Quaest: Lula e Flávio precisam convencer o eleitor a sair de casa domingo
A Quaest divulgada nesta quarta-feira mostra Flávio Bolsonaro (PL) com 45% das intenções de voto e Lula (PT) com 44%. Mas os dois candidatos deveriam prestar bastante atenção aos 9% que dizem votar em branco ou anular. Num segundo turno separado por um ponto, esse contingente tem tamanho para decidir a eleição.
E ainda existe outra disputa, que atravessa todos esses números. Convencer o brasileiro de que vale a pena sair de casa no domingo para escolher um dos dois. Dependendo da região em que essa ausência for maior, o presidente pode ser escolhido.
Recusa
Quem declara voto em branco ou nulo ainda pode ser conquistado. Parte desse eleitorado pode estar esperando uma razão para escolher, mesmo sem entusiasmo. Pode aceitar uma proposta, reconhecer alguma segurança ou concluir que precisa impedir a vitória do adversário. Os candidatos tiveram a campanha inteira para oferecer esses motivos. Chegam à última semana com uma parcela expressiva dos brasileiros recusando ambos.
A rejeição ajuda a entender essa dificuldade. Segundo a Quaest, 52% dizem não votar em Flávio de jeito nenhum, contra 47% que rejeitam Lula. O presidente reduziu sua rejeição em seis pontos desde a rodada anterior, enquanto a do senador oscilou dois pontos para baixo. Lula conseguiu diminuir a resistência ao próprio nome, mas continuou com os mesmos 44% de intenção de voto. Há espaço para conquistar eleitores, embora a redução da rejeição ainda não tenha se convertido em crescimento na preferência.
O medo de uma volta dos Bolsonaro ao poder pode encontrar alimento no comportamento de Flávio. A agressividade no debate do último domingo pode ter reforçado, em parte do eleitorado, a preocupação com a estabilidade de um eventual governo seu. A pesquisa não permite atribuir esse efeito ao encontro, até porque as entrevistas começaram no sábado e terminaram na terça-feira. Mas o risco político existe. Quem precisa tranquilizar o eleitor pode acabar oferecendo novas razões para deixá-lo desconfiado.
Ausência
A luta contra a desmobilização pode ser o maior desafio dos dois candidatos nesta reta final. É possível preferir Lula e não querer sair de casa para reelegê-lo. É possível escolher Flávio numa entrevista e chegar ao domingo sem disposição para votar nele. A preferência declarada precisa sobreviver ao cansaço, à decepção e à impressão de que nenhum dos dois merece o esforço.
Esse risco ganha importância onde a eleição estadual acabou no primeiro turno. Deputados e senadores já estão eleitos, governadores já comemoraram e parte das estruturas políticas perdeu o interesse imediato que mantinha a campanha funcionando. Cabe aos presidenciáveis fazer com que aliados continuem trabalhando e eleitores entendam que ainda têm uma decisão importante pela frente. Apoio anunciado por uma liderança só produz resultado se ajudar a colocar voto na urna.
Oito estados nordestinos, os três estados do Sul, além de São Paulo, Rio de Janeiro e Minas Gerais resolveram suas disputas de governo no primeiro turno. A possibilidade de desmobilização, portanto, alcança territórios fundamentais para os dois lados. Pernambuco está nessa conta. Aqui, o eleitor já escolheu a governadora e toda a sua representação parlamentar. Agora precisa encontrar motivação para voltar exclusivamente pela disputa presidencial.
Redutos
A Quaest mostra Lula com 61% no Nordeste, contra 31% de Flávio. No Sul, o senador tem 61%, e o presidente, 28%. No Sudeste, Flávio aparece com 48%, diante de 39% do petista. São vantagens que dependem do comparecimento para se transformar no saldo de votos necessário à vitória nacional. Se a ausência crescer principalmente entre os apoiadores de um deles, o adversário será beneficiado sem precisar convencer esses eleitores a mudar de candidato.
Por isso, o tamanho nacional da abstenção contará apenas parte da história. Será preciso observar onde ela cresceu e quais eleitores desistiram de votar. Lula pode manter uma preferência expressiva no Nordeste e perder votos decisivos porque seus apoiadores ficaram em casa. Flávio pode desperdiçar vantagens no Sul e no Sudeste pelo mesmo motivo.
Sexta
O debate da Globo, na próxima sexta-feira (23), será a última grande oportunidade dos dois de falar simultaneamente a esse eleitorado. Precisam conquistar quem pretende anular ou votar em branco e dar disposição a quem já escolheu, mas está cansado da campanha.
Se repetirem o campeonato de acusações do último domingo, poderão sair satisfeitos com os cortes para as redes e deixar mais gente sem nenhuma vontade de votar. Numa disputa de um ponto, cada candidato precisa estar muito preocupado com o eleitor que até concorda com ele, mas desliga a televisão e decide que domingo vai ficar em casa.


© ROBERTO JAYME/ASCOM TSE