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Não vos dão casa. Dão-vos uma pátria

22 October 2026 at 13:06

VTM

Aposta na crise habitacional para se manter no poder. Como tantas vezes acontece na história, esta crise ficou condensada num caso, o despejo de Maricarmen, de 87 anos, que morreu duas semanas depois, no hospital, sem chegar a voltar a casa. Tinha sido alcançado um acordo para regressar, pendente apenas da alta médica.

A crise habitacional é para a direita o que a imigração é para a esquerda, o calcanhar de Aquiles que, por razões identitárias e ideológicas específicas, nenhuma das duas consegue fundamentalmente resolver. Apesar de tudo, o desgaste de Sánchez e dos seus aliados é tal que dificilmente algo os poderá salvar, e o PP, aliado ao Vox, vai ficar com o poder. Mas até ao lavar dos cestos é vindima.

Importa, por isso, expor as linhas vermelhas que Santiago Abascal, o espúrio líder do Vox, impõe ao PP (o provável vencedor das eleições) para realizar a coligação que permitirá a sua chegada ao poder. São três: a desregulação da economia, a famosa remigração e a prioridade nacional. Vou dizer-lhes o que penso de cada uma.

A desregulação económica é uma bajulação ao poder económico. Hoje, como no passado, o que se pretende é aliciá-lo para depois o subordinar. Prometem-se cortes de impostos, privatizações e o fim de regulações para depois impor a sua lei. Assim faz Trump, com as tarifas, a golden share na US Steel, a participação no capital da Intel, a pressão sobre escritórios de advogados e universidades ou o uso das empresas de IA como instrumento para dominar e subordinar o resto do mundo.

A remigração é o termo que se apoderou do imaginário de muitos europeus nesta vaga de regeneração identitária, e cuja versão máxima inclui a expulsão de cidadãos de origem estrangeira para, por milagre, tudo resolver. Sobre a prioridade nacional, o que dizer? O nativismo é para a direita radical europeia o que o nacionalismo foi para o fascismo, a sublimação de todos os problemas com uma esmola que preenche a alma. Quem pertence a uma nação histórica e heroica é maior do que ele próprio. Mesmo pobre e em dificuldades, pode sentir-se superior. É a troca do humanismo universal pela pertença à nação. É o salário psicológico da “europitude”.

A crise material entrou na nova política europeia pela via da identidade. Em Espanha, ainda não será o Vox a ganhar, mas sim o PP de Feijóo, um partido da direita tradicional em desconstrução. Na Extremadura e em Aragão já assinou com o Vox a prioridade nacional, ainda que a tente disfarçar de “arraigo”. Em Portugal, segundo as sondagens, a direita radical já disputa o primeiro lugar com o PS. Estamos todos a observar Espanha, porque em breve também nós teremos de decidir. E se o Partido Socialista quer voltar a governar, terá de mudar muito, a começar pela forma como escolhe os seus candidatos à Assembleia da República. Primárias abertas, que entreguem aos eleitores a escolha e voltem a galvanizar quem há muito deixou de se sentir representado.

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Grândola vila obscena | Por Tiago Manuel

22 October 2026 at 12:41

Grândola, vila obscena
Terra da privacidade 
O povo é quem mais serena 
Quem tem pasta é autoridade!

Quem tem pasta é autoridade 
O povo é quem mais serena 
Praia refém da propriedade 
Grândola, vila obscena!

Em cada praia um porteiro 
Em cada rosto vaidade 
Para entrar, conta o dinheiro 
E o capital dá exclusividade!

E o capital dá exclusividade! 
Para entrar, conta o dinheiro 
Em cada rosto vaidade 
Em cada esquina um porteiro!

À sombra duma carteira 
Com robusta capacidade 
Fica a praia atrás da barreira 
E à porta a comunidade!

E à porta a comunidade 
Fica a praia atrás da barreira 
Com robusta capacidade 
À sombra duma carteira!

Leia também: Moncarapacho inaugura Casa do Colecionador com mais de 260 bengalas e obras de arte

A Igreja, o elo mais fraco

22 October 2026 at 11:31

VTM

Espanta-me esta tomada de posição, tanto mais que, por esse país fora, são frequentes cerimónias semelhantes, sem que se tenha feito sentir o mesmo zelo persecutório por parte da referida associação.

A título de exemplo, recordo a cerimónia anual realizada no dia 10 de junho, junto ao Monumento aos Combatentes do Ultramar, em Belém, onde tem lugar uma celebração religiosa que conta com a participação de um sacerdote católico e de um representante da religião islâmica.

