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11 de setembro: como o revide dos EUA moldou o mundo

11 September 2026 at 18:38

Compra de votos, chantagem, criação de dossiê e até a morte. 25 anos depois dos ataques contra os EUA por parte de terroristas, a constatação de observadores internacionais é de que não foram apenas as Torres Gêmeas que desabaram. Naquele dia 11 de setembro de 2001, ainda que ninguém ousasse saber o destino do mundo, inaugurou-se um novo período de ingerência dos EUA na diplomacia internacional.

Atacado em seu próprio território, o governo norte-americano se deu o direito de invadir, destituir, sequestrar e desmontar qualquer instituição que pudesse significar uma ameaça aos seus interesses. 

Gestos que até hoje ecoam pelo mundo e que transformaram para sempre regiões inteiras do planeta e abalaram a soberania de países. 

A década de 1990 havia sido de esperança. A ONU voltava a funcionar e o Conselho de Segurança era convocado a agir, finalmente. Mas o que parecia ser a exuberância do sistema multilateral escondia, na realidade, um fervor por parte dos EUA de manter um mundo à sua imagem e semelhança. E com a Casa Branca como o polo da hegemonia global. 

Mas bastou um teste para que a máscara da cooperação internacional fosse retirada. Os EUA nunca estiveram dispostos a dividir o poder e, machucado em seu orgulho a partir de 2001, iniciaram uma ofensiva para fazer valer sua visão de mundo e suas ambições.

O Iraque passou a entrar no radar e, com ele, o argumento espúrio das armas químicas. Derrubar o ditador Saddam Hussein era uma questão de honra, e de petróleo. Mas o argumento era frágil e logo uma das agências internacionais – a Organização para a Proibição de Armas Químicas (Opaq) – alertou que poderia fazer a vistoria da suposta existência dessas armas.

Washington não gostou nada da ideia. Afinal, se houvesse um caminho diplomático, o principal argumento para a guerra estaria enterrado. George W. Bush decidiu que era hora de calar a Opaq e seu diretor, o brasileiro José Maurício Bustani. 

Lembro-me de desembarcar em Haia em abril de 2002, sede da entidade, e encontrar uma instituição no epicentro de um conflito de enormes proporções. 

Bustani, que estava no comando da Opaq desde 1997 e tinha sido reeleito por unanimidade, insistia que sua instituição tinha informações de que as armas químicas do Iraque haviam sido destruídas após a Guerra do Golfo de 1991. Além disso, a entidade dizia que o Iraque “não tinha capacidade” para repor os estoques graças às sanções sob as quais tinha sido submetido por uma década.

Ele precisaria cair e mensagens chegaram até o brasileiro, sugerindo que ele deixasse o cargo, sem alarde. Seria hipocritamente aplaudido se renunciasse. Ele não aceitou. John Bolton, que comandava parte do esforço diplomático de Bush e que tinha em sua mesa uma granada, orquestrou, assim, uma campanha contra o brasileiro. Seu argumento para derrubá-lo: “má-gestão”. 

José Maurício Bustani foi chefe e diretor geral do Departamento de Organismos Internacionais do Ministério das Relações Exteriores nos governos de Itamar Franco e Fernando Henrique Cardoso
José Maurício Bustani foi chefe e diretor geral do Departamento de Organismos Internacionais do Ministério das Relações Exteriores nos governos de Itamar Franco e Fernando Henrique Cardoso

Em sua sala em Haia, atrás de um quadro, foi descoberto um sistema de escutas. Bustani sabia que seu destino estaria vinculado com uma guerra muito mais ampla que sua dimensão como diplomata. 

No dia 21 de abril de 2002, a pedido dos EUA, foi realizada uma reunião especial da Opaq para votar seu afastamento. Nas semanas anteriores ao encontro, países que estavam com sua anuidade atrasada na instituição fizeram os pagamentos para poder ter direito ao voto. Alguns chegaram com dinheiro vivo, despertando a desconfiança de que a Casa Branca estaria pagando pelos votos. 

Ao final de um rápido encontro, 48 países se manifestaram a favor de seu afastamento, com sete contra e 43 abstenções. Anos depois, nos tribunais da OIT, Bustani seria recompensado por uma decisão que determinou que seu afastamento havia ocorrido sem justificativa. Mas, para os EUA, isso pouco importava. A estátua de Saddam já estava derrubada e o sequestro de um organismo internacional era realidade. 

EUA agiram para Vieira de Mello ir para Iraque e em investigação contra Kofi Annan

Não demorou para que um segundo abalo transformasse a ONU. Preocupada com o destino do Oriente Médio depois da queda de Bagdá, a entidade aceitou o papel de reconstruir o Iraque. Bush tinha chamado ao Salão Oval o brasileiro Sérgio Vieira de Mello, uma espécie de bombeiro das Nações Unidas para as crises mais impossíveis. 

A Casa Branca o queria no comando do escritório da entidade no Iraque, inclusive para dar legitimidade à nova etapa. Tanto o diplomata brasileiro quanto o secretário-geral Kofi Annan hesitaram em assumir o papel. Mas, sob pressão do maior doador do sistema internacional, cederam. 

