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No próximo dia 25 de outubro, lembre-se que a economia também é política

20 October 2026 at 12:00

Começo a nossa conversa desta quinzena pedindo licença para tomar um caminho um pouco mais informal que o habitual. Essa coluna se torna em parte um pedido, em parte um desabafo de uma economista cansada, mas ainda em pé.

Desde os resultados do 1º turno das eleições, no início do mês, está difícil pensar, falar ou postar sobre qualquer outra coisa. Em meio a tentativas de vira-voto, vídeos caseiros, ligações para familiares distantes e algumas conversas nas ruas, vi um post no Instagram de um apoiador de Flávio Bolsonaro que dizia algo na linha de “essa semana, alguém virá conversar com você sobre política. Pergunte para ele se ele sabe o que é taxa Selic, inflação, curva de juros e como isso impacta a economia e o bolso dela.”

A ironia é que existem várias e vários economistas que sabem bastante sobre tudo isso e, ao contrário da sugestão do Instagram, continuam defendendo uma agenda progressista. Inclusive, fica a dica para você ler minha coluna: (Quase) tudo o que você precisa saber sobre o Copom e a Taxa Selic, divulgada aqui na Agência Pública em 11 de agosto.

Além da ironia, a verdade é que essa mensagem implica que, quem entende de verdade de economia não vota na esquerda — ou em Lula. Como se as pautas progressistas fossem inerentemente prejudiciais ao desempenho econômico do país.

Existe um mito bastante difundido de que uma gestão econômica responsável imediatamente se traduz em escolhas amargas: ajustes fiscais, arrochos e escalas de trabalho ultrapassadas — superadas por propostas como a de Rick Azevedo, Erika Hilton e dos movimentos de trabalhadores que conquistaram semana passada o fim da Escala 6×1 no Brasil (longa vida!) Em síntese, a ideia é de que quem estudou Ciências Econômicas, que são “inquestionáveis, técnicas e objetivas”, sabe que o verdadeiro preço das políticas sociais é o afundo econômico do país.

O que eles não contam é que toda história tem um lado. E que quem normalmente assume o personagem técnico, isento e portador das más notícias tem um. E não é o nosso.

Sob a gestão econômica de Paulo Guedes, o grande guru dos economistas “sem lado”, o Brasil cresceu uma média de 1,5% ao ano, excluindo os anos atípicos da pandemia da conta. Nos três primeiros anos do terceiro mandato de Lula, o crescimento foi de 2,98%. O cálculo é feito a partir da série de variação real do Produto Interno Bruto, do IpeaData.

O mesmo discurso tecnocrata foi utilizado para atacar quem propunha a viabilidade da redução da jornada de trabalho. Fazendo cálculos, alguns economistas afirmaram que a redução da jornada custaria até 11% do PIB brasileiro. Usando o mesmo método, mas premissas diferentes, a professora Marilane Teixeira, do CESIT Unicamp, chegou num crescimento de produtividade em 4%, na manutenção do PIB e em 3,62 milhões de novos empregos.

Isso não quer dizer que uma conta esteja mais certa do que a outra, mas que conta nenhuma, como raciocínio econômico nenhum, é imparcial ou apolítica.

Quando se veste de técnica e isenta, a economia ganha autoridade para defender argumentos às vezes classistas, às vezes racistas, misóginos ou xenofóbicos. Em geral, impopulares, no sentido mais cru da palavra: antipovo.

Quem se lembra da frase famosa do economista Delfim Netto, ministro da Fazenda durante a Ditadura Militar, que dizia em fazer o bolo crescer, para depois dividi-lo? A defesa era pelo crescimento econômico primeiro, e a distribuição depois, às custas de um arrocho salarial forte e de intensa concentração da renda nas mãos de poucos.  

Para citar a ilustre professora Maria da Conceição Tavares, no programa Roda Viva de 1995:

“Uma economia que diz que precisa primeiro estabilizar, depois crescer, depois distribuir é uma falácia. E tem sido uma falácia. Nem estabiliza, cresce aos solavancos e não distribui.”

