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Quaest: Lula e Flávio precisam convencer o eleitor a sair de casa domingo

21 October 2026 at 15:59

A Quaest divulgada nesta quarta-feira mostra Flávio Bolsonaro (PL) com 45% das intenções de voto e Lula (PT) com 44%. Mas os dois candidatos deveriam prestar bastante atenção aos 9% que dizem votar em branco ou anular. Num segundo turno separado por um ponto, esse contingente tem tamanho para decidir a eleição.

E ainda existe outra disputa, que atravessa todos esses números. Convencer o brasileiro de que vale a pena sair de casa no domingo para escolher um dos dois. Dependendo da região em que essa ausência for maior, o presidente pode ser escolhido.

Recusa

Quem declara voto em branco ou nulo ainda pode ser conquistado. Parte desse eleitorado pode estar esperando uma razão para escolher, mesmo sem entusiasmo. Pode aceitar uma proposta, reconhecer alguma segurança ou concluir que precisa impedir a vitória do adversário. Os candidatos tiveram a campanha inteira para oferecer esses motivos. Chegam à última semana com uma parcela expressiva dos brasileiros recusando ambos.

A rejeição ajuda a entender essa dificuldade. Segundo a Quaest, 52% dizem não votar em Flávio de jeito nenhum, contra 47% que rejeitam Lula. O presidente reduziu sua rejeição em seis pontos desde a rodada anterior, enquanto a do senador oscilou dois pontos para baixo. Lula conseguiu diminuir a resistência ao próprio nome, mas continuou com os mesmos 44% de intenção de voto. Há espaço para conquistar eleitores, embora a redução da rejeição ainda não tenha se convertido em crescimento na preferência.

O medo de uma volta dos Bolsonaro ao poder pode encontrar alimento no comportamento de Flávio. A agressividade no debate do último domingo pode ter reforçado, em parte do eleitorado, a preocupação com a estabilidade de um eventual governo seu. A pesquisa não permite atribuir esse efeito ao encontro, até porque as entrevistas começaram no sábado e terminaram na terça-feira. Mas o risco político existe. Quem precisa tranquilizar o eleitor pode acabar oferecendo novas razões para deixá-lo desconfiado.

Ausência

A luta contra a desmobilização pode ser o maior desafio dos dois candidatos nesta reta final. É possível preferir Lula e não querer sair de casa para reelegê-lo. É possível escolher Flávio numa entrevista e chegar ao domingo sem disposição para votar nele. A preferência declarada precisa sobreviver ao cansaço, à decepção e à impressão de que nenhum dos dois merece o esforço.

Esse risco ganha importância onde a eleição estadual acabou no primeiro turno. Deputados e senadores já estão eleitos, governadores já comemoraram e parte das estruturas políticas perdeu o interesse imediato que mantinha a campanha funcionando. Cabe aos presidenciáveis fazer com que aliados continuem trabalhando e eleitores entendam que ainda têm uma decisão importante pela frente. Apoio anunciado por uma liderança só produz resultado se ajudar a colocar voto na urna.

Oito estados nordestinos, os três estados do Sul, além de São Paulo, Rio de Janeiro e Minas Gerais resolveram suas disputas de governo no primeiro turno. A possibilidade de desmobilização, portanto, alcança territórios fundamentais para os dois lados. Pernambuco está nessa conta. Aqui, o eleitor já escolheu a governadora e toda a sua representação parlamentar. Agora precisa encontrar motivação para voltar exclusivamente pela disputa presidencial.

Redutos

A Quaest mostra Lula com 61% no Nordeste, contra 31% de Flávio. No Sul, o senador tem 61%, e o presidente, 28%. No Sudeste, Flávio aparece com 48%, diante de 39% do petista. São vantagens que dependem do comparecimento para se transformar no saldo de votos necessário à vitória nacional. Se a ausência crescer principalmente entre os apoiadores de um deles, o adversário será beneficiado sem precisar convencer esses eleitores a mudar de candidato.

Por isso, o tamanho nacional da abstenção contará apenas parte da história. Será preciso observar onde ela cresceu e quais eleitores desistiram de votar. Lula pode manter uma preferência expressiva no Nordeste e perder votos decisivos porque seus apoiadores ficaram em casa. Flávio pode desperdiçar vantagens no Sul e no Sudeste pelo mesmo motivo.

Sexta

O debate da Globo, na próxima sexta-feira (23), será a última grande oportunidade dos dois de falar simultaneamente a esse eleitorado. Precisam conquistar quem pretende anular ou votar em branco e dar disposição a quem já escolheu, mas está cansado da campanha.

