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Emma Lazarus e as suas raízes portuguesas: da memória sefardita à Estátua da Liberdade

23 October 2026 at 18:14

 

Emma Lazarus (1849-1887). DR

Na história das relações entre Portugal e os Estados Unidos da América, marcadas por mais de dois séculos de amizade diplomática e por fortes laços humanos, destaca-se a figura de Emma Lazarus (1849-1887), célebre poetisa norte-americana de ascendência judaico-sefardita portuguesa, autora do poema The New Colossus (“O Novo Colosso”), gravado numa placa de bronze no pedestal da Estátua da Liberdade, um dos maiores símbolos universais da liberdade, da esperança e do acolhimento.

Emma Lazarus nasceu a 22 de julho de 1849, em Nova Iorque, no seio de uma família judaica de ascendência sefardita, ligada à história dos judeus de Portugal e de Espanha. A expulsão dos judeus de Espanha, em 1492, e as medidas decretadas em Portugal a partir de 1496, seguidas das conversões forçadas de 1497, deram origem a sucessivas vagas de exílio. Os seus descendentes estabeleceram-se em diferentes países, preservando memórias, tradições e ligações à Península Ibérica.

Em 1883, Emma Lazarus escreveu The New Colossus, a pedido de William Maxwell Evarts, no âmbito de uma iniciativa de angariação de fundos destinados à construção do pedestal da Estátua da Liberdade. Inaugurado a 28 de outubro de 1886, o monumento, oferecido pela França aos Estados Unidos, adquiriu, em parte graças ao poema, um significado que ultrapassou a celebração da liberdade política, passando a representar também a esperança dos imigrantes e dos refugiados. Emma Lazarus morreu em 1887, e os seus versos só foram inscritos numa placa de bronze no interior do pedestal em 1903.

Muito antes, no século XVII, a história dos judeus sefarditas portugueses já se cruzara com a formação das comunidades judaicas na América do Norte. Durante o domínio holandês de parte do Nordeste brasileiro, o Recife acolheu uma comunidade judaica que beneficiou de condições de maior liberdade religiosa. Com a reconquista portuguesa da região, em 1654, e perante o receio de perseguições inquisitoriais, um grupo de judeus refugiou-se em Nova Amesterdão, então uma colónia holandesa na ilha de Manhattan, lançando as bases de uma presença judaica duradoura na cidade que viria a chamar-se Nova Iorque.

A congregação Shearith Israel, de tradição sefardita e historicamente conhecida como Spanish and Portuguese Synagogue, tornou-se uma das instituições centrais desta comunidade. A sua história testemunha a importância dos judeus de origem ibérica na vida religiosa, económica e cultural da América do Norte.

Entre as famílias que ilustram esta herança encontra-se a dos Mendes Seixas. Isaac Mendes Seixas, nascido em Lisboa no início do século XVIII, era trisavô de Emma Lazarus, poetisa norte-americana de ascendência judaico-sefardita portuguesa. Estabelecida na América do Norte, a família teve uma participação relevante na vida religiosa, económica e cívica das comunidades judaicas. Entre os seus descendentes destacou-se Moses Mendes Seixas, dirigente da comunidade judaica de Newport, no estado de Rhode Island, que, em 1790, dirigiu uma carta a George Washington por ocasião da visita do presidente à cidade. Na resposta, Washington reafirmou os princípios da liberdade religiosa e da igualdade cívica, num testemunho significativo dos ideais da nova república americana.

A ascendência sefardita portuguesa de Emma Lazarus inscreve-se neste percurso de exílio, reconstrução e participação cívica. A sua obra, porém, não se limitou à evocação das origens familiares. Sensível à situação dos judeus perseguidos na Europa, a poetisa envolveu-se no apoio aos imigrantes em Nova Iorque, experiência que contribuiu para a dimensão humanista do seu pensamento.

No célebre soneto, a Estátua da Liberdade deixa de ser apenas um monumento à grandeza nacional. Emma Lazarus transforma-a na «Mãe dos Exilados», uma figura que ergue a tocha para acolher aqueles que chegam de terras distantes, cansados da perseguição, da pobreza e da opressão. Os versos «Dai-me os vossos cansados, os vossos pobres, / as vossas massas apinhadas, ansiosas por respirar liberdade» tornaram-se uma das mais conhecidas expressões do ideal de acolhimento associado aos Estados Unidos.

Esta mensagem permanece atual num mundo marcado por guerras, deslocações forçadas e debates sobre a imigração. A história demonstra que a liberdade não se esgota na proclamação de princípios, exige também respeito pela dignidade humana, proteção dos perseguidos e capacidade de acolher quem procura reconstruir a sua vida.

A diáspora portuguesa faz igualmente parte desta história. Atualmente, cerca de 1,5 milhões de pessoas nos Estados Unidos identificam-se com ascendência portuguesa, segundo estimativas baseadas em dados censitários. Ao longo de gerações, os portugueses e os seus descendentes têm contribuído para a vida económica, social e cultural do país, preservando os laços com Portugal e construindo pontes entre as duas margens do Atlântico.

A história de Emma Lazarus recorda-nos que as identidades nacionais também se constroem através de percursos familiares que atravessam fronteiras. As suas raízes sefarditas portuguesas ligam a memória da Península Ibérica à história dos Estados Unidos e à experiência universal da diáspora.

A tocha que ilumina a entrada do porto de Nova Iorque permanece, assim, como símbolo de uma história que também passa por Portugal, uma história de exílio e esperança, de memória e integração, que continua a interpelar a diáspora portuguesa e o mundo contemporâneo.

