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NO PRINCÍPIO ERA O VERBO

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A oralidade é meu culto.

As mães embalam os filhos cantando 

ou dizendo palavras nas nossas línguas todas.

Ana Paula Tavares, entrevista à revista Buala, 2010.

No passado sábado, dia 17, realizou-se na Universidade Autónoma de Lisboa, o VI Encontro EscritAfricando, um projeto da Associação Ser Mais Valia (SMV), que tem como objetivo satisfazer o anseio de jovens africanos que querem iniciar-se na escrita de textos em língua portuguesa e vê-los publicados. Habitualmente, a parte da manhã deste encontro tem um programa de caráter mais prático em que se trabalha uma oficina temática. Depois de, em anos anteriores terem sido tratados o texto literário e não literário, a poesia, o conto, a crónica, desta vez coube à escritora guineense, autora de literatura infantojuvenil, Kátia Casimiro, orientar uma oficina sobre a oralidade.

Sabemos que a voz antecede a escrita e é pelas diferentes vozes que nos chega a perceção do mundo que nos cerca. É pela voz do colo que nos embala, das canções de ninar que nos adormecem, do chamamento a que de imediato reagimos, das lengalengas rimadas, de todos os que habitam o mesmo espaço das nossas memórias (a que chamamos casa) numa diversidade de entoações, que aprendemos a descodificar a palavra a partir dos primeiros dias da nossa existência.

Se a voz é importante para todos nós, ela ganha particular destaque nas comunidades africanas para a preservação da história, da cultura e dos valores éticos que contribuem para a afirmação de uma identidade coletiva. É nestas sociedades que a oralidade ganha o estatuto de oratura, ou seja, em que o saber é transmitido de geração em geração sem o suporte físico da escrita.  A Ilíada e a Odisseia de Homero, inicialmente transmitidas de forma puramente oral durante séculos, chegaram até nós graças à perenidade da palavra escrita.

Em determinado momento da sessão de trabalho, Kátia Casimiro lembrou um episódio passado na Guiné, quando aí se deslocou a convite de uma escola onde teve a oportunidade de dar a conhecer a sua obra. Exímia contadora de histórias, interagia com as crianças quando, a propósito de uma das personagens dos seus contos, perguntou ao grupo o que queriam ser quando fossem grandes. Estamos habituados a que a maioria se sinta atraída por um conjunto de referências e modelos a que os meios de comunicação e as redes sociais se encarregam de dar maior visibilidade (jogadores de futebol e outros desportistas), cantores, atores ou outras profissões que conferem um determinado estatuto profissional. Um dos miúdos, porém, fugiu a esta corrente dominante e disse que queria ser “avô”. A Kátia, espantada com a resposta, e pensando que tinha ouvido mal, insistiu para desfazer a dúvida: “Queres ser o quê?” E a resposta veio novamente pronta: “Quero ser avô.” Segura agora do que ouvira, perguntou: “E queres ser avô, porquê?” A criança não hesitou: “Porque o meu avô conta muitas histórias.” E é porque somos feitos de histórias que vale a pena ouvi-las, enquanto palavra falada tiver a força criadora para despertar o nosso imaginário e nos ligar aos nossos ancestrais. Os avôs são, por isso, os guardiões das linhagens familiares que preservam comportamentos traduzidos numa sabedoria prática e filosófica acumulada ao longo de séculos.

Durante o longo período da colonização, foi prática corrente impedir que as populações se exprimissem nas línguas maternas. Foram, portanto, as narrativas orais, as músicas e os cantos que conseguiram manter viva as línguas locais como resistência à interdição de quem as usava. Ora, os avôs mais não são do que os velhos guardiões dessa memória, que faz jus ao que afirmou o escritor e historiador maliano Amadou Hampâté Bâ: “Quando um velho morre, é uma biblioteca que se queima.”

Aida Batista/MS

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