Um zumbido agudo, fino e ininterrupto dispara pela sala uma sensação de intolerância igualmente afiada. A luz da clínica, meio amarelada, implacável e apontada diretamente nas pupilas desavisadas. O cheiro sintético de flúor, misturado com o látex das luvas que emitem sons plásticos, retorcem e estalam no consultório. Essa cadência rápida simula a ansiedade e a tempestade de estímulos, muitas vezes despercebidas por mentes neurotípicas.
Mas a porta se abre e a cena parece diferente do habitual. Em Pernambuco, novas formas do fazer odontológico vêm sendo postas em prática com a finalidade de quebrar paradigmas no atendimento a pessoas que vivem com autismo. Nesses consultórios, a penumbra difusa substitui a luz refletora, o barulho do motor dá lugar ao silêncio, ou, no máximo, uma música suave escolhida a dedo pela família. Não há pressa e nem jalecos brancos que tanto assustaram gerações de indivíduos. A broca espera na gaveta enquanto o vínculo se constrói no chão, entre brinquedos de textura, tato e conversas sussurradas.
É para desarmar gatilhos históricos que a odontologia busca se reinventar em um Brasil que, de acordo com a Organização Mundial da Saúde (OMS), abriga cerca de 2 milhões de pessoas autistas. Segundo a literatura científica, incluindo um estudo de revisão e análise publicado pela Brazilian Journal of Health Review em 2024, crianças e adolescentes com transtorno do espectro autista (TEA) podem estar mais expostos a fatores de risco para problemas de saúde bucal em comparação com pessoas que não estão no espectro.
A pesquisa demonstra que o adoecimento bucal não surge do desleixo parental, mas também pode estar relacionado às barreiras impostas pelo próprio transtorno. A hipersensibilidade sensorial dificulta a higiene oral diária, desde a textura das cerdas ao sabor da pasta, e transforma o consultório tradicional num ambiente hostil. Entender que o acolhimento humanizado e a dessensibilização não são apenas apetrechos dispensáveis, luxos até, mas sim recursos técnicos urgentes de saúde pública, é o primeiro passo para garantir que o cuidado não seja, por si só, um trauma.
A rotina de saúde bucal não começa no consultório, mas na pia do banheiro de casa, em uma batalha diária que atravessa milhares de famílias brasileiras. Para o pequeno Tiago, de 8 anos, filho da costureira Joselene Lourenço, a agonia começava na simples ardência do creme dental. A hipersensibilidade tátil e gustativa — condição neurológica em que estímulos cotidianos são recebidos com mais intensidade pelo corpo — transforma a escovação em um desafio árduo. “A gente tem que escovar, apesar de a gente deixar ele fazer primeiro sozinho, ou escovar na frente dele para ele ver como é, mas mesmo assim a gente precisa fazer toda vez a higiene dele”, relata a mãe, que comemora intimamente pequenas vitórias, a cada vez que o menino cede um pouco mais de espaço para a escova.
Já na casa da enfermeira Lilian Lima, mãe de Bernardo, um menino de 6 anos com autismo nível 3 de suporte e não verbal, o cenário espelha a mesma exaustão que atravessa esses cotidianos. A higiene exige uma repetição infinita de tentativas que revelam pequenas sutilezas, com a finalidade de restaurar a dignidade do seu filho. "Existem dias em que é difícil conseguir que ele aceite a escovação, e essas são batalhas que muitas vezes ninguém vê", desabafa Lilian.
Para quem está de fora, o ato de escovar os dentes pode até ser banal, mais uma etapa casual de uma rotina cheia de afazeres. Só que para as famílias de crianças com neurodivergência, essa dinâmica envolve uma carga emocional contínua e exige adaptações constantes a cada sinal de desconforto. "Cada pequena conquista é comemorada. Seja quando ele aceita melhor a escova, permite que eu faça a higiene ou participe daquele momento. Para outras pessoas pode parecer algo simples, mas para nós é uma grande vitória."
