❌

Reading view

“Os sucessivos governos não souberam ler a realidade algarvia”: Máximos históricos do preço da Habitação levam o povo à rua

O Algarve é a segunda região mais cara do país para arrendar, com 20,8 euros por metro quadrado, apenas atrás da Área Metropolitana de Lisboa (22 euros/m2). Os preços subiram 15,2% em setembro, face ao mesmo mês de 2025, a maior subida regional em todo o país e Portimão mantém-se como o município algarvio mais caro, com um preço mediano de 20,3 euros/m2, seguido de Loulé (18,8 euros/m2), Silves (15,3 euros/m2), Faro (14,8 euros/m2) e Tavira (14,4 euros/m2).

Só entre julho e setembro deste ano, o aumento do preço no distrito foi de 24,5%. Se recuarmos uns anos até setembro de 2022, arrendar uma casa no Algarve custava 11 euros por metro quadrado, enquanto no mesmo mês de 2026 custa 20,8 euros.

No que toca à compra o cenário é semelhante: o preço era, em setembro de 2022, 2926 euros por metro quadrado, um valor que atingiu 4216 euros quatro anos depois e assinalou um novo máximo histórico segundo dados do Idealista. Os locais mais caros continuam a ser Loulé (5.194 euros/m2), Lagos (4.729 euros/m2) e Albufeira (4.194 euros/m2) e os mais baratos Alcoutim (1179 euros/m2), Monchique (3029 euros), Olhão (3383 euros) e Silves (3398 euros).

Já o site da Mareante Insights, que realiza estudos de mercado, publicou um «semáforo» de pressão no arrendamento. Entre os concelhos com 100 ou mais contratos por ano, arrendar uma casa de 70 m² pesaria, em São Brás de Alportel, cerca de 37% do rendimento mediano de um agregado. É o único município algarvio situado na cor intermédia, o amarelo. Com o vermelho de “esforço alto: acima de 40%” destaca-se Albufeira (77%), Lagos (76%), Loulé (72%) e Tavira (71%). Portimão (69%) e Silves (60%) apresentam uma percentagem acima de 60 e Vila Real de Santo António, Lagoa, Faro e Olhão acima de 50%. Também Vila do Bispo, Monchique, Castro Marim e Aljezur situam-se na zona vermelha, mas a plataforma sublinha uma “leitura frágil” devido ao número reduzido de contratos de arrendamento.

Mais de 200 pessoas manifestaram-se em Faro pelo direito à Habitação. Créditos: David José Marreiros

“Casas para morar, não para especular”

O paradigma atual da Habitação levou mais de 200 pessoas a uma manifestação, no dia 17 de outubro, junto ao Forum Algarve, em Faro, organizada por vários movimentos com o apoio do Movimento “Acampada Faro”. Cidadãos de todas as idades gritaram frases como “Algarve unido jamais será vendido”, “Queremos casa, chão, direito à Habitação” e “Casas para morar, não para especular”, enquanto as apitadelas dos carros mostravam apoio à causa e, de vez em quando, ouvia-se um crítico “vão trabalhar”.

Nos cartazes de protesto liam-se frases contra o Governo e a especulação, frases irónicas, piadas, sátira política e referências ao 25 de Abril. Todas convergiam numa mensagem final: “a Habitação é um direito”.

Ao Jornal do Algarve, Catarina Negrão, uma das manifestantes e membro do movimento “Algarve em Resistência”, defendeu que a Habitação é hoje “um ativo financeiro que perdeu a sua função social” e é necessário “reconquistar esse direito na rua” porque as mudanças “só se fizeram através do poder popular e de paralisações”, dando como exemplo “a luta pelas oito horas de trabalho e as férias pagas”.

A ativista considera que os sucessivos governos e as instituições estão “de mãos-dadas com interesses e com a especulação imobiliária” e que “as políticas atuais favorecem a lei do mercado e o interesse capital”.

“Virámo-nos demasiado para o Turismo e colocámos o residente de lado. Eu fui a primeira da minha família a tirar uma licenciatura, em Lisboa, e nunca me imaginei a voltar para o Algarve precisamente porque não quero trabalhar no Turismo”, conta, acrescentando que o que vê na maioria dos jovens é que “se não querem trabalhar para o Turismo, não há espaço para eles na região”. É por esses motivos que diz ser necessário “pensar o Algarve de forma mais criativa e diversificada”.

Como medidas essenciais – “porque existem casas, mas falta Habitação” – quer que acabem os contratos que terminam em maio, que o valor das rendas tenha tetos acessíveis, que se diminua a construção de hotéis e se combata a especulação imobiliária.

Viver na instabilidade e incerteza

Créditos: David José Marreiros

A manifestação em Faro teve também o propósito de dar voz a situações como a de Mariana. Com 26 anos, está no Algarve há cinco. Em 2024 vivia num quarto sem contrato de arrendamento, por 400 euros mensais, e foi avisada, com dois meses de antecedência, de que teria de sair porque o apartamento ia ser vendido. Durante esse tempo não conseguiu encontrar nada acessível em termos de custo, sendo que “um t1 por 1000 euros” fica fora das suas possibilidades, acrescentando o facto de ter um cão, algo que “dificulta a procura”. Além disso, garante, sentiu preconceito por ser imigrante e conta que várias vezes os senhorios deixaram de lhe responder assim que dizia ser brasileira, até porque “essa é uma das primeiras perguntas que fazem”.

Sem conseguir encontrar um quarto em Faro que a aceitasse, e ao seu cão, mudou-se para perto de Monte Gordo durante o inverno. Essa é outra “grande dificuldade” de viver no Algarve: o arrendamento de outubro a maio, visto que “a grande maioria dos senhorios prefere arrendar as casas a turistas durante o verão”, algo que leva Mariana a questionar onde fica a morar quem vive no Algarve durante todo o ano.

