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Escudo das Américas: iniciativa de Trump e de 14 países inclui cartel que não existe

23 September 2026 at 16:12

No primeiro dia da Assembleia Geral da ONU, o governo de Donald Trump publicou um comunicado conjunto com 14 países da América Latina – Argentina, Bolívia, Chile, Colômbia, Costa Rica, República Dominicana, Equador, El Salvador, Guiana, Honduras, Panamá, Paraguai, Peru e Trinidad e Tobago – anunciando ações conjuntas para combater organizações que os EUA designaram como terroristas. Entre elas estão as brasileiras PCC e CV. 

Pouco antes, no seu discurso na ONU, Trump afirmara que os cartéis de drogas “são o Estado Islâmico do hemisfério” e seus membros “devem ser executados, exilados ou detidos como inimigos combatentes”.

Um nome, entretanto, chama atenção: o Cartel de Los Soles está listado entre as 24 organizações “narcoterroristas” que devem ser combatidas. 

Acontece que o Cartel de Los Soles não existe. O nome é uma gíria que os venezuelanos usam para se referir à corrupção por parte de militares – algo como “petralhas” ou “bolsominions”. 

Como a Agência Pública revelou em uma reportagem no início do ano, a narrativa sobre a existência do Cartel de Los Soles foi criada pelo Departamento de Justiça no primeiro governo de Donald Trump, para embasar o indiciamento criminal de Nicolás Maduro e mais 14 membros do governo venezuelano. A acusação afirmava que Maduro “ajudou a gerir e, por fim, a liderar o Cartel de los Soles à medida que ganhava poder na Venezuela” e que “enquanto a maioria das organizações de tráfico de drogas na América do Sul e Central procurou recuar da importação de narcóticos para os Estados Unidos (…) o Cartel de los Soles, sob a liderança de Maduro Moros e outros, priorizou o uso da cocaína como uma arma contra os Estados Unidos, ao importar o máximo de cocaína possível”.

Depois, em novembro de 2025, a pretensa organização foi designada pelo Departamento de Estado como uma Organização Terrorista Estrangeira. Foi essa designação que deu uma capa de legalidade para a invasão militar da Venezuela. 

Mas nem mesmo o Departamento de Justiça tem segurança sobre as acusações de que o Cartel existe. Enquanto no primeiro documento de indiciamento contra Maduro, de 2020, ele é acusado de “chefiar o cartel de Los Soles” e a suposta organização é mencionada 32 vezes, no indiciamento final, emitido depois da captura de Maduro, o Cartel é citado apenas duas vezes, e descrita como um “sistema de patronagem administrado por aqueles no topo” – e não mais como uma organização de tráfico de drogas.

Por que isso importa?

  • O sequestro do então presidente da Venezuela Nicolás Maduro foi justificado pelos Estados Unidos em função de sua suposta atuação no tráfico de drogas.
  • A ação norte-americana se baseou em determinações de grupos criminosos venezuelanos como terroristas pelos próprios Estados Unidos. De forma semelhante com o que ocorreu com o PCC e o CV em junho deste ano.

Existem definições técnicas na Convenção contra o Crime Organizado Transnacional da ONU que determinam o que é uma organização criminosa internacional: um corpo organizado com uma estrutura e hierarquia, divisão de tarefas e continuidade temporal; autonomia em relação ao Estado; e comprovação da sua existência por investigações policiais. O Cartel de Los Soles não se enquadra em nenhum destes aspectos. 

A adoção ampla de uma organização que não existe pelos 14 países que fazem parte do Escudo das Américas demonstra a supremacia do governo norte-americano nas ações do grupo. 

Presidente dos Estados Unidos Donald Trump
Trump afirmou em discurso que os cartéis de drogas “são o Estado Islâmico do hemisfério” e seus membros “devem ser executados, exilados ou detidos como inimigos combatentes”

O que promete a aliança do Escudo das Américas  

Os 14 países que fazem parte do Escudo das Américas, iniciativa lançada em março deste ano, são todos governados por aliados de Trump na direita continental. Ontem, em comunicado conjunto, eles prometeram impor, “congelamento de ativos; restrições de imigração e de visto para membros, associados e apoiadores dessas organizações; e a responsabilização criminal de indivíduos que, conscientemente, forneçam apoio material — incluindo apoio logístico — a tais organizações”. 

