❌

Reading view

A misoginia de diálogos de Vorcaro e CEO que expôs atrizes: “Mulher não pode fazer isso”

Com a boca vermelha e a pele totalmente pintada de verde, Deborah Secco adentrou o Baile da Vogue de 2024, no Copacabana Palace, alternando entre sorrisos fartos e carão carregado nos olhares sensuais, um combo recorrente que já virou tradição no evento, no qual é convidada de destaque. A atriz encarnava um ser extraterrestre de roupas curtas, brancas, com direito a um bebê alien a tiracolo, no estilo carnavalesco típico da celebração, uma das grandes apostas publicitárias da Vogue Brasil e da Editora Globo nas semanas que antecedem o Carnaval.

Mas enquanto posava para os fotógrafos de dezenas de publicações e curtia a festa com sua tradicional animação, Deborah, que dividia o espaço com a nata executiva do Grupo Globo, estava desavisada do julgamento de alguns dos presentes mais relevantes do evento. “Eu só olhava pra bunda dela rs”. As palavras são do então diretor-geral de mídias impressas e rádios da Editora Globo, Frederic Kachar, para o dono do Banco Master, Daniel Vorcaro, horas depois. “Mas tava muito feia kkk”, rebateu o banqueiro. “Concordo que a fantasia era broxante”, completou Kachar. “Tá doido, mulher não pode fazer isso”, disparou Vorcaro.

Os diálogos fazem parte de um conjunto de mensagens interceptadas pela Polícia Federal (PF), entre outubro de 2023 e julho de 2025, cujo vazamento ganhou força nesta semana e levou à demissão do executivo de mídia nesta quinta-feira (15). Em nota, o Grupo Globo não menciona o conteúdo misógino das mensagens como um dos motivos da demissão, mas sim a preservação da independência editorial da Editora Globo.

Nota na íntegra

Grupo Globo comunica desligamento de Frederic Kachar e reforça independência editorial de seus veículos.

O Grupo Globo comunicou hoje o desligamento do diretor-geral de Mídia Impressa e Rádio, Frederic Kachar. O conteúdo das conversas privadas mantidas com Daniel Vorcaro entre outubro de 2023 e julho de 2025, às quais a empresa teve acesso ontem, revela uma relação inadequada do executivo com um anunciante.

A Editora Globo reforça seu compromisso com a ética e a transparência e reafirma a absoluta independência editorial do jornalismo de seus veículos, premissa essencial de sua atuação. O protagonismo da cobertura crítica, isenta e independente que tem feito do caso Master é a demonstração concreta do compromisso inegociável de seus veículos com os Princípios Editoriais do Grupo Globo.

A empresa reconhece os 29 anos de dedicação de Kachar ao desenvolvimento de seus negócios de mídia e informa que o nome de seu substituto à frente da Editora Globo e do Sistema Globo de Rádio será divulgado em breve.

Comunicação Globo
Rio de Janeiro, 15 de outubro de 2026
Mais informações: https://imprensa.globo.com/

Além de comentários objetificando atrizes ligadas ao próprio Grupo Globo, o conteúdo revela comentários machistas e convites mútuos para festas com mulheres, discrição “sem celular” e encontros descritos como idas à “Ucrânia”.

Um baile de machismo

“Muita mulher pro crime e só gay. Elas tavam dando em cima mesmo acompanhado”, foi assim que Fred Kachar descreveu o ambiente do evento da revista até então sob sua responsabilidade. E completou: “Me fodi. Minha ex foi e marcou em cima”. Ele fazia menção à atriz Monique Alfradique, que também chegou a se envolver com Daniel Vorcaro meses depois. De acordo com a assessoria de imprensa da atriz, no entanto, o relacionamento dos dois não chegou a ser um namoro e o título de “ex”, usado por Kachar, não seria apropriado. 

Em seguida, o ex-diretor-geral passou a comentar sobre convidadas que trabalham no Grupo Globo. “Deborah secco tava pra jogo”, escreveu Kachar. O executivo da Globo ainda relata que a atriz seria madrinha do camarote do Grupo no Carnaval do Rio de Janeiro e teria dito querer “curtir solteira” nos festejos. “Relação aberta. Preciso de uma dessas”, escreveu Kachar. “Todos nós”, respondeu Vorcaro.