Depois desse inverno conseguiu regressar a Faro, onde está atualmente, num estúdio. No entanto, é novamente uma situação temporária e sem contrato, um contexto que domina o mercado do arrendamento algarvio. A partir de “maio ou junho” terá de sair e ainda não sabe para onde vai. Cenários destes criam “um ciclo de soluções temporárias que não trazem estabilidade”. “Para mim, a questão não é apenas ter um teto, mas poder viver sem a constante preocupação de não saber onde estarei daqui a alguns meses… Estou à procura da mesma coisa que qualquer pessoa: um lugar seguro onde possa viver em paz, com dignidade e sem estar sempre a viver com incertezas”, lamenta.

Apesar de tudo, ainda consegue ver um pouco de privilégio na sua situação, nomeadamente no facto de ter um trabalho remoto que lhe dá “liberdade” para poder encontrar diferentes casas em diferentes códigos postais. “Não tenho planos de sair de Faro, mas sinto que estou a ser empurrada para fora. É cada vez mais difícil.”

Manifesto do movimento “Acampada” de Faro, Lisboa e Porto

As reivindicações não se ficaram por aquele sábado, em Faro, nem por todas as outras acampadas pelo País. Nos dias 24 e 25 de outubro vai realizar-se uma concentração pacífica organizada pelo “Acampada Faro”, na Pontinha, na capital algarvia, a partir das 11h, que conta inclusive com uma Assembleia Popular logo a essa hora, bem como outras atividades ao longo do dia. O programa e mais informações podem ser obtidas na página de Instagram @acampada.faro.

Importante frisar que o “Acampada Faro” está de mãos dadas com as acampadas de Lisboa e Porto e, em união, escreveram um manifesto ao qual o Jornal do Algarve teve acesso.

No documento, o movimento sustenta que “estamos a presenciar o maior retrocesso social da democracia portuguesa. Pela primeira vez desde o 25 de Abril, uma geração sabe que viverá pior do que a geração que a antecedeu”, enumerando algumas preocupações como “o aumento do custo de vida, a degradação dos serviços públicos, a falta de professores nas escolas e de profissionais no SNS, o aumento das propinas e a falta de respostas para uma população cada vez mais pressionada pela inflação”, tudo isto enquanto “os salários ficam para trás e os preços da habitação atingem níveis históricos”.

No manifesto é frisado que estes problemas não afetam apenas os jovens, mas também as camadas mais vulnerabilizadas da população: “as pessoas com deficiência, as pessoas reformadas, quem vive nos bairros e nas periferias e as comunidades do interior do país”. Além disso, “as pessoas trabalhadoras são tratadas como meros instrumentos de produção e consumo ao serviço da acumulação cega do lucro e da valorização do capital”.

“Recusamo-nos a permanecer na passividade, mesmo no pouco conforto que algumas de nós ainda temos. Não nos deixamos enganar pelo dimorfismo de classe, a falsa identificação com os interesses do capital, que procura convencer as pessoas trabalhadoras de que os seus interesses são os do capital e não os da sua própria classe. Sabemos que a ofensiva do capital e do imperialismo internacional promete a degradação das condições de vida de todas aquelas que apenas possuem a sua força de trabalho para vencer”, pode ler-se na mesma nota.

Sebastião Florêncio, porta-voz da Acampada em Faro, adianta ao Jornal do Algarve que a ocupação do espaço público, diálogo e concentração de opinião e experiência do povo surge como “ferramenta de oposição à opressão sistémica e censura de informação que estrangula toda a mudança orgânica que poderia de outra forma fluir sem obstáculos”.

O “Acampada.Faro” nasce como “uma extensão imediata do movimento «Acampada pelo Direito da Habitação», que teve origem em Espanha, Madrid, com o caso Mari Carmen e que teve a sua repercussão em Portugal, no Porto”. Neste, é reforçado “o poder do diálogo, união e compreensão, restaurando a resposta do povo em utilidade ativa, com impacto direto na sociedade”.

Sebastião olha à sua volta e vê “uma atualidade em que a maior parte dos portugueses e imigrantes têm a estabilidade habitacional a escapar-lhes pelos dedos”. Nas suas palavras, existe “uma agenda clara do Estado e dos seus patrocinadores, difundindo informação falsa à população, numa tentativa falhada e descarada para esconder o real motivo que causa toda esta crise de habitação” e é “cada vez mais difícil fazer crer que a culpa disto tudo é da classe média ou classe baixa, de quem não tem dinheiro para investir em imóveis e muito menos para usufruir deste custo de vida altíssimo”.

“Será mais contribuitivo para a escassez de habitação cinco imigrantes que ocupam uma casa, sujeitando-se ao valor inflacionado da mesma, ou cinco investidores que compram cada um 10 imóveis como investimento e os removem do alcance do português comum com possibilidade de pagar uma renda acessível relativamente ao salário mínimo bruto (920 euros) e ao salário médio bruto (1,200 a 1,350 euros), que juntos correspondem a 73% da população portuguesa?”, questiona.

Nos dias 24 e 25 de outubro, o movimento Acampada.Faro vai às ruas da capital algarvia manifestar-se pelo direito à Habitação. Créditos: David José Marreiros

Sabendo que “os problemas sociais não podem ser resolvidos individualmente porque estão todos interligados”, é exigido no documento o cumprimento da Constituição da República Portuguesa, nomeadamente o Artigo 65.º, que consagra o direito de todas as pessoas a uma habitação de dimensão adequada, em condições de higiene e conforto, que preserve a intimidade pessoal e a privacidade familiar; e o Artigo 81.º, que estabelece como incumbências prioritárias do Estado: promover o aumento do bem-estar social e económico e da qualidade de vida das pessoas, em especial das mais desfavorecidas; e promover a justiça social, assegurar a igualdade de oportunidades e operar as necessárias correções das desigualdades na distribuição da riqueza e do rendimento.