É por isso que peço, leitoras e leitores, que não se deixem enganar por esse discurso dos “tecnocratas alucinados”, como dizia a professora. 

Um economista que quer te vender um plano econômico que promete crescimento às custas da sua qualidade de vida, na definição da jornada de trabalho, ou na condução do Ministério da Fazenda, não o faz porque é isento e não enxerga alternativas. Faz porque sabe que é difícil argumentar contra um conhecimento elitizado.

A economia é política tanto quanto é técnica, e toda técnica, vale lembrar, é também um instrumento político potente.

Finalizo citando mais uma vez a professora, que foi capaz de reunir Dilma Rousseff e José Serra na mesma sala, à véspera das eleições presidenciais de 2010. Dois de seus alunos mais famosos e rivais declarados, inclusive no projeto econômico. Na ocasião, para celebrar os 80 anos de Conceição, esquerda e direita se uniram e brindaram a democracia acima da técnica.

Só faz de conta que a política não lhe interessa quem manda, meu bem. E Deus sabe que a política interessa muito.”
Maria da Conceição Tavares
em aula de Economia Política ministrada no Instituto de Economia da Unicamp em 1992.

Por que a proibição das Bets é tão importante

6 October 2026 at 18:06

Na sexta-feira, dia 25 de setembro, às vésperas do primeiro turno das eleições, o presidente Lula assinou a Medida Provisória (MP) 1394, que proíbe a atuação das bets no país. A MP é uma vitória, ainda que venha tarde.

É apenas o começo de uma batalha jurídica e regulatória que irá se desenrolar no próximo mandato eleitoral, com papel central tanto do presidente eleito quanto dos demais parlamentares. Afinal, deputados e senadores compõem as comissões mistas que analisam as medidas provisórias, e, para virar lei, uma MP também precisa ser aprovada pela Câmara e pelo Senado. 

Aqui, quero enaltecer o papel fundamental que a cobertura jornalística da Agência Pública teve nessa decisão, e que minha colega Natália Viana detalha em sua coluna da semana passada.  

Que o vício em apostas – a ludopatia – tem um impacto grande na saúde da população, já está estabelecido, tanto em termos psicológicos quanto financeiros. Não são poucos os casos de pessoas que perdem bens materiais, se endividam e quebram relações familiares por causa das apostas.

O marido de uma amiga não tem celular desde o ano passado: foi a condição para que seguissem o relacionamento, depois de ele perder tudo o que tinham guardado e até vender o carro para seguir jogando. 

Rafael Borges Amaral, de 26 anos, perdeu a vida na batalha contra a ludopatia. A carta escrita por sua mãe, Vânia de Souza Borges, não foi ouvida pela CPI das Bets, mas alcançou o Brasil e ajudou a levantar a bandeira de muitas outras famílias pela proibição das apostas online.

A saúde das pessoas é muito mais importante do que qualquer impacto econômico. Antes de pensar no PIB ou na arrecadação tributária, é a vida que precisa ser colocada em primeiro plano. 

Então, mesmo se proibir as bets fosse ruim para a economia, seria a decisão acertada.

Mas este não é o caso. Para a economia do país, acabar com esses jogos é bastante benéfico.

Isso porque a renda que é absorvida pelas bets não retorna em mesmo volume para a economia do país. Ela é tirada de circulação, em grande parte apropriada pelas casas de aposta, muitas das quais nem no Brasil estão.

Então, além da renda que sai do bolso das famílias e prejudica suas contas diárias, a economia do país como um todo é afetada. 

Isso porque, quando alguém vai ao mercado e gasta dinheiro comprando um produto ou contratando um serviço, esse valor retorna em maior escala para a economia. É o que chamamos de efeito multiplicador. 

Por exemplo, se eu compro R$ 100 no mercadinho, estes R$ 100 viram a renda do comerciante. Ele, por sua vez, vai gastá-la, o que gera renda para outra pessoa, que também vai gastar, e assim por diante. No final, R$100 viram muito mais em atividade econômica. A roda da economia gira.  