México e Brasil, os dois maiores e mais ricos países do continente, não fazem parte do Escudo. Ambos sofrem pressões políticas dos EUA para enfraquecer seus governos, com orientação à esquerda. 

O grupo também prometeu pedir à OEA (Organização dos Estados Americanos) uma resolução que “promova e facilite a ação coletiva contra organizações narcoterroristas no âmbito do Tratado do Rio”. Assinado em 1947, o Tratado do Rio estabelece que um ataque armado contra qualquer país americano é considerado um ataque contra todos. A ideia seria militarizar de vez o combate ao narcotráfico sob a liderança dos EUA, como uma “Otan” latinoamericana.   

Para Fulton Armstrong, ex-diretor para temas interamericanos do Conselho de Segurança Nacional dos EUA, este tipo de iniciativa “não funciona” e pode aumentar tensões continentais.

“À medida que fica claro que designar criminosos como terroristas e atacá-los como alvos militares não funciona, é natural que os países procurem atores externos – incluindo seus vizinhos – para botar a culpa. O exemplo clássico foi a Colômbia, que produz e trafica quantidades recordes, mas transferiu a culpa para a Venezuela. Os Estados Unidos, que consomem as drogas que passam pela América Central e pelo México, culpam esses países pelo problema. A maior parte dos narcóticos que passam pelo Brasil tradicionalmente tem como destino a Europa, mas Washington se reservou o direito de acusar o Brasil de não ser bom parceiro e de resistir às políticas dos EUA. A designação de terrorista politiza a questão e aumenta as tensões entre os vizinhos”, diz. 

Para Fulton, a militarização da Guerra às Drogas não funcionou bem no passado. “Gastamos 16 bilhões de dólares no Plano Colômbia, e a produção de cocaína continua batendo recordes. A estratégia, além disso, aumenta a violência que afeta toda a sociedade, como vimos no México e em toda a América Central. Chamar os criminosos de ‘terroristas’ é politicamente conveniente, mas operacionalmente desastroso”. 

O governo brasileiro resiste à designação de organizações como CV e PCC como terroristas, pois considera que isso permite ações de interferência dos EUA contra o sistema financeiro brasileiro e também ações militares. Em alerta enviado na semana passada, a Agência Brasileira de Inteligência (Abin) avaliou que o risco de interferência norte-americana contra o Brasil atingiu nível “crítico” justamente pela designação do PCC e CV como terroristas.

Depois de sanções contra pessoas e empresas brasileiras em julho por vínculos ao PCC, a Abin disse que isso “representa mudança de fase na escalada de sanções e interferência estadunidense”. Segundo a Abin, a interferência externa dos EUA sobre o Brasil ocorre de modo “gradual, combinado e adaptativo” que passa pelo enquadramento legal e pela construção de narrativa sobre atuação transnacional dos criminosos e sua vinculação com o sistema financeiro norte-americano.

Os EUA, com isso, “ampliam o potencial de efeitos extraterritoriais sobre bancos, fintechs, empresas, prestadores de serviços e cadeias produtivas brasileiras”, diz a Abin.

“Modelo Bukele” no Brasil significaria 4 milhões de brasileiros na cadeia

21 September 2026 at 21:00

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A anedota foi contada pelo jornalista Carlos Dada, fundador do site El Faro, de El Salvador, durante o festival Piauí.

Ele estava em um debate na Europa explicando como funciona a política de segurança pública do presidente de El Salvador, Nayib Bukele, quando foi interpelado por um empresário brasileiro, que lhe disse: “precisamos de um Bukele no Brasil”. 

Dada, que conhece o Brasil e fala português, pediu mais explicações. “Qual é o problema que enfrentamos na segurança pública?” O interlocutor explicou que as favelas aqui, assim como as comunidades pobres em El Salvador, são dominadas por organizações criminosas. O jornalista respondeu: “Então é fácil resolver o problema. Basta lançar bombas nas favelas”. Surpreso, o brasileiro retrucou: “Mas não podemos fazer isso”. “E por quê?”, perguntou Dada. “Porque iríamos matar gente inocente”.