Nesse sentido, o Manifesto propõe algumas medidas, entre as quais: o fim dos despejos; reversão imediata da nova Lei de Arrendamento Urbano e de todas as medidas que fragilizam os direitos das pessoas inquilinas; introdução efetiva do princípio da função social da propriedade no ordenamento jurídico português; expropriação de imóveis devolutos detidos por grandes proprietários para fins de habitação permanente e acessível; expropriação dos imóveis detidos por fundos imobiliários e de investimento que especulam com o direito à habitação; taxação de 100% da segunda habitação e de propriedades adicionais mantidas para fins especulativos; aumento substancial do parque habitacional público; mobilização imediata de edifícios públicos devolutos para habitação pública, social e estudantil; implementação de um programa público de reabilitação habitacional; criação de respostas habitacionais de emergência; e transparência e revisão dos critérios municipais de atribuição de habitação pública.

“Em matéria de território, não há democracia em Portugal”

Não foi só na rua que se ouviu protestos contra o estado da Habitação. Também Telmo Pinto, presidente da Câmara de Loulé, reforçou em comunicado que o Algarve vive hoje uma emergência habitacional que é, “sem eufemismos, uma emergência humana”.

O concelho passou de 70.266 residentes, em 2011, para 94.447 em 2025, um aumento de 24 mil pessoas; desde 2021 foram mais de 13 mil. A região ganhou mais de 70 mil residentes em apenas quatro anos, tendo sido a que mais cresceu no país. No mesmo período, o preço médio da habitação no concelho de Loulé subiu cerca de 75%. Mesmo com operações em curso que somam mais de uma centena de fogos e com uma aquisição constante de habitações para resposta pública, é “impossível responder a uma pressão desta escala quando os instrumentos de que dispomos foram desenhados para outra realidade”, diz o autarca.

É nesse sentido que Telmo Pinto fala no Plano Regional de Ordenamento do Território do Algarve (PROT), aprovado em 2007 “para um Algarve que já não existe”. Os instrumentos de gestão territorial continuam a responder a lógicas de contenção “pensadas há quase duas décadas”, enquanto a região mudou de “escala, população e necessidades”.

Outra crítica é que os Planos Diretores Municipais de cada concelho estão subordinados a pareceres de entidades regionais, “conduzidos por técnicos que ninguém elegeu, que não prestam contas aos cidadãos e que não conhecem o rosto de quem espera por uma casa”.

“Multiplicam-se as construções ilegais e as casas amovíveis instaladas à margem de qualquer enquadramento”, os trabalhadores da construção civil “vivem amontoados em contentores, em condições indignas”, os concursos públicos para construção de habitação “ficam desertos porque os valores de referência já não correspondem aos custos reais”. Tudo isto são problemas que levam Telmo Pinto a frisar que “em matéria de território, não há democracia em Portugal”.

Telmo Pinto afirma que os instrumentos de gestão territorial continuam a responder a lógicas de contenção “pensadas há quase duas décadas”, enquanto a região mudou de “escala, população e necessidades”. Créditos: CM de Loulé

“Hipotecar o seu próprio futuro”

O autarca critica ainda os sucessivos governos por não terem sabido “ler a realidade do Algarve”, uma região que apesar de “sustentar uma parte decisiva da economia do país, não consegue alojar quem nela trabalha”, estando por isso a “hipotecar o seu próprio futuro”.

Nesse sentido, a autarquia louletana exige a conclusão da revisão do PROT Algarve; um regime “excecional e temporário” que permita aos municípios libertar solo para habitação acessível; a fiscalização efetiva e a erradicação do alojamento em contentores; uma linha de financiamento específica para regiões sob pressão demográfica; e uma reforma da estrutura do Estado, que devolva aos eleitos locais o poder de decidir sobre o seu território, com “competências, meios e autonomia”.

O impacto do turismo e do Alojamento Local na Habitação

Ana Rita Cruz é socióloga e uma das autoras do estudo Rural touristification and short-term rentals reshaping tourism geographies: Algarve’s spatial transformations, publicado no primeiro trimestre do ano, que analisa as transformações causadas pelo turismo e pelo Alojamento Local nos territórios urbanos e rurais, no Algarve.

A também Professora na Faculdade de Economia da Universidade do Algarve esclarece que existem diferenças entre o Algarve, Lisboa e Porto, no sentido em que o primeiro já é um destino turístico consolidado há décadas, enquanto os outros dois tiveram uma “explosão” turística mais significativa a partir de 2008.

O Algarve, atualmente, concentra mais de 40% de todos os alojamentos locais do país. O dado traduz-se em 75 AL por 1000 habitantes, contrastando com, por exemplo, os 7,9 de Lisboa. Esse facto é relevante para a compreensão de que o problema da crise na habitação e a sua relação com o turismo é “muito mais antiga no Algarve do que no resto do país”. 

“Já acontecia desde os anos 80 e 90 uma grande especulação imobiliária nos preços de aquisição de casas para habitar por causa do turismo e por causa da procura por segundas residências”, explica, sublinhando que embora este contexto seja importante, a crise da Habitação tem múltiplas causas e é necessária uma análise multifatorial.

Decisão judicial pode deixar Alojamentos Locais pelas ruas da amargura
O Algarve, atualmente, concentra mais de 40% de todos os alojamentos locais do país.

Ana levanta ainda outra questão: o desconhecimento da procura de alojamentos locais com menos de 10 camas (95% do total de AL na região), que ao contrário dos alojamentos turísticos tradicionais e dos AL com mais de 10 camas, não existe a obrigação de registar informações sobre o perfil do cliente. “Quem procura, quanto tempo fica, quanto paga. Não sabemos nada sobre o Alojamento Local no Algarve”, esclarece.

A análise da docente continua. O Alojamento Local tem “coisas boas e coisas más”, mas há que perceber se as primeiras superam as segundas e de que forma é possível diminuir os impactos negativos e tornar a atividade sustentável a longo prazo. A revitalização urbana é apontada como um exemplo de um efeito positivo, mas “não significa que sejam habitantes locais a usufruir dessa revitalização”.