Daniel Bastos/MS

Dois oceanos, uma história: a homenagem aos pioneiros portugueses da pesca do atum em San Diego

18 September 2026 at 15:43
Emídio Sousa, Secretário de Estado das Comunidades Portuguesas, ladeado por Idalmiro da Rosa, Cônsul Honorário de Portugal em San Diego, e pelo empresário luso-americano Kenny Alameda, durante a exposição dedicada à história. (DR)

No início deste mês de setembro, Lisboa acolheu a 104.ª reunião anual da Comissão Interamericana do Atum Tropical (IATTC), organização responsável pela conservação e gestão dos atuns e de outras espécies no Oceano Pacífico Oriental. Com sede em La Jolla, San Diego, Califórnia, Estados Unidos da América, a IATTC reúne 21 membros, entre os quais a União Europeia, através da qual Portugal participa na gestão das pescarias do Pacífico Oriental.

Desde outubro de 2017, o investigador português Alexandre Aires-da-Silva exerce as funções de Coordenador de Investigação Científica da IATTC e responsável pela sua Divisão de Investigação Científica. Especialista em ciência das pescas e gestão sustentável dos recursos marinhos, tem desenvolvido uma carreira internacional ligada ao estudo dos grandes peixes pelágicos e à cooperação científica no setor das pescas.

Foi neste contexto que Alexandre Aires-da-Silva, juntamente com Idalmiro da Rosa, natural da ilha do Pico, líder comunitário e Cônsul Honorário de Portugal em San Diego, e Kenny Alameda, empresário luso-americano e fundador da Clipper Oil, promoveu uma homenagem aos pioneiros portugueses da pesca do atum, realizada no Museu de Marinha, em Belém.

A iniciativa revestiu-se de particular significado histórico. Se Lisboa representa uma das grandes matrizes da vocação marítima portuguesa, San Diego constitui um dos mais importantes destinos da emigração portuguesa ligada ao mar, à pesca e à indústria conserveira. Durante grande parte do século XX, a cidade foi conhecida como a “capital mundial do atum”, tendo os pescadores portugueses, sobretudo oriundos dos Açores e da Madeira, desempenhado um papel relevante no desenvolvimento da sua economia marítima.

A presença portuguesa em San Diego remonta ao século XIX, com sucessivas vagas migratórias a fixarem-se particularmente em Point Loma, onde a ligação ao mar se tornou uma das marcas identitárias da comunidade. Atualmente, estima-se que cerca de 20 mil pessoas de ascendência portuguesa residam no condado de San Diego. A memória da pesca, as tradições religiosas, a gastronomia e o associativismo continuam a afirmar a identidade luso-americana.

Esta história cruza-se também com João Rodrigues Cabrilho, navegador ao serviço da Coroa espanhola que, em 1542, alcançou a costa da Califórnia e entrou na baía de San Diego, sendo tradicionalmente identificado pela historiografia portuguesa e luso-americana como português.

A homenagem, realizada junto ao Mosteiro dos Jerónimos, contou com o apoio da Marinha Portuguesa, do Museu de Marinha, das autoridades portuguesas, da União Europeia, da Fundação Luso-Americana para o Desenvolvimento (FLAD), de organizações ligadas ao setor das pescas e de famílias da comunidade portuguesa. A sessão contou com intervenções do Diretor do Museu de Marinha, Capitão-de-Mar-e-Guerra Augusto António Alves Salgado, e do Secretário de Estado das Comunidades Portuguesas, Emídio Sousa, seguindo-se uma apresentação de Kenny Alameda, intitulada Across Two Oceans, sobre a história da pesca do atum no Pacífico Oriental e o contributo dos pescadores portugueses e das suas famílias.

A iniciativa incluiu ainda uma exposição dedicada aos pioneiros portugueses da pesca do atum e prolongou-se, uma semana depois, pelo arquipélago dos Açores, berço de muitos daqueles emigrantes. Com o apoio das Secretarias Regionais dos Assuntos Parlamentares e Comunidades e do Mar e das Pescas, realizaram-se sessões públicas na Horta e nas Lajes do Pico, aprofundando a dimensão científica, histórica e humana desta ligação transatlântica.

Na Horta, no dia 7 de setembro, a sessão decorreu no Auditório da Biblioteca Pública e Arquivo Regional João José da Graça, com a participação de Andreia Braga Henriques, Diretora Regional das Pescas, Alexandre Aires-da-Silva, Idalmiro da Rosa e Ricardo da Rosa, armador do Pacific Princess e vice-presidente da United Portuguese SES, Inc.

No dia seguinte, nas Lajes do Pico, o Auditório do Museu dos Baleeiros acolheu uma sessão de carácter histórico, com a participação de Alexandre Aires-da-Silva, Idalmiro da Rosa, José Andrade, Diretor Regional das Comunidades, Manuel Costa, Diretor do Museu do Pico e presidente da Comissão Consultiva do Património Baleeiro Regional, e Rúben Alves, empresário ligado à pesca do atum.

A homenagem aos pioneiros portugueses da pesca do atum foi, assim, muito mais do que a evocação de uma atividade económica. Constituiu um reconhecimento às gerações que levaram consigo o saber, a coragem e a cultura de um povo profundamente ligado ao mar, contribuindo para o desenvolvimento das comunidades de acolhimento. Foi também uma expressão de valorização da diáspora portuguesa, do seu papel na preservação dos laços com Portugal e do seu contributo para a história económica, social e cultural dos países onde se fixou.

Daniel BAstos/MS

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