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Produção de leite em Pernambuco sofre impactos do fenômeno El Niño

*Com contribuição de Elaine Dias, da TV Jornal Interior

A intensificação do fenômeno El Niño tem elevado os custos de produção e reduzido o rendimento das fazendas leiteiras no Agreste de Pernambuco. Com reservatórios em níveis baixos, pastagens comprometidas e temperaturas elevadas, manter o rebanho e garantir o abastecimento de leite são desafios enfrentados diariamente.

Pernambuco produziu 1,53 bilhão de litros de leite em 2025, segundo dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), ocupando a sétima posição entre os maiores produtores do país e liderando a produção no Nordeste. De acordo com o Sindicato dos Produtores de Leite de Pernambuco (Sinproleite-PE), o estado reúne aproximadamente 60 mil produtores, dos quais 80% são pequenos criadores.

A atividade se concentra principalmente no Agreste, que constitui a maior bacia leiteira pernambucana. Formada por 71 municípios, essa mesorregião produziu 963 milhões de litros em 2023, de acordo com levantamento da Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa). Entre 2013 e 2023, o volume cresceu cerca de 127%, consolidando a importância da atividade para a economia regional.

Cristiane Ribeiro/JC

Seca atinge o bolso dos produtores

O avanço da seca, porém,não só ameaça, como jáeleva os custos para manter os animais e sustentar esse volume de produção. Em alerta sobre as condições climáticas, a Agência Pernambucana de Águas e Clima (Apac) prevê temperaturas acima da média em todo o estado entre outubro e dezembro de 2026, com possibilidade de agravamento da seca e redução da umidade do solo.

Conforme explica o professor de Agrometeorologia da Universidade Federal Rural de Pernambuco (UFRPE) Géber Moura, já é característico do fenômeno El Niño a diminuição de chuvas no Nordeste do Brasil: "forma-se uma circulação atmosférica em que o vento, ao invés de subir para formar nuvens, desce. Isso faz com que tanto impeça as chuvas, quanto aumente a temperatura".

Entretanto, a maior intensidade do El Niño de 2026 estendeu a seca para além do que os produtores esperavam para o período do ano, quando resquícios de frente fria costumam atingir a região e auxiliar nas chuvas. Os registros da APAC mostram que, de 2025 para 2026, houve uma redução de acumulados de chuva de até 48,5% em microrregiões do estado, como é o caso do Vale do Ipanema.

Cristiane Ribeiro/JC

Esses números se convertem em custos para os produtores da bacia leiteira de Pernambuco. Saulo Malta, presidente do Sindicato dos Produtores de Leite de Pernambuco (Sinproleite-PE), conta que a classe já lida com as consequências da seca.

"Já recebemos pedido de apoio de Itaíba, Águas Belas, Bom Conselho e um pouco em São Bento do Una". Durante a conversa com a reportagem do JC, Saulo recebeu ligações de produtores em busca de suporte. Alguns deles estão há mais de 60 dias tendo que pagar fretes caros para transportar água para os animais, uma vez que as reservas das propriedades já secaram.

Flávio Lima/TV Jornal Interior

Outro ponto que afeta o bolso dos produtores de leite é a alimentação do gado, já que o reforço em ração faz-se necessário ante o comprometimento do pasto. Em São Bento do Una, o produtor Clécio Pacheco compra silagem de milho, cevada úmida, palma e bagaço de cana para alimentar as suas 50 vacas em lactação.

"Em agosto já começou a aumentar. A gente comprava soja a R$102 o saco de 50kg, e estamos comprando a R$145 hoje", conta. Ele cita outras variações de preço que têm pesado na manutenção do seu rebanho:

  • Saco de trigo: de R$35,00 por R$52,00;
  • Cevada: de R$350,00 por R$450,00;
  • Bagaço de cana: de R$300,00 por R$400;
  • Silagem de milho: de R$300,00 chegando até R$500,00

Apesar do aumento dos gastos, Clécio explica que o preço do produto não se eleva para o consumidor final, uma vez que o leite produzido nas fazendas é repassado para fábricas de laticínios em preços definidos por elas, em média por R$2,50. "A gente não tem essa força de dizer que, se aumentou X na produção, vamos repassar o produto X% mais caro. O preço do repasse se mantém".

Flávio Lima/TV Jornal Interior
Fazenda leiteira em São Bento do Una, no Agreste de Pernambuco - Flávio Lima/TV Jornal Interior

Animais sofrem e produção cai

Em média, a produção diária da fazenda de Clécio costumava ser de 1.200 litros de leite, mas a partir de setembro começou a cair e atualmente gira em torno de 950L/dia. "É um impacto que não tem como não sentir. E quando chega 15h, que vamos fazer a ordenha, as vacas já estão cansadas".

