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SETEMBRO A CHEIRAR A PAPEL E TINTA

18 September 2026 at 15:42
Photo: @copyright

Escrevemos para construir uma casa para nós,

no papel, no tempo, na mente dos outros.

Alfred Kazin

Um dia, o meu neto mais novo entrou no meu carro e, assim que pôs o cinto de segurança, olhou para o cacifo lateral, pegou numa brochura que lá se encontrava, abriu-a e perguntou:

– Vó, quem é que ainda usa mapas?

Claro que não me espantou a pergunta vinda de um jovem que não conhece outra forma de navegação que não seja através do GPS, nas suas diferentes modalidades. Contudo, não sendo eu ainda na altura uma praticante desta modalidade, expliquei-lhe que, embora lhe reconhecesse todas as vantagens, continuava a gostar de mapas em papel; de lhes percorrer as entranhas, seguindo o rasto das estradas, o percurso dos rios e toda uma orografia que tanto aumentava como encurtava o tempo da viagem; descodificar sinaléticas e avaliar distâncias que permitiam escolher itinerários; ler o nome das localidades e descobrir a razão por algumas, de tão insignificantes, não estarem assinaladas apesar de fazerem parte da nossa geografia afetiva.

Assisti à rápida progressão do digital, tendo visto crescer os netos e formarem-se quase sem o recurso aos livros de papel. Hoje, começamos a registar a opção pelo percurso inverso. Os países nórdicos, por exemplo, estão novamente a regressar aos livros, à produção manuscrita de textos e, ao nível do ensino superior, a tornar obrigatória a defesa oral dos trabalhos apresentados para despistagem do eventual recurso à IA (Inteligência Artificial) na elaboração dos mesmos.

Eu pertenci à geração do livro único. A condição de primogénita deu-me, contudo, o privilégio de todos os anos estrear os meus próprios livros. Por isso, setembro continuará a evocar as memórias do meu entusiasmo por esta época de retorno às aulas. Vejo-me a fazer o roteiro das livrarias ditando a lista dos compêndios e dicionários, que iam aumentando na proporção do meu avanço na escolaridade. Depois, os cadernos diários – pautados, quadriculados, em branco – um para cada disciplina -, ah… e a sebenta, sempre uma sebenta que servia de rascunho para tudo, e que, apesar do nome, se mantinha limpinha. Por fim, todos os outros materiais, absolutamente necessários para um bom desempenho na profissão de estudante: canetas, lápis, afia-lápis, borracha, fita-cola, régua, esquadro, compasso, guaches, pincéis de diferentes tamanhos e texturas, tinta da china, sem esquecer os rolos de papel estampado e colorido para forrar livros e cadernos.

            Esta tarefa conferia à casa o ambiente de abertura do ano escolar e denunciava a perícia necessária para bem forrar um livro. Desenrolava-se o papel e cortava-se à medida do livro, deixando a margem necessária para a dobra interior da capa e da contracapa. Vincava-se muito bem e metia-se a margem para dentro. Para o trabalho poder ser dado como concluído, faltava uma última operação: dobrar em forma de triângulo cada canto, tanto no ponto de encontro da margem superior, como da do inferior, que se prendia com uma tira de fita cola para ficar mais segura. Para os distinguir, colocávamos depois uma etiqueta. No caso dos livros, aposta na lombada; nos cadernos, na capa.

            Numa dessas tardes, o meu irmão lembrou-se de começar a mexer em tudo, desorganizando o meu trabalho. Mera provocação? Sei apenas que lhe manifestei o meu desagrado pela atitude e lhe pedi que não tocasse nas minhas coisas. Devo ter emprestado àquele pedido toda a autoridade que o estatuto de irmã mais velha me conferia, fazendo com que ele se sentisse um intruso a profanar aquilo que eu tinha de mais sagrado – os livros! Foi-se embora, mas voltou movido pela curiosidade que a pilha colorida dos livros provocava num território que lhe era interdito.

Ainda hoje, em cada ritual de abertura de um novo ano letivo, relembro o meu regresso às aulas entranhado do odor a papel e tinta dos livros novos.

 Aida Batista/MS

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