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NO PRINCÍPIO ERA O VERBO

23 October 2026 at 18:05
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A oralidade é meu culto.

As mães embalam os filhos cantando 

ou dizendo palavras nas nossas línguas todas.

Ana Paula Tavares, entrevista à revista Buala, 2010.

No passado sábado, dia 17, realizou-se na Universidade Autónoma de Lisboa, o VI Encontro EscritAfricando, um projeto da Associação Ser Mais Valia (SMV), que tem como objetivo satisfazer o anseio de jovens africanos que querem iniciar-se na escrita de textos em língua portuguesa e vê-los publicados. Habitualmente, a parte da manhã deste encontro tem um programa de caráter mais prático em que se trabalha uma oficina temática. Depois de, em anos anteriores terem sido tratados o texto literário e não literário, a poesia, o conto, a crónica, desta vez coube à escritora guineense, autora de literatura infantojuvenil, Kátia Casimiro, orientar uma oficina sobre a oralidade.

Sabemos que a voz antecede a escrita e é pelas diferentes vozes que nos chega a perceção do mundo que nos cerca. É pela voz do colo que nos embala, das canções de ninar que nos adormecem, do chamamento a que de imediato reagimos, das lengalengas rimadas, de todos os que habitam o mesmo espaço das nossas memórias (a que chamamos casa) numa diversidade de entoações, que aprendemos a descodificar a palavra a partir dos primeiros dias da nossa existência.

Se a voz é importante para todos nós, ela ganha particular destaque nas comunidades africanas para a preservação da história, da cultura e dos valores éticos que contribuem para a afirmação de uma identidade coletiva. É nestas sociedades que a oralidade ganha o estatuto de oratura, ou seja, em que o saber é transmitido de geração em geração sem o suporte físico da escrita.  A Ilíada e a Odisseia de Homero, inicialmente transmitidas de forma puramente oral durante séculos, chegaram até nós graças à perenidade da palavra escrita.

Em determinado momento da sessão de trabalho, Kátia Casimiro lembrou um episódio passado na Guiné, quando aí se deslocou a convite de uma escola onde teve a oportunidade de dar a conhecer a sua obra. Exímia contadora de histórias, interagia com as crianças quando, a propósito de uma das personagens dos seus contos, perguntou ao grupo o que queriam ser quando fossem grandes. Estamos habituados a que a maioria se sinta atraída por um conjunto de referências e modelos a que os meios de comunicação e as redes sociais se encarregam de dar maior visibilidade (jogadores de futebol e outros desportistas), cantores, atores ou outras profissões que conferem um determinado estatuto profissional. Um dos miúdos, porém, fugiu a esta corrente dominante e disse que queria ser “avô”. A Kátia, espantada com a resposta, e pensando que tinha ouvido mal, insistiu para desfazer a dúvida: “Queres ser o quê?” E a resposta veio novamente pronta: “Quero ser avô.” Segura agora do que ouvira, perguntou: “E queres ser avô, porquê?” A criança não hesitou: “Porque o meu avô conta muitas histórias.” E é porque somos feitos de histórias que vale a pena ouvi-las, enquanto palavra falada tiver a força criadora para despertar o nosso imaginário e nos ligar aos nossos ancestrais. Os avôs são, por isso, os guardiões das linhagens familiares que preservam comportamentos traduzidos numa sabedoria prática e filosófica acumulada ao longo de séculos.

Durante o longo período da colonização, foi prática corrente impedir que as populações se exprimissem nas línguas maternas. Foram, portanto, as narrativas orais, as músicas e os cantos que conseguiram manter viva as línguas locais como resistência à interdição de quem as usava. Ora, os avôs mais não são do que os velhos guardiões dessa memória, que faz jus ao que afirmou o escritor e historiador maliano Amadou Hampâté Bâ: “Quando um velho morre, é uma biblioteca que se queima.”

Aida Batista/MS

WE ARE ALL “MARICARMEN”

30 September 2026 at 21:24

I am a human being: I consider nothing human alien to me. — Publius Terentius Afer, 195 BC

Advances in medicine and widespread access to healthcare have led to an increase in longevity in recent years. On the other hand, birth control and the individual choice not to have children have resulted in declining birth rates. As a consequence, we are now faced with increasingly aging population pyramids. We are, therefore, confronting a reality in which the disparity between the number of elderly people and children is striking.

However, growing old—despite representing an achievement and reflecting a long journey in combating certain diseases—is not always synonymous with quality of life. Recently, journalist Luís Osório dedicated one of his daily columns to aging: “To be sure, reaching old age means unexpected aches, joints on strike, and bone spurs, but it is also the possibility of being in less of a hurry, of seeking depth, of rediscovering slowness.” It is above all this slowness that is least understood by younger generations, who lack the patience to deal with the pace of lost youth, because—and to continue with Luís Osório—“Aging is muscles emptying, acquiring the fear of crossing the street, of falling in the bathtub, of being hospitalized, but it is also arguing less, sacrificing the madness of ambition for well-being.”

The crux of the matter lies in the kind of well-being each person desires, especially when we are so often confronted with the number of care homes shutting down due to degrading conditions, and the terrifying number of elderly people living in vulnerable situations without any support. Some are denied their most basic rights when unscrupulous entities, under the cover of the law, evict them without pity or mercy from the homes where they spent their entire lives.

