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Presidenciáveis prometem investir em infraestrutura, mas desafio é execução

A infraestrutura ganhou espaço nas propostas dos candidatos à Presidência neste segundo turno e os caminhos apresentados são os mais diferentes possíveis, passando por maior participação do capital privado, continuidade dos investimentos públicos, concessões, PPPs e novos mecanismos de financiamento.

Mas existe uma convergência importante, que é urgente no país: o Brasil precisa ampliar os investimentos e acelerar a modernização de sua infraestrutura.

A dimensão do desafio, porém, talvez peça uma discussão que vá além de quanto o próximo governo pretende investir. No fim de 2025, a Agência Nacional de Transportes Terrestres (ANTT) e o Ministério dos Transportes anunciaram para 2026 uma carteira de oito leilões ferroviários e 13 rodoviários, com previsão de quase R$ 290 bilhões em investimentos.

É uma carteira que ajuda a mostrar o tamanho da demanda, e também da oportunidade, existente no país. Diante dessa escala, a pergunta para o próximo ciclo presidencial não deveria ser apenas ‘quanto mais vamos investir?’, mas principalmente ‘como vamos executar’.

Uma carteira bilionária, por si só, ainda não é infraestrutura. Entre o anúncio de um investimento e uma rodovia, ferrovia, porto ou outro ativo funcionando existe uma extensa cadeia de planejamento e execução: estudos de viabilidade, projetos de engenharia, licenciamento ambiental, modelagem econômico-financeira, segurança regulatória, contratação, mobilização de mão de obra e fornecedores e, finalmente, construção.

O principal desafio está em fazer com que todas essas etapas avancem de forma coordenada e com o nível de maturidade necessário.

Acelerar a infraestrutura não significa simplesmente encurtar prazos, mas investir na qualidade do planejamento e na integração entre poder público, órgãos reguladores, investidores, projetistas e empresas responsáveis pela execução. A esse cenário somam-se novos fatores de complexidade, como a implementação da reforma tributária e a mudança na jornada de trabalho, com o fim da escala 6×1.

Ambas as transformações podem pressionar os custos, exigir revisões nos modelos de contratação e alterar a organização operacional dos empreendimentos, com reflexos sobre orçamentos, cronogramas e produtividade.

Por isso, o debate eleitoral sobre infraestrutura precisa incorporar uma variável que nem sempre recebe a mesma atenção que os números de investimentos, frequentemente anunciados com grande ênfase: a maturidade dos projetos e sua capacidade de responder a um ambiente econômico, regulatório e trabalhista em transformação.

Os presidenciáveis apresentaram diferentes propostas para ampliar a capacidade de investimento do país. Há planos que enfatizam concessões e participação privada, outros que atribuem maior protagonismo ao investimento público e propostas que combinam diferentes instrumentos.

Independentemente do modelo escolhido nas urnas, entretanto, todos eles enfrentarão uma realidade comum: dinheiro disponível não elimina gargalos de execução.

É possível ter recursos e não ter um projeto suficientemente maduro. É possível estruturar uma concessão e enfrentar entraves posteriores.

Essa talvez seja uma das discussões mais importantes para o próximo ciclo de infraestrutura brasileiro. O país não parte do zero a cada eleição. Governos recebem carteiras de projetos em diferentes estágios de desenvolvimento, contratos em andamento e empreendimentos que atravessam mais de um mandato.

A infraestrutura trabalha com horizontes maiores do que os ciclos eleitorais e isso, por sua vez, exige continuidade, previsibilidade e capacidade de priorização.

O Brasil ainda possui necessidades enormes em logística, saneamento, mobilidade, energia e infraestrutura digital. Investir mais continuará sendo fundamental para elevar a produtividade e sustentar novos ciclos de crescimento. Mas talvez o próximo salto da infraestrutura brasileira dependa tanto da qualidade da execução quanto da quantidade de recursos mobilizados.

