❌

Reading view

Carlos Moedas: “Achava que ia falhar como político, então reprimia esse desejo”

✇ECO
By: ECO

“E Se Corre Bem?” é a pergunta que dá nome ao podcast do ECO, que celebra hoje um marco especial: o episódio 100. Para assinalar o momento, o ECO recebeu Carlos Moedas, presidente da Câmara Municipal de Lisboa, um convidado cuja história de vida parece fazer juz ao mote deste podcast. Nasceu em Beja e mudou-se para Lisboa ainda sem ter a certeza de conseguir pagar o quarto que ia alugar, mas arriscou e foi esse primeiro “salto no escuro” que lhe abriu caminho para os voos seguintes.

“Quando eu cheguei a Lisboa, não conhecia ninguém. A sociedade era muito estratificada e, no fundo, os meus pais achavam que eu ia ficar por ali [Beja], mas eu queria mostrar que era possível ir mais longe e que podia fazer mais. Toda essa parte da minha vida teve muito a ver com essa luta interna e com tentar mostrar que não era por ter nascido ali que o meu destino era aquilo“, começou por dizer.

O destino tinha de ser maior e cumprir o propósito de “contribuir para ajudar outras pessoas”. Os professores diziam-lhe para seguir medicina, já que, além de ter média para isso, o faria participar no bem comum, algo que tanto valorizava. No entanto, a “incapacidade de ver sangue” sem se sentir mal, fê-lo optar por uma opção muito diferente, mas que, curiosamente, o levou a um caminho de igual entrega aos outros – Engenharia Civil.

“Sabia lá eu o que era ser engenheiro, mas fui para engenharia civil. E, em 1993, fui fazer Erasmus durante seis meses para França. Acabei por ser contratado para ficar lá e fui engenheiro em França durante cinco anos. Ou seja, fui de Beja para Lisboa e de Lisboa para Paris. Foi um salto enorme. Eu sempre quis provar que tomava riscos. As pessoas achavam que eu não era capaz de os tomar por causa das minhas inseguranças, mas eu precisava de provar a mim próprio que era capaz de sair da minha zona de conforto”, confessou.

Esta tendência de correr riscos para superar inseguranças levou-o, muitas vezes, a sentir falta de apoio nas suas tomadas de decisão. Era nesses momentos que se fazia sempre a seguinte pergunta: “E se corre bem?”. E avançava, mesmo sozinho. Prova disso foi o momento em que decidiu despedir-se do emprego em França e ir fazer um MBA para Harvard: “Disse à minha mãe e aos meus amigos que me ia despedir e que ia fazer um MBA para o qual não tinha dinheiro. Toda a gente me dizia que eu era maluco porque estava a ganhar bom dinheiro numa empresa francesa e tinha uma carreira à minha frente”.

A verdade é que nenhum desses comentários demoveu Carlos Moedas de prosseguir com a vontade de fazer o MBA e, quando chegou a Harvard, além de ter ficado encantado com a “qualidade” das pessoas que o rodeavam, começou a dar, sem saber, os seus primeiros passos em direção à sua grande paixão: a política. “No segundo ano do MBA, fui ter umas aulas na Kennedy School of Government, onde tive as minhas primeiras aulas de política”, contou.

“Eu já tinha o gosto pela política, mas havia duas coisas que me faziam reprimi-lo: uma era não querer chocar e dar um desgosto ao meu pai porque eu não me identificava, de todo, com a ideologia comunista. E, depois, achava que ia falhar como político, então reprimia esse desejo. Portanto, eu guardei o sonho de gostar de política até aos 40 anos porque eu tinha um bocado de medo de ir para a frente com isso e depois não correr bem“, admitiu.

  • Carlos Moedas, presidente da Câmara Municipal de Lisboa, é o 100º convidado do podcast "E se corre bem?" Hugo Amaral/ECO
  • "Eu guardei o sonho de gostar de política até aos 40 anos porque eu tinha um bocado de medo de ir para a frente com isso e depois não correr bem" Hugo Amaral/ECO
  • Hugo Amaral/ECO
  • Hugo Amaral/ECO
1 / 4

No entanto, à semelhança do que já havia acontecido antes na sua vida, houve um momento em que fez a pergunta ao contrário e pensou que, da mesma forma que podia correr mal, também poderia correr bem. E arriscou. Só que, antes de dar esse passo, ainda tinha uma dívida de 80 mil dólares para pagar o MBA: “Eu tinha de ir trabalhar para onde pagassem mais e consegui ir para um grande banco internacional, que me dava um bónus de 30 mil dólares. Acabei por ficar, mas nunca gostei de ser banqueiro. Apenas vi aquilo como uma passagem para ganhar algum dinheiro e pagar a dívida que tinha à escola“.

