A alfarrobeira e o seu legado secular
Para nós, algarvios, é familiar a omnipresença da humilde alfarrobeira, designadamente na zona do Barrocal, local de eleição edáfico (do gr. “édaphos”, terra, solo) para esta sóbria espécie vegetal, originária, segundo consta, da Mesopotâmia, sua pátria remota. Conta-se como mais um dos inúmeros contributos da presença árabe, entre nós, a quem devemos, não apenas uma verdadeira revolução nos processos com novas técnicas na agricultura, no al-Andalus peninsular, como a migração e introdução de um sem número de outras espécies arbóreas e arbustivas.
Não me irei debruçar sobre a alfarrobeira, na vertente económica em si, uma vez que outros já o fizeram, melhor do que eu faria, neste mesmo espaço do nosso Jornal do Algarve.
Irei, antes, focar-me num outro aspecto histórico desta simpática árvore talvez, suponho eu, não tão conhecido.
O termo alfarroba veio-nos do ár. “al-ẖarrûba”, que, por sua vez, foi tomado do gr. “kérăs, kérātos” (chifre, corno), sua verdadeira origem. Aos olhos gregos foi atribuída tal designação, devido à semelhança deste fruto, que é ligeiramente curvo, com um chifre.
O contributo do fruto da alfarrobeira, em transacções comerciais de algo tão valioso como o ouro, desde tempos imemoriais, que remontam aos da própria Mesopotâmia, tem a ver com as humildes e minúsculas sementes da alfarroba.
Como assim?
Desde tão cedo, na história do Médio Oriente, como com os negociantes fenícios, a massa de cada semente da alfarroba era considerada como extremamente uniforme e pendular, pelo que, à falta de outro meio mais credível para pesar um metal tão caro como o ouro, foi, desde esses tempos remotos, tomada como fiável para esse fim.
Como se sabe, foram duas as grandes línguas que, desde os últimos três séculos anteriores ao advento da Era Cristã, dominaram culturalmente, “grosso modo”, a Europa: o Latim, na sua parte ocidental, devido à ascensão do Império Romano, e o Grego, na parte nascente, pela emergência de Alexandre, o Grande, cujos limites do império haveriam de tocar as fronteiras da própria India.
No âmbito da dominante influência cultural do Grego, como língua franca na área oriental da Europa, reflectindo rotas comerciais mediterrânicas extremamente activas, em termos comerciais, à modesta semente da alfarroba, então correntemente usada como padrão de peso para metais preciosos, seria atribuída a designação grega, “kerátion”, semente da alfarroba, ou seja, o diminutivo, como acima referimos, do gr. “kérăs”, o nome grego para alfarroba.
Quem não conhece o termo “quilate”, unidade que representa, actualmente, a massa padronizada de 0,2 g., a mesma que se atribuía, dantes, a cada semente da alfarroba, em termos empíricos ?
Este “quilate” nada mais é do que a evolução do grego “kerátion”, semente da alfarroba, através da língua árabe. No âmbito do intenso comércio praticado pelos Árabes, através das rotas comerciais e traduções científicas do tempo, e segundo as regras fonéticas da sua língua, o grego “kerátion”evoluiria, via árabe, para a forma intermédia “qīrāt“, antecâmara do actual “quilate”.
Nas línguas inglesa e francesa, por exemplo, a evolução seguiu caminho diferente do nosso e deu “carat”, enquanto no Italiano deu “carato” e, no Castelhano, tal como em nós, “quilate”.
Contudo, aplicado ao ouro, o quilate não funciona como medida de peso, mas como critério de “pureza do metal”, visto que o ouro é passível de ligas com outros metais, o que lhe retira a pureza, algo que é fundamental ter em conta, no acto da negociação.
Apenas o ouro com 24 quilates é considerado puro e, proporcionalmente, com 18 quilates tem 75% de pureza – o que significa que apenas três quartos são de ouro puro e um quarto de outro(s) metal(is) – ou com 12 quilates, apenas com 50% e por aí adiante.
De notar que o ouro puro desgasta-se mais facilmente do que como liga metálica, sendo por esse facto que algum do ouro comercializado não é de 24 quilates.
Permita-se-me, como vem a talho de foice, como sói dizer-se, que explique o porquê da escala utilizada de 24, como método para medir a pureza do ouro.
Tem a ver com o facto de a semente de alfarroba ter uma designação semelhante ao de uma pequena moeda de prata romana (do lat. siliqua) e de esta ser 1/24 (vigésima quarta parte) do soldo (do lat. solidus), moeda de ouro de grande pureza, criada no séc. IV.
Modernamente, como acima refiro, havia a necessidade de padronizar, cientificamente, a unidade de medida “quilate”, pelo que lhe foram atribuídas 0,2 gramas, pelo Sistema Internacional de Unidades (SI).
Acrescente-se que, segundo medidas rigorosas efectuadas, se chegou à conclusão de que a suposta uniformidade das sementes de alfarroba não correspondia à realidade, uma vez que aquelas podem, pontualmente, diferir, entre si, nalguns nanogramas.
Mais tarde, o quilate haveria de passar a ser igualmente utilizado em pedras preciosas, aqui, com o critério de peso e não, como no ouro, em que se tem de aquilatar, sim, não do peso, mas da sua pureza, como atrás se refere.
– Os processos para determinar a pureza do ouro, baseiam-se em vários métodos laboratoriais, de que refiro a espectrometria ou o ensaio electrolítico.
– O critério para determinar o valor de diamantes e outras gemas utiliza três pilares de avaliação, de que um é o peso, em quilates (0,2 g), e os outros a cor e clareza, no caso dos diamantes.
Para finalizar, não obstante todas as modernas técnicas postas ao serviço do comércio das mais valiosas jóias, a memória da humilde semente da alfarroba haveria de sobreviver, como símbolo, embora não como padrão prático, no termo “quilate”, medida básica para aferir do valor do ouro, assim como das mais valiosas gemas.