❌

Reading view

O mundo está – mesmo – perigoso

É um lugar-comum dizer que ver televisão faz mal à saúde. Reformulo a questão; faz mal à saúde ver noticiários e territórios adjacentes que podem incluir publicidade, documentários – e sabe-se como fazemos bons documentários, mas a vida é assim. Por um lado há uma seca sem fim, logo a seguir, chove e quando chove é sempre muito. As calotes estão como estão – e os caloteiros também. Os mares quentes fervem e, sem tirar uma vírgula (por acaso tirava, aqui e ali, mas não é conversa para agora), parece que o diabo veio para ficar, e ficou mesmo. Também estamos muito gordos, porque comemos muito ou mal, e agora a cereja sobre o bolo, sabemos que um em cada quatro maiores de sessenta anos está mal nutrido. Não estou a dizer que nada disto deixe de fazer sentido, mas que nos complica a vida, complica.

Há estudos (há estudos para tudo; para nutridos, desnutridos e um dia destes, nutridos desnutridos, que o meu amigo fica a saber que a vida é feitas destes pequenos nadas) para tudo e informação contraditória para, quase tudo. E agora o perigo; nas estatísticas, onde é que nos situamos? Eu, que tenho mais que sessenta anos estou na parte dos maravilhosamente mal nutridos ou dos restantes? Durmo bem, mal ou assim-assim? Leio livros em quantidade ou não? Vou ao médico com regularidade ou não? A conclusão é simples: façamos o que façamos, há uma catástrofe a cada virar de esquina. O que fazer? Acalmemo-nos, que um gajo quando morrer vai deitado. Ou não.

Terei resistido, mantendo uma réstia de vida no interior do meu cérebro, ao mais recente folhetim da vida portuguesa entre aqueles dois que os meus amigos sabem de quem se trata e por isso não os vou nomear? Penso que sim, estou – quase – incólume. Pelo menos sempre escusámos de ouvir o discurso de António José Seguro, que para lugares comuns já basta o que basta. E de que lado estamos, agora que a poeira se começou a instalar? Do lado que as questões do futebol costumam ser vistas. Quem gosta mais de Ronaldo, que sim tudo foi feito com lisura. Quem gosta de Jorge Jesus, que tudo foi feito como deve ser. Tal e qual como quando vemos um daqueles jogos do campeonato da Polónia, transmitido pelo canal 11. Não conhecemos ninguém nem nenhuma das equipas, mas depois de vermos cinco minutos de jogo, começamos a tirar por um dos dois. Ou seja, estamos, quase sempre, no lado das emoções e não da razão, e isso só pode estar certo. O ponto é que são problemas destes que mostram que o futebol moderno tem muito pouco a ver com desporto. Estamos no reino dos interesses económicos, da venda de camisolas, dos contratos publicitários e descobrimos que tudo isso manda mais que o jogo. Tenho a absoluta convicção que se Ronaldo quisesse jogar até aos cinquenta (sempre uma possibilidade), qualquer seleccionador tinha que o convocar, apesar de ser suplente na quarta liga saudita. E fazia uma perninha de três em três jogos, sem aquecimento para os ossos da perna não torcerem. Eramos a piada infinita (obrigado, literatura), mas lá vendíamos mais vinte camisolas, que o Cris manda nos gajos da federação.

  •  

Cancelas

Tenho vindo a perceber que a malta mais a par das novidades (com especial atenção aos novatos) tem a palavra “cancelar” na ponta da língua. “O não sei quê, foi cancelado”. O “ípsilon devia ter sido cancelado, e o xis também”. Parece que o “cancelamento” já faz parte da conversa de todos os dias (de uma certa parte de vós nós),tomando uma forma involuntária, sintoma de que veio para ficar, talvez porque a relação entre as pessoas tenha migrado para o digital. O que se resolvia, noutros tempos, por palavras (ou gestos) ditos de frente, à mesa do café, agora introduz-se numa variação escrita, mais ou menos pública (se está na net é pública), parte de um julgamento ad hoc, criado para o efeito.

E, parece, que há “cancelamentos” para todos os gostos: políticos, desportivos, sociais e os que envolvem todas as premissas anteriores, numa amálgama virtuosa, visto, claro está, na óptica do “cancelador”, que é para isso que a coisa serve. Lembrei-me deste pequeno monstro que criámos nas nossas relações quando vi (e ouvi) o jogo com a Noruega, em que que o jornalista Carlos Daniel apareceu como comentador. À parte o que pode ter dito – não mais nem menos que o que a concorrência directa diz – o que me ficou de tão aturada empresa foi que a escolha de Carlos Daniel para comentador de um jogo da selecção, terá saído directamente da sua participação no “Prós e Contras”, revisitado, sob a designação “É ou Não É?”. Talvez que esta tenha sido a condição exigida para não mostrar excessiva ligação a um dos lados da contenda. No entanto, feitas as contas finais, penso que Carlos Daniel se excedeu na imparcialidade.

Esta ideia parece (na realidade não existe um nexo de causalidade) provir de uma noção que só um alto nível de neutralidade (perante, por exemplo um jogo de bola) pode mostrar-se capaz de suster a ideia de “cancelamento”, que é uma palavra que designa censura, mas uma censura 2.0, ao alcance de qualquer um, em qualquer lugar, uma espécie de censura de trazer por casa, fácil e leve, feita do próprio para o próprio. Pois é isto que muitos já trazem inscrito na parte do cérebro que nos fornece a direcção do caminho das pedras. É que do que ouvi de Carlos Daniel, muito me pareceu fazer convictamente o campeonato do “espelho meu quem é que é mais imparcial que eu?”. A certa altura, de tanto ser transparente só lhe faltava pedir desculpa pelos lances que os noruegueses perdiam ao pé da baliza portuguesa.

O jogo partido, o jogo aberto, e no fim que ganhasse o melhor, que as jogadas que os nórdicos tinham posto a bola para fora, eram más e assim sucessivamente: a mim pareceu-me que o Carlos Daniel é – antes de ser um expert em táctica (problema dos religiosos convertidos à causa; um excessivo seguidismo de uma arte que não dominavam) – um refutado amigo da onça. Agora não se esqueçam de me censurar.

  •  
❌