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Uma por Uma: como a rotina, padrões de beleza e limitações financeiras influenciam a alimentação das mulheres

A alimentação das mulheres é atravessada por fatores que vão além das escolhas individuais. Rotina corrida, sobrecarga de tarefas, padrões de beleza e condições financeiras influenciam tanto o que chega ao prato quanto a relação com o próprio corpo.

Como conciliar as necessidades de saúde com o tempo disponível, o orçamento e a pressão estética? Essas questões foram debatidas no 16° episódio do videocast Uma por Uma, apresentado pela jornalista Natalia Ribeiro, com as contribuições da nutricionista comportamental Ellen Cocino, da psiquiatra Estéfane Moura e da produtora do Uma por Uma, Cristiane Ribeiro.

Assista ao videocast Uma por Uma #16: Tempo, dinheiro e cobranças: o que influencia a alimentação das mulheres?

Relação com a comida

A busca por uma alimentação considerada perfeita pode fazer com que o ato de comer se torne somente mais uma obrigação do dia a dia. Para Ellen Cocino, é necessário considerar a realidade de cada pessoa, incluindo sua rotina, suas emoções e as possibilidades de preparo dos alimentos. Uma pessoa que chega cansada do trabalho, por exemplo, pode precisar priorizar o descanso em vez de assumir mais uma tarefa na cozinha.

"Comer é algo muito individual. Não existe fórmula mágica", afirma a nutricionista. Segundo ela, uma relação equilibrada com a alimentação também envolve flexibilidade e espaço para alimentos que dão prazer, sem que cada escolha seja acompanhada de culpa ou restrição.

Eduarda Nóbrega/JC
Ellen Cocino participa do videocast Uma por Uma - Eduarda Nóbrega/JC

A psiquiatra Estéfane Moura acrescenta que a comida pode funcionar como reguladora emocional, oferecendo conforto em momentos de estresse ou cansaço. Isso, por si só, não representa um problema. A dificuldade aparece quando comer se torna o único recurso para lidar com as emoções.

"A comida é um regulador emocional, mas ele não precisa ser o único", diz. Encontrar outras formas de acolhimento, como conversar com alguém próximo ou realizar uma atividade prazerosa, pode ajudar a ampliar as maneiras de lidar com situações difíceis.

Ellen associa esse comportamento ao chamado comer transtornado, marcado por uma relação de constante preocupação com a comida, o peso e a necessidade de modificar o corpo. Esse sofrimento merece atenção mesmo quando não há um diagnóstico de transtorno alimentar.

Padrões de beleza e transtornos alimentares

A pressão estética não surgiu com as redes sociais, mas ganhou novas dimensões com a exposição constante a imagens editadas, dietas e promessas de emagrecimento rápido. Natalia Ribeiro trouxe a lembrança das revistas que anunciavam fórmulas para perder peso antes do verão e relacionou essa cultura à cobrança atual para que as mulheres mantenham determinados padrões físicos.

As especialistas alertam ainda que conteúdos sobre dietas e emagrecimento nas redes sociais podem estimular comparações e comportamentos prejudiciais. Por isso, o sofrimento relacionado à alimentação e à imagem corporal não deve ser tratado como frescura nem enfrentado sem apoio. A avaliação de profissionais qualificados é importante para identificar a necessidade de tratamento, sobretudo em casos de transtornos alimentares.

Estéfane destaca que condições como compulsão alimentar, anorexia nervosa e bulimia nervosa não são simples questões de falta de controle ou força de vontade. Os transtornos podem envolver diferentes fatores, como predisposição biológica, baixa autoestima, perfeccionismo, bullying e situações de abuso. A restrição alimentar também pode contribuir para ciclos de fome intensa e perda de controle.

Eduarda Nóbrega/JC
Estéfane Moura participa do videocast Uma por Uma - Eduarda Nóbrega/JC

Renda também determina o que se come

A alimentação também depende das condições financeiras de cada família. No episódio, Cristiane Ribeiro citou um dado do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), que aponta que em 2023, 59,4% dos domicílios brasileiros em situação de insegurança alimentar eram chefiados por mulheres. Ela chamou a atenção para os desafios enfrentados por quem precisa sustentar a casa e alimentar os filhos com recursos limitados.

O preço dos alimentos e o tempo necessário para prepará-los interferem nas escolhas possíveis. Produtos ultraprocessados podem ser mais baratos e práticos, enquanto alimentos frescos muitas vezes exigem mais recursos, planejamento e tempo de preparo. Por isso, a dificuldade de manter uma alimentação variada não pode ser reduzida à falta de disciplina individual.

Eduarda Nóbrega/JC
Cristiane Ribeiro participa do videocast Uma por Uma - Eduarda Nóbrega/JC

Estéfane relata ter acompanhado, no Ambulatório de Extensão em Transtornos Alimentares (AETA) do Hospital das Clínicas da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE), mulheres que enfrentavam insegurança alimentar e dificuldades socioeconômicas. Em alguns casos, elas priorizavam os filhos e outros familiares, mesmo sem terem o suficiente para si.

A psiquiatra ressalta que a privação alimentar e o sofrimento relacionado à comida podem coexistir. Estar acima do peso, portanto, não significa necessariamente ter acesso regular a alimentos em quantidade e qualidade adequadas. Essa realidade também pode dificultar o reconhecimento e o tratamento de transtornos alimentares.

Uma relação possível, não perfeita

Para as especialistas, melhorar a relação com a alimentação exige olhar para o contexto de cada pessoa, em vez de impor regras universais. Isso envolve reconhecer limites de tempo e dinheiro, permitir flexibilidade e compreender o papel que a comida ocupa na vida cotidiana.

As participantes também reforçaram a importância de procurar ajuda quando a relação com a comida ou com o próprio corpo provoca sofrimento. Falar sobre essas dificuldades, em vez de escondê-las por vergonha ou culpa, pode ser um passo para buscar acompanhamento adequado.

O episódio 16 do Uma por Uma está disponível no YouTube do JC Play, assim como os anteriores. O videocast aborda questões da sociedade a partir das experiências e perspectivas das mulheres, com conversas que também interessam ao público em geral.

Artur Borba/JC Imagem
Natalia Ribeiro, Ellen Cocino, Estéfane Moura e Cristiane Ribeiro participaram do videocast Uma por Uma - Artur Borba/JC Imagem

© Eduarda Nóbrega/JC

16° episódio do videocast Uma por Uma discute a alimentação das mulheres
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