“Pronto, então você já entendeu o que é o modelo Bukele”.

Carlos Dada é meu amigo desde a fundação da Agência Pública, e é uma das pessoas que conhece mais profundamente o que significa na prática o tal “modelo Bukele” defendido por vários candidatos da direita. À frente do El Faro, primeiro site jornalístico do continente e um dos mais premiados, ele viu o número de encarceramentos do país se tornar o maior do mundo em apenas alguns anos, relativamente à população. 

Hoje, 1 em cada 50 salvadorenhos estão na prisão, ou 120 mil dentre 6 milhões de cidadãos. Se transportado para o Brasil, isso significaria mais de 4 milhões de brasileiros na cadeia. Atualmente temos mais de 960 mil presos, terceira maior população carcerária do mundo. 

O “modelo Bukele” é defendido por empresários como aqueles da cúpula da Fiesp que, em 31 de agosto, fez um evento com candidatos da direita, entre eles o ex-juiz Sérgio Moro, candidato ao governo do Paraná pelo PL e o candidato a Senador por SP, Guilherme Derrite (PP) para ouvirem o ministro de Segurança Pública de El Salvador, Gustavo Villatoro. O presidente da Fiesp, Paulo Skaf, disse na ocasião: “O que precisamos como sociedade é dar o apoio que for necessário para que um novo governo possa fazer as transformações que o Brasil necessita e para que as pessoas possam sentir segurança” – reforçando sua torcida por um “novo governo”.

O que o empresariado de São Paulo não sabe é que o “sucesso” da redução imediata da criminalidade pelo governo Bukele não se deveu a um plano milagroso, mas a um acordo com os líderes das organizações criminosas mais conhecidas, como a Mara Salvatrucha. Quem descobriu detalhes destes acordos foi Carlos Dada e sua equipe.

“O acordo incluiu a libertação ilegal e em segredo de alguns chefões que já estavam presos. Implicou também o alívio de medidas em cadeias de segurança máxima. Seus parentes sim podiam visitá-los, eles tinham mais horas livres, tinham muitas saídas a hospitais onde se reuniam com seu pessoal”, explica. Do lado dos criminosos, a promessa era baixar o número de homicídios e garantir o voto a Bukele em suas comunidades. 

A equipe do El Faro recebeu vazamentos de documentos mostrando como as “saidinhas” de chefões se tornaram muito mais frequentes, assim como as visitas. E eles obtiveram áudios nos quais um ministro de Bukele pessoalmente confessa ter tirado o chefão chamado Crook da cadeia e o levado em seu carro até a Guatemala. A viagem foi confirmada por um registro insuspeito: durante todo o trajeto a namorada do criminoso tirou fotos e postou no seu Instagram, tentando esconder o namorado. “Mas apareciam os braços e as tatuagens dele”, explica Dada. 

A coisa ficou ainda mais escancarada, explica Dada, quando alguns destes líderes foram presos no México e extraditados para os Estados Unidos. Dada e seus colegas conseguiram comprovar que a própria justiça americana beneficiou estes criminosos – a pedido do governo Trump. 

“Os criminosos estavam para ser julgados nos EUA, e alguns assinaram acordos como testemunhas protegidas e revelaram este pacto com Bukele. Dá um Fast Forward. Trump ganha a presidência nos Estados Unidos, Bukele lhe oferece a megacadeia para imigrantes e os dois viram os melhores amigos do mundo”, continua. 

Logo nas primeiras levas de imigrantes venezuelanos enviados para El Salvador, os jornalistas do El Faro perceberam um detento que não era venezuelano. 

“Você se lembra daquele famoso vídeo em que o avião desce, recebem em San Salvador os venezuelanos, cortam o cabelo deles, e os levam algemados? Todos nós vimos esse vídeo no mundo todo, mas nós vimos uma coisa a mais: entre esses venezuelanos vinha um sujeito que não era venezuelano, que conhecemos pelas tatuagens. Era um dos doze capturados da Mara Salvatrucha”. 