Quando a prevenção caseira esbarra nesses limites sensoriais, o consultório tradicional costuma aprofundar a ferida já aberta por angústias anteriores. O maior medo de Joselene e de seu marido era o alvoroço de Tiago na cadeira, um reflexo puro do pânico. Ela lembra, com lágrimas nos olhos, de uma consulta que teve que abordar uma nova estratégia de contenção. Foi preciso deitar o filho sobre o próprio corpo, segurando-o à força para o procedimento apressado e desajeitado de restauração. “Além do desgaste da gente ter que segurar ele, ele tem que ficar em cima da gente. Acabou que ela [a profissional] fez do jeito que pôde e eu acho que por isso que a ‘massinha’ caiu no mesmo dia”.
A memória de Lilian guarda cicatrizes ainda mais profundas, marcas invisíveis que a pressa do cotidiano insiste em ignorar. São camadas de dor e exaustão veladas pela rotina, dores silenciosas que perpassam a rotina de quem cuida e que raramente encontram espaço de escuta ou validação social. Ao buscar ajuda para o filho, ela presenciou uma cena que define como chocante. "O mais difícil foi vivenciar uma tentativa de sedação do meu filho em um local público, sem estrutura adequada, sem material suficiente e em condições que, para mim, eram desumanas", relata com lágrimas nos olhos. "Ver outras crianças e adolescentes também sedados no chão, por falta de estrutura e cuidado, foi uma cena que jamais esquecerei. Naquele momento senti ansiedade, impotência e uma enorme angústia como mãe e como pessoa, porque eu só queria que meu filho tivesse acesso a um atendimento digno."
O peso desses episódios e das dores acumuladas transforma a rotina das famílias em uma constante e exaustiva operação de, segundo Lilian, “guerra". Há uma dor indizível que atravessa o cotidiano de quem cuida, uma espécie de cansaço denso que se deposita em cada gesto, tentativa frustrada e no medo permanente da próxima tentativa. Para evitar que Bernardo associasse o trajeto de casa para uma nova tentativa de consulta ao ambiente hostil de uma clínica, a saída precisou ser minuciosamente reconfigurada. O garoto foi levado de bicicleta, acompanhado pelo pai, pedalando contra o vento pelas ruas metropolitanas para dissipar a tensão da expectativa e desacelerar o ritmo de um corpo já em alerta.
Foi nesse estado de vulnerabilidade que as famílias encontraram a virada de chave de um atendimento especializado. Ao chegar ao consultório do cirurgião-dentista, Arnaldo Caldas, especializado em pacientes com neurodivergência, Lilian não encontrou pressa nem imposição de protocolos rígidos. Em vez de forçar interações desajeitadas com o Bernardo, o especialista puxou um estetoscópio. O detalhe, singelo para muitos, foi um divisor de águas. "Ele auscultou, mediu a saturação, observou como Bernardo se comportava acordado e brincando e até como interagia conosco. Preenchemos quase cinco páginas com informações detalhadas", lembra a enfermeira, emocionada. "Quando o vi acolhê-lo com calma, respeitar seu tempo, pensei: ‘Aqui tem algo diferente’. Naquele gesto eu enxerguei amor, cuidado, zelo e, ao mesmo tempo, ciência e conhecimento. Ali, como mãe, eu senti que meu filho estava seguro e sendo visto para além do diagnóstico."
A mesma quebra de expectativa acolheu Joselene e seu filho Tiago. A cirurgiã-dentista Raissa Dias, especializada em atendimento humanizado, e sua equipe focaram a primeira consulta inteiramente na conversa, nos brinquedos e na construção gradual de um vínculo seguro construído longe da temida cadeira. "A primeira sessão foi de ganhar confiança. Esse foi o detalhe exato: não ter tentado forçar ele a fazer um procedimento na primeira consulta, foi ter ido várias vezes", relembra Joselene. Foram dias de adaptação até o menino aceitar o tratamento, saindo do consultório segurando um presente carinhoso e permitindo um registro fotográfico no caminho de volta.