O brasileiro seria, então, enviado ao front em 2003, como representante oficial do Secretário-geral das Nações Unidas no Iraque. Mas insistia que não via a ONU como parte das “potências ocupantes”. Numa entrevista concedida a este repórter no dia 17 de agosto daquele ano, Vieira de Mello afirmava que não estava com medo e que a instituição era vista como uma aliada dos iraquianos. Criticou os EUA e admitiu que a população local estava sendo humilhada. “Imagine como nós, brasileiros, nos sentiríamos com tanques estrangeiros em Copacabana”, disse.  

Dois dias depois, em 19 de agosto de 2003, uma bomba colocada num caminhão no muro do escritório da ONU em Bagdá tiraria a vida do brasileiro e de mais 20 pessoas. 

Sob os escombros estava o fim de uma utopia.

Militares dos EUA posicionam bandeira da ONU sobre o caixão de Sergio Vieira de Mello, vítima de atentado em Bagdá
Militares dos EUA posicionam bandeira da ONU sobre o caixão de Sergio Vieira de Mello, vítima de atentado em Bagdá

O alvo não era mais apenas os EUA, mas todos aqueles que pudessem ser vistos como cúmplices. A ONU vivia o fim de sua era da inocência com uma explosão que ainda reverbera pelos corredores da entidade. 

Ao não conseguir evitar a guerra no Iraque e diante da morte de seus funcionários e de um de seus melhores amigos, Annan declarou em setembro de 2004 que a ofensiva norte-americana era “ilegal”.

O comentário foi considerado como uma afronta em Washington e, imediatamente, a Casa Branca iniciou um processo para também silenciar o chefe das Nações Unidas. Para isso, retirou das gavetas da CIA um dossiê que revelava corrupção em programas da ONU e que envolvia até mesmo o filho de Annan. Paralisado, o secretário-geral apenas teve de assistir o desmonte do direito internacional e a marginalização de sua própria instituição. 

Annan ficou tão abalado pela crise que mergulhou em uma depressão. Ficou sem voz, literalmente. Começou a faltar a reuniões importantes e deu fortes sinais de que pretendia abandonar o cargo de maior liderança da diplomacia mundial. Afônico por motivos emocionais, um dos poucos homens que poderia frear o desmonte das leis internacionais havia sido silenciado. 

A crise de credibilidade que a ONU enfrenta hoje é a mais séria em seus mais de 80 anos. Mas foi, a partir de 11 de setembro de 2001 que começou a ruir o sonho de um organismo internacional capaz de manter a paz no mundo.  

Guerras Yaqui, cuatrocientos años de lucha de un pueblo nativo de México por sus tierras al que el gobierno sometió con aviones y gas venenoso

Historiográficamente en Estados Unidos se denomina Guerras Indias a la serie de contiendas que enfrentaron a su gobierno con los pueblos indígenas norteamericanos, plasmado en algunos episodios especialmente célebres, como la batalla de Little Bighorn, las masacres de Wounded Knee y Sand Creek, el desplazamiento masivo de tribus por el Sendero de las Lágrimas o […]

Com despesas pagas pelos EUA, ida de procurador a evento sobre Irã é cancelada pela PGR

10 September 2026 at 18:00

A Procuradoria-Geral da República (PGR) revogou a portaria que autorizava o procurador Lucas de Morais Gualtieri, especialista em combate ao terrorismo, a participar da oficina “Combate ao Irã e seus Representantes nas Américas”, marcada para os dias 16 e 17 de setembro, em Assunção, no Paraguai. O evento é organizado e financiado pelo Departamento de Estado dos Estados Unidos, que arcaria integralmente com as despesas do procurador.

Um procurador da República só pode se ausentar do país a trabalho com autorização da PGR. A ida de Gualtieri havia sido autorizada por portaria publicada no Diário Oficial da União (DOU) em 31 de agosto, assinada pelo vice-procurador-geral da República, Hindenburgo Chateaubriand Pereira Diniz Filho. Em 2 de setembro, o mesmo vice-PGR revogou o ato.

Até o momento, o MPF não divulgou o cancelamento à imprensa. A Agência Pública questionou a PGR sobre o workshop, a viagem, o financiamento do evento pelo governo americano e se a situação configuraria uma violação da soberania nacional. As perguntas não foram respondidas: a PGR informou apenas o cancelamento da portaria e da ida do procurador a Assunção, mas não explicou o motivo do cancelamento.

A Pública também tentou contato com o procurador Lucas de Morais Gualtieri e a assessoria de comunicação da Procuradoria da República em Minas Gerais, onde ele é lotado, disse que só a Secretaria de Comunicação da PGR estava tratando do caso. 

Procurador Lucas de Morais Gualtieri, especialista em combate ao terrorismo
Procurador Lucas de Morais Gualtieri, especialista em combate ao terrorismo

Seria a segunda viagem de Gualtieri ao Paraguai neste ano. Em março, o membro do MPF esteve em Assunção para ministrar uma aula no seminário “Desarticulação de Esquemas Financeiros Criminais e Terroristas”, realizado pela American Bar Association, órgão que tem papel equivalente ao da OAB nos EUA. 