O que acontece é que o parque habitacional deixa de estar disponível para residentes e fica refém da atividade turística. Em Portugal, 1,8% do parque habitacional é ocupado por AL. No Algarve, este número ultrapassa os 10%, sendo que Albufeira lidera com aproximadamente 21,4%, seguida por Faro com 19% e Lagos com 18,9%. Lagoa apresenta 16,9% e Vila do Bispo 16,1%. A percentagem mais baixa é a de Alcoutim, com 1%, segundo dados de 2025.

Os efeitos negativos indiretos podem ser, para Ana Cruz, “a perda da identidade e de traços característicos das cidades” porque os residentes – possuidores de memória coletiva – deixam de ter espaço dentro delas. Além disso, a questão comercial também tem de ser considerada, visto que a turistificação afeta o tecido económico e pode também fazer com que pequenos negócios locais deixem de ser sustentáveis e de conseguir suportar os valores das rendas.

Uma área menos falada, mas não menos importante, são os territórios rurais. Visitas de campo realizadas por Ana Rita Cruz, na zona de Querença e São Marcos da Serra, levaram a socióloga a conhecer de perto pessoas que receiam que o modelo intensivo de turismo costeiro se prolongue para as suas terras, podendo afetar a sua sustentabilidade a longo prazo, até em questões relacionadas com a fauna e flora. Embora reconheçam os benefícios económicos do turismo, consideram que há a necessidade de uma “gestão rigorosa da escala da atividade turística” com uma “clara delimitação” das zonas para nova construção. “Existe também uma reivindicação por parte de moradores e donos de negócios locais, que é a de serem ouvidos e envolvidos no processo de definição da oferta turística em zonas rurais, uma oportunidade que dizem ainda não ter tido”, afirma a socióloga.

“A turistificação, portanto, opera não apenas como um motor de reorganização espacial urbana, mas também como um mecanismo de revalorização periférica, por meio da qual a habitação, a paisagem e o estilo de vida se tornam ativos para consumo temporário e investimento especulativo”, pode ler-se no estudo da Professora.

Enquanto a turistificação urbana transforma bairros em locais orientados para “o consumo”, a rural e de baixa densidade transforma aldeias e povoados “em espaços de habitação temporária e autenticidade experiencial”. No caso do Algarve, a deslocação não é necessariamente física, da população, mas antes a continuidade: perde-se “os ritmos quotidianos, os laços intergeracionais, os valores identitários e as práticas sociomateriais”.

Alcançar “um equilíbrio entre oportunidade económica, gestão ambiental e continuidade cultural” é “cada vez mais difícil”, visto que as economias do turismo expandem-se mais rapidamente do que as comunidades rurais.

A economia da partilha e a regulamentação

Quando surgiu, o Alojamento Local fazia parte da chamada “sharing economy” ou “economia da partilha” em que “alguém tinha uma casa ou um quarto a mais e podia rentabilizá-lo numa lógica de partilha”. Ana Cruz afirma que tal já não existe e que, inclusive, “muitos proprietários de AL nem sequer residem em Portugal, nem pagam imposto em Portugal, e exploram centenas de estabelecimentos”. “Se as pessoas querem ter 300 alojamentos locais que oferecem 500 camas ou mais, têm de construir um hotel. Não deveriam poder estar a utilizar casas para isso”, defende.

Para contextualizar o “boom” de AL, Ana recua até ao governo de António Costa, quando já havia “alguma pressão em relação aos efeitos negativos que o aumento explosivo do alojamento local estava a ter”, nomeadamente na questão da valorização financeira das casas para a especulação imobiliária. Nessa altura, a gestão do Alojamento Local era feita a nível municipal e Lisboa e Porto criaram zonas de contenção em determinadas freguesias mais afetadas, mas no Algarve “ainda não houve nenhum concelho que criasse algum tipo de limitação”.

O Governo de António Costa criou, inclusive, o pacote Mais Habitação que incluía medidas específicas como a impossibilidade de registar mais AL no litoral, que já estava saturado. Havia uma obrigatoriedade de os condomínios autorizarem, por unanimidade, a criação de alojamentos locais dentro de prédios. Foi criado também um limite temporal às licenças que eram dadas, com um máximo de cinco anos, sendo que também não podia haver a transmissão dos registos de propriedade dos AL.

“O Governo de Montenegro revogou todas estas medidas. Voltámos uns passos atrás e desde então nada mais foi feito em termos de regulação”, lamenta.

Portugal tem um défice de habitação social que não chega a 2%, quando a média dos países da OCDE é 7%

Falando em medidas, Ana realça que os registos de AL por pessoas particulares têm de ser limitados para recuperar “o espírito da economia da partilha como foi conceptualizada no início”; tem de existir um limite máximo de licenças por cada titular; e não podem ser permitidos registos a pessoas que não residam em Portugal e não paguem impostos em Portugal.

Aquilo que tem sido feito a nível nacional é “muito brando” face aos efeitos negativos que têm sido registados. Existe também muito a aprender pela Europa fora e Ana menciona alguns exemplos. Em Barcelona, acabaram com os registos de AL, e noutras cidades existem limitações a x dias por ano.

“Dependência de trajetória”

A socióloga argumenta ainda que “a falta de casas não existe” e que os últimos censos do Instituto Nacional de Estatística (INE) indicaram 700 mil casas vagas em Portugal, 12% do parque habitacional. “Construir mais casas não vai resultar porque nós temos uma oferta que é local, mas os conjuntos de procura a que estamos sujeitos são globais, do mundo inteiro, de fundos de financiamento que não conhecemos e que concorrem com o cidadão comum que não tem capacidade para lhes fazer frente”, descreve, sugerindo que o Estado deve intervir – “e com urgência” – na habitação social.

Portugal tem um défice de habitação social “gravíssimo”, que não chega a 2%, quando a média dos países da OCDE é 7%. Nesse sentido, existe a necessidade de “definir quadros legislativos para enfrentar o problema com medidas de longo prazo, e algumas de curto prazo que são urgentes, como o controlo de rendas e a abolição de todas as medidas legislativas para incentivos fiscais a residentes estrangeiros”.