O resultado de uma nova odontologia que sabe entender o tempo do paciente restitui muito mais do que a mastigação, devolve a dinâmica de uma casa e a dignidade uma vez perdida. Bernardo, com autismo não verbal, vinha recusando alimentos devido à dor crônica causada por um fragmento de dente. "Para nós, era terrível ver meu filho naquela situação, porque muitas vezes nem conseguíamos compreender o que estava acontecendo, me sentia impotente", desabafa Lilian. "Conseguir iniciar o tratamento e realizar a extração foi além de resolver um problema odontológico. Foi devolver conforto a quem eu amo e tirar da nossa família uma angústia enorme."
Durante as consultas, Dra. Raíssa aplica práticas de dessensibilização para garantir que o cuidado não se transforme em trauma - Cortesia
Para Joselene, o alívio materializou-se em um pequeno troféu emocional. O dente de leite de Tiago, que ela jamais pensaria guardar por ser, segundo ela, "feio e cheio de cárie", hoje repousa em sua casa como um lembrete. Está intacto, moldado pela restauração feita com paciência pela Raissa. É como um souvenir do dia em que a ida ao dentista deixou de ser um símbolo de dor para se tornar a prova física de que a delicadeza profissional é capaz de redesenhar traumas.
A profissional Raissa durante o atendimento clínico - Cortesia
No senso comum, o consultório odontológico sempre foi um território onde se proíbem os doces e o açúcar para resguardar os dentes do sofrimento e da destruição. Ali, no entanto, a lógica se inverteu. A saúde bucal do menino não nasceu da restrição ou da força bruta, mas sim conquistada justamente com doçura — o afeto, a paciência e a gentileza de um olhar humanizado que transforma o cuidado em acolhimento.
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A ciência da empatia e a ética profissional
Para entender o verdadeiro impacto de um consultório tradicional em crianças como Tiago e Bernardo, é preciso olhar para além do choro e compreender a fisiologia do medo. O corpo atípico não faz “birra”; ele entra num genuíno modo de defesa perante o desconhecido. O médico geneticista Rodrigo Neves Florêncio explica que a tempestade de estímulos da odontologia clássica aciona um instinto primitivo de sobrevivência. "A frequência cardíaca aumenta, [dá] um disparo para a parte muscular", descreve o especialista. "É um pânico mesmo, é um tipo de alerta".
É exatamente esse súbito iminente que a ortodontista Angélica Garcia tenta desarticular antes de qualquer interação direta. A especialista não avalia os dentes no primeiro instante, mas sim a linguagem invisível do que mostra o corpo. "Eu vou lendo todo o corpo, vou vendo como está a respiração da criança, o olhar, todos os movimentos repetitivos que eles vão aumentando pelo nível de ansiedade", detalha. Se o limite de tolerância dá sinais de atingir seu auge, a postura da dentista frente ao momento é clara: "Antes da crise, se ela houver, eu recuo. Antes e não depois". Essa leitura exige uma mudança física de postura do próprio especialista, como a condução de uma dança a dois, tentando ao máximo romper com a hierarquia clínica. Garcia conta que sempre procura, por exemplo, "entrar pelo lado, não de frente logo para o paciente", fazendo também questão de "me abaixar e ficar na altura dele". A lógica, resume a doutora, é inegociável já que, “antes mesmo de cuidar dos dentes, é preciso construir essa confiança".
E quando a linguagem verbal não é suficiente para que o atendimento seja completo, a ortodontista recorre aos recursos visuais, aos traços e às cores. Sabendo que o cérebro autista frequentemente processa estímulos visuais com muito mais clareza — um padrão neurológico atestado por extensas revisões científicas, como a clássica metanálise da pesquisadora Fabienne Samson publicada na revista Human Brain Mapping, demonstrando a hiperativação do córtex visual no TEA —, ela introduz as chamadas "pistas visuais".
São painéis ilustrados com desenhos simples que traduzem o passo a passo da consulta e da higiene diária. As gravuras indicam o momento exato de colocar a pasta, escovar o lado esquerdo, a frente, o lado direito, até chegar à hora do bochecho e finalização. O recurso é tão eficaz que ultrapassa as paredes da clínica. Para estruturar essa rotina domiciliar, os profissionais contam com materiais de apoio fundamentais, como a cartilha Higiene Bucal para Pessoas com TEA, desenvolvida por especialistas com o apoio da Universidade de São Paulo (USP).