O Paraguai, sob o presidente Santiago Peña, alinha-se aos EUA em relação ao Irã: anunciou proteção especial a órgãos dos governos americano e israelense e reforço da segurança na tríplice fronteira. O Brasil criticou os ataques dos EUA e de Israel ao Irã e manifestou preocupação com a escalada militar no Golfo Pérsico.

A tensão entre os EUA e o Brasil vem se acumulando desde 2025. Em maio, o Departamento de Estado designou o Comando Vermelho e o PCC como organizações terroristas globais, uma medida que o Palácio do Planalto afirmou afetar a soberania nacional e o próprio combate ao crime organizado, além de manter tarifas sobre produtos brasileiros e indicar um embaixador em Brasília sem a anuência do governo brasileiro.  

Procurador falaria sobre a Operação Trapiche 

No workshop cuja participação de Gualtieri foi agora cancelada pela PGR, o procurador falaria sobre a Operação Trapiche, de novembro de 2023, na qual duas pessoas apontadas como ligadas ao Hezbollah foram presas sob a acusação de planejar ataques a prédios ligados à comunidade judaica no Brasil. Segundo a Polícia Federal, o recrutamento seria realizado por Mohamad Khir Abdulmajid, foragido. Um dos presos, Lucas Passos Lima, foi condenado em primeira instância a mais de 16 anos por terrorismo; o Tribunal Regional Federal da 6ª Região reduziu a pena ao entender que a motivação era financeira, e não ideológica. O caso segue tramitando no Superior Tribunal de Justiça (STJ).

A oficina do Departamento de Estado no Paraguai discutirá técnicas de cooperação internacional e de enfrentamento ao financiamento do terrorismo, tema de interesse acadêmico de Gualtieri, que cursa mestrado em relações internacionais na PUC-MG, com foco em Estratégia, Inteligência e Contraterrorismo. O programa completo do evento não está disponível na internet.

O Hezbollah, criado em 1982, é classificado pelo Departamento de Estado como organização terrorista financiada pelo Irã e atua no Líbano também como partido político. Desde outubro de 2023, o grupo realizou ataques ao norte de Israel, que respondeu com ofensivas e com a ocupação de parte do sul libanês. 

O Brasil não possui uma lista oficial de organizações terroristas. A lei antiterrorismo brasileira exige comprovação de motivação ideológica para classificar crimes como atos de terrorismo. Projeto de lei de 2021 do deputado Paulo Bilynskyj (PL) prevê a adoção de uma extensa lista que inclui o Hezbollah. Em 2024, o projeto foi aprovado na Comissão de Segurança Pública, mas não houve andamentos significativos depois. 

A Pública também procurou o Itamaraty, que alegou que apenas o MPF e os organizadores do evento deveriam se manifestar.

A relação entre o MPF e agências americanas voltou ao debate público após a Lava Jato. A série “Confidencial: as digitais do FBI na Lava Jato”, produzida pela Pública em parceria com o Audible, mostrou que autoridades dos EUA fizeram visitas frequentes a procuradores brasileiros durante a operação, em contatos mantidos fora dos canais oficiais e sem comunicação com a PGR.

Encuentran en Dakota del Norte el primer rastro de huellas fosilizadas de un T. rex adulto que permite reconstruir su paso hace 66,5 millones de años

Un equipo de paleontólogos ha documentado en el suroeste de Dakota del Norte el primer rastro continuo de huellas atribuido a un ejemplar adulto de Tyrannosaurus rex, un hallazgo que aporta datos inéditos sobre la locomoción y el comportamiento de este depredador emblemático del Cretácico superior. La investigación, publicada en el Journal of Vertebrate Paleontology, […]

As 10 medidas de Trump para tentar vencer as eleições de novembro nos EUA

1 September 2026 at 16:00

O presidente Trump não esconde um de seus maiores medos: perder o controle republicano do Congresso dos EUA em 3 de novembro, o que possivelmente levaria a um terceiro processo de impeachment. No entanto, sua resposta é uma mistura caótica de medidas para evitar uma derrota avassaladora que poderia, de fato, concretizar seu cenário de pesadelo.

Quais são seus planos para uma vitória eleitoral? Quais condições ele criou que podem levar à sua ruína política durante os dois últimos anos de seu governo? 

As pesquisas mostram consistentemente uma taxa de impopularidade geral de Trump em torno de 63%, contra uma de aprovação de cerca de 35%, composta em grande parte por seus apoiadores leais do movimento MAGA. As duas principais questões para os eleitores continuam sendo a inflação — com o aumento dos custos de alimentos, combustíveis, fertilizantes e moradia — e a guerra contra o Irã, sem qualquer desfecho positivo visível para o governo Trump. A atual composição do Congresso confere aos republicanos uma maioria mínima de quatro cadeiras tanto na Câmara quanto no Senado, o que significa que qualquer pequena mudança na preferência dos eleitores poderia transferir o poder para os democratas nas eleições de novembro.

Plano A: redesenhar o mapa das eleições nos EUA

O plano inicial de Trump para derrotar os democratas consistia em pressionar as maiorias republicanas nas legislaturas de vários estados a redesenhar os limites dos distritos eleitorais para favorecer seu partido, realocando prováveis eleitores democratas para distritos com maioria republicana e, assim, diluindo sua força nas urnas.

