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Received — 4 October 2026 ⏭ Agência Pública

Páginas de fofoca no Instagram enaltecem Derrite e Tebet às vésperas da votação

4 October 2026 at 20:16

O Núcleo identificou páginas de fofoca de grande alcance no Instagram que fizeram publicações com texto semelhante e quase simultaneamente que enaltecem dois candidatos ao Senado por São Paulo, na noite deste sábado (3.out.2026), às vésperas da votação do primeiro turno. Nenhuma delas sinaliza se o conteúdo se deu mediante publicidade.

Por que isso importa?

  • O Tribunal Superior Eleitoral proíbe, desde 48h antes até 24h depois da eleição, a circulação paga ou impulsionada de propaganda eleitoral na internet, mesmo se a contratação tiver sido realizada antes desse prazo. Campanha velada, sem sinalização, pode configurar crime eleitoral.

No caso do deputado federal Guilherme Derrite (PL-SP), foram 18 perfis que postaram que o candidato defende que facções criminosas sejam enquadradas como organizações terroristas. Em quatro páginas (@alfinetei, @acerteinoticias, @portalfoquei e @kimfofoca), tanto a legenda quanto a imagem eram as mesmas: “LINHA DURA CONTRA O CRIME! Derrite defende classificar facções criminosas como organizações terroristas”.

Reprodução de post na página @alfinetei, de 3.out.2026, curtida por Derrite e posteriormente apagada
Reprodução de post na página @alfinetei, de 3.out.2026, curtida por Derrite e posteriormente apagada

A página com maior número de seguidores que veiculou o post foi a @alfinetei. A publicação teve, inclusive, curtida do perfil oficial de Derrite.

À reportagem, a assessoria de Derrite disse que “a campanha não tem nenhum envolvimento ou investimento nesses canais de comunicação”. Coincidentemente, após contatarmos a campanha, a publicação na página @alfinetei foi excluída. Os posts feitos por @diferentona, @asatualidades e @odiariobrasileiro também foram apagados depois que a reportagem procurou as páginas.

No caso da ex-ministra Simone Tebet (PSB), 11 páginas repercutiram ontem, também quase simultaneamente, um corte de uma declaração dela sobre redução da maioridade penal que foi dada durante debate de candidatos ao Senado na Band, em 9.set.2026.

Reprodução de post da página @fofocas, publicada em 3.out.2026
Reprodução de post da página @fofocas, publicada em 3.out.2026

Ela afirmou ser favorável à medida a pessoas a partir de 16 anos que tenham cometido crimes graves. Duas delas também haviam feito publicações sobre Derrite (@sobrefavela e @noticiasexplicadas).

A assessoria de Tebet não respondeu ao contato da reportagem até a publicação.

Em dez.2025, parte dessas páginas também promoveu feitos da gestão do governador Tarcísio de Freitas (Republicanos), que disputa a reeleição, conforme reportagem da revista piauí, de 12.jan.2026. São elas: @fofocas, @rainhamatos e @vemebuscarhebe, da Agência Buzz, que pertence à Mynd; e @alfinetei.

Tanto a Secretaria de Comunicação do Estado de São Paulo quanto a agência que representa as páginas negaram à revista o pagamento para repercutir as ações do governo.

O Núcleo buscou as páginas mencionadas pelos canais de comunicação disponíveis, como e-mail e mensagem direta pelo Instagram, mas não houve retorno até a publicação.

Redes, moral, identificação e mais: o que as eleições revelam, mas não aparece nas urnas

4 October 2026 at 08:00

No próximo domingo (4), os eleitores brasileiros irão votar em seus representantes para os cargos de presidente, governadores, senadores e deputados. Apesar da possibilidade da decisão para os cargos executivos ser definida apenas em um segundo turno e estender os prazos das campanhas eleitorais, a pauta política não deve se restringir apenas às vésperas de votação. Entender e acompanhar a atuação de cada cargo e partidos é fundamental para o desenvolvimento do país nos próximos anos.

Além do presidente e governadores de todas as unidades da federação, também serão definidas 513 cadeiras na Câmara e 54 das 81 do Senado. Para a cientista política Tathiana Chicarino, entrevistada no Pauta Pública desta semana, em um cenário de crescente personalização da política, os papéis dos partidos e do Legislativo muitas vezes ficam em segundo plano. Na conversa com Andrea Dip, ela também chama atenção para a forma como escândalos políticos e de corrupção ocupam o debate eleitoral, principalmente em período de campanha, e acabam transformando a política em espetáculo.

