‘Winter is coming’ e a Europa é melhor que se prepare

Ainda mal estávamos a digerir a novidade de que Vladimir Putin tinha acedido sentar-se à mesa de negociações com Kiev, um coelho que Steve Witkoff, enviado do Presidente norte-americano, tirou da cartola após o encontro em São Petersburgo com o presidente russo, e logo a mini chama de esperança se apagou. O anúncio não parou — nem abrandou — a máquina de guerra, com Kiev a ser alvo de ataques com mísseis com a inevitável perda de vidas.
O prazo para a retoma de conversas a três estipulado por Putin é “por volta de 10 de novembro” — depois das intercalares de 3 de novembro nos EUA — mas face aos desenvolvimentos nem os mais otimistas conseguem acreditar como Trump que a paz no país sob invasão russa nunca tenha “estado tão perto”. Mais realista, Witkoff deu nota que havia ainda “muito trabalho a fazer”. E do lado russo, de Yuri Ushakov, chega o chamado ‘cair na real’: as propostas apresentadas por Kiev e pelos europeus em Oslo “não contêm grande coisa”. E o conselheiro de política externa de Moscovo aproveitou para anunciar uma possível reunião a ser preparada entre Putin, Trump e Xi Jinping na China, à margem da cimeira da APEC, em novembro, em Shenzhen.
A Casa Branca não confirmou ainda a presença de Trump, mas a concretizar-se não deixa de ser um sinal ao qual Europa deve estar atenta, não vá de lá sair novas aproximações dos EUA à Rússia e decisões como o fim das sanções americanas ao petróleo russo — deitando areia na engrenagem da arma das sanções económicas que a Europa tem empunhado para travar a capacidade da Rússia de manter o esforço de guerra — ou novas ofertas de Putin de ajudar os EUA com a situação do Irão. Mais uma brecha na Aliança.
Com Trump ou não em Shenzhen, o certo é que na Europa não faltam temas. A começar por constantes incursões de drones, atividade suspeitas no Mar Negro — o que já levou a NATO a mobilizar mais meios para a região — e suspeitas de envolvimento russo em campanhas de desinformação que estariam a alimentar os protestos nas ruas em França. E, com vários Estados-Membros prestes a entrar em eleições, não é difícil perceber que há terreno fértil para a contínua ação de desestabilização da região por ‘inimigos’ da Europa. A guerra híbrida é uma estratégia que ganha cada vez mais espaço.
Pelo meio, a Europa está envolvida em discussões sobre o futuro quadro plurianual da União Europeia — em que o consenso não está a ser fácil e há pressão para cortes assinaláveis no orçamento — numa corrida para fechar até ao final do ano um acordo, antes da avalanche de eleições previstas em 2027 em países como França ou Itália. Em Espanha é já em novembro.
A UE ainda tem de resolver outro problema imediato: arranjar 70 mil milhões de euros para suprir em 2027 as necessidades de financiamento da Ucrânia, que Zelensky estima na ordem dos 155 mil milhões. Valor muito acima dos 45 mil milhões que já estavam previstos para o ano que vem, o que poderá passar por um novo empréstimo, noticiou a Reuters.
Bruxelas estava a contar com contribuições adicionais de países fora da UE — como Noruega, Suíça, Canadá, Japão e Reino Unido — num total de 45 mil milhões de euros repartidos entre 2026 e 2027, mas como parte desse financiamento ainda não se concretizou, aumenta a pressão para encontrar alternativas.
A 26 e 27 de novembro os líderes europeus reúnem para discutir o quadro plurianual e o financiamento à Ucrânia. Aguardemos por mais novidades neste longo inverno que se avizinha.

Depois de ter sido uma das startups investidas pelo fundo Angels Way,