Ao analisar os documentos, descobriram que o procurador-geral da Justiça, o que equivale a nosso Ministro da Justiça, pediu ao juiz federal para suspender as acusações contra o criminoso, argumentando interesses de política exterior.

“É incrível o que aconteceu, Natalia!” 

Por conta destas revelações, Dada e os jornalistas do El Faro passaram a ser perseguidos pelo governo Bukele. Primeiro foi espionagem: invadiram os celulares de todos com o software israelense Pegasus, enviaram drones às suas casas, mantiveram agentes de inteligência na porta das suas casas. Depois vieram as ameaças anônimas, ameaças de morte, ameaças de carro-bomba. Depois Bukele os acusou em cadeia nacional de lavagem de dinheiro. Fizeram auditorias por evasão de impostos. Depois, começaram a embargar propriedades dos sócios. Em um determinado momento, eles foram avisados que não deveriam retornar ao país. Seriam presos.

Hoje, toda a redação está fora do país. E no total, 50 jornalistas já deixaram El Salvador.

Tudo isso é fruto do “modelo Bukele”, que decretou um estado de exceção que já foi renovado mais de cinquenta vezes, dando poder total ao presidente sobre todas as forças de segurança. Através dele, qualquer policial tem o direito de prender qualquer pessoa sem nenhuma ordem judicial, e esta pessoa vai imediatamente para uma das prisões do país. 

Não existe mais direito à defesa.

“Se Bukele controla o Poder Legislativo, o Poder Judiciário, o Poder Executivo, a Procuradoria-Geral da República, a Procuradoria de Direitos Humanos, a Polícia e o Exército, e os controla por cima da lei, na prática é Bukele quem decide quem é criminoso e quem não é criminoso”, resume Dada.

Ao longo de mais de uma hora de conversa, Dada me explicou outros aspectos do tal “modelo Bukele” que são de embrulhar o estômago, como a morte de mais de 400 pessoas por tortura nas prisões – morreram por espancamento – e as audiências de custódia, que agora são realizadas de forma massiva, com 100 ou 200 presos sendo avaliados de uma só vez por um juiz.

Há histórias apavorantes. Um homem foi preso apenas porque ficou nervoso quando abordado pela polícia; em uma cidadezinha, uma cooperativa de taxistas foi denunciada pela cooperativa rival. Foi todo mundo encarcerado como se fossem criminosos.

Por tudo isso, Dada ficou muito surpreso com o evento da Fiesp, que fez questão de assistir por inteiro pelo YouTube. Ele, que é admirador do Brasil e acompanha de perto nossa política, disse que “me pareceu muito preocupante que depois que um ministro faz uma apresentação na qual não mostra o modelo Bukele, mas o que eles querem vender”, o discurso tenha sido tão aplaudido.

“É uma face construída por uma eficiente equipe de propaganda que é o que chamam de ‘modelo Bukele’. E o ministro apresentou seu modelo Bukele em termos bíblicos, como uma luta entre o bem e o mal, literalmente disse: entre os seres de luz e as criaturas da escuridão”.

Dada estranhou os aplausos efusivos de uma plateia qualificada como aquela. “O que eu creio que isso deveria fazer é deixar todo mundo de orelha em pé”.

Financiamento de grupo ligado a J. D. Vance pode ser maior escândalo da eleição

14 September 2026 at 19:00

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A denúncia vem de fonte suspeita: Renan Santos. O candidato do Missão está bradando aos quatro ventos que a campanha de Flávio Bolsonaro recebeu dinheiro do Rockbridge Network, uma rede de financiadores da extrema direita ligados ao Vale do Silício e que foi fundada pelo vice-presidente dos EUA, J. D. Vance. O principal interesse do grupo é organizar uma infraestrutura mundial para a evolução da IA, incluindo terras raras e data centers.  