Coordenadora do curso de sociologia e política da Fundação Escola de Sociologia e Política de São Paulo (Fesp-SP) e pesquisadora do Observatório de Conflitos Online da Universidade Federal do ABC (UFABC), Chicarino afirma que “as eleições já têm um teor bastante personalizado e passa a ser consumida numa lógica entre bem e mal, com um enredo como se fosse uma novela ou um folhetim, e isso é muito despolitizante” e acrescenta que a política precisa ser trazida novamente para o debate público.

Leia os principais pontos da conversa e ouça o podcast completo abaixo.

EP 236 Eleições 2026 além da disputa presidencial – com Tathiana Chicarino

2 de outubro de 2026 · Cientista política explica o papel dos partidos, das redes sociais e do Congresso nas eleições de 2026

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Às vésperas das eleições, sob as atuais denúncias e conflitos envolvendo o Supremo Tribunal Federal (STF), os debates sobre as propostas políticas ficaram em segundo plano. Porém, a composição do Supremo depende diretamente de quem ocupa a presidência da República e o Senado Federal. Por que o Congresso Nacional é peça central na disputa de poder? E qual a importância de entendermos a atuação de cada cargo político e da relevância dessas eleições?

A gente costuma dizer que desde por volta de 2013, embora tenham eventos anteriores a isso, como a crise econômica de 2008, de 2010 em diante, inaugurou-se uma “década crítica” em que uma série de crises, de hegemonia e escândalos, vão perpassando nossa política institucional. Tivemos junho de 2013, Lava Jato; 2018, eleição do Bolsonaro, e agora mais uma eleição que, de novo, reforçamos sua importância, que se insere nessa conjuntura um pouco mais ampla.

Olhando para o STF, podemos até traçar um pouco antes, com o Mensalão. Em toda a dinâmica de espetacularização que o poder judiciário vem tendo no Brasil, a partir dos anos 2000, o Mensalão é um momento muito importante. Historicamente, a gente dá muito mais atenção às eleições dos cargos majoritários: presidência da república, governo de estado e prefeituras. As eleições já têm um teor bastante personalizado, então, quem é o candidato? O que aquele candidato representa em oposição a uma outra personalidade política?

No nosso período de construção de um sistema partidário no Brasil, por volta dos anos 1930, quando começamos a estruturar partidos políticos, temos um período de ditadura. Depois uma quadra democrática, a primeira com certa estabilidade – mas bem longe de ser Estado [Democrático de Direito]. Tem Juscelino Kubitschek quase não assumindo; Jânio Quadros renunciando; golpe [de 1964]… Quer dizer, os partidos, que estavam se estruturando, tendo alguma capacidade de articulação nacional e também de identificação, isso também é interrompido ali com a ditadura. Que depois vem a Arena e o MDB. Com a redemocratização, em 1979, abre-se uma lei orgânica de partidos e aí a possibilidade de criação de vários partidos.

O Partido dos Trabalhadores (PT), partido com a maior identificação partidária, é criado nesse contexto. De lá para cá, temos muitos partidos. É claro que, com algumas legislações de cláusula de desempenho – a chamada cláusula de barreira também –, se tenta diminuir o número de partidos políticos. Ainda assim, são muitos partidos e as pessoas mal conseguem identificar quais partidos são e qual a diferença entre um e outro. Vira tudo uma coisa grande, homogênea e disforme, chamada Centrão, e, do outro lado, o PT.

Mas, quando a gente fala de cargos do legislativo, é fundamental entendermos essa estrutura partidária. Porque, para deputados estaduais, federais e vereadores, nós votamos no partido, não votamos na pessoa em primeiro lugar. Nós votamos no partido e dizemos quem gostaríamos que ocupasse a cadeira que o partido porventura venha a ganhar.

O nosso trabalho é quase ranquear os candidatos. Assim, fica muito difícil para as pessoas entenderem as crises institucionais, que se estendem. Além das pessoas conseguirem pouco identificar o papel dos partidos no legislativo, essa eleição ainda foi completamente capturada por todo o discurso de escândalo político e de corrupção. É uma eleição bastante complexa desse ponto de vista.

Com as redes sociais, temos visto um crescimento justamente nessa personificação de quem ocupa os cargos políticos e menos destaque no peso institucional partidário, mesmo em projetos políticos, na composição do Congresso. Porque, na verdade, as campanhas políticas não acabam nunca, elas continuam online ininterruptamente e de uma maneira totalmente personificada. Então, quais são os efeitos e riscos dessa personalização e dessa espetacularização da política?