A assessoria de Déborah Secco repudiou a associação indevida do nome da atriz a comentários de teor machista, desrespeitoso e irresponsável, disse que a atriz não conhece Daniel Vorcaro e que sua relação com Fred Kachar sempre foi estritamente profissional. “Tiveram encontros em trabalhos, onde foram fotografados, sem qualquer vínculo entre eles”. A equipe da atriz também destacou que os comentários que se tornaram públicos diz respeito a um evento “onde ambas estavam trabalhando”.

“É inadmissível expor a imagem e a reputação de uma mulher com base em uma narrativa que não corresponde à sua realidade. Também é lamentável a forma como mulheres foram mencionadas, em comentários que não devem ser tratados com naturalidade nem usados para alimentar especulações”, diz a nota.

Leia a nota na íntegra

Diante das informações divulgadas, a assessoria de Déborah Secco repudia a associação indevida do nome da atriz a comentários de teor machista, desrespeitoso e irresponsável.

Déborah Secco não conhece Daniel Vorcaro. Sua relação com Fred Kachar sempre foi estritamente profissional, tiveram encontros em trabalhos, onde foram fotografados, sem qualquer vínculo entre eles.

É inadmissível expor a imagem e a reputação de uma mulher com base em uma narrativa que não corresponde à sua realidade. Também é lamentável a forma como mulheres foram mencionadas, em comentários que não devem ser tratados com naturalidade nem usados para alimentar especulações.

A assessoria repudia qualquer tentativa de envolver a atriz Déborah Secco nesses acontecimentos. Sua trajetória, construída ao longo de anos de trabalho, merece ser tratada com responsabilidade e respeito.

Também é importante esclarecer que o comentário de teor machista e misógino surgiu a partir da presença de Sabrina Sato e Deborah Secco no Baile da Vogue 2024, onde ambas estavam trabalhando. Algumas publicações, no entanto, vêm apresentando os fatos de forma descontextualizada, dando a entender que elas estariam em uma festa com Daniel Vorcaro e Fred Kachar, o que não corresponde à realidade. Daniel Vorcaro, inclusive, não estava
presente no evento.

O banqueiro reagia às impressões do amigo, cuja relação seria uma “amizade que supera negócios”, mas não esteve presente no evento de 2024, em que suas empresas figuravam como patrocinadoras. A tabela com o orçamento para patrocínio em 2025, compartilhada no WhatsApp, considerava reajuste sobre os valores do ano anterior, que supostamente somaram R$ 1,7 milhão no Baile da Vogue e no Carnaval em 2024.

Outra artista citada no contexto da festa e de que estaria “pra jogo” foi a apresentadora Sabrina Sato. “Sabrina [Sato] também. Aniversário dela.”, disse Fred Kachar em relato para o banqueiro Vorcaro. “Soltinha”, resumiu o executivo sobre a profissional que estava em uma festa carnavalesca.

Sabrina Sato disse nunca ter tido contato com Daniel Vorcaro e relata que encontrou Kachar apenas em uma premiação de revista, quando foram fotografados, mas nega qualquer vínculo entre eles. “É inadmissível expor a imagem e a reputação de uma mulher com base em uma narrativa alheia à sua realidade. O respeito à dignidade das mulheres não é uma concessão. É um direito. E comentários desta natureza não podem ser tratados com naturalidade, reproduzidos ou utilizados para alimentar especulações”, afirmou em nota à Pública.

Nota na íntegra

Diante das informações divulgadas, a assessoria de Sabrina Sato repudia a associação indevida do nome da apresentadora a um comentário de teor machista, desrespeitoso e irresponsável.

Sabrina nunca teve qualquer contato com Daniel Vorcaro e encontrou Fred Kachar apenas em uma premiação de revista, ocasião em que foram fotografados, sem qualquer vínculo entre eles.

É inadmissível expor a imagem e a reputação de uma mulher com base em uma narrativa alheia à sua realidade.

O respeito à dignidade das mulheres não é uma concessão. É um direito. E comentários desta natureza não podem ser tratados com naturalidade, reproduzidos ou utilizados para alimentar especulações.

Qualquer tentativa de envolver Sabrina nesses acontecimentos é repudiada. Sua trajetória, construída ao longo de anos de trabalho, merece ser tratada com responsabilidade e respeito.