De acordo com a CCDR, sete municípios do Algarve já apresentaram 11 candidaturas ao Programa Regional ALGARVE 2030 para reforçar e qualificar a oferta de habitação social, num investimento global superior a 105 milhões de euros, sendo estes Lagos, Vila do Bispo, Portimão, Tavira, São Brás de Alportel, Castro Marim e Alcoutim.

O investimento apresentado na primeira fase do Aviso ALGARVE-2026-13 – Habitação Social na Região do Algarve, que terminou a 15 de agosto, conta com uma dotação indicativa de 28 milhões de euros do Fundo Europeu de Desenvolvimento Regional (FEDER). A segunda fase decorre até ao dia 30 de março de 2027. O aviso apoia a construção, reabilitação ou reconversão de edifícios destinados a habitação social, enquadrados nas respetivas Estratégias Locais de Habitação, com uma taxa de cofinanciamento entre 30% e 70%, sendo que as operações devem também cumprir os requisitos aplicáveis de sustentabilidade ambiental e eficiência energética.

Para além deste, estão previstos 32 milhões de euros adicionais em futuras oportunidades de financiamento no ALGARVE 2030 para habitação a custos acessíveis, alojamento para estudantes e casas de função. Vários municípios também já investiram em habitação a custos controlados através do PRR, como no caso de Vila Real de Santo António, que recentemente colocou 111 milhões em 314 novos fogos e na reabilitação de 372.

O Algarve sofre com o que os economistas chamam de “dependência de trajetória”. A sua economia vive muito do turismo e existe sempre medo de lhe “causar danos”. Para Ana Rita Cruz, o distrito de Faro, em relação ao resto do país, sente alguns impactos extra. “Temos o efeito direto, que é o cidadão comum que não consegue encontrar ou pagar casa, mas temos também uma dificuldade adicional que é atrair profissionais essenciais como professores ou médicos”.

Posto isto, no que toca à região, o objetivo global deve ser “garantir que a atividade turística se torne o mais sustentável possível”, até porque a sua economia depende do setor – “que tem de ser saudável -, e “abolir a desigualdade que está a ser criada no acesso à habitação”.

  •  

Agência Brasil e TV Brasil recebem Prêmio Vladimir Herzog

Logo Agência Brasil

O fotógrafo Tomaz Silva, da Agência Brasil, e a equipe do programa Caminhos da Reportagem, da TV Brasil, receberam nesta semana o Prêmio Jornalístico Vladimir Herzog de Anistia e Direitos Humanos. Os veículos integram a Empresa Brasil de Comunicação (EBC).

Tomaz Silva venceu com o trabalho Viúva se despede do marido morto na operação policial mais letal do Rio de Janeiro. A fotografia, feita no Complexo da Penha, em outubro de 2025, retrata a dor de Fernanda da Silva Martins, ao abraçar o corpo do companheiro. A imagem foi republicada em jornais e sites do país e do exterior.

Notícias relacionadas:

"Os jurados e o prêmio Vladimir Herzog reconheceram, nesta fotografia, a história e a dor de tantas pessoas atingidas pela violência policial. Ela foi feita no dia mais difícil que já vivi como repórter, diante de dezenas de corpos. O que mais me marcou naquela manhã não foram os números, mas os rostos, os gritos e o desespero de quem encontrava seus familiares mortos", contou o fotógrafo.
São Paulo (SP), 20/10/2026 - Entrega do 48º Prêmio Vladimir Herzog de Direitos Humanos no teatro TUCARENA. Tomaz Silva, fotojornalista da Agencia Brasil. Foto: Paulo Pinto/Agencia Brasil São Paulo (SP), 20/10/2026 - Entrega do 48º Prêmio Vladimir Herzog de Direitos Humanos no teatro TUCARENA. Tomaz Silva, fotojornalista da Agencia Brasil. Foto: Paulo Pinto/Agencia Brasil
Entrega do 48º Prêmio Vladimir Herzog de Direitos Humanos ao fotógrafo Tomaz Silva, da Agência Brasil. Foto: Paulo Pinto/Agência Brasil

O gerente executivo de Imagem, Arte e Web da EBC, Joédson Alves, ressaltou que a fotografia jornalística tem o papel de documentar a realidade e preservar a memória, sempre com respeito às pessoas retratadas.

"Esse prêmio reconhece não apenas o trabalho do fotógrafo Tomaz Silva, mas também o compromisso coletivo da Agência Brasil com um jornalismo de interesse público, responsável e comprometido com a sociedade", avaliou.

 

Rio de Janeiro - 01/10/2026- Fotógrafo Tomaz Silva, da Agência Brasil, vence Prêmio Vladimir Herzog. Foto: Tomaz Silva/Agência Brasil Rio de Janeiro - 01/10/2026- Fotógrafo Tomaz Silva, da Agência Brasil, vence Prêmio Vladimir Herzog. Foto: Tomaz Silva/Agência Brasil
A foto Viúva se despede do marido morto na operação policial mais letal do Rio de Janeiro venceu Prêmio Vladimir Herzog. Foto: Tomaz Silva/Agência Brasil

Já o episódio Trabalho escravo doméstico: silêncio e servidão, do programa Caminhos da Reportagem, da TV Brasil, venceu na categoria vídeo. A produção, que foi ao ar em 20 de abril de 2026, leva ao telespectador histórias de mulheres submetidas a condições análogas à escravidão e discute formas de aprimorar o pós-resgate.

"Receber um prêmio tão importante quanto o Herzog é uma honra para qualquer jornalista. A premiação foi emocionante, principalmente pelo fato de que três mulheres entrevistadas no programa, hoje libertas, puderam comparecer ao evento. O reconhecimento mostra que nosso trabalho jogou luz sobre uma violação, infelizmente, ainda presente no Brasil", destacou a repórter Marieta Cazarré.

O editor de texto do programa, Paulo Leite, comemorou que "é um prazer e uma honra conquistar o prêmio mais valorizado do jornalismo brasileiro".