Simultaneamente, os seis membros da Suprema Corte dos EUA nomeados por republicanos esvaziaram dispositivos fundamentais da histórica Lei de Direitos de Voto de 1965. Eles decidiram que levar em conta padrões históricos de discriminação racial contra eleitores negros não justificava mais medidas destinadas a proteger o peso do voto afro-americano nas eleições dos estados do Sul.

Dada a recente polarização política nos Estados Unidos, na qual a maioria dos 435 distritos da Câmara foi desenhada para favorecer um partido em detrimento do outro, as estimativas atuais apontam, pelo menos, para 49 distritos nos quais há uma disputa real entre candidatos republicanos e democratas pela representação no Congresso. Pesquisas também indicam que, em nível nacional, os democratas detêm uma vantagem de 6% a 7% sobre os republicanos, o que sugere que provavelmente conquistarão o controle da Câmara dos Representantes.

A situação no Senado é mais complexa, pois os democratas precisarão reeleger vários titulares e conquistar cadeiras em estados que apoiaram candidatos presidenciais republicanos nas últimas décadas — Alasca, Carolina do Norte, Iowa, Ohio, Texas e Maine —, embora as pesquisas atuais favoreçam os candidatos democratas nestes estados por margens estreitas.

O plano B: cortar eleitores da lista

Após não conseguir assegurar uma possível maioria republicana por meio do redesenho dos mapas distritais, a estratégia seguinte de Trump foi emitir ordens executivas destinadas a restringir o voto de prováveis apoiadores de candidatos democratas, assumindo o controle federal sobre o processo eleitoral nacional — uma responsabilidade claramente atribuída aos estados pela Constituição dos EUA.

O pretexto utilizado é a suposta ocorrência generalizada de votos de não cidadãos, argumento que se alinha convenientemente à campanha agressiva de Trump contra imigrantes, mantida há uma década. No entanto, todas as investigações confiáveis sobre possíveis votos ilegais de não cidadãos revelam um número ínfimo de pessoas que efetivamente violaram a lei. Tal fato jamais determinou a vitória ou a derrota de um candidato em qualquer disputa eleitoral.

Perda do controle dos Republicanos no Congresso pode abrir caminho para novos processos de impeachment contra Trump

Terceiro plano: pressionar governadores democratas

A terceira iniciativa de Trump consistiu em exigir que governadores de estados com tendência democrata repassassem ao governo federal informações de registro eleitoral, para que este pudesse determinar quais eleitores registrados eram elegíveis para votar.

Isso conferiria ao Departamento de Segurança Interna poder ilimitado para definir quem seria considerado um eleitor legítimo e quem, na sua visão, não seria elegível ao voto. Até o momento, governadores democratas recusaram-se a cumprir a medida, e a ordem de Trump está bloqueada judicialmente.

Plano 4: exigir mais documentos para votar

Paralelamente, uma quarta estratégia utilizada por Trump para tentar favorecer os republicanos na eleição é uma proposta de lei no Congresso, conhecida como Save America Act, que exigiria que os eleitores comprovassem sua cidadania por meio de certidão de nascimento ou de passaporte dos EUA. Nos Estados Unidos, não existe um documento de identidade nacional que indique o status de cidadania, e estima-se que 21 milhões de eleitores em potencial não possuam passaporte nem acesso fácil às suas certidões de nascimento.

Essa disposição criaria complicações adicionais para pessoas que se casaram e alteraram seus nomes. Até mesmo alguns senadores republicanos consideram o projeto uma exigência excessivamente onerosa para os eleitores e recusaram-se a apoiá-lo, o que significa que ele não se tornará lei.

Quinto alvo: o voto por correio

Um quinto esforço tem sido o de bloquear o voto por correio, um método atualmente utilizado por um terço do eleitorado americano para participar das eleições. Embora o próprio Trump tenha votado por correio em duas eleições recentes na Flórida, o Save America Act e um novo conjunto de diretrizes do Serviço Postal dos EUA concederiam à agência o poder de determinar quais destinatários têm direito a receber a cédula para votar por correio, com base em registros de eleitores compilados pelo governo federal.

É provável que a Suprema Corte analise contestações às diretrizes do Serviço Postal nas próximas duas semanas. Caso a maioria conservadora apoie o plano de Trump, isso representará uma reinterpretação sem precedentes da Constituição, ao concentrar poder nas mãos de um órgão governamental que foi explicitamente excluído da organização das eleições.

Trump nunca se recuperou de sua derrota eleitoral de 2020 e continua a insistir que as eleições foram roubadas. No entanto, ele perdeu 62 ações judiciais em que não encontrou fundamento para suas alegações. Isso levou à sua tentativa desesperada de impedir a posse de Biden como presidente, mobilizando seus apoiadores para invadirem o Capitólio dos EUA em 6 de janeiro de 2023. Desde então, centenas de partidários leais a Trump foram eleitos ou nomeados para juntas eleitorais estaduais e locais, onde provavelmente tentarão direcionar os resultados eleitorais finais a favor de candidatos republicanos caso haja contestação.

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Plano 6: supervisionar as eleições

A sexta medida de Trump tem sido enviar observadores eleitorais a estados que realizaram eleições recentemente, visando construir argumentos para uma supervisão federal (e possível interferência) em disputas acirradas.

