“Volta”: teatro, comunidade e memórias sobem ao palco no Canadá

Uma noite de teatro reuniu diferentes gerações numa celebração da cultura, da memória e da comunidade.
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urante quatro dias de trabalho e na apresentação final, o teatro aproximou pessoas de diferentes idades, experiências e percursos, numa iniciativa marcada pela emoção, pelo convívio e pela partilha. Criado por Maria João Gouveia e pelo “Estúdio13”, a “Volta” é um projeto participativo que leva ao palco artistas profissionais e não profissionais, de diferentes faixas etárias e experiências. O espetáculo multidisciplinar parte das histórias, costumes, vivências e tradições dos participantes da comunidade no Canadá.
Entre os elementos que subiram ao palco esteve Jaime Nascimento, ator nesta produção, que descreve o teatro como muito mais do que uma atividade artística: “É uma vida.” Para Jaime, o teatro é também uma fonte de rejuvenescimento e uma forma de libertação das preocupações do quotidiano. “Quando nos vestimos com esta farda, esquecemos imediatamente tudo o que nos afeta”, explicou. O palco transforma-se, assim, num espaço onde as preocupações ficam à porta e prevalecem a amizade, o convívio e o prazer de criar em conjunto.
Apesar de se tratar de um grupo de não profissionais, Jaime sublinha o empenho colocado no projeto. A apresentação foi preparada em apenas quatro dias, num processo vivido com entusiasmo e dedicação. “Faço mesmo por amor à camisola”, afirmou, destacando o compromisso de todos os participantes.
Um dos aspetos mais marcantes de “Volta” foi precisamente a diversidade do grupo, que juntou pessoas dos 19 aos 94 anos. Para Jaime, esta convivência entre diferentes gerações e percursos de vida é uma das maiores riquezas da experiência. O projeto representou também um regresso a uma paixão que julgava afastada da sua vida. “Pensava eu que já estava em fim, já estava alheado destas questões”, confessou, mostrando-se satisfeito por voltar a fazer aquilo de que gosta: teatro.
Com o apoio de Sara Costa (Leve Group), a iniciativa contou com o envolvimento da Casa do Alentejo de Toronto, apresentada como um espaço aberto à cultura e à comunidade. Sandra da Silva, responsável pelas relações públicas da instituição, destacou precisamente essa missão. “Esta casa é uma porta aberta, uma janela aberta”, afirmou, referindo-se ao papel da Casa do Alentejo enquanto espaço de encontro, convívio e criação cultural. Segundo Sandra, a apresentação resultou da conjugação de diferentes elementos: pessoas vindas de Portugal, o trabalho desenvolvido durante a semana, um workshop e a participação de elementos da própria casa e da comunidade. Para ela, a cultura deve ocupar um lugar central na sociedade, independentemente da sua forma. “É teatro, música e afetos”, resumiu, garantindo que a instituição está disponível para apoiar diferentes manifestações culturais.
Para Maria João Gouveia, responsável pela criação do projeto, os dias passados com a comunidade foram igualmente marcantes. Visivelmente emocionada, confessou ter ficado “um bocadinho sem palavras” perante a experiência. “Foram dias muito bonitos”, afirmou, considerando que o projeto ficará marcado no seu percurso profissional e pessoal.
A proximidade com a comunidade foi, para Maria João, aquilo que tornou a experiência ainda mais especial. O conceito de “Volta” ganhou um significado particular através das histórias e experiências de vida dos participantes. A artista destacou a generosidade e a união encontradas na comunidade. “Não há cá egos”, disse, salientando a autenticidade dos participantes e a capacidade de trabalharem em conjunto.
No final, a principal mensagem que leva consigo é a força demonstrada pelas pessoas perante as dificuldades e as mudanças da vida. “Há pessoas com voltas nas suas vidas cheias de força, de determinação, de obstáculos, mas que conseguem transformá-los”, afirmou.
Mais do que uma apresentação teatral, “Volta” acabou por ser um encontro entre gerações, experiências e memórias. Um palco onde profissionais e não profissionais se encontraram e onde histórias pessoais, costumes e tradições ganharam uma nova dimensão através da arte.
Entre o teatro, a música, o movimento, o convívio e os afetos, ficou a certeza de que a cultura pode ser também uma forma de regressar às origens, preservar memórias e, ao mesmo tempo, construir novas histórias no presente.
Romulo M. Avila/MS