In recent days, we watched live what happened in neighboring Spain with Maria del Carmen, who mobilized an entire population in a protest against the glaring injustice committed through the insensitivity of those who still view old age as a distant milestone. Maria del Carmen Abascal, better known as Maricarmen, is 87 years old and had lived in a rented house since 1956 in the Retiro neighborhood of Madrid. In other words, for 70 years, she knew no other place than the one where she grew up and grew old. The lease agreement had been signed by her father; after his death, it passed directly to her mother, and in 2005, to the daughter, subject to rent adjustments. Meanwhile, the property was acquired by an investment fund, Urbagestion, which legally contested this final transfer. The Supreme Court ruled in favor of the company, thereby allowing it to exercise its right to evict her. The United Nations Committee on Economic, Social and Cultural Rights had asked the Spanish state last June to guarantee Maricarmen a housing solution tailored to her situation. She was offered an emergency spot in a care home, which Maricarmen declined. Consequently, the company felt entitled to proceed with the court-ordered eviction. On the day it took place, we could see her, lucid, being carried out on a stretcher, while hundreds of people gathered in a protest outside the building to try to prevent it, seeing their efforts completely thwarted.

Some might argue that the company acted with the backing of a judicial ruling. True! However, the question we must ask ourselves is: to what extent is such a decision just? Because a home is not made of walls, but of the people, the objects, the environments that embrace us, and, above all, the memories we lived in them, where every corner reminds us of moments from our lives.

Forcing someone to turn their back on 70 years of a life is an act of atrocious violence. And it does not dignify us as human beings.

Aida Batista/MS

The content on the Milénio Stadium website is automatically translated using Google Translate.

SETEMBRO A CHEIRAR A PAPEL E TINTA

18 September 2026 at 15:42
Photo: @copyright

Escrevemos para construir uma casa para nós,

no papel, no tempo, na mente dos outros.

Alfred Kazin

Um dia, o meu neto mais novo entrou no meu carro e, assim que pôs o cinto de segurança, olhou para o cacifo lateral, pegou numa brochura que lá se encontrava, abriu-a e perguntou:

– Vó, quem é que ainda usa mapas?

Claro que não me espantou a pergunta vinda de um jovem que não conhece outra forma de navegação que não seja através do GPS, nas suas diferentes modalidades. Contudo, não sendo eu ainda na altura uma praticante desta modalidade, expliquei-lhe que, embora lhe reconhecesse todas as vantagens, continuava a gostar de mapas em papel; de lhes percorrer as entranhas, seguindo o rasto das estradas, o percurso dos rios e toda uma orografia que tanto aumentava como encurtava o tempo da viagem; descodificar sinaléticas e avaliar distâncias que permitiam escolher itinerários; ler o nome das localidades e descobrir a razão por algumas, de tão insignificantes, não estarem assinaladas apesar de fazerem parte da nossa geografia afetiva.

Assisti à rápida progressão do digital, tendo visto crescer os netos e formarem-se quase sem o recurso aos livros de papel. Hoje, começamos a registar a opção pelo percurso inverso. Os países nórdicos, por exemplo, estão novamente a regressar aos livros, à produção manuscrita de textos e, ao nível do ensino superior, a tornar obrigatória a defesa oral dos trabalhos apresentados para despistagem do eventual recurso à IA (Inteligência Artificial) na elaboração dos mesmos.

Eu pertenci à geração do livro único. A condição de primogénita deu-me, contudo, o privilégio de todos os anos estrear os meus próprios livros. Por isso, setembro continuará a evocar as memórias do meu entusiasmo por esta época de retorno às aulas. Vejo-me a fazer o roteiro das livrarias ditando a lista dos compêndios e dicionários, que iam aumentando na proporção do meu avanço na escolaridade. Depois, os cadernos diários – pautados, quadriculados, em branco – um para cada disciplina -, ah… e a sebenta, sempre uma sebenta que servia de rascunho para tudo, e que, apesar do nome, se mantinha limpinha. Por fim, todos os outros materiais, absolutamente necessários para um bom desempenho na profissão de estudante: canetas, lápis, afia-lápis, borracha, fita-cola, régua, esquadro, compasso, guaches, pincéis de diferentes tamanhos e texturas, tinta da china, sem esquecer os rolos de papel estampado e colorido para forrar livros e cadernos.

            Esta tarefa conferia à casa o ambiente de abertura do ano escolar e denunciava a perícia necessária para bem forrar um livro. Desenrolava-se o papel e cortava-se à medida do livro, deixando a margem necessária para a dobra interior da capa e da contracapa. Vincava-se muito bem e metia-se a margem para dentro. Para o trabalho poder ser dado como concluído, faltava uma última operação: dobrar em forma de triângulo cada canto, tanto no ponto de encontro da margem superior, como da do inferior, que se prendia com uma tira de fita cola para ficar mais segura. Para os distinguir, colocávamos depois uma etiqueta. No caso dos livros, aposta na lombada; nos cadernos, na capa.

            Numa dessas tardes, o meu irmão lembrou-se de começar a mexer em tudo, desorganizando o meu trabalho. Mera provocação? Sei apenas que lhe manifestei o meu desagrado pela atitude e lhe pedi que não tocasse nas minhas coisas. Devo ter emprestado àquele pedido toda a autoridade que o estatuto de irmã mais velha me conferia, fazendo com que ele se sentisse um intruso a profanar aquilo que eu tinha de mais sagrado – os livros! Foi-se embora, mas voltou movido pela curiosidade que a pilha colorida dos livros provocava num território que lhe era interdito.

Ainda hoje, em cada ritual de abertura de um novo ano letivo, relembro o meu regresso às aulas entranhado do odor a papel e tinta dos livros novos.

 Aida Batista/MS

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