Em 2020, o procurador-geral de Trump, William Barr, bloqueou a tentativa do presidente de confiscar urnas eletrônicas no Arizona. Neste ciclo eleitoral, o Departamento de Justiça anunciou que mais de mil agentes estão sendo treinados para monitorar as eleições em estados-chave. Eles seriam, sem dúvida, bem recebidos pelas centenas de negacionistas eleitorais que supervisionam as eleições em diferentes estados. Trump poderia declarar emergência nacional e ordenar a requisição das urnas para questionar resultados eleitorais desfavoráveis e manipulá-los em favor dos republicanos.

Sétimo plano: caça aos comunistas

A sétima ação de Trump tem sido lançar uma campanha agressiva contra candidatos democratas, especialmente aqueles com inclinações socialistas democráticas, alegando que são comunistas. Embora esse discurso possa parecer um retorno anacrônico à era da Guerra Fria, ele ressoa com a base de Trump. Alguns líderes democratas moderados alimentaram esse discurso ao argumentar que alguns candidatos democratas ao Senado — Dr. Abdul El-Sayed, de Michigan, e Angela Nixon, da Flórida — estão muito à esquerda para conquistar eleitores independentes nessas duas disputas decisivas.

Medida número 8: negacionismo de guerra

Para responder aos preços elevados da gasolina e ao seu efeito em cascata na economia, como oitava medida, Trump tentou manipular o mercado declarando que a guerra com o Irã havia terminado e que sua “missão foi cumprida” — uma referência bizarra à declaração do presidente Bush na Guerra do Iraque, quando aquele conflito perdurou por vários anos a mais.

Uma campanha anunciada de sanções econômicas totais contra o Irã também parece fadada ao fracasso, pois exigiria a improvável cooperação da China, que atualmente importa entre 80% e 90% de seu petróleo do Irã.

Plano 9: se não têm picanha, que comam moída!

Em uma tentativa ineficaz de reduzir os preços, a nona ação de Trump consistiu em anunciar que os Estados Unidos importarão 300 mil toneladas métricas de carne bovina moída e aparas de carne magra estrangeiras em um prazo de 90 dias — presumivelmente da Argentina — e as venderão no mercado americano por um quarto do custo da carne nacional, prejudicando drasticamente os produtores locais.

Essa proposta enfrentou forte resistência de agricultores de inclinação conservadora em estados-chave que, por sua vez, podem determinar quem controlará o Senado. Trump também anunciou um possível acordo com a Venezuela, no qual o Pentágono faria parceria com uma empresa venezuelana para acessar o petróleo do país pelos próximos cem anos, embora qualquer nova produção significativa provavelmente demorasse anos para influenciar o preço internacional do petróleo. 

Ideia número 10: uma campanha multimilionária para se promover

A décima medida de Trump para influenciar o resultado da eleição é a promessa de gastar parte dos 400 milhões de dólares em fundos de campanha sob seu controle para produzir anúncios eleitorais nacionais que destacassem suas principais realizações nos últimos dois anos, transformando a eleição em um referendo sobre sua gestão. Isso poderia ter o efeito oposto, lembrando os eleitores, em disputas legislativas cruciais, de quão poucas de suas promessas eleitorais de 2024 Trump realmente cumpriu.

Ao mesmo tempo, e sem razão lógica aparente, Trump decidiu travar uma guerra tarifária com o Canadá, o aliado mais leal dos Estados Unidos e um importante parceiro comercial. As tarifas de 50% ameaçadas sobre produtos canadenses não apenas aumentarão os preços para os consumidores americanos, mas também devastarão a economia dos estados que fazem fronteira com o Canadá — Maine, Michigan, Wisconsin e Missouri —, onde candidatos democratas e republicanos travam disputas acirradas. A decisão extravagante de Trump de ordenar a mudança do nome do Lago Ontário para Lago América, apenas para irritar os canadenses, só acende mais lenha na fogueira do conflito entre os dois países.

Em vez de tranquilizar seus potenciais apoiadores de que está fazendo todo o possível para acabar com a guerra no Irã e reduzir os preços, Trump passou os últimos meses dedicando um tempo enorme a projetos de vaidade, mesmo quando ordens judiciais bloquearam seus esforços. Ele se recusa a desistir de tentar incluir seu nome, de uma forma ou de outra, no Kennedy Center for the Performing Arts. Ele prosseguiu com a construção de seu salão de baile dourado na Casa Branca. Ele se recusa a admitir que a incompetência de uma empreiteira causou danos ao espelho d’água do Washington Mall e não desistiu do plano de construir um arco de 250 pés de altura para se destacar na paisagem de Washington, D.C.

Em vez de apresentar sua presidência como um compromisso diário de melhorar a vida das pessoas comuns e encerrar aventuras militares no exterior, Trump parece cada vez mais empenhado em encontrar maneiras de aumentar sua fortuna e a de sua família, bem como a do 1% da população que detém 31% da riqueza do país.

Se a eleição resultar em uma onda de mudança política, os republicanos perderão o controle da Câmara e, possivelmente, do Senado. Se os resultados configurarem um tsunami a favor dos democratas, Trump pode não enfrentar necessariamente um terceiro julgamento de impeachment em 2027 — já que os democratas não obterão os dois terços dos votos necessários para declará-lo culpado de “crimes graves e delitos” (high crimes and misdemeanors) —, mas certamente enfrentará uma enxurrada de investigações por corrupção e má gestão.