Pistas visuais são recursos que ajudam pessoas com TEA a compreender a comunicação por meio de imagens e símbolos - Reprodução/USP
"Peço sempre para os pais colocarem as pistas visuais no espelho do banheiro, para que o paciente acompanhe e aprenda cada passo", explica Angélica. Seguindo as diretrizes do guia, o processo ganha ainda mais leveza e previsibilidade quando os pais associam a imagem ao estímulo verbal, contando de um a dez a cada lado escovado e coroando o esforço do paciente com um elogio encorajador.
A dentista Angélica apresenta as "pistas visuais", painéis ilustrados que traduzem o passo a passo da consulta e da higiene bucal - Cortesia
Esse cuidado coreografado dialoga perfeitamente com o protocolo do cirurgião-dentista, professor e dentista do Bernardo, Arnaldo Caldas, que aplica um rigoroso "checklist" sensorial. "O consultório precisa ser preparado antes da criança entrar, porque o primeiro contato sensorial já é parte do tratamento". No interior destas salas, a própria definição de ética profissional precisou ser refeita na prática. A ideia de tratar o dente a qualquer custo, que no passado legitimava amarrar a criança com uma fita de contenção, deu lugar à preservação do indivíduo, de sua humanidade. "A estabilização indiscriminada nunca foi técnica", pontua Caldas, que enxerga o uso rotineiro da força como uma falha ética grave. Para o cirurgião, culpar o paciente atípico pelo atraso da consulta é inverter a lógica do cuidado. "Pressa é uma escolha do profissional, não uma necessidade clínica", decreta.
É por isso que as chamadas "consultas vazias", onde o motor sequer é ligado, são também celebradas. A criança pode usar o espelho para examinar a boca do próprio dentista, recuperando o controle da situação e revertendo a lógica. Contudo, quando um abscesso ou uma cárie profunda impõem urgência, a ciência da empatia não recorre à contenção, mas à farmacologia. Nesses casos, o óxido nitroso e a sedação tornam-se ferramentas de dignidade, como resume o professor-dentista, a “sedação bem indicada, é humanização".
Mas essa complexa rede de amparo não se constrói de forma isolada, visto que o preparo emocional começa meses antes, dentro das clínicas multidisciplinares. Nas terapias, fonoaudiólogos e terapeutas ocupacionais simulam cadeiras odontológicas, texturas e pastas de dentes de sabores neutros "para que você possa ter o máximo proveito de uma consulta", explica Rodrigo. É essa união do esforço terapêutico prévio com a postura de dentistas preparados que garante a maior das vitórias para tantas famílias.
A herança do passado no adulto com TEA
Mas, se hoje esse acolhimento compreensivo começa a reescrever a infância de muitas crianças, as gerações anteriores não tiveram a mesma sorte. Quem cresceu sob a luz implacável dos antigos consultórios carrega na vida adulta as marcas de uma odontologia puramente mecânica. Para a servidora pública Ana Maria Cintra, diagnosticada com autismo e altas habilidades, de 36 anos, a simples menção da palavra "dentista" ainda atua como um gatilho súbito. "Meu coração acelera, acredito que pelas memórias da infância e pela sensibilidade sensorial, que não tolera ruídos e toques na face e boca", relata.
Da janela basculante da casa de sua avó, os ouvidos curiosos da menina presenciavam o que viria a ser a raiz do seu pavor: "Eu ouvia os berros das crianças e o barulho dos aparelhos. Na minha mente, eu construía uma cena de terror". A ruptura definitiva com a cadeira odontológica ocorreu no dia em que o próprio primo, e dentista da família, decidiu extrair seu dente de leite de forma abrupta. "Ele disse que ia testar o alicate e, quando eu vi, o dente voou longe", relembra, rindo do absurdo da situação que a fez decidir nunca mais voltar àquele ambiente.