Não é sobre fama, nem sobre desejo

A Agência Pública questionou o grupo Globo se denúncias foram feitas ao compliance da companhia quanto à relação de atrizes e outras artistas e sua relação com figuras de poder como Kachar na dinâmica corporativa da empresa, mas não obteve resposta até o momento.

“O que mais me chama a atenção nesse episódio, para além da gravidade do conteúdo das conversas divulgadas, é a relação entre poder, comportamento e silêncio. Quando alguém ocupa uma posição de influência, suas atitudes têm consequências que ultrapassam as relações individuais”, resume a psicóloga organizacional e fundadora do Instituto Internacional em Segurança Psicológica (IISP), Patrícia Ansarah. O IISP atua na prevenção de riscos psicossociais, de assédio, de sobrecarga e de violência organizacional.

Segundo Ansarah, quando comportamentos machistas e misóginos são naturalizados, minimizados ou protegidos por relações de poder, perpetuamos uma cultura patriarcal que legitima a desigualdade e a reação da sociedade a esse tipo de episódio vivenciado pelas atrizes do Grupo Globo ajuda a definir o que é tolerado, o que pode ser questionado e quais são as consequências para quem decide reagir.

“Em uma sociedade marcada por profundas assimetrias de poder, discordar, impor limites ou denunciar comportamentos abusivos pode ter um custo muito alto. E isso se torna ainda mais grave para as mulheres, que, historicamente, enfrentam barreiras para serem ouvidas, levadas a sério e protegidas quando decidem denunciar. A escolha entre expor publicamente uma violência e se preservar, neste contexto, é fácil: o silêncio predomina.”

A manifestação do economista Fred Kachar a respeito de mulheres, no entanto, não se limitava a famosas de seu convívio no Grupo Globo. Em 19 de janeiro de 2024, semanas antes do Baile da Vogue sobre os quais os comentários machistas foram feitos, o executivo e o banqueiro discutiam a proposta de patrocínio do Banco Master para o período carnavalesco quando Kachar perguntou se Vorcaro iria à Sapucaí. Vorcaro disse que precisava “fugir esse ano” e brincou que só Kachar conseguia “passar ileso tanto tempo” no Carnaval. Ao que o ex-diretor-geral da Globo respondeu: “Ileso nada. Três ex minhas nesse ano. Vou pôr um tatame na pista. Só vou ligar o foda-se. Todas achando que estão comigo. E eu vou fingir demência.”

Preocupação apenas com “indiscrições”

As mensagens vazadas entre Kachar e Vorcaro registram ainda convites do banqueiro para eventos restritos. Em 7 de fevereiro de 2024, o banqueiro disparou: “Bora hoje, que vai ser animado. Tem dois oligarcas russos indo e plantel [equipe]”. Vorcaro continuou descrevendo que seria no bairro dos Jardins, em São Paulo, em “lugar fechado, só convidado”. Kachar não teria comparecido. Dois dias depois, o banqueiro escreveu: “Seu bolo tá anotado. Perdeu”.

Os encontros do gênero passam a ser mencionados com expressões de guerra nas semanas seguintes. Em 12 março de 2024, Vorcaro disse que o plano da noite seria um “ataque soviético”. Mais tarde, Kachar perguntou se ele já estava “na Ucrânia”. Dias depois, o executivo quis saber se haveria “guerra na Ucrânia nessa semana”. “Tem hoje. Bora?”, respondeu o banqueiro, informando que começaria às 23h. Em maio, Vorcaro disse que as festas aconteciam “toda terça”.

Em 15 de maio de 2024, em Nova York, na semana do prêmio Personalidade do Ano da Câmara de Comércio Brasil-Estados Unidos, Vorcaro disse que não iria a outro evento da programação e escreveu: “Fechei um lugar. Sem celular. E sem risco. Pra verdadeira festa rsrs”. Kachar respondeu: “É nessa que eu vou! Posso, né?”. “Óbvio. Convidado de honra”, disse o banqueiro. O executivo da Globo chegou ao local perto da meia-noite.

No dia seguinte, Kachar agradeceu o convite: “Será que alguém anotou a placa do caminhão que me atropelou rs?” e disse ter ido embora às 0h45. Vorcaro contou que chegou às 4h e acordou às 7h. “Ídolo. Se eu faço isso saio de ambulância do quarto”, escreveu Kachar. O banqueiro completou: “Só que fiz isso 3 dias seguidos. Ainda com a Fabíola me esperando no hotel kkkk”. O executivo respondeu: “Não acredito. Ela veio? Ídolo máximo, então. Isso eu jamais consegui” e depois conclui: “Eh um accomplishment [realização marcante]”.