Mansões, carros de luxo, viagens: a vida de Eduardo Bolsonaro e Figueiredo nos EUA

31 August 2026 at 08:00

Mansões, carros de luxo, viagens, restaurantes caros. Enquanto fazem lobby para tentar enfraquecer o governo brasileiro e o Supremo Tribunal Federal (STF) junto ao governo de Donald Trump, o ex-deputado federal Eduardo Bolsonaro e o influenciador Paulo Figueiredo mantêm um alto padrão de vida nos Estados Unidos (EUA).

Ambos já afirmaram enfrentar dificuldades financeiras devido ao que chamam de “perseguição política”. No entanto, um levantamento da Agência Pública e do ICL Notícias revela um cenário diferente. Além de viverem em casas milionárias, no último ano os dois adquiriram carros caros, têm frequentado restaurantes sofisticados, mantêm os filhos em escolas particulares e acumularam uma extensa agenda de viagens.

Eduardo Bolsonaro e Paulo Figueiredo foram centrais na articulação para impor tarifas contra o Brasil e retaliações contra ministros do Supremo. Desde 2025, eles participaram de dezenas de reuniões com deputados republicanos e membros do governo dos EUA pedindo intervenções em resposta à condenação do ex-presidente Jair Bolsonaro por tentativa de golpe de Estado em 8 de janeiro de 2023.

Em maio de 2025, três meses após se mudar para o Texas e anunciar que viveria uma espécie de “autoexílio”, Eduardo Bolsonaro comprou um carro novo. Não exatamente um modelo econômico para atravessar tempos difíceis. Ele adquiriu um GMC Acadia Elevation 2025 preto, um SUV de três fileiras de assentos, avaliado em cerca de 43,8 mil dólares nos EUA, o que equivale a aproximadamente R$ 226 mil.

Os registros de gastos associados à família Bolsonaro nos EUA mostram que, desde a mudança para o país, em fevereiro do ano passado, o padrão de vida não parece ter encolhido, nem mesmo após o STF determinar o bloqueio dos bens de Eduardo Bolsonaro e de sua esposa, Heloísa Bolsonaro, em julho de 2025. Eduardo ainda perdeu o salário que recebia como deputado federal em dezembro, quando seu mandato foi cassado por faltas, e, desde 2015, não recebe salário como escrivão da PF, de onde a corporação recomendou sua demissão por abandono do cargo.

Ao chegar aos EUA, o ex-deputado escolheu Arlington, no Texas, onde já havia mantido uma empresa entre 2023 e 2024. A residência alugada estava longe de ter as dimensões de um refúgio improvisado. Tinha pouco mais de 300 metros quadrados, quatro quartos e quatro banheiros, com valor de mercado estimado em 707,7 mil dólares (cerca de R$ 3,6 milhões). O valor da locação anunciado em sites imobiliários, quando eles alugaram a casa, era de 4,5 mil dólares,  aproximadamente R$ 23,3 mil na cotação atual.

Em maio de 2025, Jair Bolsonaro chegou a transferir R$ 2 milhões ao filho. “Botei dinheiro na mão dele, dinheiro limpo, legal, Pix”, afirmou o ex-presidente.

Dias depois, Eduardo chegou a reclamar para o pai, em mensagens trocadas por Whatsapp, que estava “se fodendo” nos EUA. Ao reclamar de uma entrevista em que Jair dizia que o filho era imaturo, Eduardo reclamou que, ao jogar ele para baixo, o ex-presidente o estaria condenando a passar o “resto da vida nessa porra aqui”. “VTNC seu ingrato do caralho!”, escreveu.

A situação parece ter melhorado desde então. Pouco mais de um ano depois, em maio de 2026, a família trocou Arlington por um endereço ainda mais valorizado, em Southlake, uma das cidades mais ricas do Texas, onde a renda familiar média é de 250 mil dólares – três vezes maior do que em Arlington, por exemplo. Eduardo, a esposa e os dois filhos moram atualmente em uma casa que oferece “uma vida de resort”, conforme revelou o The Intercept Brasil.

Avaliada em 1,22 milhão de dólares, cerca de R$ 6 milhões, a mansão foi anunciada para aluguel por aproximadamente 5,9 mil dólares (em torno de R$ 30 mil mensais), segundo anúncios imobiliários que permaneceram ativos até fevereiro deste ano. O imóvel tem 424 metros quadrados de área construída, em um terreno de 1.366 metros quadrados, quatro quartos e piscina, além de acesso a um clube com quadras de tênis e a uma lagoa.

A filha mais velha do casal Bolsonaro, de cinco anos, foi matriculada numa escola cristã a cerca de 15 minutos de casa, com custo anual de 18 mil dólares (R$ 93,4 mil), conforme divulgado no site da escola.