Mas, se eu perco estes mesmos R$ 100 num cassino online, este dinheiro não comprou nada, não gerou demanda nenhuma. E a maior parte dele não vai retornar em prêmios, vai ser retida na casa de apostas.

Um estudo conduzido pelo professor Guilherme Klein para o Centro de Estudos de Macroeconomia das Desigualdades da Universidade de São Paulo (Made/USP) dimensionou o impacto das bets nesse movimento. 

A conta é a seguinte. O Centro Celso Furtado estimou que, em 2025, houve uma transferência bruta de R$ 62,5 bilhões para as plataformas de apostas. Ou seja, somando tudo o que foi apostado e redistribuído em prêmios, as bets ficaram com mais de 60 bilhões para si. 

Com esse número, o professor estimou alguns cenários diferentes, com hipóteses mais ou menos otimistas sobre o papel econômico do setor de apostas, e chegou numa perda total para a economia brasileira de algo entre R$ 90,9 bi e R$ 141 bilhões de reais – ou de 0,7 a 1,1% do PIB do nosso país.

De um terço a metade do crescimento da economia brasileira em 2025. Até cinco vezes mais do que o impacto estimado para o tarifaço americano. 

A própria Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo (CNC) estimou que o varejo sozinho deixou de faturar cerca de R$ 103 bilhões em 2024, devido ao direcionamento de recursos das pessoas para as bets.

Mesmo quando consideramos o ganho de arrecadação que a regulamentação das apostas trouxe, regular sai mais caro para o país do que proibir. No Estudo do Made, o efeito final é de uma redução entre R$ 14,6 bilhões e R$ 35,6 bilhões na arrecadação de impostos.

Isso sem nem considerar a elevação dos gastos em saúde pública para tratamento do vício em apostas. Conforme o Instituto de Estudos para Políticas de Saúde (IEPS), as bets geram um custo anual para o SUS de R$ 30,6 bilhões. 

No fim, a soma do jogo é clara. Com a proibição, ganham as pessoas, sua saúde mental e financeira, e a economia do país. Só perdem, mesmo, as casas de apostas – e os influenciadores que elas remuneram. 

Flávio Bolsonaro propõe ‘voucher’ para creche: a troco de quê?

22 September 2026 at 16:00

Uma grande novidade deste período eleitoral é a constatação por parte das campanhas – de todos os espectros políticos – de que 51,5% do eleitorado é composto de mulheres. E que, por isso, falar delas e de pautas que as interessam talvez seja uma boa ideia. 

A aproximação da direita e da extrema direita ao público feminino não é de hoje. O crescimento de figuras como a Senadora Damares Alves (Republicanos-DF) e a própria Michelle Bolsonaro (PL-DF), ex-presidente do PL Mulher, são exemplos disso. 

Claro, existem personalidades e falas misóginas também na esquerda. Mas essa “direita pró-mulher” me é um pouco estranha porque, afinal, o projeto da direita é, em essência, machista. Afinal, o neoliberalismo é ancorado em políticas econômicas que não só prejudicam relativamente mais as mulheres como dependem de forma basilar da exploração gratuita de seu trabalho. 

Um exemplo bastante conhecido é o das creches públicas. Um projeto de Estado mínimo que se desresponsabilize do investimento na educação infantil nunca vai se preocupar em garantir vagas para todas as crianças. 

Isso, por um lado, reduz a possibilidade de autonomia econômica das mães, que têm restrita sua possibilidade de trabalhar fora porque precisam ofertar cuidado para as crianças em tempo integral – sem compensação financeira. Já que hoje, cerca de 30% das mulheres que não buscam trabalho remunerado afirmam não o fazer por precisarem se dedicar ao cuidado de familiares e a afazeres domésticos. 

Por outro lado, este projeto terceiriza para a figura das famílias – na prática, quase sempre só às mulheres – uma carga que deveria ser da sociedade como um todo, a de manter e reproduzir a vida. 

No caso das crianças, elas são a força de trabalho do futuro. 