Segundo Renan, dois empresários, chamados Tallis Gomes e Pedro Sang, são representantes da Rockbridge no Brasil e intermediariam os fundos. “Esses caras vieram para o Brasil e saíram oferecendo apoio a várias candidaturas: Flávio, antes tentaram o Tarcísio, e fecharam com o Flávio. Esses caras trabalham com muitas coisas, entre elas terras raras. Eles entraram na campanha do Flávio, naturalmente e ilegalmente”, afirmou Renan Santos.

Se fato, Renan está desesperado por atenção desde que viu a ascensão de Augusto Cury (Avante).

Mas graças ao site Amado Mundo, do jornalista Guilherme Amado, sabemos que pelo menos parte das acusações é verdade. E elas são graves, porque financiamento externo de campanha é proibido pela lei eleitoral. 

Segundo o site, o carioca Pedro Sang atua de fato dentro do comitê da campanha de Flávio Bolsonaro em São Paulo, em um casarão perto do parque Ibirapuera, na zona sul, onde despacha de uma sala no segundo andar. Pedro teria providenciado imóveis e infraestrutura ao local. A quem pergunta, ele se apresenta, segundo o Amado Mundo, como “Pedro da Rockbridge”. Pedro Sang reconheceu que é ligado ao Rockbridge, mas negou ser intermediador de fundos. 

Flávio mudou seu QG de campanha de Brasília para São Paulo no começo de julho. O objetivo propalado era facilitar viagens para Minas, Rio e Paraná e estar mais perto da Faria Lima.  

O especialista em direito eleitoral, advogado Fernando Neisser, afirma que “a entrada de recursos internacionais em campanha eleitoral no Brasil é absolutamente proibida, seja oriundos de pessoas físicas, cidadãos não brasileiros, seja por meio de empresas, de pessoas jurídicas”.

“É uma grave irregularidade, constitui abuso de poder econômico, que, se for comprovado, levaria à instauração de uma ação de investigação judicial eleitoral perante o TSE e, caso haja, como disse, prova suficiente, a condenação levaria à cassação do registro, do diploma ou do mandato, caso seja vencedor e isso aconteça depois das eleições, e a necessidade de convocação de novas eleições, além de acarretar a inelegibilidade de oito anos das pessoas consideradas responsáveis por esse ato de abuso de poder econômico”.

Para ele, “não faz diferença se esse pagamento é em dinheiro, se esse pagamento é em bens, como aluguéis, enfim, fornecimento de material, de insumos, ou no pagamento de serviços”. 

Ele alerta ainda para outra hipótese. Caso o trabalho de algum colaborador ou serviço seja pago por fora da campanha, isso poderia constituir Caixa 2.

Fundado em 2019 por J. D. Vance, vice-presidente dos Estados Unidos, e o empresário Chris Buskirk, o Rockbridge Network é tido como responsável pelo impulsionamento do vice para o círculo de Trump. O objetivo declarado de Buskirk é “transformar” o Partido Republicano. Editor do site American Greatness, ele diz ser a “voz da nova geração de conservadorismo americano” e que os conservadores dos EUA “perderam seu caminho”. Além dele, manteve durante anos um Podcast com as tais “novas vozes” do conservadorismo, entre elas Darren Beattie, que hoje é o principal aliado de Eduardo Bolsonaro no Departamento de Estado.  

Chris é um velho conhecido de Eduardo Bolsonaro. Em 17 de março de 2019, ambos estiveram presentes no jantar oferecido a Olavo de Carvalho e Jair Bolsonaro em Washington, às vésperas da primeira reunião do ex-presidente com Donald Trump. No jantar oferecido pelo embaixador Sérgio Amaral na residência oficial, Olavo de Carvalho, ainda vivo, foi o centro das atenções, recepcionado junto a estrelas hoje caídas do bolsonarismo, como general Heleno, o general Rego Barros e Filipe Martins. Mas, segundo relevou O Globo, Eduardo Bolsonaro deu atenção a Chris Buskirk e Steve Bannon, ao lado do ex-ministro das Relações Exteriores, Ernesto Araújo. 

O Amado Mundo descobriu outras ligações diretas entre a turma do Rockbridge e a campanha de Flávio Bolsonaro. 

