Lula e Flávio podem tirar do eleitor até a disposição de votar
Lula (PT) e Flávio Bolsonaro (PL) podem ter conseguido uma proeza no debate de domingo. O eleitor entrou sabendo em quem votar e saiu se perguntando se vale a pena sair de casa. Depois de assistir àquela disputa de provocações, acusações e perguntas sem resposta, até quem já havia escolhido um dos dois ganhou motivos para reconsiderar o compromisso com a urna.
Os candidatos foram ao encontro para tentar tirar votos do adversário. Correm o risco de ter tirado do próprio eleitor a vontade de votar. Tem vendedor que é tão ruim que consegue estragar até o produto que o consumidor já gosta.
Desânimo
Ainda será preciso medir o efeito daquele espetáculo sobre o comparecimento no próximo domingo. Mas as campanhas deveriam prestar atenção ao risco que produzem com espetáculos lamentáveis como o do domingo.
Existe uma parcela do eleitorado que já fez sua escolha sem entusiasmo, sem admiração e sem qualquer disposição para defender o comportamento do candidato. São brasileiros que pesaram os problemas dos dois e decidiram apoiar aquele que consideram mais suportável. Esse voto exige tolerância, paciência para engolir defeitos em nome dessa decisão.
E os presidenciáveis parecem empenhados em descobrir até onde vai a paciência desse cliente estressando ele ao máximo.
O cidadão aceita engolir uma contradição, relevar uma declaração e conviver com uma companhia inconveniente. A cada concessão, tenta se convencer de que a alternativa seria pior. Até que liga a televisão esperando encontrar alguma justificativa para o esforço e recebe mais um constrangimento.
Precisa trabalhar na segunda-feira, pagar as contas, enfrentar seus problemas e ainda encontrar disposição para entregar o comando do país a alguém que parece incapaz de levar a própria candidatura a sério.
Obrigação
As campanhas tratam o comparecimento do eleitor como uma obrigação e a demonstração de capacidade do candidato como uma atividade facultativa. O brasileiro precisa defender a democracia, escolher o futuro, enfrentar a fila e assumir a responsabilidade pelo país. Lula e Flávio, aparentemente, podem cumprir a parte deles decorando provocações e oferecendo material para os cortes das redes sociais. Depois, seus auxiliares distribuem os vídeos e anunciam que um “jantou” o outro.
Há uma arrogância nessa relação. Os dois campos se comportam como se o medo do adversário garantisse o abastecimento eterno das urnas. O petista acredita que a ameaça da volta dos Bolsonaro resolverá qualquer resistência a Lula. O bolsonarista imagina que o desgaste do governo basta para tornar Flávio merecedor da Presidência. É um comportamento cretino, dos dois lados.
Limite
A campanha aposta que uma nova acusação fará alguém correr para a urna. Pode acabar convencendo esse mesmo eleitor de que é melhor ficar em casa. Preferência e disposição para votar são coisas diferentes. É possível continuar considerando um candidato menos perigoso e, ainda assim, perder o ânimo de dedicar parte do domingo a elegê-lo. Ele até responde pesquisa declarando que vota em um ou em outro. Mas no dia de votar, prefere ir à praia.
A Presidência exige discernimento para lidar com problemas que não desaparecem depois de uma ironia bem ensaiada. Se a abstenção aumentar nesse segundo turno não será por causa do histórico, da chuva, do sol ou do transporte público. Será porque os candidatos são medíocres. Se as campanhas não estão dizendo isso a eles, estão mentindo para agradar.
Respeito
Transformar cada assunto numa oportunidade para humilhar o adversário pode divertir a torcida, mas deixa o restante do país sem saber o que esperar do próximo governo. Os dois terão outra oportunidade no próximo debate. Que aproveitem para mostrar se podem ser presidentes da República mesmo ou se vão continuar se comportando como se fossem garotos disputando popularidade na turma do bairro.


© ALOISIO MAURICIO/FOTOARENA/ESTADÃO CONTEÚDO