"Esta foi a 48ª edição do Vladimir Herzog, o que mostra a força, a credibilidade e a resiliência da premiação. Mais uma prova de que jornalismo é um processo coletivo e de que a comunicação pública é essencial para a sociedade", completou.

 

São Paulo (SP), 20/10/2026 - Entrega do 48º Prêmio Vladimir Herzog de Direitos Humanos no teatro TUCARENA. Trabalho Escravo da TV Brasil. Foto: Paulo Pinto/Agencia Brasil São Paulo (SP), 20/10/2026 - Entrega do 48º Prêmio Vladimir Herzog de Direitos Humanos no teatro TUCARENA. Trabalho Escravo da TV Brasil. Foto: Paulo Pinto/Agencia Brasil
Equipe do Caminhos da Reportagem recebe Prêmio Vladimir Herzog com mulheres resgatadas que foram entrevistadas no programa. Foto: Paulo Pinto/Agência Brasil

Participaram da equipe de produção do episódio Marieta Cazarré, Paulo Leite, Ana Graziela Aguiar, Ana Passos, Cleiton Freitas, Patrícia Araújo, Gabriel Penchel, JM Barboza, Rogério Verçoza, Sigmar Gonçalves, Alexandre Souza, Marcelo Vasconcelos, Rafael Carvalho, Rivaldo Martins, Aleixo Leite, Caroline Ramos e Wagner Maia.

A diretora de Jornalismo da EBC, Myrian Pereira, celebrou o reconhecimento do talento e da sensibilidade das equipes da empresa.

“Cobrir temas complexos e dolorosos, como a realidade do trabalho escravo doméstico e o impacto humano da violência nas comunidades do Rio, traduzido em uma foto de despedida tão forte, exige coragem, apuro ético e respeito. Esse prêmio reforça o papel da EBC como referência em um jornalismo que não se omite”.

Para o gerente executivo da TV Brasil, Paulo Mondego, o Prêmio Vladimir Herzog representa o reconhecimento ao trabalho de toda a equipe do Caminhos da Reportagem e à vocação do programa de dar visibilidade a temas fundamentais para a defesa dos direitos humanos. 

"Ao abordar o trabalho escravo doméstico, mostramos a importância de um jornalismo comprometido em revelar realidades muitas vezes invisibilizadas e dar voz a pessoas cujas histórias precisam ser conhecidas. Essa conquista reforça o papel da comunicação pública na denúncia de violações de direitos e na promoção de uma sociedade mais justa e igualitária."

Assista ao episódio premiado do Caminhos da Reportagem

Vladimir Herzog

Desde a sua primeira edição, concedida em 1979, o prêmio celebra a vida e a obra do jornalista Vladimir Herzog, torturado e assassinado pela ditadura civil-militar no dia 25 de outubro de 1975, nas dependências do Destacamento de Operações de Informações do Centro de Operações de Defesa Interna (DOI-CODI), em São Paulo.

Em 2026, na 48ª edição, a premiação homenageia e reconhece o trabalho de jornalistas, repórteres fotográficos e artistas do traço que, por meio do trabalho cotidiano, defendem a democracia, a justiça e os direitos humanos.

  •  

Braga: Dezenas saem à rua solidários com acampadas e pelo direito à habitação

Cerca de duas centenas de pessoas, maioritariamente jovens e estudantes da Universidade do Minho, juntaram-se hoje no centro de Braga em solidariedade com as acampadas de Lisboa e do Porto e em defesa de “uma vida melhor”.

“Isto no fundo não teve promotores nem organizadores. Foi algo espontâneo, surgiu da vontade popular, começou a circular nas redes [sociais], aconteceu em várias cidades também, no calor dos acontecimentos desta madrugada, no Porto e em Lisboa e da força brutal policial que aconteceu. É uma forma de solidariedade que encontramos e o pessoal juntou-se aqui”, explicou Teresa Amorim, porta-voz da concentração, à agência Lusa.

A iniciativa decorreu na Praça da República, entre as 19:00 e cerca das 20:30, tendo os manifestantes cantado o Grândola Vila Morena, tema símbolo do 25 de Abril, sob o olhar de quatro agentes da PSP, que se mantinham a alguns metros de distância.

“Temos aqui muitas pessoas jovens, muitos estudantes da Universidade do Minho que também sofrem pela falta de habitação e pela falta de residências públicas e acessíveis. A maioria dos estudantes da Universidade do Minho são estudantes deslocados que não têm outro sítio para onde ir, a não ser para as residências universitárias”, frisou Teresa Amorim.

Esta porta-voz deu conta de que na quarta-feira, a partir das 18:30, haverá nova concentração, no mesmo local, mais organizada, denominada de Assembleia Popular, mas sem tendas.

“Um bocado à semelhança do que tem acontecido no Porto e em Lisboa, e aí sim, será para conversar de outra forma, para ver as emoções das pessoas, o que é que sentimos, o que é que queremos para Braga, se queremos fazer mais Assembleias Populares. No fundo é um apelo a ocupar o espaço público, que é um direito constitucional que é nosso”, detalhou.

Para a porta-voz, de 28 anos, o que se está a passar em Portugal é transversal a muitos países.

“Portugal não é exceção. É uma vida miserável a que nós assistimos, dos nossos familiares, de pessoas amigas, e daí ser uma luta de todas as pessoas e a razão de estarmos aqui. Não somos egoístas, estamos aqui porque queremos realmente uma vida boa para todas as pessoas”, assumiu Teresa Amorim.

Os atuais protestos pelo direito à habitação e o custo de vida em Portugal tiveram início na cidade do Porto, no dia 10 deste mês, com cerca de 1.500 manifestantes a juntarem-se na Praça D. João I e a pernoitarem no local em tendas de campismo.

Nesse dia, a plataforma cívica “Não dá mais para viver assim” promoveu protestos também em Aveiro, Braga e Lisboa reivindicando o controlo dos preços dos bens essenciais e dos combustíveis, impostos sobre os lucros extraordinários das grandes empresas do setor bancário, energético e da distribuição e medidas que respondam à crise na habitação.