Apesar de não gostar de trabalhar na banca, ainda se manteve no setor durante alguns anos, até porque “era difícil sair”. Mas chegou a um momento em que a vontade de regressar a Portugal lhe pesava cada vez mais e acabou por ligar a um amigo a pedir-lhe que lhe avisasse caso soubesse de alguma oportunidade de emprego. A oportunidade surgiu cinco meses depois, numa área totalmente diferente, mas que lhe abria a porta de regresso a casa: “Havia um senhor espanhol que tinha uma empresa de investimento imobiliário com escritório em Lisboa. Disse que gostava de me conhecer, então eu fui a Madrid conhecê-lo e ele disse-me que eu ia para Lisboa e que íamos tornar aquilo numa grande empresa. E foi assim que eu vim gerir uma empresa imobiliária“.

Depois desta oportunidade, ainda tentou abrir a sua própria empresa de imobiliário, mas reconhece que deu o passo “antes do tempo” e que, por essa razão, “a empresa não foi um sucesso”. Ainda assim, esse “falhanço” permitiu-lhe ter “mais tempo para pensar na vida” e foi nesse intervalo que surge o convite que iria mudar a sua vida para sempre. “Um dia, a Sofia Galvão e o António Borges pediram-me para os ajudar no gabinete de estudos da Dra. Manuela Ferreira Leite, que me recebeu muito bem. Ela deu-me atenção, ouvia-me, e também me ajudou na minha formação. Tentei ajudá-la o máximo que podia e foi aí que eu entrei mesmo na política e fui para o PSD como militante“, disse.

Daí em diante, o seu percurso público é bem conhecido. Foi deputado à Assembleia da República, secretário de Estado Adjunto do Primeiro-Ministro no XIX Governo Constitucional, entre 2011 e 2014, e comissário europeu de 2014 a 2019. Entre 2020 e 2021, foi administrador da Fundação Gulbenkian. E a 26 de setembro de 2021, foi eleito presidente da Câmara Municipal de Lisboa, tendo tomado posse a 18 de outubro do mesmo ano.

“Quando me candidatei a presidente da Câmara, estava num momento da minha vida em que pensava como podia ter mais impacto. Já tinha estado no setor privado e estava numa fundação incrível, que era a Gulbenkian, mas achava que me faltava qualquer coisa… Eu queria mudar a vida das pessoas todos os dias e, para isso, tinha de fazer uma escolha que implicava passar de um salário de cinco vezes mais para cinco vezes menos. Perguntei: “Saio feliz? Se a resposta for sim, vamos”. Então lancei-me a achar que ganhava, obviamente. Era um risco enorme, portanto eu não podia pensar que ia correr esse risco para perder“, garantiu.

Correu o risco e percebeu que correu bem. Está agora no seu segundo mandato e garante: “Aqui e agora estou feliz. A minha vida acabou por me fazer ser tudo aquilo que eu não pensava que ia ser. E a verdade é que eu não sabia o que era ser presidente da Câmara, mas foi e é uma grande felicidade, só que com um peso enorme. A pessoa não pode fazer política para ser amado, a pessoa deve fazer política porque ama as pessoas“.

Este podcast está disponível no Spotify e na Apple Podcasts. Uma iniciativa do ECO, na qual Diogo Agostinho, COO do ECO, procura trazer histórias que inspirem pessoas a arriscar, a terem a coragem de tomar decisões e acreditarem nas suas capacidades. Com o apoio da Nissan e da Scalpers.

Seja o primeiro a saber quem é o próximo convidado do podcast E Se Corre Bem? Subscreva a nossa newsletter

  •  

Give My Head Peace: Comedies axed as BBC makes deep cuts

Perforated Ulster, Give My Head Peace, and The Long and the Short of it, all produced by the Hole in the Wall gang are being axed by the BBC.The Blame Game has also been culled.The BBC is making major cuts across the corporation as budget cuts take hold.BBC bosses say they have to make difficult decisions – but the cuts mean there will be no more local comedy on our screens.Ciarán Dunbar is joined by Tim McGarry and Damon Quinn and Michael McDowell from the Hole in the Wall Gang.

  •  
❌