Kachar e Vorcaro foram procurados pela Pública, mas até o momento não se pronunciaram sobre o caso. Em caso de manifestação, este espaço será atualizado.

  •  

A linha direta de Vorcaro dentro do Grupo Globo: “Quer que peça pra corrigir?”

Um ano antes de se tornar “radioativo”, na tarde de uma quarta-feira de abril de 2024, Daniel Vorcaro recebeu uma oferta de Frederic Kachar, até então CEO da Editora Globo e do Sistema Globo de Rádio: “Quer que a gente o entreviste no Valor?”. A mensagem se referia a Alexandre Afrange, CEO da Veste – antiga Restoque, que detém marcas como Dudalina, John John e Le Lis Blanc –, empresa da qual o banqueiro do Master tinha controle acionário desde 2022. “Não sabia que a Veste tinha esse ceo”, escreveu Kachar, para então oferecer espaço editorial a Vorcaro no jornal de economia do grupo. 

O diálogo faz parte das mensagens interceptadas pela Polícia Federal (PF) a partir do celular de Daniel Vorcaro e apontam que a relação dos dois, nas palavras do próprio banqueiro, em julho do mesmo ano, seria uma “amizade que supera negócios”. Os diálogos mostram que o ex-controlador do Banco Master, preso desde março deste ano como principal investigado pela Operação Compliance Zero, tinha acesso direto ao executivo, onde fazia solicitações diretas e reclamava sobre a linha editorial dos jornais do grupo Globo.

O vazamento das mensagens ganhou força nesta quarta-feira (14), momento delicado para a própria Globo. Isso porque no Auditório Ibirapuera, em São Paulo, a Rede Globo promovia um de seus eventos publicitários mais importantes do ano, o Upfront Globo. Na ocasião, os executivos mais influentes do Grupo Globo, a exemplo de Fred Kachar, como é conhecido, se reúnem com vários dos artistas mais famosos do conglomerado junto a representantes do mercado publicitário para detalhar os planos das empresas Globo para o ano seguinte. Talvez por isso, a reação ao vazamento, já conhecido nos bastidores da empresa, não tenha sido mais imediato. Nesta quinta (15), Kachar foi desligado, segundo nota oficial do Grupo.

Nota Grupo Globo

Grupo Globo comunica desligamento de Frederic Kachar e reforça independência editorial de seus veículos
O Grupo Globo comunicou hoje o desligamento do diretor-geral de Mídia Impressa e Rádio, Frederic Kachar. O conteúdo das conversas privadas mantidas com Daniel Vorcaro entre outubro de 2023 e julho de 2025, às quais a empresa teve acesso ontem, revela uma relação inadequada do executivo com um anunciante.

A Editora Globo reforça seu compromisso com a ética e a transparência e reafirma a absoluta independência editorial do jornalismo de seus veículos, premissa essencial de sua atuação. O protagonismo da cobertura crítica, isenta e independente que tem feito do caso Master é a demonstração concreta do compromisso inegociável de seus veículos com os Princípios Editoriais do Grupo Globo.

A empresa reconhece os 29 anos de dedicação de Kachar ao desenvolvimento de seus negócios de mídia e informa que o nome de seu substituto à frente da Editora Globo e do Sistema Globo de Rádio será divulgado em breve.

Comunicação Globo
Rio de Janeiro, 15 de outubro de 2026
Mais informações https://imprensa.globo.com/

Relação delicada

Vorcaro chegou a solicitar, no dia 12 de outubro de 2024, a capa da revista Vogue Brasil para a então namorada, Martha Graeff, que acabara de lançar a Happy Aging, empresa de suplementos voltada à longevidade feminina, lançada nos Estados Unidos à época. “De presente pra ela”, justificou. 

O pedido não foi plenamente atendido por Kachar, que alegou inviabilidade da agenda de produção da revista. Cinco dias depois, no entanto, as versões online de Vogue Brasil, Marie Claire e Ela destacavam Graeff, cujos links foram enviados pelo ex-diretor-geral a Vorcaro: “Depois me diz se faltou algo”. O banqueiro agradeceu: “ficaram ótimas”, disse, antes de fazer a ressalva: “só a Marie Claire deu uma batidinha no final rsrs esses repórteres são uma bênção”, concluiu o banqueiro. Kachar apenas assentiu: “o próximo passo é capa na Ela ou Marie Claire, só precisamos de um fato novo”.  

