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Medir o valor que criamos, não apenas o dinheiro que gastamos


Geri uma candidatura ao COMPETE no meu período enquanto empreendedor e, hoje, lidero uma prática de consultoria estratégica cujo desígnio é ajudar empresas a criar valor (medido em Enterprise Value). Das duas experiências retiro a mesma conclusão: a forma como medimos um programa, e os incentivos resultantes do desenho do programa, determinam aquilo que ele vai produzir.

Comecemos pela dimensão. O COMPETE 2030 tem uma dotação anual de cerca de 550 M€ (dividindo a dotação total pelos sete anos em vigência). Todo o investimento em capital feito pelos fundos de private equity e venture capital a operar em Portugal (em ações e quotas) somou 504 milhões de euros em 2023, segundo a CMVM.

Um único programa público move, por ano, mais capital do que todo o mercado de capital de risco português.

E o COMPETE é apenas uma parte do todo. Segundo a Economist Intelligence Unit, quase 80% do investimento público em Portugal actualmente depende de fundos europeus, contra uma média de apenas cerca de 25% no conjunto da União Europeia. Poucas decisões de política económica pesam tanto no crescimento do país como a forma de gerir este capital.

Ainda assim, quando se fala destes fundos, fala-se quase sempre da taxa de execução: quanto já foi aprovado, quanto já foi pago, quanto se arrisca a perder. São números relevantes, mas respondem todos à pergunta “gastámos a tempo?”. A pergunta sobre o que esse dinheiro produz, depois de gasto, raramente aparece nos títulos dos jornais.

Peter Drucker resumiu bem o problema: “what gets measured gets improved”. Um programa avaliado pela despesa executada tende, com o tempo, a otimizar a despesa executada: aprovar mais depressa, pagar mais depressa, evitar devoluções a Bruxelas. São objetivos legítimos, mas nenhum deles garante que o dinheiro gere crescimento, exportações ou produtividade. Se passarmos o foco para a medição do valor criado, o comportamento de todos os envolvidos (entidades gestoras, empresas e decisores políticos) ajusta-se a esse objetivo, mesmo sabendo que o impacto demora anos a materializar-se.

Hoje sabemos pouco sobre esse valor criado. Os estudos de impacto a estes fundos são raros, pontuais e difíceis de comparar. A avaliação do impacto macroeconómico do Portugal 2020, feita pela FEP/UP e publicada em 2021, estima que cada euro do FEDER gera 1,12€ de PIB ao longo de 50 anos. A avaliação do sistema de incentivos à inovação empresarial publicada em 2023, estima que cada euro de incentivo gerou 6,13€ de valor acrescentado nas empresas apoiadas, em sete anos. São ambos trabalhos sérios, mas medem coisas diferentes, com métodos e horizontes diferentes. Nenhum permite saber, ano a ano, se os programas estão a cumprir os objetivos para que foram desenhados.

A questão está identificada também a nível europeu. Em 2021, o Tribunal de Contas Europeu concluiu que o financiamento baseado no desempenho “ainda não é uma realidade” na política de coesão, e que a reserva de desempenho do período 2014-2020 foi libertada quase exclusivamente com base no progresso da despesa e das realizações, e não dos resultados.

Organizamos a nossa oferta a clientes, focada em dois princípios. O primeiro é a orientação total para a criação de valor: um investimento só cria valor quando o retorno supera o custo de oportunidade do capital, e é contra esse critério que avaliamos cada recomendação. O segundo é o alinhamento de incentivos: sempre que relevante, a remuneração deve depender dos resultados que os nossos clientes alcançam, para que o upside só exista, se existir para os seus clientes. Aplicado aos fundos europeus, o primeiro princípio implicaria avaliar cada programa pelo valor que gera face ao custo de oportunidade de capital que mobiliza, e não pela velocidade a que é executado.

Mesmo pequenas melhorias valem muito. O Portugal 2030 tem uma dotação de cerca de 23 mil milhões de euros. Cada ponto percentual de valor adicional sobre esse montante corresponde a cerca de 230 milhões de euros, perto de cinco meses de COMPETE; dois pontos, cerca de 460 milhões, perto de dez meses.

Só o COMPETE 2030 (que representa menos de 20% do PT2030) move, por ano, mais capital do que todo o mercado português de capital de risco. Sabemos bem quanto dele já foi gasto mas muito pouco sobre o valor que cria. Enquanto medirmos apenas a despesa, não é o valor que estes fundos criam que estamos a otimizar.

A principal alavanca para lá chegar é simples de enunciar: um relatório anual e público que meça o impacto dos fundos europeus, nas suas várias formas (subvenções, instrumentos financeiros, investimento público), face aos objetivos definidos no desenho de cada programa. Quando o valor criado passa a ser reportado ao lado da taxa de execução, a pergunta que todos fazem muda, e os programas passam naturalmente a ser desenhados e geridos para criar mais valor. É, no fundo, o primeiro princípio aplicado à política pública.

Em paralelo, há três alavancas mais operacionais que ajudariam.

A primeira é confiar mais nas empresas. No projeto que geri enquanto empreendedor, cada despesa era acompanhada de faturas, recibos, comprovativos de pagamento e de entregáveis, e o projeto passou ainda por duas auditorias sucessivas. Presumir a boa-fé das empresas e fiscalizar a posteriori libertaria tempo a quem gere os fundos e a quem os recebe.

A segunda é menos prescrição ao nível micro. Faz sentido que o Estado defina prioridades macro, como setores, regiões ou tipos de investimento. O detalhe de cada projeto, como a repartição entre capex e opex, tende a ser mais bem decidido por quem conhece o negócio (até porque o opex é, muitas vezes, também investimento).

A terceira é menos controlo micro. Verificar cada fatura dá segurança sobre a despesa, mas diz pouco sobre o resultado. Parte dos pagamentos poderia estar ligada a resultados, como o crescimento das vendas, das exportações, da produtividade ou do emprego, em vez de depender apenas da comprovação de despesas. É o mesmo alinhamento de incentivos que procuramos com os nossos clientes: quando quem financia e quem executa ganham com o mesmo resultado, as decisões tendem a melhorar.

Mais confiança traz consigo o risco de mais fraude, e esse risco deve continuar a ser levado a sério. Os números ajudam a pô-lo em perspetiva: nos fundos do QREN e do Portugal 2020, entre 3% e 4% das irregularidades detetadas foram consideradas suspeitas de fraude, e apenas dois casos chegaram a fraude provada. O valor perdido em fraude dificilmente se compara com o valor que se deixa de criar por excesso de controlo. O que se exige é que o Estado seja consequente com quem defrauda.

Este raciocínio não se esgota nos fundos europeus. Aplica-se a toda a despesa pública, incluindo o Orçamento do Estado para 2027, agora em discussão no Parlamento. O debate orçamental centra-se quase sempre em quanto se gasta e onde, e raramente no que cada euro gasto produziu no ano anterior. Nas empresas com quem trabalhamos, medir o valor criado e alinhar incentivos com esse valor é o ponto de partida. Não vejo razão para que a despesa pública siga outro critério.

O COMPETE 2030 já vai a meio e pouco se poderá mudar no seu desenho. Mas ainda vamos a tempo de decidir, no próximo programa e no próximo orçamento, medir o valor que criamos, não apenas o dinheiro que gastamos.

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