Bilhões previstos demonstram ambição, enquanto projetos bem estruturados atraem capital e obras concluídas geram produtividade.

Por isso, diante das propostas apresentadas pelos presidenciáveis, a discussão para 2027 deveria avançar em uma etapa: não basta definir quanto o Brasil pretende investir em infraestrutura, precisamos definir como transformar esses investimentos em projetos maduros, obras executadas e ativos efetivamente entregues à sociedade.

Marcos Borin é fundador e presidente da CTC Infra*

Os artigos publicados pelo CNN Infra buscam estimular o debate, a reflexão e dar luz a visões sobre os principais desafios, problemas e soluções enfrentados pelo Brasil e por outros países do mundo. Os textos publicados neste espaço não refletem, necessariamente, a opinião da CNN Brasil.
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Uma agenda para o setor elétrico brasileiro a partir de 2027

O próximo governo encontrará um setor elétrico diferente daquele previsto pela reforma de 2004. O Brasil construiu uma matriz elétrica altamente renovável, atraiu investimentos privados e ampliou a geração. Mas essa expansão não foi acompanhada pela modernização dos mercados que coordenam a operação e orientam os investimentos.

O resultado é um paradoxo: temos energia renovável abundante, mas dificuldades crescentes para aproveitá-la, custos elevados para garantir o suprimento e tarifas que comprometem a competitividade. O problema não está na transição energética nem em uma fonte específica, mas na incapacidade de adaptar as instituições à nova realidade tecnológica. Sua prioridade dependerá dos objetivos do próximo governo.

O sistema brasileiro foi concebido quando as hidrelétricas forneciam simultaneamente energia e flexibilidade operativa. A expansão eólica e solar mudou essa relação. Durante o dia, a geração fotovoltaica reduz a produção das demais usinas; ao entardecer, sua retirada exige rápida elevação da geração controlável. Erros de previsão renovável também precisam ser compensados continuamente.

A flexibilidade, antes abundante, tornou-se valiosa, mas o mercado ainda não dispõe de preços capazes de revelar adequadamente seu valor econômico, apesar de experiências internacionais.

As consequências se reforçam. Sem preços para serviços operativos, faltam incentivos a baterias, resposta da demanda e outras fontes de flexibilidade. Subsídios a tecnologias específicas estimulam novos projetos mesmo quando sua contribuição adicional é pequena. Quando a geração renovável supera o consumo ou a capacidade de escoamento, o operador determina cortes compulsórios, o chamado curtailment.

Ao mesmo tempo, no pôr do sol, quando dezenas de gigawatts de geração solar distribuída deixam de contribuir para o atendimento da demanda, o governo contrata, por leilões de reserva de capacidade, recursos na alta tensão por longos períodos, repassando os custos aos consumidores.

Não se questiona a segurança do suprimento nem a importância dos leilões. A questão é o salto lógico de que contratações de longo prazo são a melhor forma de lidar com as falhas de um mercado de curto prazo que não precifica os serviços exigidos pela operação. Sem corrigir a origem, cada necessidade produz um novo encargo, subsídio ou contratação. Soluções apresentadas como “pragmáticas” mascaram problemas estruturais, cujos custos se acumulam como juros compostos.

A Conta de Desenvolvimento Energético (CDE), que cresceu em média 16,5% ao ano desde 2004, ilustra o avanço dos encargos. O resultado é um setor mais complexo, oneroso e dependente de decisões administrativas.

O próximo governo pode interromper esse processo em três frentes.

A primeira é aproximar os preços da operação física, mas princípio básico amplamente violado no Brasil. Mercados do dia seguinte e de tempo real, com dupla contabilização e preços vinculados ao despacho otimizado a cada dez minutos, revelariam o valor da energia em diferentes horários e localidades. É preciso também precificar serviços ancilares, sobretudo as reservas que compensam a variabilidade e a incerteza renováveis. Sua remuneração deve ser competitiva e tecnologicamente neutra, permitindo a participação de hidrelétricas, termelétricas, baterias e consumidores.