  • Versões online de Vogue Brasil, Marie Claire e Ela destacaram Martha Graeff, namorada de Vorcaro, após pedido do banqueiro ao executivo
  • Versões online de Vogue Brasil, Marie Claire e Ela destacaram Martha Graeff, namorada de Vorcaro, após pedido do banqueiro ao executivo
  • Versões online de Vogue Brasil, Marie Claire e Ela destacaram Martha Graeff, namorada de Vorcaro, após pedido do banqueiro ao executivo

A disponibilidade de Fred Kachar não era exatamente em vão. No dia 6 de fevereiro de 2025, o orçamento para as empresas controladas por Vorcaro foi feito pelo WhatsApp mesmo, após sucessivas tentativas de contato sem êxito. Para a presença das marcas Master, Desincha, Veste, Be Fly e Happy Aging, Kachar propôs participação de R$ 1,79 milhão e outros R$ 4,92 milhões para a presença em camarote carnavalesco na Sapucaí, no Rio de Janeiro. 

Durante 15 dias, o então CEO da Editora Globo buscou Vorcaro 62 vezes até a realização do Baile da Vogue, usando mensagens de tom pessoal – “Vamos poder curtir juntos amanhã?” –, passando pela insistência típica de representantes de negócios – “Querido, me dá um sinal de vida pra eu não ir e dar com a cara na porta rs?” – e chegando a flexibilidade de negociação: “Para não te deixar na mão, te bonifico um branded content [conteúdo patrocinado, ou, em bom português, matéria paga] da marca na Glamour e na Vogue [Brasil], mas desatrelados do Baile [da Vogue]”. No fim, o banqueiro do Master concordou em pagar R$ 1,3 milhão pelos dois eventos e se ausentou do Baile. A conversa só foi retomada na terça-feira, 25 de fevereiro, com a frase “fez falta no sábado”, seguida de outra mensagem: “Estou no voo com Lauro [Jardim], que vai conhecer sua sede nova antes de mim. Desnecessário dizer que estou com ciúmes.”

As mensagens entre Vorcaro e Kochar sugerem que havia uma porta aberta no editorial do Grupo Globo para as demandas e insatisfações do banqueiro. Em 31 de maio de 2024, por exemplo, o grupo noticiou, pelo portal G1, a suposta entrada do banco no ramo de supermercados, o que Kachar se apressou a comentar: “Entrou em supermercados também? Estás incontrolável rs!”. A resposta do banqueiro veio de pronto, um minuto depois, às 19h04: “Info totalmente errada”. Diante do retorno, o executivo do Grupo Globo se prontificou: “Quer que eu peça pra corrigir?”. 

A resposta de Vorcaro foi curta e enfática: “Deve!”. Às 19h27, exatamente 23 minutos após o primeiro alerta de erro, o G1 atualizou a reportagem, retirando a afirmação de compra pelo Banco Master e precisando o papel da gestora como prestadora de serviços ao fundo de terceiros. “Agora ficou certo”, assentiu o banqueiro. 

A Agência Pública procurou Fred Kachar, que não retornou até a publicação desta reportagem. O espaço segue aberto à sua manifestação.

BRB: uma relação que também azeda

Segundo a PF, o Banco de Brasília (BRB) comprou R$ 9,52 bilhões em carteiras de crédito emitidas pelo Banco Master entre outubro de 2024 e fevereiro de 2025. Foi o colunista Lauro Jardim de O Globo, uma das publicações sob o comando de Fred Kachar, que primeiro questionou o presidente do BRB, Paulo Henrique Costa, pouco antes de Vorcaro, Costa e o ex-governador do Distrito Federal Ibaneis Rocha, se reunirem em Zurique, na Suíça para discutir a relação entre os dois bancos. 

Em março de 2025, 58% das ações do Banco Master foram compradas pelo BRB em uma operação de R$ 2 bilhões, aprovada tanto por maioria da Câmara Distrital, pelo governo do Distrito Federal, sob a gestão de Ibaneis Rocha e pelo Conselho Administrativo de Defesa Econômica (Cade). 

