❌

Normal view

Sob pressão dos mercados e com Eliseu em disputa, França tenta reduzir o défice sem agravar tensão social

23 October 2026 at 07:03

O que começou como um protesto estudantil às portas de um liceu nos arredores de Paris rapidamente se alastrou a uma onda de contestação e violência que vai muito para além das fronteiras da capital francesa e de reivindicações por mais recursos para as escolas e os professores. O descontentamento dos franceses estende-se ao custo de vida, à perda de poder de compra e à degradação dos serviços públicos, colocando o Governo perante um dilema cada vez mais difícil: como reduzir um défice que deverá atingir 5,4% do PIB este ano, num país onde a despesa pública absorve mais de 57% da riqueza produzida, sem agravar a pressão sobre as famílias ou comprometer o Estado social?

O desafio é agravado pelo aumento dos custos de financiamento da dívida, que deixa o Executivo com menos margem para responder às necessidades da população. A proposta de Orçamento do Estado para…

Este artigo é exclusivo para assinantes

Assine o ECO Premium e continue a ler esta e todas as notícias exclusivas, sem limites.

Assinar ECO Premium e continuar a ler

Já é assinante? Iniciar sessão

Ver todos os planos

Juros da dívida francesa superam 5% pela primeira vez desde 2002

21 October 2026 at 10:44

França continua sob intensa pressão nos mercados obrigacionistas perante a deterioração das contas públicas e o clima de tensão nas ruas. Os juros dos títulos a 10 anos superaram esta quarta-feira a fasquia dos 5% pela primeira vez desde 2002, refletindo a grande preocupação dos investidores com a situação gaulesa.

Esta manhã, a yield a 10 anos atingiu os 5,002%, mais oito pontos base em relação à sessão anterior, de acordo com os dados da Refinitiv. O prémio de risco em relação à Alemanha alargou-se para 157 pontos base, aproximando-se dos valores mais elevados desde 2011.

“A vontade política para qualquer consolidação orçamental antes das eleições é muito, muito baixa”, salientou Jeff Mueller, co-responsável pelo rendimento fixo da Morgan Stanley Investment Management, citado pelo Financial Times, acrescentando que há muito espaço para “a situação piorar a partir daqui”.

Nota: Se está a aceder através das apps, carregue aqui para abrir o gráfico.

Praticamente desde fevereiro que os mercados globais de dívida estão a ser fortemente pressionados, na sequência dos ataques dos EUA e Israel no Irão, que levou os juros em todo o lado a subirem à boleia do petróleo.

Mas o problema afetou sobretudo os países mais endividados e, por isso, França tem estado na mira dos investidores, com a perceção de risco a agravar-se de dia para dia para níveis preocupantes.

Os custos de financiamento do Estado francês foram os que mais subiram nas maiores economias do mundo desde o início do conflito no Médio Oriente, justamente por conta das dúvidas quanto à capacidade do governo de sanear as contas públicas, receios a que se juntaram nas últimas semanas a forte contestação nas ruas.

O Executivo de Sébastien Lecornu apresentou um pacote de consolidação orçamental de 43 mil milhões de euros, com o objetivo de reduzir o défice de 5,4% do PIB este ano para 5% em 2027. Contudo, a aprovação parlamentar é incerta e os analistas duvidam que as medidas sejam suficientes para conter o défice orçamental e estabilizar a dívida pública, que está nos 115% do PIB (final de 2025) e deverá continuar a subir este ano e no próximo.

Também há incerteza em relação às promessas de Marine Le Pen para sanear as contas públicas. A candidata presidencial do Rassemblement National e que lidera as sondagens para as eleições de abril prometeu uma redução significativa do défice público caso o seu partido vença as eleições. O plano passa por reduzir as necessidades de financiamento do Estado para 3,7% do PIB e baixar o défice para menos de 3% do PIB até 2030.

Esta semana termina com um outro momento de tensão para a segunda maior economia da Zona Euro, com a Moody’s a atualizar o rating do país na sexta-feira. Em cima da mesa pode estar uma descida da notação de risco, tendo em conta o outlook negativo do atual rating de Aa3, o iria adicionar pressão sobre os juros.

“Com a expectativa de mais protestos, recolher obrigatório noturno e o governo a enfrentar uma pressão renovada, o risco soberano francês continua a ser uma fonte adicional de incerteza para os mercados europeus de rendimento fixo”, consideram os analistas do Danske Bank.

Os juros a 10 anos de Portugal também estão a subir, situando-se nos 3,92% — aliviando, ainda assim, dos 4% do final do mês passado.

(Notícia atualizada às 10h53)

❌