Eu próprio tenho participado na inauguração de monumentos de homenagem aos Combatentes do Ultramar, de norte a sul do País, muitos deles da minha autoria, cujos custos foram e são partilhados com as autarquias ou, em numerosos casos, integralmente por estas suportados. Em muitas dessas inaugurações, a cerimónia inclui a bênção de um sacerdote católico, sem que tal tenha suscitado a polémica que agora veio a público a propósito da Escola Secundária de Cascais.

Pergunto-me, por isso: terá sido o facto de a bênção ter sido presidida pelo Patriarca de Lisboa, em vez de por um sacerdote menos conhecido, que conferiu a este acontecimento tamanha notoriedade?

Este episódio faz-nos recordar tempos de triste memória, vividos durante a Primeira República, quando a Igreja Católica foi perseguida. Sendo Portugal um Estado laico, importa não confundir laicidade com laicismo. A laicidade pressupõe a neutralidade e a imparcialidade do Estado perante as diferentes convicções religiosas e não religiosas, respeitando a liberdade de consciência e os valores individuais. O laicismo, por seu lado, pode assumir uma postura militante de oposição à expressão religiosa na vida pública.

É precisamente essa atitude de intolerância perante uma manifestação religiosa que parece estar em causa neste episódio. A liberdade religiosa não deve servir apenas para proteger quem não professa qualquer religião; deve igualmente garantir a quem tem uma fé o direito de a expressar, dentro dos limites da lei e do respeito pelos outros.

Quando a neutralidade do Estado é invocada seletivamente para contestar manifestações de fé, corre-se o risco de transformar um princípio de liberdade num instrumento de exclusão. E, nesse cenário, a Igreja parece tornar-se, uma vez mais, o elo mais fraco.

P.S. – No artigo que subscrevi no passado mês de setembro, foram cometidas duas imprecisões, pelas quais me penitencio. A primeira diz respeito à identificação da Rua dos Caminhos de Baixo, quando, na realidade, se trata da antiga Rua da Portela. A segunda prende-se com o brasão de armas existente na fachada principal da casa, que pertencia à família Carvalho Magalhães, e não à família do Dr. Sebastião Feyo.

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O cancro da mama não avisa

22 October 2026 at 10:28

VTM

É precisamente por isso que o rastreio é tão importante: procura alterações numa fase em que ainda não há sintomas, quando as opções de tratamento são, em geral, mais simples e eficazes.

Em Portugal, o cancro da mama é o tumor maligno mais frequente nas mulheres. Todos os anos são diagnosticados cerca de 9.000 novos casos e mais de 2.000 mulheres morrem da doença. Estes números lembram-nos que não basta confiar na ausência de sintomas.

Desde 2025, o programa organizado de rastreio do Serviço Nacional de Saúde abrange mulheres sem sinais ou sintomas, entre os 45 e os 74 anos, através de mamografia realizada de dois em dois anos. Entre 1990 e 2024, foram feitas mais de seis milhões de mamografias no âmbito do programa, tendo sido identificadas cerca de 36.000 mulheres com alterações suspeitas, encaminhadas para avaliação médica.

Uma imagem suspeita não significa necessariamente cancro. Significa que é preciso esclarecer o achado com outros exames ou, quando indicado, uma biópsia. O objetivo é não deixar passar uma doença potencialmente curável numa fase inicial. O diagnóstico precoce pode permitir tratamentos menos agressivos, cirurgias mais conservadoras e maior probabilidade de cura.

O rastreio destina-se a mulheres sem sintomas. Um nódulo novo, retração da pele ou do mamilo, alteração persistente do contorno da mama ou saída de sangue pelo mamilo deve motivar observação médica, sem esperar pela próxima convocatória.

Há ainda situações que exigem um plano individual: história familiar importante, mutações como BRCA1 ou BRCA2, radioterapia prévia no tórax ou mamas densas. Nestes casos, a idade de início e os exames adequados podem ser diferentes. A densidade mamária pode dificultar a deteção de algumas lesões e deve ser discutida com o médico.

A prevenção começa também no quotidiano: manter um peso saudável, praticar atividade física, moderar o consumo de álcool e não fumar. Estas medidas não eliminam o risco, mas ajudam a reduzi-lo.

Participar no rastreio é um gesto simples de cuidado individual e coletivo. Uma mamografia pode não mudar o dia de hoje – mas pode mudar decisivamente o futuro.