Fachada do prédio do banco de Brasília (BRB)
Ações do Banco Master foram compradas pelo BRB em uma operação de R$ 2 bilhões

Ao longo de um ano e nove meses de mensagens trocadas entre Kachar e Vorcaro, os registros de festas juntos, comentários sobre mulheres, e pedidos para se encontrarem ou se falarem por telefone ou videochamadas foram muito mais numerosos que reclamações pontuais de Vorcaro, às quais o CEO da Editora Globo buscava responder de forma diplomática e quase sempre dizendo concordar em parte com a avaliação do parceiro, inclusive tecendo críticas aos próprios jornalistas de sua equipe. Mas uma publicação acelerou o desgaste da relação entre os dois executivos.

Assinada por Álvaro Campos, a análise “Mercado vê com ressalvas operação entre BRB e Master, mas acordo desarma uma bomba”, publicada em 29 de março do ano passado no Valor Econômico, fez o dono do Master perder a cordialidade. Kachar tentava contato há semanas com Vorcaro, dizendo precisar falar urgentemente, mas apenas após a publicação de análise e reportagem envolvendo o Master, o banqueiro deu sinal de vida em tom de profundo descontentamento.

“Matéria maldosa, malfeita. Isso é porque seu grupo deu o furo da operação. Parceria, como sempre, de uma via apenas”, resumiu antes de completar: “Com toda liberdade de desabafo, me sinto por varias vezes um bobo focando na parceria aí”, disse, ao encaminhar uma lista de 63 publicações das quais, segundo Vorcaro, apenas a Valor teria sido “negativa” e faria “referência a rumor”, em suas palavras.

“As fontes eu não posso te abrir porque seria deselegante, mas não são um ou dois banqueiros”, respondeu, sobre um dos princípios fundamentais do jornalismo de preservação da fonte – que pouco tem a ver com elegância. Kachar respondeu: “O que concordo com você é que não poderia fazer análise sem sua visão do ‘deal’[acordo] e já reclamei”, completou, antes de sacramentar: “Meu amigo, claro que não é pra ficar como está. Se a gente discorda em algumas coisas, temos de conversar”. Pouco mais de duas horas depois, enviou: “O Álvaro [Campos] incluiu aspas suas nessa análise. Vamos falar amanhã?”.

“Não vale a pena pra mim falar. Vira (sic) o caso Malu [Gaspar]. Tudo que eu falo usam contra mim. Deixa correr aí como sempre estão fazendo”, encerra Daniel Vorcaro. Por várias vezes, o banqueiro se queixava a Kachar do que ele questionava ser uma “campanha corporativa” contra ele, que tinha na colunista de O Globo e comentarista da GloboNews e CBN Malu Gaspar seu alvo mais recorrente. “Temos que resolver”, chegou a dizer Vorcaro ao diretor-geral.

Foi justamente nessa época, entre março e abril de 2025, que mensagens encontradas pela PF no celular do banqueiro, desta vez com o publicitário Thiago Miranda, em que ele dizia que precisavam “encontrar algo dessa mulher [Malu] no pessoal”, ao que Miranda respondeu não ter encontrado “nem uma multa na CNH”. O caso foi revelado pela Fatos Online.

A Pública entrou em contato com Campos e Gaspar, mas ambos preferiram não comentar sobre o assunto até o momento. Em caso de manifestações, este espaço será atualizado. A defesa de Vorcaro também foi acionada e informou que se manifestaria ao longo do dia, após depoimento do banqueiro marcado para hoje.

Incômodo de longa data e ameaças agora conhecidas

O trabalho de Lauro Jardim incomodava Daniel Vorcaro desde 2023, bem antes de o nome do colunista aparecer nas mensagens interceptadas pela PF, sobretudo quando da publicação da reportagem “Os cuidados de um banqueiro com a festa de 15 anos da filha”, de 4 de agosto de 2023. Ao longo de 2025, a coluna do jornalista acompanhou de perto a tentativa de venda do Banco Master ao BRB, o banco estatal do Distrito Federal, e mostrou regularmente o que sustentava a operação.

Em 4 de setembro de 2025, logo depois de o Banco Central vetar o negócio, Jardim escreveu que a principal aposta de Vorcaro nunca tinha sido o balanço do Master, e sim suas conexões políticas. Segundo a coluna, o diretor do Banco Central Renato Gomes, responsável por avaliar a saúde financeira do banco, sofreu pressões intensas nas semanas anteriores, quase todas por parte de políticos do Centrão. Executivos do mercado relataram, inclusive, ameaças. A nota informava ainda que o Master tinha passado agosto tentando renovar, sem sucesso, uma linha de crédito de cerca de R$ 10 bilhões no Fundo Garantidor de Crédito (FGC) para honrar vencimentos de linhas de investimento do tipo CDB.