Se repetirem o campeonato de acusações do último domingo, poderão sair satisfeitos com os cortes para as redes e deixar mais gente sem nenhuma vontade de votar. Numa disputa de um ponto, cada candidato precisa estar muito preocupado com o eleitor que até concorda com ele, mas desliga a televisão e decide que domingo vai ficar em casa.

© ROBERTO JAYME/ASCOM TSE

Ausências vão definir quem preside o Brasil nos próximos quatro anos

Lula e Flávio podem perder a eleição para os próprios eleitores

20 October 2026 at 17:54

Lula (PT) e Flávio Bolsonaro (PL) passaram o debate de domingo tentando convencer os brasileiros de que o adversário não merece ser presidente da República. O problema é que podem ter convencido parte dos eleitores de que nenhum dos dois merece sequer o esforço de sair de casa para votar.

Pesquisas qualitativas realizadas depois do confronto mostraram uma reação preocupante. Houve indecisos que disseram preferir anular o voto. Até eleitores que já tinham escolhido um candidato demonstraram decepção. As duas campanhas precisam considerar que parte dos votos com os quais estão contando pode simplesmente não aparecer nas urnas.

Ausentes

O cientista político Antônio Lavareda, em artigo recente, apresentou um dado que deveria tirar o sono das duas campanhas. Mais de 33 milhões de brasileiros deixaram de votar no primeiro turno, uma abstenção superior a 21% do eleitorado. E essa ausência não prejudica todos os candidatos da mesma maneira.

Na comparação entre a última pesquisa e o resultado das urnas, considerando o eleitorado total, Lula perdeu oito pontos percentuais. Flávio perdeu cinco. Foi uma diferença suficiente para ajudar a explicar por que o petista, que aparecia à frente nas pesquisas, terminou ultrapassado pelo adversário. Portanto, não basta ter a preferência do eleitor. É preciso que ele compareça para transformar essa preferência em voto.

Desigualdade

Lavareda demonstra que a abstenção tem endereço social. Desde 2002, os candidatos presidenciais do PT registraram, em média, uma redução de oito pontos entre as pesquisas da véspera e os resultados das urnas, enquanto seus principais adversários perderam apenas dois. A explicação está, em parte, na composição do eleitorado. Cerca de seis em cada dez eleitores de Lula recebem até dois salários mínimos. Entre os de Flávio, pouco mais de um terço. Dados de 2022 mostram uma abstenção de 52,1% entre os eleitores analfabetos, contra 12,4% entre os que têm ensino superior completo. O voto tem o mesmo valor para todos, mas chegar até a urna pode exigir esforços muito diferentes.

Desânimo

É justamente aí que o debate de domingo ganha uma dimensão ainda mais preocupante. O eleitor que já enfrenta dificuldades para votar precisa encontrar uma razão para superar esses obstáculos. E o que Lula e Flávio ofereceram? Um presidente cansado, irritado e incapaz de explicar satisfatoriamente seu projeto para os próximos quatro anos.

Do outro lado, um candidato arrogante, agressivo e aparentemente mais interessado em debochar do adversário do que em apresentar soluções. A campanha eleitoral, que deveria estimular a participação, pode estar fazendo o contrário. As pesquisas qualitativas não permitem afirmar que a abstenção vai aumentar, mas mostram que os dois conseguiram produzir um sentimento perigoso para quem precisa de votos.

Mobilização

O risco é diferente para cada um. Lula tem uma base social historicamente mais vulnerável à abstenção e precisa impedir que o desânimo afaste seus próprios eleitores das urnas. Flávio depende de brasileiros que querem mudar o governo, mas não são necessariamente bolsonaristas. Se continuar oferecendo agressividade em vez de segurança, pode desestimular justamente quem precisa conquistar.

A eleição será decidida também pela capacidade de transformar preferência em comparecimento. Na reta final, os dois estão preocupados em conquistar os últimos indecisos. Mas deveriam olhar com mais atenção para os milhões de brasileiros que já escolheram um candidato e podem simplesmente não aparecer no domingo, porque acreditam que têm coisa melhor para fazer.

© ALOISIO MAURICIO/FOTOARENA/ESTADÃO CONTEÚDO

Flávio Bolsonaro e Lula interagem em debate

Lula e Flávio podem tirar do eleitor até a disposição de votar

19 October 2026 at 16:41

Lula (PT) e Flávio Bolsonaro (PL) podem ter conseguido uma proeza no debate de domingo. O eleitor entrou sabendo em quem votar e saiu se perguntando se vale a pena sair de casa. Depois de assistir àquela disputa de provocações, acusações e perguntas sem resposta, até quem já havia escolhido um dos dois ganhou motivos para reconsiderar o compromisso com a urna.