No dia 15, o movimento que protestava no Porto, já no formato de uma acampada, denunciou uma carga policial violenta durante a madrugada que causou ferimentos em 39 dos participantes, dois dos quais ficaram em estado grave, e num polícia, e à noite cerca de três mil pessoas juntaram-se aos manifestantes iniciais, mas acabaram por dispersar.

As tendas voltaram ao local no sábado e a acampada alastrou nesse dia à cidade de Lisboa. Hoje de madrugada, enquanto o protesto da cidade nortenha foi terminado perante os avisos de intervenção policial, as autoridades removeram dezenas de tendas na capital e detiveram 55 pessoas por desobediência, entretanto libertadas e que serão ouvidas na quarta-feira por um juiz.

O conteúdo Braga: Dezenas saem à rua solidários com acampadas e pelo direito à habitação aparece primeiro em O MINHO.

  •  

Endometriose. Portugueses tentam acelerar diagnóstico

Susana demorou 12 anos a ser diagnosticada com endometriose. Um projeto europeu, que conta com presença portuguesa em Braga, quer reduzir essa espera para um ou dois meses.

© DIOGO VENTURA/OBSERVADOR

Sistema desenvolvido no INL, em Braga, permite extrair o DNA do sangue menstrual e, assim, identificar a mutação genética que leva à endometriose
  •  

Clínica Catarina Fontes cresce com aposta na saúde oral e em novas valências

VTM

Desde então, as duas unidades têm vindo a crescer, acompanhando uma procura que, segundo Catarina Fontes, se mantém constante. A primeira clínica surgiu depois de alguns anos de experiência profissional na área da medicina dentária.

Apesar de ser natural e residente em Vila Real, Catarina Fontes já trabalhava em Peso da Régua e decidiu avançar com a abertura do espaço no concelho. A ideia de chegar à cidade de origem manteve-se, concretizando-se em 2023. Atualmente, as duas clínicas contam com cerca de 18 profissionais, entre funcionários e prestadores de serviços.

A medicina dentária continua a ser a principal área de intervenção, mas a oferta foi sendo alargada a outras valências, nomeadamente psicologia, fisioterapia e medicina estética. Em Vila Real existem ainda serviços de massagens e uma componente terapêutica.

A aposta noutras áreas surgiu também da perceção de necessidades existentes na população. Em Peso da Régua, Catarina Fontes identificou a existência de uma procura por serviços que obrigavam muitas pessoas a deslocarem-se a Vila Real, enquanto na segunda clínica encontrou igualmente espaço para complementar a oferta existente. “Eu noto muito que as pessoas têm de se deslocar para muito longe para conseguir ter essas consultas”, explica a responsável, referindo-se sobretudo à psicologia e à medicina estética.

Entre as duas clínicas, a equipa já acompanhou cerca de quatro mil pacientes. A unidade de Peso da Régua, por ser a mais antiga, continua a apresentar maior fluxo. O crescimento entretanto alcançado levou ao aumento da equipa e a uma necessidade permanente de recrutamento e formação.

Suplemento Saude Catarina Fontes Peso da Regua PAM

“Há um grande esforço de muita gente para ajudar os filhos ou para fazer um tratamento”
CATARINA FONTES

A responsável reconhece que continua a ser um desafio encontrar profissionais com formação ou experiência na área. Muitos dos elementos que integram a equipa foram formados internamente. A relação com os pacientes é, aliás, uma das componentes que Catarina Fontes considera diferenciadoras do projeto. A aposta passa não apenas pela qualidade dos profissionais de saúde, mas também pelo atendimento desde o primeiro contacto com a clínica.

A responsável assume-se exigente com a formação da equipa, defendendo que toda a experiência do paciente deve seguir os mesmos princípios. “Não vale a pena estar um dentista ou um médico muito bom lá dentro se a rececionista não fizer o mesmo papel quando as pessoas entram”, sublinha. A imagem dos espaços também foi pensada para afastar o ambiente tradicionalmente associado às clínicas dentárias. Os espaços são descritos como modernos e acolhedores, numa tentativa de reduzir o receio que muitas pessoas ainda sentem quando têm de recorrer ao dentista.

Na medicina dentária, uma das áreas com maior procura é a ortodontia através de alinhadores. A clínica afirma ter alcançado, desde os primeiros anos de atividade, níveis elevados de utilização deste tipo de tratamento, sendo atualmente a unidade com maior número de casos de alinhadores no distrito de Vila Real, segundo a responsável.

Ainda assim, os motivos mais frequentes que levam os pacientes às consultas continuam a ser tratamentos de rotina, como avaliações e limpezas, mas também situações de dor ou necessidade de extração dentária.

Apesar das diferenças entre as populações de Peso da Régua e de Vila Real, Catarina Fontes considera que existe uma preocupação crescente com a saúde oral, embora reconheça que os cuidados preventivos ainda não sejam iguais para todos. Destaca, em particular, o esforço de muitas famílias para garantir acompanhamento dentário aos filhos, mesmo quando existem limitações financeiras. “Há um grande esforço de muita gente para ajudar os filhos ou para fazer um tratamento”, afirma.

Com as agendas preenchidas e uma equipa em crescimento, a responsável aponta agora como prioridade consolidar a área de medicina dentária e reforçar a capacidade da unidade de Vila Real, onde considera existir ainda margem significativa para crescimento.

The post Clínica Catarina Fontes cresce com aposta na saúde oral e em novas valências appeared first on A Voz de Trás-os-Montes.

  •  

Clínica Fisimagna serve a população há 34 anos

VTM

A clínica nasceu com o propósito de prestar cuidados de fisioterapia e foi crescendo ao longo dos anos, acompanhando a evolução da área da saúde e as necessidades da população.