Carregando ao longo dos anos a soma de uma hipersensibilidade tátil no rosto com o estigma enraizado da dor, Ana Maria viu a sua relação com a prevenção transformar-se em uma tática constante de esquiva. A fobia estruturada na infância atingiu o seu ápice quando precisou extrair os terceiros molares. "Tirei um e nunca mais voltei para retirar os outros", confessa. O pavor do consultório convencional é tamanho que a servidora encontrou na intervenção hospitalar a sua única saída tolerável, chegando "ao ponto de preferir fazer uma cirurgia sedada a me submeter a anestesia local para retirada de dente".
Longe de ser uma exceção, o distanciamento defensivo relatado pela servidora reflete um abismo que a cirurgiã-dentista e endodontista Marília Gabriele Gomes, especialista no atendimento de adultos com TEA, tenta superar diariamente. Ao receber um paciente, a especialista observa que a angústia se manifesta fisicamente antes de qualquer palavra. "Esses pacientes geralmente apresentam um corpo rígido, as mãos suadas, a respiração rápida e um olhar constante para aqueles instrumentos que estão na mesa, para a porta, para o próprio profissional", descreve. Para ela, o acolhimento começa na leitura empática dessa linguagem corporal. "O mais importante é você diagnosticar esses sinais e não tratá-los como um mecanismo de defesa ou de não colaboração do paciente".
Ao analisar o percurso de quem passou uma vida inteira sem o manejo humanizado, a dentista constata que as perdas avançam como um severo efeito dominó. "Clinicamente, o custo pode ser cumulativo e sistêmico", alerta Marília. Fugindo do ambiente hostil, o paciente permite que a doença bucal avance em silêncio, resultando, segundo a especialista, em um quadro onde "a progressão de cáries, assim como a doença periodontal, resulta em restaurações extensas, acometimento da polpa e, em último caso, na perda do dente". É a consolidação de um ciclo vicioso onde a dor retroalimenta a fobia.
Buscando desprogramar essa memória traumática enraizada, a estratégia clínica voltada para os adultos troca os artifícios lúdicos infantis pela devolução irrestrita da autonomia. A Marília aplica o que chama de "princípio da informação suficiente de controle". Diferente da abordagem pediátrica, ela ressalta que a questão não é simplificar a linguagem como se fosse uma criança, mas sim, regular a quantidade, o momento e o formato da informação. Juntando acordos prévios à adaptação sensorial, com redução drástica de ruídos e luzes, a dentista pontua que, às vezes, não realizar o procedimento na primeira consulta já é uma estratégia mais pertinente, garantindo que o adulto se sinta seguro antes de qualquer toque.
Cruzando a realidade de quem hoje consegue comunicar o seu desconforto sem julgamentos com a pesada trajetória dos adultos que atende, a endodontista enxerga o real valor preventivo do seu trabalho. "O que mais me chama a atenção é a diferença entre tratar a consequência e evitar que ela se consolide", reflete, celebrando o fato de que as crianças de hoje podem "chegar à idade adulta sem necessariamente carregar uma história de afligimento em consultório". Esse mesmo sentimento de reparação atravessa Ana Maria ao acompanhar a filha caçula em um atendimento acolhedor. "Eu acabo me curando através de quem recebe atendimento digno, e tendo esperança na melhora da assistência à saúde mais respeitosa", emociona-se a servidora.
O acolhimento como política pública
Democratizar o acesso à saúde exige, antes de tudo, desafiar a matemática dos relógios. Dentro da engrenagem do sistema público, onde o volume de procedimentos costuma pautar o ritmo de trabalho, a pressa muitas vezes se impõe como a maior inimiga da inclusão. Tentar comprimir as complexas necessidades sensoriais de um paciente atípico em consultas rigidamente cronometradas cria uma barreira invisível — um obstáculo que afasta famílias inteiras da prevenção e perpetua ciclos históricos.
