Onde Estamos
Sempre existiram sem-abrigo. As razões são variadas; uma grande parte sofre de perturbações mentais, o que os leva a evitar a sociedade e as suas regras.
A redução de financiamento dos cuidados de saúde mental subsidiados contribuiu certamente para estes números. Sem dúvida, o nosso sistema económico foi sempre um dos grandes responsáveis pelo sem-abriguismo. O próprio sistema gera tanto pobreza como riqueza.
Como todos estamos a testemunhar, as pessoas saíram à rua em Paris, Lisboa e Barcelona para exigir o direito a uma habitação digna e acessível, protestando contra os preços de arrendamento especulativos, orientados maioritariamente para a indústria do turismo. Em Lisboa e no Porto, os manifestantes têm vindo a armar tendas nas praças principais para vincar a sua posição. Os estudantes estão a ser especialmente afetados. Ambas as principais cidades tornaram-se completamente incomportáveis, e outras estão a seguir-lhes o caminho. Os jovens estão revoltados por todo o lado e já era sem tempo. Surpreendentemente, a nossa polícia respondeu com violência no primeiro dia; as imagens perturbadoras faziam parecer que tudo acontecia noutro país. Felizmente, isso não os demoveu; os acampamentos e os cânticos continuam. O nosso atual governo conservador parece estar em negação, desvalorizando os protestos, com o Primeiro-Ministro até a chamar-lhes “egoístas”.
Em França, os protestos parecem assumir sempre um tom quase bélico. Os franceses estão fartos e demonstram-no. Os lamentáveis saques e incêndios já são marcas registadas de um povo que exige ação imediata. Sem dúvida que há muitos envolvidos apenas pela oportunidade de deitar a mão a coisas grátis, enquanto outros participam para descarregar as suas frustrações em montras de vidro e veículos estacionados.
Em Barcelona, milhares de pessoas saíram à rua para impedir que um senhorio despejasse uma senhora idosa do apartamento onde vivia há décadas. Ela foi despejada na mesma, acabando por morrer num par de dias depois. É evidente que isto não é sobre saques. As pessoas estão a ser levadas ao seu limite.
Em Toronto, os residentes sentem o aperto do imobiliário há mais tempo. Os preços das casas e das rendas subiram para níveis inacreditáveis nos últimos 20 anos. Viver e trabalhar perto de uma grande cidade exige mais sacrifícios do que nunca, e a situação continua a piorar. Há hoje muitas pessoas que, mesmo com todo o esforço que conseguem fazer, simplesmente não se orientam. É exatamente assim que as coisas estão para muitas pessoas aqui na Europa também.
Tudo isto me leva a perguntar como chegámos até aqui. Não fomos nós que fizemos isto a nós próprios, porque não somos nós que estamos ao volante. Todos os políticos, todos os atores corporativos que sempre afirmaram agir no nosso melhor interesse, trouxeram-nos até aqui. É a única explicação. Aconteceu em todos os países do mundo ocidental. Países com governos e culturas diferentes acabam, com poucas exceções, com os mesmos problemas sociais. Não é coincidência, é intencional.
Para a maioria das pessoas, viver exige esforço, mas muitos dos que estão vivos hoje lembram-se de conseguir pagar muitas coisas no passado que agora estão fora do seu alcance e fora do alcance da geração seguinte. Foi para aqui que fomos encaminhados, sem qualquer culpa nossa, a não ser pela confiança cega naqueles que deveriam ter os nossos melhores interesses em primeiro lugar. Que grande treta.
Fiquem bem,
Raul Freitas/MS
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