Os custos dessas reservas devem ser alocados segundo sua causalidade econômica, evitando transferências indevidas. O ERCOT, operador do Texas, reduziu em 2010 os intervalos de seu mercado de tempo real de 15 para cinco minutos e introduziu, em dezembro de 2025, a cootimização de energia e serviços ancilares, com benefícios estimados em mais de US$ 1 bilhão.

A segunda é reformular a expansão. Os leilões devem deixar de contratar tecnologias e quantidades predeterminadas para avaliar a contribuição integrada de cada projeto, inclusive a entrada de grandes cargas, como data centers. O valor de uma usina depende de quando e onde produz, da flexibilidade que oferece, da transmissão e de sua complementaridade com o parque existente, não apenas do preço da energia ou da potência firme.

Modelos de planejamento já utilizados no setor, e com os quais a EPE tem ampla experiência, permitem integrar geração, armazenamento, transmissão e confiabilidade para selecionar projetos em um leilão que seleciona ao menor custo global. Os leilões podem incorporar ofertas de grandes consumidores pelo acesso à rede, condicionando sua entrada a contribuições que cubram os custos adicionais de integração.

Isso posicionaria o Brasil como polo de geração e grandes cargas, com responsabilidade econômica, preservando o planejamento centralizado e usando a competição para selecionar investimentos.

A terceira é modernizar o varejo, reconhecendo as diferenças entre consumidores e oferecendo incentivos para que respondam às condições do sistema. No segmento residencial, mudar tarifas isoladamente tem efeito limitado. É preciso combinar preços e tecnologia, como ocorreu com os eletrodomésticos no racionamento em 2001, agora para promover flexibilidade.

O desafio inclui não apenas o consumo, mas também a injeção solar distribuída. Experiências internacionais mostram como incentivar baterias e equipamentos que ajustem automaticamente seu funcionamento às necessidades do sistema, sem comprometer o conforto. Isso exige uma agenda ministerial coordenada com a indústria de equipamentos.

Nos segmentos comercial e industrial, o retorno econômico estimula mais diretamente a gestão do consumo e a oferta de flexibilidade. Para aproveitar esse potencial, é preciso reformar a remuneração das distribuidoras, hoje centrada em retorno sobre CAPEX, e desenvolver mercados locais de flexibilidade, novos mecanismos de remuneração e pagamento e novos modelos de negócio, como nos Estados Unidos e na Europa. Esses mercados devem integrar-se ao atacado, com a participação de agregadores e comercializadores varejistas.

Essas frentes não significam substituir o planejamento por um mercado desregulado. Exigem planejamento integrado ao mercado, instrumentos econômicos coerentes com a operação e implementação gradual, com testes, cronograma público e segurança jurídica. A abertura do varejo deve ampliar escolhas sem ocultar custos em encargos.

O Brasil pode transformar sua matriz elétrica em vantagem competitiva duradoura. O desafio não é escolher tecnologias vencedoras, mas criar regras capazes de atrair os recursos necessários. Uma política energética bem-sucedida entrega eletricidade confiável, limpa e acessível. Precisamos de menos exceções e melhores regras.

Problemas complexos raramente admitem soluções simples, mas o setor já demonstrou capacidade para enfrentá-los. Sem uma reforma abrangente, uma vantagem estratégica continuará a produzir custos e obstáculos ao desenvolvimento. O próximo governo terá de escolher entre enfrentar as causas estruturais ou continuar administrando suas consequências.

* Alexandre Street é professor associado, PUC-Rio, Tinker Visiting Professor, Stanford University

Os artigos publicados pelo CNN Infra buscam estimular o debate, a reflexão e dar luz a visões sobre os principais desafios, problemas e soluções enfrentados pelo Brasil e por outros países do mundo. Os textos publicados neste espaço não refletem, necessariamente, a opinião da CNN Brasil.
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