Ou seja: o país só cresce, produz e prospera porque há algumas décadas uma parte das mulheres dedicou anos de suas vidas para criar gratuitamente quem hoje compõe a massa de trabalhadores. 

O benefício da educação das crianças é apropriado por todos, mas os custos são vistos como uma responsabilidade privada – e que tem gênero. 

Ou seja, a direita neoliberal prega o desmonte de um aparato de políticas públicas importantíssimas para a autonomia feminina. 

Voltando ao exemplo das creches, uma das propostas de Flávio Bolsonaro (PL-RJ) é a ampliação da vaga de creches, usando como recurso, no caso de falta das vagas públicas, a distribuição de “vouchers” para creches particulares. 

Por trás de uma aparente defesa da autonomia das mulheres (que pouco convence a quem conhece o candidato, sua família e seu entorno político, com histórico de falas bastante machistas, diga-se de passagem) há uma repetição dessa mesma lógica neoliberal que estamos discutindo.

Ofertar “vouchers” para a educação pública é, de novo, tirar a responsabilidade do Estado e da coletividade e direcionar para o mercado privado. Além disso, tem efeitos ambíguos, pois raramente conduz a uma melhoria do serviço ofertado. Mercantilizar um serviço que não segue a lógica operacional de mercado traz mais malefícios do que ganhos. 

Uma política de “vouchers” expande, a princípio, o número de vagas, porque gera um incentivo financeiro para a criação de equipamentos de creche particular. Mas dificilmente os valores repassados às famílias serão suficientes para custear uma educação de elite. Criam-se aparelhos voltados para o atendimento desse mercado, com pior qualidade, superlotação e outras estratégias para garantir que uma atividade que não é muito lucrativa por princípio vire um bom “negócio”.

A educação infantil vira uma máquina de fazer dinheiro, e assim há ainda menos incentivo para resolver o problema da falta de vagas na rede pública. 

Quem perde são as crianças. E as mulheres que cuidam delas. 

Num outro caminho, a Política Nacional de Cuidados, instituída em dezembro de 2023, dá um passo na garantia do direito universal às creches públicas. Sua aprovação e a subsequente criação do Plano Nacional de Cuidados Brasil que Cuida foram uma vitória importante do movimento feminista no governo atual. Meses antes fora criada a Secretaria Nacional da Política de Cuidados e Família, no Ministério do Desenvolvimento e Assistência Social, Família e Combate à Fome (MDS), e da Secretaria Nacional de Autonomia Econômica e Política de Cuidados, no Ministério das Mulheres. São dois órgãos criados para construir políticas sólidas para as mulheres. 

O Plano prevê a criação de 100 mil novas vagas em creches e pré-escolas até 2027. 

Segundo o MEC, no ano de 2025, 48,5 mil dessas vagas foram criadas. Uma melhoria, mas que não garantiu o cumprimento da meta do Plano Nacional da Educação, que estipulava 50% das crianças de 0 a 3 anos matriculadas até esse mesmo ano. O percentual final foi de 41,8%, o maior da história, mas ainda aquém do planejado. 

Ou seja, o caminho está colocado, mas os esforços atuais não bastam. Até porque a execução integral desta e de outras ações do plano depende de garantia orçamentária e compromisso político, que não estão dados por enquanto.

Mesmo numa vitória petista, será preciso pressionar pela continuidade e ampliação das políticas, e sobretudo por espaço para elas no orçamento.  

Percebendo que as mulheres serão força definidora nesta eleição, todos os candidatos direcionam a nós muitas propostas. 

Mas não sejamos ingênuas. Se, para uns, somos parte da vida e da agenda política – e, com eles, conseguimos negociar pelo avanço de nossas pautas – para outros, nossas aflições se tornam belos tíquetes para ainda mais mercantilização. 