A espetacularização da política não é de agora, mas ela se intensifica. Então, o que seria essa espetacularização da política? É a gente consumir a política como uma mercadoria, e, sendo uma mercadoria: “eu vou escolher aquilo que mais me convém, se serve mais para mim, se tem mais status’. Enfim, ela passa a ser uma dinâmica bastante individualizante e muito pouco responsável, na qual as pessoas “se tornam muito pouco responsáveis por aquilo que consomem”. E política não é assim.

O político que está lá, eleito por nós, não é o nosso funcionário. Não é assim que funciona a política. A política tem como base interação e coletividade. Então, uma vez que votei, consumi, pronto, paguei, minha responsabilidade acabou. A espetacularização é exatamente isso: consumir a política a partir da mercadoria, da imagem do espetáculo, enquanto uma passividade. “Eu sou a plateia e o espetáculo está ali, e eu estou consumindo aquele espetáculo”.

Porque a lógica algorítmica das plataformas vai tracionar ainda mais esse tipo de conteúdo e adicionando a isso, uma camada de personalização, que tem relação com o histórico da construção da política no Brasil, especialmente em um sistema presidencialista.

Não importa o meu perfil – se eu estou em um coletivo ou partido político – as redes tracionam ainda muitos conteúdos que são individualizantes, de indivíduos personalizados. Então, esses dois elementos, a personalização e a espetacularização, ganham ainda mais fôlego, mais ênfase nesse contexto de plataformização, e aí coloca-se uma terceira: o escândalo.

A escandalização da política, que também temos passado em alguns momentos de lá para cá – e eu estou falando dessa década crítica de 2013 – tendo como marco importante esse processo de escandalização. A política passa a ser consumida numa lógica entre o “bem e o mal”, entre o “mocinho e o bandido”, tem um enredo que acompanha-se como se fosse uma novela, um folhetim. Isso é muito despolitizante, porque a política fica capturada nesse contexto pela moral. Então, “a moral diz o que é certo, o que é errado, o que é o bom, o que é o mal” e aí as pessoas ficam até um pouco confusas. “Nossa, mas ele era bonzinho, agora não é mais?”

E por quê? Porque a política é tratada dessa maneira, a partir da moralização. Também temos outras questões, como o corte neoliberal nas nossas vidas como um todo, na nossa vida, no trabalho e também na política, que puxa para uma superindividualização. Tudo isso que estamos vivendo.

Agora, como sair disso? A política precisa ser trazida novamente para o debate, a política, política mesmo, a discordância, a busca por consensos, ainda que sejam consensos temporários. Porém, dentro dessa década tem sido complexo trabalhar isso. Em termos, como de Antonio Gramsci (1891-1937), estamos passando por uma crise de hegemonia. Nessa década crítica em que é muito difícil encontrarmos um sentido de direção política.

Por isso que a eleição é importante, mas ela é um momento. Se tratarmos a eleição como algo que vai resolver todos os nossos problemas, ano que vem, vamos voltar aqui e falar “nossa, e as instituições, hein?”

Inclusive vimos isso acontecer na passagem de Bolsonaro para Lula em 2023. Quando Lula é eleito, então pensa-se que “acabou a extrema direita no Brasil”; depois quando Bolsonaro é preso, pensa-se “acabou a extrema direita e o bolsonarismo no Brasil”. Mas estamos vendo que não é assim. Como se deu a movimentação da direita, nesse caso?

É interessante trazer essa questão do Bolsonaro, enquanto a vitória eleitoral em 2018. Eu falo muito isso: “ele não é como um raio de luz que apareceu no céu azul, de repente. Nossa, ninguém estava vendo e, de repente, um candidato de extrema direita é eleito”. A construção já vinha acontecendo nas redes, desde pelo menos 2010. Por uma rearticulação das chamadas “novas direitas”, articulando-se com uma direita mais tradicional, uma direita muito radical, uma direita das “viúvas da ditadura”.

Todos esses movimentos ajudaram a rearticular essa direita, que passa a não ter mais vergonha e encontra em Bolsonaro um projeto político viável, do ponto de vista eleitoral. E isso não aconteceu só no Brasil; também pode-se pensar isso nos Estados Unidos, em outros países em que a extrema direita também passa a ter essa viabilidade eleitoral. Mas não foi uma derrota em 2018. Eles elegeram uma série de senadores, deputados, governadores, e em 2022 também, com muita estratégia, com táticas muito claras.

