.

Vinicius continuava empregado na construção do Golf Resort e já tinha propostas para seguir na firma depois da obra. O corpo roto pela dureza do trabalho era compensado pelo salário acima da média e pela satisfação de chegar ao quartinho azul, no final de cada dia, aliviado pela sobrevivência.

Guete, entre as exigentes funções de cuidados maternos a David, retomara gradualmente os serviços de manicure e pedicure em casa.

Chegou o dia em que o salão improvisado na marquise já mal dava vazão à clientela, que crescia com a graça de um deus no qual ela nem se apercebera que deixara de acreditar. Por isso, convidou Lúcia para abandonar a Hamburgueria e juntar-se a ela no negócio de um novo espaço, desta vez profissionalizado com excelência.

Vam’bora, amiga, não tá vendo que eu sozinha não dou conta, a gente se junta, faz tudo direitinho, tem clientela de sobra para nós duas, e você sabe que o David precisa de mim um montão.

Ah, Guete, eu não sei, se dá errado eu faço o quê, vou mendigar, eu tenho Luana, Guete. E tenho o cafajeste do Miguel me atazanado com a droga daquele tribunal, você sabe que se eu fico desempregada, ele vai logo vir querer tirar a menina de mim, eu tenho medo.

O que tinha para dar errado na vida da gente, já deu, mulher. Não tem mais nada para dar errado, não. A gente já passou aprovação de tudo quanto é jeito, chega uma hora que a cruz larga do nosso ombro. E você sabe muito bem que nunca vai estar sozinha, você tem a gente, a mim, ao Vini e ao David. Eu nunca vou deixar você e Luana na mão, a gente vai junta para onde for. Vamos, Lu, abrir o nosso próprio negócio, com dignidade, tudo certinho, você não merece continuar debaixo das agruras da escravidão daquele restaurante, você merece honradez, merece cumprir seus direitos, você é gente igual a todo o mundo.

E você tem mesmo certeza que as meninas vão continuar vindo no salão.

Ôxi, é sério que você está duvidando de meus talentos, é isso. Quem era que lá no Bordel Dourado colocava as raparigas tudo num brinco, que nem capa de revista, quem era.

É…
Quem sabe nunca esquece, Lu. Você já viu o tanto que esse povo tem me procurado para fazer cabelo, pé, mão, virilha, buço, pestana, sobrancelha, tudo. Não lhe dou um ano e a gente abre até sucursal lá para os lados da cidade nova, presta atenção no que eu estou falando. E tem mais, esse é o negócio do futuro, você já reparou que antes era só madame que frequentava salão, e olha agora, hoje em dia até menina pé rapado faz unha e cabelo uma vez no mês, pelo menos. Você devia era falar para Luana deixar de besteira com esse negócio de estudar em universidade, e ir fazer curso é de estética, que no futuro ela herda o legado da gente e fica com a vida encaminhada. Até homem já faz depilação, sobrancelha, unha. É ou não é, me fala se eu estou errada.

Quer saber, eu vou sim, Guete, não tou mais podendo gastar saúde lá naquela hamburgueria dos infernos. E você está é cheia de razão.

Vam’bora, negócio fechado. Hoje a gente toma um chope em homenagem à vida nova, que a cruz do passado eu não carrego mais.

Com os papéis em ordem não há burocracia que contrarie a escolha do legalizado. O Salão da Guete passou a chamar-se formalmente Estúdio de Beleza Guete & Lu, e mudou para o piso 0 do Centro Comercial Baía dos Lobos – um edifício a léguas dos seus tempos áureos, indeciso entre o abandono e a resistência, na baixa despovoada da vila.

Se é mesmo verdade que depois das tempestades vêm as bonanças, então a delas parecia ter chegado. O negócio fluía, e o amor também.

Não só o de Guete e Vinicius, cada vez mais sólido, como um calo que se ergue na epiderme à força bruta das agressões vindas de fora; mas também o de Lúcia e Paula, que despontava ressuscitando desejos há muito encubados pela teoria de Platão.

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