Para acabar com esse modelo produtivista e garantir que a odontologia humanizada não seja um privilégio restrito aos muros dos consultórios particulares, a Faculdade de Odontologia(FOP) da Universidade de Pernambuco (UPE) vem adotando uma postura clínica que, na visão de muitos, é radical. Nas cadeiras da instituição, profissionais e estudantes de graduação não deixam que o cronômetro reine soberano no consultório. Ali, o tempo deixou de ser uma métrica de cobrança e produtividade para se transformar, na prática, na mais poderosa política pública de acolhimento. A diretora da FOP e professora, Priscilla Prosini, defende que não é possível trabalhar com a mera lógica da quantidade de pacientes por turno, para ela, o objetivo principal é dar condições para que os atendimentos aconteçam de forma segura e com a confiança da família.
A Clínica Integral 4, que funciona nas instalações do Centro Integrado de Saúde Amaury de Medeiros (CISAM), chega ao ponto de agendar apenas um paciente por turno para que as necessidades ditem o ritmo do relógio. Caso seja necessária uma longa etapa de dessensibilização, o tempo é que se curva à pessoa. Englobando profilaxia, restaurações e procedimentos cirúrgicos complexos, todo o portfólio é oferecido gratuitamente pelo Sistema Único de Saúde (SUS). A diretora ressalta a premissa de que "cada paciente é único e precisa ter seu tempo respeitado"
O Centro Integrado de Saúde Amaury de Medeiros (Cisam) faz parte do complexo hospitalar da UPE - SÉRGIO BERNARDO/ACERVO JC IMAGEM
Para que esse modelo de cuidado chegue a quem precisa, a diretora da FOP detalha como garantir a consulta. A porta de entrada para o atendimento é a central de marcação da faculdade, localizada na Avenida Norte, nº 80, no bairro de Santo Amaro. Priscilla conta também que o primeiro contato pode ser feito por telefone, pelo número (81) 3184-7661, solicitando especificamente o agendamento para o Curso de Especialização em Odontologia para Pacientes com Necessidades Especiais.
Como uma verdadeira fazenda de boas práticas, a instituição aproveita o próprio ambiente da clínica-escola para ir além da urgência de quem está na cadeira, cultivando simultaneamente uma nova geração de profissionais. Enquanto as equipes acolhem a fila de famílias exaustas, os alunos de graduação e especialização encontram nas consultas um laboratório prático contínuo, aprendendo no dia a dia a equilibrar a técnica científica rigorosa com a paciência que o cuidado humano exige.
Mergulhados diariamente nessa vivência, os estudantes passam a enxergar a profissão de maneira muito mais ampla, uma premissa que guia o trabalho da diretora Priscilla Prosini. "Mais do que olhar apenas para o procedimento odontológico, a nossa proposta é enxergar a pessoa como um todo", explica.
E o sorriso retorna
Por gerações, o pavor da cadeira odontológica encontrou abrigo no imaginário popular, tratado quase como uma regra intransponível da vida. Nas memórias de quem cresceu nas primeiras décadas do século passado, o sentimento era tão comum que virava verso de cantiga infantil: “Eu nasci pelado e só, como todo mundo. / Também uso paletó, como todo mundo. / E tenho medo de dentista também, como todo mundo tem.”
Mas se para a maioria o receio era apenas um incômodo que virava brincadeira, para os pacientes que convivem com alguma neurodivergência sempre foi um muro de exclusão e violência silenciosa. Foi essa herança de normalizar a força e a dor que expulsou adultos como Ana Maria do cuidado preventivo e empurrou mães como Lilian e Joselene ao limite da exaustão.
Joselene e o filho Tiago posam ao lado da Dra. Raíssa e equipe após a conclusão da consulta na clínica - Cortesia
O que o movimento de humanização nas clínicas de Pernambuco faz hoje é, justamente, desafiar o final dessa velha cantiga. Ao diminuir a luz do refletor e respeitar o tempo de quem sente o mundo de outra forma, as novas práticas do fazer odontológico reescrevem a história dessas famílias.
Quando o pequeno Tiago guarda seu dente curado como um pequeno troféu de coragem e Bernardo volta para casa em paz e sem dor, o alívio enfim se consolida. Eles formam a primeira geração livre do peso do trauma, crescendo para provar que sentar na cadeira do dentista não precisa mais ser um pavor que todo mundo tem, mas sim, um lugar de afeto, onde o sorriso encontra, finalmente, um lugar seguro.
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