Eduardo nega ter usado parte da verba do filme Dark Horse para custear sua vida nos EUA. O filme foi financiado com cerca de R$ 61 milhões do banqueiro Daniel Vorcaro, por meio do Fundo Havengate. O negócio veio à tona após reportagem do Intercept Brasil. Conforme revelou o portal, Flávio Bolsonaro chegou a pedir o dobro desse valor ao banqueiro, hoje preso por gestão fraudulenta e estelionato, lavagem de dinheiro, corrupção de servidores públicos, organização criminosa e obstrução da Justiça.

“A história de que recebi dinheiro do fundo de investimento não se sustenta e é tosca”, afirmou Eduardo em suas redes sociais. “No meu processo migratório, expliquei às autoridades americanas toda a origem dos meus recursos e não tive qualquer problema”, disse.

Procurado pela reportagem, Eduardo não respondeu como financia seu padrão de vida nos Estados Unidos.

Em outras ocasiões, ele afirmou que se mantém com “renda passiva” e já disse também que recebe dinheiro por meio de cursos que ministra – os cerca de  50 mil dólares que ele disse ter investido no filme Dark Horse, por exemplo, teriam esta origem.

20 viagens em 18 meses

Chama a atenção o volume de dinheiro que Eduardo Bolsonaro vem gastando com viagens dentro e fora dos EUA. Desde fevereiro do ano passado, o ex-deputado federal viajou ao menos 20 vezes, entre compromissos políticos e passeios turísticos.

Para comemorar o primeiro aniversário de Heloísa Bolsonaro após a mudança para os EUA, a família foi para a Disney em junho de 2025. Cinco meses depois, em dezembro, Eduardo Bolsonaro esteve na cidade de Park City, em Utah, destino nas montanhas conhecido internacionalmente por suas estações de esqui. A passagem ocorreu justamente no início da alta temporada de neve na região.

Já em fevereiro deste ano, Eduardo viajou para West Palm Beach, na Flórida, onde o custo diário de acomodação pode ser superior a R$ 1.000. Dali, ele participou do Latin Gala em Mar A Lago, o resort de Trump. Na festa para a comunidade Latina, ele premiou Fernando Cerimedo, marketeiro político responsável por mentiras sobre as urnas brasileiras que está preso na Bolívia por tentativa de assassinar a namorada.

Durante a Copa do Mundo, ele  foi a Miami assistir à partida entre Brasil e Escócia, que ocorreu no dia 24 de junho. Ele ficou hospedado em um hotel de luxo, que cobra diárias de R$ 16 mil e chega a oferecer pacotes de experiência avaliados em um milhão de dólares, conforme revelou a Revista Fórum.

Mas a maior parte dos deslocamentos do ex-deputado, desde que se mudou para os EUA, está ligada à sua atuação política. Ao lado de Paulo Figueiredo, Eduardo tem se mobilizado para pressionar o governo norte-americano a impor sanções ao Brasil e a ministros do STF. Juntos, os dois estiveram pelo menos sete vezes em Washington e fizeram outras três viagens a Mar-a-Lago, na Flórida. Paulo frequenta o resort desde 2019 e parece manter sua primeira impressão: “simplesmente lindo!”

Em meados de maio, Eduardo hospedou-se, junto com Paulo, no histórico hotel Willard Intercontinental Washington, quando se reuniram com Trump na Casa Branca. Eduardo e sua turma alugaram os quartos, que têm preço inicial a partir de R$ 1,5 mil  por noite, mas podem chegar a custar R$ 50 mil por diária. Eles chegaram a receber, no hotel, a visita de Darren Beattie, assessor sênior de política para o Brasil no Departamento de Estado.

A agenda de Eduardo Bolsonaro e Paulo Figueiredo também cruzou as fronteiras norte-americanas, com pelo menos três viagens ao Oriente Médio.

“Pra quem surfa, sabe que isso aqui é o que há de melhor no mundo.” Com uma prancha debaixo do braço, Eduardo Bolsonaro aparece diante da maior piscina de ondas artificiais do mundo, em Abu Dhabi. No vídeo, publicado em 8 de fevereiro, ele também demonstra suas habilidades ao longo de uma sequência de manobras. As imagens foram gravadas no Surf Abu Dhabi, na ilha de Hudayriyat, onde uma sessão de 45 minutos para surfistas de nível intermediário e avançado custa 1,8 mil dirhams dos Emirados Árabes Unidos (AED) $ 953 — cerca de R$ 2,5 mil.

Na ocasião, Eduardo viajava pelo Oriente Médio ao lado do irmão, o senador e então pré-candidato à presidência Flávio Bolsonaro, e de Paulo Figueiredo. O trio divulgou encontros com autoridades no Bahrein e nos Emirados Árabes Unidos como parte de sua agenda política na região. Mas, entre um compromisso e outro, as redes sociais também registraram momentos de lazer.

Figueiredo, por exemplo, compartilhou avaliações de restaurantes em Dubai, como o CZN Burak Dubai, especializado em culinária turca, onde comeu um dos melhores kebabs da sua vida, além de um ensopado de camarão apimentado. “Divino”, “sobremesa perfeita” estão entre os elogios feitos à casa, cujo preço estimado por pessoa é de R$ 140 a R$ 210. Ele também visitou o Clay Dubai, na marina da cidade, onde se paga entre R$ 560 e R$ 630 por pessoa. “Este lugar não é apenas LINDO, mas tudo o que comemos estava delicioso”, escreveu. Em um restaurante de comida japonesa, reclamou de ter comido um sushi de abacate com salmão por 45 dólares. “ATENÇÃO! Este lugar é uma armadilha para turistas!”, escreveu.