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Um Estado eficiente requer uso dos serviços digitalizados

22 October 2026 at 08:20

Nesta crónica encerro uma série de três crónicas dedicadas aos desafios da reforma do Estado. Depois de abordar a importância de uma melhor composição das contas públicas e de uma gestão mais eficiente dos recursos humanos da Administração Pública, termino com a digitalização dos serviços públicos e dos processos associados, analisando o posicionamento de Portugal no contexto europeu.

Como referi na crónica anterior, para que a transformação do Estado seja compatível com a melhoria da qualidade dos serviços públicos e com uma utilização mais eficiente dos recursos, terá de ser…

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A identidade como estratégia: evoluir, inovar e criar valor sem perder a origem

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Partir tudo para mudar o quê? | Por Ana Alexandra Resende

22 October 2026 at 07:30

Caro leitor, talvez me esteja a escapar alguma inovação no pensamento político, mas ainda não consegui perceber de que forma partir a montra de uma loja melhora o salário de quem lá trabalha. Ou como incendiar o automóvel de outra pessoa contribui para baixar as rendas. Admito que o mecanismo seja complexo. Até agora, porém, ninguém mo explicou de forma convincente.

As notícias sucedem-se. De diferentes países chegam manifestações, palavras de ordem e sinais de descontentamento. As causas variam, mas repetem-se preocupações com a habitação, os salários, a educação e o custo de vida. Há pessoas cansadas de trabalhar sem conseguirem estabilidade e jovens que olham para o futuro com mais apreensão do que esperança.

É preciso ouvir esse descontentamento. Uma sociedade não pode exigir permanentemente paciência a quem vive sem margem para mais um aumento, mais uma despesa ou mais um adiamento.

Manifestar-se é um direito fundamental. A democracia precisa de cidadãos que questionem, contestem e exijam respostas. Muitas conquistas sociais nasceram da coragem de quem saiu à rua e recusou aceitar como inevitável aquilo que era injusto.

Precisamente por isso, preocupa-me ver uma reivindicação perder espaço para o espetáculo da destruição.

Imagens criadas com recurso a inteligência artificial

Em Paris, as notícias sobre a mobilização de 17 de outubro dão conta de lojas saqueadas e comerciantes agredidos na zona da Praça da República e nas ruas próximas. Entre os estabelecimentos atingidos estavam uma farmácia e lojas de bairro. Por detrás de cada montra havia pessoas, trabalho e compromissos que não desapareceram com o vidro partido.

Há uma diferença que importa deixar clara: quem parte a montra não é, em regra, quem trabalhou para abrir aquela loja. Quem incendeia o automóvel não é quem passou anos a pagá-lo. Quem saqueia um estabelecimento leva os bens; deixa a outros o prejuízo, a reparação e a incerteza sobre o dia seguinte.

A revolta pode nascer de dificuldades reais. Mas isso não dá a ninguém o direito de impor novas dificuldades a pessoas que também trabalham, pagam contas e procuram sustentar uma família. O comerciante não deixa de ser trabalhador por ter uma loja. E os funcionários não deixam de precisar do emprego por trabalharem para uma grande empresa.

É particularmente cómodo exercer a indignação à custa do património alheio. Quem destrói pode ir embora; quem sofreu o dano fica com as consequências. Que solidariedade é essa que exige justiça para uns enquanto aceita arruinar a vida de outros?

E depois há o saque. Porque partir uma montra e sair com os produtos debaixo do braço exige uma explicação bastante mais convincente do que a invocação da justiça social. Em que medida levar um telemóvel melhora a escola pública? Que reivindicação fica satisfeita com o conteúdo de uma montra dentro de um saco?

A indignação não confere um direito de apropriação. Uma loja não se torna um alvo legítimo por vender produtos caros, pertencer a uma grande empresa ou representar um mundo ao qual muitos não têm acesso. A dimensão do estabelecimento não transforma os seus bens em mercadoria à disposição de quem os queira levar.

Chamar saque ao saque não diminui o direito à manifestação. Pelo contrário: impede que quem procura uma mudança coletiva seja confundido com quem aproveita a confusão para obter um benefício pessoal.

Essa distinção é indispensável. A cobertura das manifestações em França descreve tanto participantes pacíficos como grupos envolvidos em confrontos, incêndios e pilhagens. Responsabilizar todos pelos atos de alguns seria injusto e apagaria as reivindicações de quem saiu à rua sem destruir nada.

