Ana Rita Arruda a magia da lã entre a tradição e a arte contemporânea

Da herança têxtil da Covilhã à criação de esculturas tridimensionais, Ana Rita Arruda transforma fibras de lã em peças que desafiam os limites do artesanato e da arte contemporânea. Depois de uma carreira na tradução, encontrou na feltragem a sua verdadeira vocação, dedicando-se à exploração das formas orgânicas, à experimentação artística e à formação de novas gerações.
A ligação de Ana Rita Arruda aos têxteis nasceu entre memórias familiares, tradições artesanais e o fascínio pelas cores e texturas dos tecidos. Natural da Covilhã, cidade profundamente marcada pela indústria têxtil, cresceu num ambiente onde o saber-fazer manual ocupava um lugar especial. A avó materna, professora de trabalhos manuais no antigo liceu de meninas da cidade, dominava técnicas como o bordado, o croché, o tricô e a costura, transmitindo-lhe, desde cedo, a proximidade com este universo criativo. Em criança, Ana Rita sonhava ser estilista. Fascinava-a a diversidade de tecidos e a possibilidade de transformar materiais em peças únicas. O percurso profissional, porém, começou longe das artes têxteis. Formou-se em Línguas e trabalhou durante vários anos como tradutora e intérprete de neerlandês, alemão e inglês, sem nunca abandonar por completo o interesse pelos trabalhos manuais. A mudança decisiva surgiu através do encontro com uma artista têxtil neerlandesa que, ao conhecer os trabalhos que Ana Rita desenvolvia nos tempos livres, reconheceu o seu potencial e a convidou a aprender uma nova técnica de feltragem. A experiência revelou-se determinante: em apenas três anos, deixou a tradução para se dedicar a tempo inteiro à criação artística. Hoje, a feltragem é a base de um trabalho que transforma fibras de lã soltas em esculturas sólidas e formas tridimensionais.
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Sem necessidade de tecnologia complexa, o processo depende sobretudo das mãos, da água, do sabão e de um trabalho físico persistente. Através da fricção, as fibras entrelaçam-se e compactam-se, dando origem a materiais resistentes e a formas surpreendentes. Trata-se de uma técnica ancestral, preservada em diferentes tradições artesanais, nomeadamente na Mongólia, em Marrocos e na Turquia, que Ana Rita reinventa através de uma linguagem artística contemporânea. No seu ateliê, no Porto, encontra o espaço ideal para experimentar materiais, desenvolver ideias e explorar novas possibilidades. As suas criações inspiram-se frequentemente nas estruturas e formas da natureza: intestinos, ondas de água, moluscos e líquenes são algumas das referências que alimentam o seu imaginário. O resultado são peças de forte expressão orgânica, onde o contraste entre materiais, texturas e acabamentos assume um papel central.
A lã, de aparência baça e suave, pode combinar-se com superfícies brilhantes ou elementos de maior rigidez, criando esculturas que oscilam entre o acolhedor e o inquietante, o familiar e o misterioso. Algumas parecem quase vivas, evocando formas animais ou organismos que poderiam existir num universo desconhecido. Por detrás da aparente delicadeza destas obras está um processo exigente, que requer tempo, experimentação e capacidade de superar obstáculos. Para Ana Rita, criar implica investigar, inventar e aceitar que o erro faz parte do caminho até à concretização de uma peça.
Os desafios variam consoante a dimensão e a complexidade do trabalho. Se as peças mais pequenas exigem precisão e atenção ao detalhe, as esculturas de grandes dimensões colocam dificuldades físicas consideráveis. Quando molhada, a lã pode tornar-se extremamente pesada, chegando uma única peça a atingir os 15 quilos. Dobrar, movimentar e organizar o material exige, por isso, técnicas específicas e, em determinados projetos, a colaboração de assistentes.
Entre os trabalhos que marcaram o seu percurso está O Caos e a Diva, criado para o New Hand Lab, na Covilhã. Instalado numa antiga fábrica, este espaço conjuga património industrial têxtil, criação artística e colaboração entre profissionais. A obra de Ana Rita explora o conceito matemático do caos através de uma forma entrelaçada que evoca uma borboleta, cruzando a feltragem tradicional com o tufting, técnica que permite inserir fios numa superfície com recurso a ferramentas específicas. A criação artística não esgota a atividade de Ana Rita Arruda.
A formação e a partilha de conhecimento ocupam também um lugar importante no seu percurso. Ao longo dos anos, colaborou com instituições como a Escola Secundária Soares dos Reis e a Escola Secundária António Arroio, contribuindo para aproximar os estudantes das possibilidades expressivas das artes têxteis. Quando começou a trabalhar com feltragem, a oferta formativa nesta área em Portugal era praticamente inexistente. Perante essa realidade, assumiu o compromisso de divulgar a técnica, promover a aprendizagem e contribuir para a criação de uma comunidade em torno desta prática artística, levando-a a escolas e universidades. O seu trabalho demonstra que as técnicas tradicionais não têm de permanecer confinadas ao passado. Pelo contrário, podem constituir um ponto de partida para novas linguagens, cruzamentos disciplinares e formas de expressão. O futuro de Ana Rita Arruda passa pela participação em exposições, novos projetos e residências artísticas, incluindo uma experiência prevista na Estónia. Entre as áreas que pretende continuar a explorar está a ligação entre o têxtil e a tecnologia, nomeadamente através da soft robotics, ou robótica suave, procurando novas possibilidades de integração com a feltragem. Entre formações, encomendas personalizadas para arquitetos e colaborações multidisciplinares, a artista continua a alargar os horizontes de uma matéria-prima tão antiga quanto versátil. Na sua obra, a lã deixa de ser apenas um material associado à tradição para assumir novas formas, volumes e significados. O percurso de Ana Rita Arruda mostra como a memória artesanal pode alimentar a inovação e como, através da experimentação e da persistência, uma fibra natural se pode transformar numa expressão singular da arte contemporânea.
Paulo Perdiz/MS