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Regime de Aleksandar Vucic arrisca chegar ao fim 14 anos depois

Dois anos de protestos praticamente ininterruptos – que começaram com um desabamento numa estação de caminhos de ferro em Novi Sad que provocou vítimas mortais e que levou a acusações de corrupção a membros do governo – marcam a envolvente das eleições antecipadas na Sérvia. O país, que está formalmente às portas da União Europeia desde dezembro de 2009, pode derivar inesperadamente do sentido que o seu político mais famoso (e de muito longe o mais influente), Aleksandar Vucic, imprimiu desde que chegou à órbita do poder no longínquo ano de 2012.

As sondagens indicam uma proximidade que há dois anos era impossível entre o Partido Progressista Sérvio (SNS), de Vucic e a chamada Lista Estudantil, que emanou diretamente dos prolongados protestos, liderados desde a primeira hora pelos universitários. A sondagem mais recente indica que o SNS se mantém à frente, com 45% das intenções de voto, pouco mais que os 42,5% da Lista Estudantil – uma ‘amálgama’ ideologicamente plural que tem como desígnio principal fazer ascender ao poder a real vontade popular. A própria formação da lista teve uma base popular e os seus componentes são principalmente estudantes e operários.

Reconhecendo-lhes capacidade para se interporem no seu tão laboriosamente estudado caminho político, Aleksandar Vucic renunciou ao cargo de presidente da Sérvia (para o qual foi eleito à primeira volta em 2017) para voltar a ‘meter as mãos na massa’ e concorrer a primeiro-ministro, função que ocupou a partir de 2014. Desde logo, nota-se ali a evidência de que o SNS não quis, ao cabo de tantos anos de poder, encontrar uma alternativa que pudesse convocar os sérvios a manter o seu ‘casamento’ com o partido. Disso está a aproveitar-se a Lista Estudantil, que insiste na necessidade imperiosa de uma mudança, quanto mais radical melhor.

 

As expectativas da UE

A União Europeia tem-se mostrado repetidamente preocupada com a ‘democraticidade’ do regime de Vucic e não tem a certeza de que estejam reunidas condições necessárias e suficientes para uma auscultação lícita da vontade popular. Observadores da missão da UE na Sérvia, delegações da Assembleia Parlamentar do Conselho da Europa (PACE) e do Gabinete para as Instituições Democráticas e os Direitos Humanos da OSCE, destacaram recentemente que as eleições vão ser realizadas num ambiente caracterizado por profunda polarização entre o governo populista e a oposição.

A União não o diz abertamente, mas tudo leva a crer que uma mudança do regime seria a melhor notícia para a Comissão Europeia e para o Conselho Europeu – liderado por António Costa, que, recorde-se, quando assumiu a presidência daquele órgão, afirmou que o alargamento era uma das suas prioridades. Ora, com Vucic já todos perceberam que os desentendimentos entre a Sérvia e o Kosovo – que declarou unilateralmente a independência em 2008 e também está às portas da União (formalmente desde dezembro de 2022) – são insanáveis. Objetivamente, essa insanabilidade implica que nenhum dos dois países chegue a entrar no bloco.

Pior ainda, Vucic tem dado mostras de não querer – ou de não conseguir – largar o lastro que o acorrenta aos interesses externos da Rússia. A Sérvia é um dos raros países candidatos à União Europeia que se recusa categoricamente a aderir às sanções económicas ocidentais contra o país que invadiu a Ucrânia – mesmo sob forte pressão de Bruxelas e de Washington. Vucic sustenta repetidamente que impor sanções a Moscovo violaria os interesses nacionais da Sérvia e a sua independência económica e tem negociado diretamente com Vladimir Putin e com o ministro dos Negócios Estrangeiros russo, Sergei Lavrov, acordos de fornecimento estável e preferencial de gás natural através da estatal russa Gazprom. O Kremlin tem vindo a reforçar a narrativa de Vucic nas vésperas das eleições, validando as alegações do governo sérvio de que os protestos da oposição seriam tentativas ocidentais de desestabilização do país. Para a Rússia, o modelo dos protestos na Sérvia replica o cenário que levou à mudança de regime na Ucrânia em 2014.

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