Mas a legitimidade de um protesto também não absolve todos os atos praticados à sua volta. Uma causa justa não transforma automaticamente em justo tudo o que se faz em seu nome.

Há ainda a questão dos rostos tapados. Incomoda-me ver alguém exigir publicamente responsabilidade enquanto procura escapar à responsabilidade pelos próprios atos. Reconheço que pode haver razões legítimas para proteger a identidade, incluindo o receio de represálias. Uma cara tapada, por si só, não prova uma intenção violenta. Porém, quando alguém oculta o rosto para agredir, saquear ou destruir sem ser reconhecido, a questão é bastante concreta: quer agir e evitar responder pelo que fez.

A liberdade de manifestação não inclui uma dispensa de responsabilidade.

Quanto ao património público, talvez convenha recordar uma evidência: pertence à comunidade. Nenhum indivíduo pode decidir destruí-lo em nome da sua própria indignação. Ao fazê-lo, retira aos outros o uso de um bem comum e impõe-lhes o custo da sua reparação.

Uma biblioteca, uma escola, um jardim ou uma paragem de autocarro têm uma função na vida das pessoas. Não são abstrações nem objetos descartáveis. Quando são danificados, as consequências atingem também quem depende deles e não teve qualquer participação nos acontecimentos.

Como historiadora e arqueóloga, custa-me particularmente a facilidade com que o património pode ser tratado como um alvo disponível. Um edifício histórico guarda marcas de vidas, técnicas, acontecimentos e transformações que ultrapassam largamente o governo do momento. A sua destruição pode eliminar testemunhos que nenhuma verba de reconstrução consegue devolver.

É possível contestar o passado, discutir os seus símbolos e exigir novas formas de o apresentar. Esse debate merece conhecimento e participação. O fogo é um péssimo instrumento de interpretação histórica.

Há quem pergunte se um protesto que não perturba alguma vez é ouvido. É uma pergunta pertinente. Uma manifestação ocupa espaço, interrompe rotinas e pode condicionar a circulação. Não se pode exigir que toda a contestação decorra discretamente, sem causar o menor incómodo a ninguém.

Mas existe uma diferença entre interromper o trânsito e incendiar o carro de quem ficou parado nele. Entre ocupar uma praça e destruir o equipamento que permite a outras pessoas usá-la. Entre contestar uma decisão e agredir alguém que não teve qualquer participação nela.

Essa diferença não desaparece por estarmos indignados.

Também não devemos aceitar que os atos violentos sirvam de pretexto para desvalorizar todas as reivindicações ou justificar respostas indiscriminadas. A responsabilidade deve ser apurada em cada caso, incluindo quando estão em causa abusos de autoridade. Exigir rigor a quem protesta e a quem exerce o poder faz parte da mesma exigência democrática.

O que me inquieta é a facilidade com que a destruição ocupa toda a conversa. Discutem-se os incêndios, os confrontos e os prejuízos. Os salários, a habitação e a escola passam para segundo plano. Quem queria tornar um problema visível acaba representado por imagens que podem nada ter que ver com aquilo que defende.

O estrondo consegue atenção. Nem sempre consegue fazer ouvir uma ideia.

Não espero uma indignação elegante de quem está exausto. Espero, contudo, que a revolta conserve a capacidade de reconhecer o outro. Sobretudo aquele que tem tão pouco poder como nós para mudar as circunstâncias.

Porque, depois de dispersar a multidão, há sempre alguém que fica. Alguém que encontra o negócio destruído, telefona à família, faz contas ao prejuízo ou procura uma maneira de chegar ao trabalho sem o automóvel que lhe incendiaram.

Podemos exigir mudanças profundas, fazer perguntas incómodas e recusar respostas vazias. Devemos fazê-lo. Mas continuo à espera de que me expliquem como se melhora a vida de quem, depois da manifestação, fica a varrer os vidros.

Essa pessoa também fazia parte do povo.

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Crise da habitação: o imigrante tem as costas largas

22 October 2026 at 07:04

Foi com a chegada dos residentes não habituais que o preço das casas começou a disparar em Lisboa e Porto. Depois, em Odemira, onde os estrangeiros são metade da população, subiu 43%. Em Valongo e Gondomar, com três ou quatro por cem habitantes, quase 70%. E quando a imigração líquida caiu para menos de metade, o mercado aqueceu como nunca. A imigração ajuda à pressão, claro. Mas 44% das 723 mil casas vazias estão em Lisboa, Porto, Setúbal e Faro. E sem imigrantes não há construção e as casas ficam mais caras

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