Os candidatos foram ao encontro para tentar tirar votos do adversário. Correm o risco de ter tirado do próprio eleitor a vontade de votar. Tem vendedor que é tão ruim que consegue estragar até o produto que o consumidor já gosta.

Desânimo

Ainda será preciso medir o efeito daquele espetáculo sobre o comparecimento no próximo domingo. Mas as campanhas deveriam prestar atenção ao risco que produzem com espetáculos lamentáveis como o do domingo.

Existe uma parcela do eleitorado que já fez sua escolha sem entusiasmo, sem admiração e sem qualquer disposição para defender o comportamento do candidato. São brasileiros que pesaram os problemas dos dois e decidiram apoiar aquele que consideram mais suportável. Esse voto exige tolerância, paciência para engolir defeitos em nome dessa decisão.

E os presidenciáveis parecem empenhados em descobrir até onde vai a paciência desse cliente estressando ele ao máximo.

O cidadão aceita engolir uma contradição, relevar uma declaração e conviver com uma companhia inconveniente. A cada concessão, tenta se convencer de que a alternativa seria pior. Até que liga a televisão esperando encontrar alguma justificativa para o esforço e recebe mais um constrangimento.

Precisa trabalhar na segunda-feira, pagar as contas, enfrentar seus problemas e ainda encontrar disposição para entregar o comando do país a alguém que parece incapaz de levar a própria candidatura a sério.

Obrigação

As campanhas tratam o comparecimento do eleitor como uma obrigação e a demonstração de capacidade do candidato como uma atividade facultativa. O brasileiro precisa defender a democracia, escolher o futuro, enfrentar a fila e assumir a responsabilidade pelo país. Lula e Flávio, aparentemente, podem cumprir a parte deles decorando provocações e oferecendo material para os cortes das redes sociais. Depois, seus auxiliares distribuem os vídeos e anunciam que um “jantou” o outro.

Há uma arrogância nessa relação. Os dois campos se comportam como se o medo do adversário garantisse o abastecimento eterno das urnas. O petista acredita que a ameaça da volta dos Bolsonaro resolverá qualquer resistência a Lula. O bolsonarista imagina que o desgaste do governo basta para tornar Flávio merecedor da Presidência. É um comportamento cretino, dos dois lados.

Limite

A campanha aposta que uma nova acusação fará alguém correr para a urna. Pode acabar convencendo esse mesmo eleitor de que é melhor ficar em casa. Preferência e disposição para votar são coisas diferentes. É possível continuar considerando um candidato menos perigoso e, ainda assim, perder o ânimo de dedicar parte do domingo a elegê-lo. Ele até responde pesquisa declarando que vota em um ou em outro. Mas no dia de votar, prefere ir à praia.

A Presidência exige discernimento para lidar com problemas que não desaparecem depois de uma ironia bem ensaiada. Se a abstenção aumentar nesse segundo turno não será por causa do histórico, da chuva, do sol ou do transporte público. Será porque os candidatos são medíocres. Se as campanhas não estão dizendo isso a eles, estão mentindo para agradar.

Respeito

Transformar cada assunto numa oportunidade para humilhar o adversário pode divertir a torcida, mas deixa o restante do país sem saber o que esperar do próximo governo. Os dois terão outra oportunidade no próximo debate. Que aproveitem para mostrar se podem ser presidentes da República mesmo ou se vão continuar se comportando como se fossem garotos disputando popularidade na turma do bairro.

© ALOISIO MAURICIO/FOTOARENA/ESTADÃO CONTEÚDO

Flávio Bolsonaro e Lula interagem em debate

Eleitor busca presidente e vê Lula e Flávio em campeonato de constrangimento

19 October 2026 at 02:48

O brasileiro foi procurar um presidente da República e encontrou dois candidatos disputando quem constrangia melhor o adversário. No primeiro confronto entre Lula (PT) e Flávio Bolsonaro (PL) neste segundo turno houve propostas, especialmente a partir do segundo bloco. Mas foi preciso atravessar um campeonato de lacração para chegar a elas. Perguntas viravam outras perguntas, respostas eram substituídas por provocações e o tempo disponível para discutir o Brasil era consumido na tentativa de produzir uma piada que agradasse à torcida.