Então, isso está acontecendo de forma sistemática desde 2010. Em 2018, tem esse momento importante da vitória à presidência da República. De fato, a cadeira de presidente importa, tem muito poder, tem capacidade de desarticular projetos políticos que estão em andamento, em disputa, tem um processo de desinstitucionalização muito grande, de rompimento de política pública. O retrocesso é muito grande; perder uma presidência da República é algo muito importante, mas não resolve todos os problemas. – Como eu estava falando – o Jair Bolsonaro perde em 2022, é preso, julgado e, ainda assim, existe uma força política e social bastante expressiva.

Quase mil anúncios sobre Lula e Flávio na Meta foram pagos em dólar

3 October 2026 at 23:45

Ao menos 1.069 anúncios com menções a Lula (PT) ou Flávio Bolsonaro (PL) no Facebook, Instagram e Threads foram pagos em dólar durante a campanha eleitoral de 2026. Dados da Biblioteca de Anúncios da Meta analisados pela Agência Pública revelam que os conteúdos custaram ao menos US$ 120,8 mil.

Os anúncios circularam sem rótulo de conteúdo político, mecanismo exigido pelas regras da Meta, entre 16 de agosto e 30 de setembro. Por isso, foram removidos por violação das regras da plataforma. Mas antes disso chegaram a mais de 82 milhões de impressões (número de vezes que um anúncio apareceu em uma tela).

O rótulo exige uma maior transparência sobre os anunciantes. Se os anúncios não estiverem rotulados como políticos, as páginas não são obrigadas a informar quem pagou pelos anúncios nem o público ao qual os conteúdos foram direcionados.

Impulsionamento do exterior

Algumas, no entanto, divulgaram à Meta que os anúncios foram pagos usando uma plataforma de pagamentos norte-americana chamada pagolink.global, não disponível no Brasil. A empresa tem sede em Delaware, estado que não exige identificação de sócios. Através dela, foi impulsionada uma campanha de conteúdos a favor do candidato Augusto Cury (Avante), conforme revelou a Agência Lupa.

Dentre os anúncios analisados pela Pública, a PagoLink Global foi responsável, por exemplo, pelo pagamento de um anúncio com um vídeo desinformativo sobre Lula (PT). Nele, o deputado Nikolas Ferreira (PL-MG) tira de contexto uma fala do presidente para insinuar que ele teria ofendido garis. O post rodou nas redes sociais da Meta antes de ser suspenso, e atingiu mais de 150 mil impressões.

Anúncio com vídeo descontextualizado de Lula foi pago por empresa americana

Foi também através da PagoLink Global que foram impulsionados conteúdos contrários a Flávio Bolsonaro (PL). Entre eles, um anúncio que direcionava à reportagem do ICL que revelou que a empresa do candidato dividia endereço com escritório de Camilo Antunes, investigado por fraudes no INSS. O conteúdo atingiu mais de 70 mil impressões a um custo de US$ 200.

Anúncio pago por empresa dos EUA direcionava para reportagem sobre empresa de Flávio Bolsonaro (PL)

Para a advogada eleitoral Vânia Aieta, o mero uso de plataformas estrangeiras para o pagamento de anúncios não configura, por si só, uma violação, desde que seja declarado à Justiça Eleitoral.

Os anúncios, no entanto, violam norma eleitoral que proíbe o impulsionamento por terceiros.

“Não é permitido pagamento de impulsionamento se não for feito ⁠pela pessoa candidata ou por seu partido/federação ou diretamente da conta corrente eleitoral. Como a conta corrente eleitoral é obrigatoriamente em reais, também não pode haver pagamento em dólar”, explica o advogado Fernando Neisser.

Também é proibida a veiculação de anúncios com propagandas negativas sobre outros candidatos. “O impulsionamento de conteúdo em provedor de aplicação de internet somente poderá ser utilizado para promover ou beneficiar candidatura, partido político ou federação que o contrate”, diz a resolução nº 23.732/2024 do TSE.

“Impulsionamento ilegal tem previsão de multa de 5 mil reais ou o dobro do valor gasto naquele impulsionamento, o que for maior”, informa Neisser.

Questionada, a Meta afirmou que aplicou suas políticas contra os anúncios identificados pela Pública. “Nosso processo de análise de anúncios possui diversas camadas de revisão e detecção, antes e durante sua veiculação. Os anúncios citados pela reportagem foram corretamente identificados por nossos sistemas por não incluírem um rótulo sobre temas sociais, eleições ou política, e nossas políticas foram aplicadas a essas peça”, diz a nota encaminhada à reportagem.

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