Procurado pela reportagem, Paulo Figueiredo dirigiu ironias e agressões contra a Agência Pública antes de afirmar: “Eu me financio através das minhas empresas e não devo satisfação a ninguém”.

Em intervalo de 6 meses, Figueiredo comprou mansão de R$ 6,1 milhões e Cybertruck da Tesla

Os registros levantados pela reportagem indicam que Paulo Figueiredo também elevou seu padrão de vida no último ano. Em novembro de 2025, conforme revelaram a Agência Pública e o ICL Notícias, o influenciador comprou por 1,2 milhão de dólares — cerca de R$ 6,1 milhões — uma mansão em Clermont, na Flórida. Para fechar o negócio, contratou um financiamento imobiliário de 1 milhão de dólares.

A propriedade fica em um terreno de 17,5 mil metros quadrados, o equivalente a cerca de dois campos e meio de futebol, e tem 515 metros quadrados de área construída. São dois andares, seis quartos e cinco banheiros, além de salas de estar e de jantar, cozinha gourmet e sala de jogos. Do lado de fora, há piscina de água salgada, jacuzzi para 12 pessoas, varanda, lareira e até uma casa na árvore.

Seis meses depois, em maio de 2026, Figueiredo ampliou a garagem com um Cybertruck 2026, da Tesla, montadora de Elon Musk. O veículo tem valor de mercado estimado em 83 mil dólares, o que equivale a R$ 427,9 mil. O influenciador também possui, desde 2024, uma BMW Série 6 de 2004, hoje avaliada em cerca de 9 mil dólares (aproximadamente R$ 51 mil).

A compra da mansão ocorreu apenas um mês depois de Figueiredo informar à Justiça dos Estados Unidos que não tinha recursos para contratar um advogado para representar sua empresa, a International Treasure Group, condenada à revelia. A ação contra a companhia faz parte de um processo de falência que visa recuperar transferências supostamente vinculadas ao esquema de fraude atribuído ao magnata chinês Miles Guo.

A International Treasure Group entrou no processo após receber 140 mil dólares — cerca de R$ 670 mil — por serviços prestados à rede social Gettr entre agosto de 2021 e abril de 2022, segundo a defesa de Figueiredo. Fundada pelo ex-assessor de Donald Trump, Jason Miller, a plataforma tinha Guo como financiador oculto.

A mansão em Clermont não é o único imóvel de Figueiredo na Flórida. Ele também possui uma casa em Weston, colocada à venda em junho deste ano por 1,09 milhão de dólares — cerca de R$ 5,5 milhões —, segundo sites imobiliários americanos. Desde 2016, a propriedade estava registrada em nome da Olive-Fig Tree Real Properties LLC, empresa que também pertence ao influenciador.

Em outubro de 2025, porém, o imóvel de Weston foi transferido para o nome de Figueiredo, segundo documentos do estado da Flórida. No mês seguinte, ele adquiriu a mansão de Clermont.

As movimentações contrastam com declarações feitas pelo próprio Figueiredo sobre sua situação financeira. Em 2024, quando já articulava, nos Estados Unidos, possíveis retaliações contra autoridades brasileiras, ele deu seu testemunho em uma audiência no Congresso americano, afirmando ser vítima de perseguição do STF e que estava  “desempregado, sem minhas redes sociais e suas respectivas monetizações, responsável por sustentar minhas duas filhas americanas de 7 e 8 anos”.

Paulo é cidadão americano, assim como suas filhas, e usa este fato para alardear que tem sido censurado pelo STF – o que embasou diversas ações de aliados no governo e no legislativo norte-americano, como a lei “No Censors in Our shores”, proposto pela deputada republicana Maria Elvira Salazar um mês depois dela ter recebido uma doação de campanha de Paulo no maior valor possível na época (R$ 57 mil), conforme revelou a Pública.    

Na Flórida, Paulo frequenta restaurantes renomados e costuma ser bastante crítico quanto à gastronomia. Frequenta restaurantes com estrelas Michelin, mas nem sempre sai satisfeito. Por exemplo, em abril, ele foi ao restaurante de culinária asiática fusion Nami, no hotel Lake Nona Wave, em Orlando, onde também se paga, por pessoa, cerca de 500 reais por refeição. “Fiquei muito decepcionado, ainda mais por se tratar de um restaurante com estrela Michelin. As porções são ridiculamente pequenas, não condizendo com o preço cobrado. Pra ser sincero, este é o primeiro lugar com estrela Michelin onde definitivamente não pretendo voltar”.

Em outros restaurantes, ele reclama dos valores pagos por porções pequenas, o que ele diz ser regra em Miami, “restaurantes muito caros com comida mediana”. 

Não que ele não tope pagar caro. Há cerca de um ano, ele foi com a esposa ao Restaurante MAASS, em Fort Lauderdale, onde pagou “quase 400 dólares” – R$ 2 mil reais – em um menu degustação para duas pessoas. “Mesmo experimentando o menu degustação, nada do que comi foi memorável e me fez querer voltar”, escreveu.

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