Dois oceanos, uma história: a homenagem aos pioneiros portugueses da pesca do atum em San Diego

No início deste mês de setembro, Lisboa acolheu a 104.ª reunião anual da Comissão Interamericana do Atum Tropical (IATTC), organização responsável pela conservação e gestão dos atuns e de outras espécies no Oceano Pacífico Oriental. Com sede em La Jolla, San Diego, Califórnia, Estados Unidos da América, a IATTC reúne 21 membros, entre os quais a União Europeia, através da qual Portugal participa na gestão das pescarias do Pacífico Oriental.
Desde outubro de 2017, o investigador português Alexandre Aires-da-Silva exerce as funções de Coordenador de Investigação Científica da IATTC e responsável pela sua Divisão de Investigação Científica. Especialista em ciência das pescas e gestão sustentável dos recursos marinhos, tem desenvolvido uma carreira internacional ligada ao estudo dos grandes peixes pelágicos e à cooperação científica no setor das pescas.
Foi neste contexto que Alexandre Aires-da-Silva, juntamente com Idalmiro da Rosa, natural da ilha do Pico, líder comunitário e Cônsul Honorário de Portugal em San Diego, e Kenny Alameda, empresário luso-americano e fundador da Clipper Oil, promoveu uma homenagem aos pioneiros portugueses da pesca do atum, realizada no Museu de Marinha, em Belém.
A iniciativa revestiu-se de particular significado histórico. Se Lisboa representa uma das grandes matrizes da vocação marítima portuguesa, San Diego constitui um dos mais importantes destinos da emigração portuguesa ligada ao mar, à pesca e à indústria conserveira. Durante grande parte do século XX, a cidade foi conhecida como a “capital mundial do atum”, tendo os pescadores portugueses, sobretudo oriundos dos Açores e da Madeira, desempenhado um papel relevante no desenvolvimento da sua economia marítima.
A presença portuguesa em San Diego remonta ao século XIX, com sucessivas vagas migratórias a fixarem-se particularmente em Point Loma, onde a ligação ao mar se tornou uma das marcas identitárias da comunidade. Atualmente, estima-se que cerca de 20 mil pessoas de ascendência portuguesa residam no condado de San Diego. A memória da pesca, as tradições religiosas, a gastronomia e o associativismo continuam a afirmar a identidade luso-americana.
Esta história cruza-se também com João Rodrigues Cabrilho, navegador ao serviço da Coroa espanhola que, em 1542, alcançou a costa da Califórnia e entrou na baía de San Diego, sendo tradicionalmente identificado pela historiografia portuguesa e luso-americana como português.
A homenagem, realizada junto ao Mosteiro dos Jerónimos, contou com o apoio da Marinha Portuguesa, do Museu de Marinha, das autoridades portuguesas, da União Europeia, da Fundação Luso-Americana para o Desenvolvimento (FLAD), de organizações ligadas ao setor das pescas e de famílias da comunidade portuguesa. A sessão contou com intervenções do Diretor do Museu de Marinha, Capitão-de-Mar-e-Guerra Augusto António Alves Salgado, e do Secretário de Estado das Comunidades Portuguesas, Emídio Sousa, seguindo-se uma apresentação de Kenny Alameda, intitulada Across Two Oceans, sobre a história da pesca do atum no Pacífico Oriental e o contributo dos pescadores portugueses e das suas famílias.
A iniciativa incluiu ainda uma exposição dedicada aos pioneiros portugueses da pesca do atum e prolongou-se, uma semana depois, pelo arquipélago dos Açores, berço de muitos daqueles emigrantes. Com o apoio das Secretarias Regionais dos Assuntos Parlamentares e Comunidades e do Mar e das Pescas, realizaram-se sessões públicas na Horta e nas Lajes do Pico, aprofundando a dimensão científica, histórica e humana desta ligação transatlântica.
Na Horta, no dia 7 de setembro, a sessão decorreu no Auditório da Biblioteca Pública e Arquivo Regional João José da Graça, com a participação de Andreia Braga Henriques, Diretora Regional das Pescas, Alexandre Aires-da-Silva, Idalmiro da Rosa e Ricardo da Rosa, armador do Pacific Princess e vice-presidente da United Portuguese SES, Inc.
No dia seguinte, nas Lajes do Pico, o Auditório do Museu dos Baleeiros acolheu uma sessão de carácter histórico, com a participação de Alexandre Aires-da-Silva, Idalmiro da Rosa, José Andrade, Diretor Regional das Comunidades, Manuel Costa, Diretor do Museu do Pico e presidente da Comissão Consultiva do Património Baleeiro Regional, e Rúben Alves, empresário ligado à pesca do atum.
A homenagem aos pioneiros portugueses da pesca do atum foi, assim, muito mais do que a evocação de uma atividade económica. Constituiu um reconhecimento às gerações que levaram consigo o saber, a coragem e a cultura de um povo profundamente ligado ao mar, contribuindo para o desenvolvimento das comunidades de acolhimento. Foi também uma expressão de valorização da diáspora portuguesa, do seu papel na preservação dos laços com Portugal e do seu contributo para a história económica, social e cultural dos países onde se fixou.
Daniel BAstos/MS