Esquerda, direita e centro concordam mais sobre a economia do que a eleição faz parecer

8 September 2026 at 19:17

Em todo o período eleitoral, a economia invade a conversa do dia a dia de boa parte das pessoas. Seja no almoço de domingo, no ponto de ônibus, na fila da padaria ou no grupo de WhatsApp da família. E é aí, longe do palanque, que uma pesquisa revela algo que o discurso da polarização insiste em esconder: brasileiros e brasileiras de todos os espectros concordam bem mais sobre economia do que a lógica do “nós contra eles” sugere.

O estudo Percepções da Economia Brasileira, encomendado pelo Fundo Global para uma Nova Economia (GFNE) e conduzido pela Ipsos, em parceria com os think tanks Transforma e Cipó, ouviu, de forma online, brasileiros maiores de 18 anos das classes A, B e C, entre junho e julho de 2026. E o resultado é revelador para este momento pré-eleitoral: o que eles defendem em termos de projeto econômico tem pouco a ver com a sua identificação política e ideológica.

A pesquisa fez um experimento simples e eficaz: apresentou plataformas de governo hipotéticas a dois grupos distintos de eleitores, sempre contrastando uma proposta identificada com a “direita genérica” – redução generalizada de impostos, privatizações, combate à corrupção, penas mais duras para crimes graves – a uma alternativa de esquerda.

No primeiro cenário, a alternativa foi a “centro-esquerda tradicional”: elevação do salário-mínimo, combate à pobreza por auxílios sociais, Estado mais presente na economia. Resultado: 46% dos eleitores preferem essa plataforma, contra 39% pela direita. Esse resultado, em si, já diz bastante. Mesmo uma parte de quem desaprova (23%) o governo atual ou não soube avaliá-lo (41%) se identifica mais com uma alternativa ao neoliberalismo.

Mas, no segundo cenário, a proposta de esquerda mudou de figura e o resultado disparou. A plataforma chamada de “nova economia” mantém a defesa do papel do Estado, mas troca o enfoque: combate a preços abusivos, reconhecimento do trabalho de cuidado, ampliação de direitos trabalhistas e taxação de grandes fortunas. Neste caso, a adesão à direita cai para 27%, enquanto a “nova economia” é escolhida pela maioria, por 59% dos entrevistados. Aqui, vale esclarecer: essa nova economia é definida pelo próprio GFNE como uma plataforma econômica que seja inclusiva, equânime e sustentável. Bastante do que venho defendendo nessa coluna, e do que também é promovido pela NoVE, Novas Vozes Econômicas, a rede de economistas progressistas da qual faço parte. 

A diferença entre os dois cenários não é sutil: são 20 pontos percentuais de distância entre duas versões de esquerda: uma tradicional, outra com propostas mais atreladas ao cotidiano dos entrevistados.

Isso diz algo que interessa a qualquer estrategista de campanha: não basta ser de esquerda, é preciso falar da economia que pesa no bolso das pessoas todos os dias.

E quem está migrando de opinião? Sobretudo dois grupos que a política costuma dar como perdidos para qualquer agenda progressista: os “inconsistentes”. Trata-se de eleitores sem padrão fixo de voto nas duas últimas eleições, categoria que reúne desde quem alternou o voto entre PT e Bolsonarismo até quem não votou ou nem se lembra em quem votou. Isso inclui uma fatia relevante de quem hoje desaprova o governo Lula.

Entre os inconsistentes (os eleitores sem padrão fixo), a adesão à esquerda salta de 49% para 63% quando a proposta é a “nova economia”. Entre os opositores ao PT, o salto é de 17 pontos percentuais, chegando a 40%, ou seja, quase a metade de quem hoje reprova Lula prefere uma agenda que taxa fortunas e amplia direitos trabalhistas a uma agenda neoliberal.

Se há um consenso por trás desses números, é que quem sente na pele o custo de vida quer soluções concretas, independente de quem as ofereça. A prova disso é o apoio a medidas específicas, que atravessa o espectro político inteiro.

Diante de um cenário internacional instável, 59% defendem maior controle estatal sobre empresas estratégicas; 66% apoiam a atuação do governo sobre o preço dos combustíveis. Metade do país defende relações diplomáticas pragmáticas, independentemente de alinhamento político, desde que haja vantagem comercial para o Brasil.