Segundo a investigação da PF, foi esse tipo de cobertura que levou o ex-banqueiro a planejar uma agressão contra o Jardim. Em mensagens reveladas em 2026, Vorcaro pede a Luiz Phillipi Machado de Moraes Mourão, o “Sicário”, uma espécie de capanga de Vorcaro, que espancasse Jardim em um assalto forjado. Nas palavras do próprio Vorcaro, a ideia era “quebrar todos os dentes” do colunista. A defesa de Vorcaro disse à época que as mensagens foram tiradas de contexto e que ele jamais determinou qualquer ato de violência.

Daniel Vorcaro na prisão
A cobertura do jornalista Lauro Jardim sobre os negócios de Vorcaro teria levado o ex-banqueiro a planejar uma agressão contra Jardim

Ao falar de Malu Gaspar e Lauro Jardim, parte das mensagens de Kachar indicam uma relação entre o jornalista com a fonte, o que é praxe no trabalho de qualquer profissional de imprensa. Kachar se gaba a Vorcaro no mês de julho de 2024 sobre encontros dos jornalistas com o banqueiro nessa condição — encontros que, segundo as mensagens, teriam sido acompanhados por Kachar, superior hierárquico de ambos no Grupo Globo. “Não foi bom?”, disse Kachar a Vorcaro, em referência a Lauro Jardim. “Virou até fonte”, reagiu o CEO em mensagens posteriores.

A insatisfação de Vorcaro com os colunistas, no entanto, era anterior. Ainda em abril de 2024, Malu publicou na rede de microblogs X: “Ministros do STF, STJ e TSE silenciam sobre quem pagou suas despesas em eventos de Londres. Segundo o Poder 360, o Banco Master patrocinou o evento, mas não quis aparecer. O banco tem uma ação no STF. O relator é Gilmar Mendes, que falou no painel ‘Estabilidade Institucional e Segurança Jurídica para Atração de Investimentos Internacionais’”. 

Nas mensagens apreendidas pela PF, datadas de 29 de abril de 2024, este foi o primeiro grande embate e desgaste registrado entre o banqueiro e Kachar. “Chega a ser inacreditável”, disse Vorcaro, seguido de um grande texto que incluía uma ameaça velada a retirar patrocínio a um evento do Valor. 

A postura do então diretor-geral da Editora Globo variava conforme a reclamação, numa tentativa de equilibrar as insatisfações do “amigo” sem fragilizar a credibilidade de sua equipe. Em um dos retornos ao banqueiro, diz que ninguém “escala” Malu, reforçando sua independência editorial: “Mas a Malu é livre. Ninguém a escala”. Em outro, diz não gostar do estilo da jornalista e classifica comentários pontuais dela como “ilações”: “Não estou entendendo esse seu tom comigo. Sempre tivemos uma relação de harmonia e respeito. Se tiver algum erro na coluna da Malu [Gaspar], peço a correção imediata. […] Eu não gosto do que ela postou, por isso reforcei que a cobertura do Globo é a que está no site, onde não há essas ilações”, respondeu.

Nos comentários de Fred Kachar, as críticas à imprensa não se limitavam aos próprios veículos da Globo. Em conversas com Vorcaro, ele diz conhecer “os mecenas” do Poder 360 e rejeita o momento da revista piauí: “virou denuncista”.

Não há, no entanto, nenhuma frase do executivo da Globo que caracterize uma reflexão sobre a relação com o banqueiro que os próprios jornais que dirigia apontavam como suspeitos. Após ser implicado pelas investigações da PF e com o negócio do BRB sendo escrutinado, Vorcaro deixou de receber mensagens da “amizade que supera negócios” e passou três meses sem qualquer contato. A última mensagem disponível nos relatórios da PF, em julho de 2025, não tem resposta disponível. Em novembro, Vorcaro foi preso pela primeira vez e solto pouco depois, voltando a ser detido em março deste ano. O banqueiro segue detido no 19º Batalhão da Polícia Militar do Distrito Federal, a Papudinha. 

  •  
❌