Lacração

O primeiro bloco foi especialmente frustrante. Depois das perguntas dos mediadores, os candidatos tiveram tempo para administrar o confronto. A liberdade poderia ter permitido aprofundar assuntos, cobrar explicações e comparar caminhos. Serviu principalmente para uma disputa de frases de efeito. Lula insistia em perguntas que Flávio não respondia. Quando era cobrado, também recorria a respostas evasivas e devolvia o ataque. O eleitor precisava descobrir sozinho o que havia de concreto naquela conversa.

É possível que muita gente tenha se divertido. O eleitor também torce, ri quando seu candidato provoca e compartilha o trecho em que acredita que o adversário foi humilhado. As campanhas conhecem esse comportamento e trabalham para abastecê-lo. Só que a Presidência da República exige mais do que habilidade para produzir um vídeo de poucos segundos. Quem assistiu ao encontro procurando entender prioridades de governo teve razões para se incomodar.

Independentes

Para Flávio, o deboche excessivo trouxe um risco particular. Quem já vota nele pode ter gostado das piadas e das provocações. Quem ainda está avaliando se deseja entregar o país a outro Bolsonaro pode ter visto dificuldade para assumir a postura que o cargo exige. Fazer gestos enquanto o adversário fala, circular atrás dele e precisar de advertências dos mediadores ajuda pouco um candidato que precisa transmitir estabilidade e moderação.

Há um eleitor insatisfeito com Lula que não deseja comprar um novo período de confusão. Esse eleitor precisa encontrar em Flávio razões para confiar. O deboche pode até produzir solidariedade com o adversário atacado, inclusive entre pessoas inclinadas a votar no candidato do PL. Lula também tinha uma obrigação com esse público. Precisava responder às críticas ao seu governo e explicar o que faria de diferente. A dificuldade do adversário em se comportar não resolve a dificuldade do presidente em convencer.

Limites

O segundo bloco mostrou que era possível fazer melhor. Com uma dinâmica mais delimitada, apareceram discussões sobre saúde, Bolsa Família e microempreendedores individuais. Flávio falou de suas propostas e do Ministério da Prosperidade. Lula apresentou medidas voltadas aos MEIs e defendeu políticas de seu governo. Finalmente, havia mais elementos para o eleitor avaliar o que os dois pretendem fazer.

A contradição é incômoda. Quando tiveram mais liberdade para conduzir a conversa, os candidatos desperdiçaram boa parte dela. As regras ajudaram a organizar uma discussão que deveria interessar aos próprios postulantes à Presidência. Houve ainda intervenções para conter comportamentos inadequados e manifestações da plateia, que atrapalharam até as considerações finais de Flávio. Faltou respeito entre os candidatos, da plateia com quem falava e com o trabalho da emissora.

Desempenho

Lula foi um pouco melhor no primeiro bloco, sobretudo porque Flávio errou mais. O presidente conseguiu expor a ausência de respostas do adversário, embora também tenha escapado de cobranças. Sua vantagem naquele momento nasceu muito mais do excesso de deboche do candidato do PL do que de um desempenho especialmente convincente.

Flávio melhorou no segundo bloco quando ficou mais comedido e dedicou mais tempo às propostas. Foi seu melhor momento. No terceiro, houve equilíbrio e espaço para discutir o futuro do país, apesar de novas dificuldades. Lula mostrou problemas para administrar o tempo. Flávio voltou a exigir intervenções por seu comportamento durante a fala do adversário. Os dois tiveram falhas, mas elas precisam ser identificadas pelo que foram. Ambos poderiam ter oferecido mais.

Respeito

Depois de um primeiro turno sem debate entre os dois, havia uma expectativa legítima por esse encontro. O eleitor precisava vê-los submetidos a perguntas, cobranças e contestações diretas. A oportunidade existiu. Foi aproveitada apenas em parte, com propostas disputando espaço com provocações e interrupções.

No próximo confronto, Lula precisa explicar por que merece outro mandato e o que pretende mudar no governo que já comanda. Flávio precisa detalhar como executaria suas promessas e demonstrar que consegue oferecer estabilidade e moderação. Novas pesquisas estão a caminho. A Quaest divulga resultados na quarta-feira (21) e no sábado (24). O Datafolha terá números divulgados na quinta (22) e no sábado (24).

© ALOISIO MAURICIO/FOTOARENA/ESTADÃO CONTEÚDO

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e o senador Flávio Bolsonaro (PL), em debate promovido pelo Grupo Bandeirantes de Comunicação
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