Mas o ponto de maior acordo da pesquisa – o maior de todos – não é sobre impostos, nem sobre o papel do Estado. É sobre tempo. Quase três em cada quatro brasileiros (73%) querem o fim da escala 6×1. E mesmo entre quem desaprova o governo Lula, esse apoio continua alto: 60%. Raramente uma pauta econômica reúne tanta gente ao redor da mesma mesa.

A isso soma-se a percepção de que o jogo está desequilibrado: 58% dos entrevistados acham que o sistema econômico atual beneficia principalmente ricos e poderosos, e mais da metade (53%) apoia taxar grandes fortunas para corrigir a rota.

Em síntese, o que a pesquisa da GFNE mostra é que grande parte do eleitorado concorda com novas políticas econômicas, voltadas ao desenvolvimento do país e à redução das desigualdades.

O eleitorado brasileiro, de direita, esquerda e centro, já sabe o que quer. Até outubro, falta saber qual candidato vai ser capaz de nomear essa economia com a clareza que ela merece.

Ainda sobre a inflação de alimentos no Brasil

25 August 2026 at 16:00

Começo a coluna aproveitando o gancho do meu colega Gustavo Faleiros, que gentilmente me trouxe para conversa ao falar sobre a inflação de alimentos, em sua coluna da semana passada. (Para quem ainda não leu, Gustavo traz uma excelente explicação sobre o impacto das mudanças climáticas no preço dos alimentos.) 

Trago aqui mais algumas camadas desse problema tão complexo, me baseando no relatório “A Inflação de Alimentos No Brasil: Um Fenômeno Estrutural, Específico E Sistêmico”, do economista Valter Palmieri Junior., e nas formulações dos que são, indiscutivelmente, os maiores especialistas no assunto: o Instituto Fome Zero (IFZ).

Como bem colocado pelo Gustavo, a inflação de alimentos se tornou uma preocupação em vários países, especialmente a partir da pandemia do COVID-19. Mas, aqui no Brasil, o fenômeno propriamente dito é mais antigo, e já é percebido há duas décadas. 

A inflação de alimentos acontece quando os preços de alimentos e bebidas crescem mais do que a inflação como um todo. Ou seja, quando o Índice de Preços de Alimentos e Bebidas (IPAB) cresce mais do que o Índice de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) –pelo qual normalmente medimos a inflação no Brasil. 

E isso acontece praticamente todo ano desde 2007. De lá para cá, o preço dos alimentos subiu 1,6 vez mais do que o restante dos preços. Por isso, especialistas vêm alertando para o problema da inflação dos alimentos há bastante tempo. 

Mas, desde a pandemia, uma coisa mudou: o grupo que puxava o crescimento do IPAB até então era, sobretudo, o da alimentação fora do domicílio. Ou seja, preços de comida em bares, lanchonetes e restaurantes. Desde 2020 é o grupo de alimentos consumidos no domicílio quem cresce mais, acumulando uma alta de 65% em apenas seis anos! 

Essa mudança tem efeitos perversos. A despesa com alimentação é incontornável: todos precisam comer. É claro que existem diferenças na alimentação de pessoas com mais e menos dinheiro, mas, no limite, todos gastam com isso. É uma conta que pesa mais para quem ganha menos e precisa destinar uma parcela maior de seu orçamento para a comida. 

Dados do IBGE mostram que a alimentação representava, em 2018, 23,8% dos gastos das famílias que ganhavam até dois salários-mínimos. Já para as que ganhavam mais de 25 salários-mínimos, era apenas 11,5%. Com a escalada dos preços desde então, é bem provável que essa proporção tenha subido, com ainda mais intensidade para os mais pobres. 

Comer fora muitas vezes é um luxo, a base da alimentação da maioria dos brasileiros é de refeições preparadas em casa. Essa opção segue sendo a mais barata, mas seu custo vem crescendo com maior rapidez. 