Os animais também sofrem. O médico veterinário Sebastião Guido, pesquisador do Instituto Pernambucano de Agronomia (IPA), explica como o chamado estresse térmico influencia nessa baixa: "como a produção de leite demanda muita energia do organismo da vaca, ela vai diminuir o repasse de energia para a produção de leite para tentar mecanismos de enfrentar a temperatura mais elevada".

Para frear esses efeitos, as principais orientações para os produtores são garantir que os animais tenham acesso à quantidade de água suficiente para manter o organismo funcionando e buscar formas de proporcionar conforto a eles, com sombreamento natural ou artificial.

Clécio tem tomado medidas desse tipo. Ele está instalando sombretes artificiais tanto na área onde as vacas esperam pós ordena, como também onde ficam os cochos. "Estamos tentando dar o mínimo conforto para elas, porque não tem como ficar embaixo de um sol desse, que ainda vai aumentar".

Flávio Lima/TV Jornal Interior
Fazenda leiteira em São Bento do Una, no Agreste de Pernambuco - Flávio Lima/TV Jornal Interior
Flávio Lima/TV Jornal Interior
Fazenda leiteira em São Bento do Una, no Agreste de Pernambuco - Flávio Lima/TV Jornal Interior
Flávio Lima/TV Jornal Interior
Fazenda leiteira em São Bento do Una, no Agreste de Pernambuco - Flávio Lima/TV Jornal Interior

El Niño vai se intensificar

A tendência é que os efeitos do El Niño se intensifiquem ainda mais. De acordo com Nota Técnica emitida pela Agência Pernambucana de Águas e Clima (Apac), a previsão é de que haja "persistência do aquecimento ao longo do segundo semestre de 2026 e início de 2027". A intensidade do fenômeno neste ano é explicada por uma combinação de fatores, explica o professor Géber Moura:

  • Acúmulo de calor no oceano;
  • Temperaturas da superfície do Pacífico entre 3,5 °C e 3,8 °C ,acima da média climatológica;
  • Aquecimento da atmosfera;
  • Enfraquecimento dos ventos alísios, que favorece o aumento da temperatura do mar.

Além disso, a interação entre os oceanos Pacífico e Atlântico, especialmente o aquecimento maior do Atlântico Tropical Norte em relação ao Sul, contribui para intensificar o fenômeno. Somente a partir do semestre AMJ, correspondente a Abril, Maio e Junho, é que os impactos diretos associados ao El Niño, como a tendência de seca, irregularidade de chuvas e as altas temperaturas devem perder força.

Todavia, os danos à bacia leiteira já estarão instalados. O agrometeorologista pontua ainda que "se a previsão é continuar até março, implica dizer que não há reversão para o próximo ano. O foco agora é 2028. Então há a necessidade de investir em planejamento agora".

EL NIÑO AGRAVA SECA E AUMENTA CUSTOS DA PRODUÇÃO DE LEITE EM PERNAMBUCO

Já o veterinário do IPA, Sebastião Guido, esclarece algumas das ações que o Instituto tem conduzido para auxiliar nas fazendas. Uma delas é a priorização de animais de raças mais termotolerantes, que vão sofrer menos com as mudanças climáticas. "Dependendo do grau de pureza da raça que ele cria, esses animais podem ser mais exigentes do ponto de vista de conforto".

De acordo com ele, o IPA tem escritórios da extensão rural em todo o estado, fazendo um processo de acompanhamento contínuo com os produtores, que podem buscar orientações e relatar situações que estão enfrentando. Os técnicos do Instituto também fazem visitas regulares aos produtores assistidos.

Flávio Lima/TV Jornal Interior
Fazenda leiteira em São Bento do Una, no Agreste de Pernambuco - Flávio Lima/TV Jornal Interior
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Fazenda leiteira em São Bento do Una, no Agreste de Pernambuco - Flávio Lima/TV Jornal Interior
Flávio Lima/TV Jornal Interior
Fazenda leiteira em São Bento do Una, no Agreste de Pernambuco - Flávio Lima/TV Jornal Interior

Na ponta da produção, a classe não tem medido esforços para garantir que não falte leite na casa dos consumidores. Além de medidas como estoque de alimentos, plantio de palmas com antecedência e a criação de fontes artificiais de sombra, também têm buscado apoio governamental para amenizar a escassez hídrica.

O presidente do Sinproleite contou ao Jornal do Commercio que propostas estão sendo elaboradas junto ao Governo do Estado para facilitar o acesso dos produtores à água para seus rebanhos. "Como a gente diz, o produtor de leite, ele é um guerreiro. Não vai deixar faltar para os seus animais, mas o custo é muito elevado".

Assista a reportagem em vídeo:

 

© Flávio Lima/TV Jornal Interior

Fazenda leiteira em São Bento do Una, no Agreste de Pernambuco
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