Em janeiro de 1995, a filha, Paula Morais, juntou-se ao projeto, dando continuidade a um percurso que viria a consolidar a Fisimagna como uma clínica de referência na área da fisioterapia e reabilitação. Atualmente, a gestão está nasmãos da segunda gera çãoda família, com Paula Morais e as suas filhas, Beatriz e Filipa Morais, a assegurarem a continuidade de um projeto que soma já 34 anos de história.

Apesar da evolução registada ao longo destas décadas, há algo que permanece inalterado, refere Paula Morais, que é “a qualidade e proximidade com os utentes”.

Segundo Paula Morais, a Fisimagna disponibiliza atualmente um conjunto diversificado de serviços na área da fisioterapia, saúde e reabilitação. Entre as valências encontram-se a Fisioterapia, Fisio terapia ao Domicílio, Cinesiterapia Respiratória, Massagem de Drenagem Linfática, Pressoterapia, Mobilidade e Fortalecimento, Massagem de Relaxamento e Acupuntura.

A Fisioterapia e a Reabilitação continuam a ocupar um lugar central na atividade da clínica, com uma abordagem direcionada para as necessidades e objetivos de cada utente.

Segundo a responsável, o processo com eça pela avaliação da situação clínica. Através da consulta de Fisiatria é realizada uma avaliação cuidada, que permite definir o tratamento mais adequado, tendo em conta a condição apresentada, os objetivos de recuperação e a evolução de cada pessoa.

Mais do que aplicar uma solução igual para todos, a Fisimagna procura “adaptar o acompanhamento a cada caso, ajustando a intervenção sempre que necessário e dando especial atenção à evolução e segurança do utente”, revelou Paula Morais.

Ao longo de três décadas, a fisioterapia e a reabilitação sofreram uma evolução, tanto ao nível do conhecimento como das técnicas e abordagens terapêuticas.

A Fisimagna tem acompanhado esse percurso através da atualização de conhecimentos e da formação dos seus profissionais, procurando integrar boas práticas e acompanhar a evolução da área.

Segundo Paula Morais, cuidar não se resume ao tratamento. “Cada pessoa que chega à clínica deve sentir-se acolhida, ouvida e acompanhada”.

Com 34 anos de história, a clínica olha agora para o futuro com o objetivo de “continuar a crescer de forma sustentada, reforçando a qualidade dos serviços sem perder a proximidade que sempre caracterizou o projeto”, refe riu Paula Morais.

The post Clínica Fisimagna serve a população há 34 anos appeared first on A Voz de Trás-os-Montes.

  •  

Boxe Adaptado: Há vitórias que não cabem num ringue 

É também nesta modalidade que Filipa encontrou o seu lugar. Tem nove anos e gosta de pintar. Gosta de vir ao treino, de fazer corda, de bater no saco e, sobretudo, gosta de ganhar. Um dia, quando o exercício já tinha terminado, continuou agarrada à corda naval com toda a força, recusando-se a aceitar que a disputa tinha acabado. Queria ficar com ela. Queria vencer. E venceu. Depois andou pelo espaço com a corda atrás, orgulhosa da sua conquista, enquanto os restantes se riam da cena. Para quem olha de fora, pode parecer apenas uma brincadeira. Para Abelo Jesus, foi muito mais do que isso. Foi um daqueles pequenos momentos que explicam por que razão continua a acreditar que o desporto pode mudar a vida de uma pessoa.

Filipa treina boxe adaptado com Abelo Jesus | Créditos: Jéssica Mestre

Filipa chega aos treinos através do CACI — Centro de Atividades e Capacitação para a Inclusão, da Casa do Povo de Moncarapacho. Tem trissomia 21 e, durante a conversa, sorriu quase sempre. “És feliz aqui?”, perguntei. “Sim, muito”, respondeu. “Gosto muito do professor!”, acrescentou. Quando se fala de boxe, pensa-se em golpes, competição e combate. Poucos pensam em inclusão. No entanto, entre sacos, luvas e movimentos treinados, a modalidade pode ser também uma ferramenta para pessoas com deficiência recuperarem capacidades, ganharem confiança e conquistarem autonomia. É essa outra face do boxe que Abelo Jesus quer dar a conhecer. No espaço onde trabalha, A.S.D.C Boxing Abelo de Jesus, há pessoas com diferentes condições e necessidades. Algumas chegam através de instituições, outras procuram-no diretamente. Não existe um treino igual para todos porque também não existem duas pessoas iguais. “Temos que ter o conhecimento do que é que cada pessoa tem”, explica. Antes de começar a trabalhar com alguém, é preciso perceber a condição, os sintomas, as limitações e aquilo que pode ou não ser feito. No boxe adaptado, a primeira preocupação não é saber com que força se bate. É perceber como se pode ajudar aquela pessoa a mexer-se melhor, a ganhar confiança e a fazer mais do que fazia antes. No treino, há corda, corrida, técnica, saco e trabalho. Os exercícios são adaptados àquilo que cada pessoa consegue fazer. E é aí que regressa Filipa. Não pela condição que tem, mas por aquilo que conseguiu fazer. A história da corda ainda hoje faz Abelo rir, mas recorda sobretudo a alegria dela naquele momento: “A felicidade que ela tinha naquele momento de conseguir, de vencer e ficar com a corda.” É uma situação que explica o que acontece naquele espaço. Ali, Filipa não está apenas a ser acompanhada pela sua condição. Está a competir, a brincar, a fazer esforço e a celebrar uma vitória. Um boxe diferente O boxe é, à partida, um desporto difícil de associar a palavras como inclusão, autonomia ou felicidade. É uma modalidade que durante décadas foi sobretudo vista pela lente da violência. Mas há um outro boxe, menos conhecido. Um boxe que não procura derrubar ninguém. Que não começa, ...

Exclusivo para assinantes

Se é assinante

Se é assinante

e continue a ler

Se não é assinante

DESDE 1€ POR SEMANA

Se é assinante e não possui conta solicite o acesso

Aproveite 20% de desconto ao subscrever a sua assinatura na Loja do JA

20% de desconto ao subscrever a sua assinatura na Loja do JA

  •  
❌