Aqui, vale destacar: são os alimentos in natura e minimamente processados – aqueles colhidos diretos do pé ou compostos de poucos ingredientes – que recebem a maior alta de preços, o que também é grave do ponto de vista nutricional. 

O preço das frutas cresceu 2,8 vezes mais do que a inflação geral nos últimos vinte anos, e o dos legumes, 1,9 vez mais. 

Em resumo, o biscoito recheado é mais barato que a maçã. Assim, quem tem menos renda também está perdendo, aos poucos, o direito a uma alimentação saudável. 

No relatório, Palmieri Junior. destaca cinco principais fatores que explicam a inflação de alimentos. Um deles, o Gustavo trouxe: as mudanças climáticas. 

Escolho focar em outro: nosso modelo agroexportador. Em especial porque, curiosamente, defensores históricos do agronegócio decidiram ligar, neste período eleitoral, para o custo de vida dos brasileiros. 

Flávio Bolsonaro (PL-RJ) mencionou, em seu discurso de lançamento da campanha, a preocupação das famílias brasileiras com os preços nas prateleiras.

Nikolas Ferreira (PL-MG) lançou um vídeo em que faz compras no mercado e, com preços mentirosamente inflacionados, reclama do custo das coisas. 

No vídeo, o Nikolas acompanha uma mulher fazendo uma compra de cinco alimentos (café, ovo, feijão, leite e picanha), que soma R$255,96. Porém, o jornalista Guga Noblat foi a um supermercado de Brasília (DF) e comprou as mesmas coisas, a fim de fazer uma checagem de preços, e chegou a uma conta de R$137,36 – 86% a menos.

Acontece que é incoerente defender a expansão desenfreada do agronegócio e depois reclamar de uma de suas consequências mais imediatas, como fazem ambos os candidatos mencionados e muitos outros. 

Explico. 

A guinada agro do Brasil levou à redução expressiva dos hectares destinados ao cultivo de alimentos básicos, que foram perdendo espaço, principalmente, para a soja, o milho e a cana de açúcar, mais vendidos no mercado externo, como mostra o gráfica abaixo. 

Infográfico sobre a inflação de alimentos no Brasil
Fonte: Palmieri Junior (2026). A inflação de alimentos no Brasil: um fenômeno estrutural, específico e sistêmico

Isso mudou bastante a dinâmica e os custos de produção agrícola no Brasil, mesmo para alimentos que são mais consumidos internamente do que exportados. O feijão, por exemplo. 

Como explica Palmieri Junior, ao privilegiar as culturas de exportação, recursos fundamentais, como terras, crédito e incentivos fiscais são deslocados para esses cultivos, o que acaba esvaziando a produção dos demais alimentos, que se tornam menos atrativos. 

Também o preço da terra sobe, porque a agricultura se torna uma zona de investimento lucrativo, o que também encarece os alimentos à mesa. 

Ainda que esse deslocamento produtivo não signifique uma escassez literal da comida no supermercado, certamente influencia sua dinâmica de preços, tanto pela falta de incentivos quanto pela redução da oferta.

O modelo agroexportador que prioriza o cultivo de commodities ao de alimentos não é o único fator para a elevação do preço da comida. Mas é um bem importante. 

E em um mundo de instabilidades internacionais, guerra e mudanças climáticas, é um dos poucos sobre os quais a política interna ainda consegue decidir. 

Talvez não possamos controlar totalmente o preço dos combustíveis e fertilizantes ou o tamanho do El-Niño – mesmo que a ação humana contribua para todos esses fatores.  

Mas a forma como produzimos comida ainda é uma escolha política nossa. 

Direcionar incentivos produtivos para alimentos –  como feijão, arroz, mandioca e batata – em vez de commodities, como a soja, retomar os estoques reguladores da CONAB (Companhia Nacional de Abastecimento) e investir na logística de transporte e armazenagem para o mercado interno são políticas públicas importantes, eficazes e, sobretudo, muito possíveis. Mas requerem vontade política. 

Por isso, fica o apelo para que a soberania alimentar seja uma bandeira – atenta, e não demagógica – também nestas eleições. 

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