Um memorando chamado “Prosperity Partnership” elaborado por André Marinho, candidato do Partido Novo a governador do Rio de Janeiro e filho do suplente de Flávio Bolsonaro ao Senado, inclui diretrizes em inglês de como seria uma parceria do potencial governo de Flávio Bolsonaro com os Estados Unidos para exploração de minerais críticos e terras raras. Em suma, ele propõe o afastamento da China e um completo alinhamento com os EUA, notando que o tema destes minerais é considerado um tema de “segurança nacional” para os EUA. 

Os termos da apresentação são idênticos ao discurso feito por Flávio Bolsonaro no CPAC deste ano, que já tinham um tom de “pitch” de vendas para investidores, como apontei nesta coluna. O discurso aconteceu nove dias depois da elaboração do documento.     

André Marinho admitiu ser autor do documento mas nega que ele tenha sido apresentado a qualquer estrangeiro. Mas o Amado Mundo descobriu que, três semanas depois de elaborar o documento, Marinho esteve nos EUA com J. D. Vance. 

Marinho é irmão de Giulia Be, que é casada com Conor Kennedy, filho do secretário de Saúde do governo Donald Trump, Robert Kennedy Jr. O encontro com J. D. Vance teria sido articulado pelo cunhado. 

Procurado, Flávio não respondeu aos questionamentos do site Amado Mundo. 

Em meio a tantas revelações nas últimas semanas, todas elas tingidas de interferência nas eleições, é importante mantermos o foco no que de fato importa. Como já argumentei aqui nesta coluna algumas vezes, os EUA já interferiram de pelo menos 5 maneiras nas eleições brasileiras. Mas até agora nunca apareceu uma transferência de verbas ou bens diretamente para a campanha de Flávio Bolsonaro por grupos ou potências estrangeiras. 

Embora ainda não haja provas de que isso tenha de fato acontecido, a aliança com Rockbridge Network pode levar ao elo que falta para entendermos se o candidato do PL cometeu crime eleitoral na sanha de vencer a corrida para a presidência do país – e o que ele estava disposto a dar em troca.  

Estreia hoje programa de análises Quase Terça; assista no YouTube

7 September 2026 at 18:00

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Você tem tempo de ler tanta notícia? Apenas na última semana, tivemos as revelações sobre o estilo de vida de Paulo Figueiredo e Eduardo Bolsonaro nos EUA, o valor dos repasses de Vorcaro para o filme Dark Horse chegando a mais de 14 milhões, a ação kamikaze do ministro do STF André Mendonça revelando o que tudo indica ser uma relação espúria de Alexandre de Moraes com o banqueiro Daniel Vorcaro, um depoimento “clandestino” sem a PF do mesmo banqueiro, novos encontros com o próprio Mendonça e recados amorosos de Nikolas Ferreira. Ufa!

Não dá pra acompanhar tudo, e aqui na Pública nós gostamos de fazer as coisas com tempo. Por isso, decidimos lançar um programa semanal no YouTube, onde você, junto com a gente, vai destilar o que vale e o que não vale prestar atenção na guerra informacional e no noticiário. Afinal, sabemos que quando há grupos em disputa, a própria imprensa vira arma de vazamentos e é muito difícil entender o que importa.

Por isso, calma lá. O Quase Terça vai ao ar todas as segundas-feiras a partir das 17:30 e, nele, eu e meu grande companheiro Thiago Domenici, também diretor da Pública e chefe da sucursal de Brasília, vamos nos aprofundar em dois temas que devem (ou deveriam) pautar a semana, além de trazer os bastidores dos furos da Agência Pública e entrevistas inéditas. Tudo para você ficar bem informado sobre o que se passou e o que pode se passar na semana que começa.

Se aprendemos alguma coisa nestes últimos 15 anos desde a fundação da Agência Pública, é que no Brasil sempre tem uma história por trás da história, e que nada está garantido. Reviravoltas na vida política nacional são a regra, assim como o fato inegável que nossa democracia está sob ataque e tem muita gente querendo enfraquecê-la.

Tanto os direitos da maioria quanto órgãos de controle, os famosos pesos e contrapesos necessários para limitar a influência de homens poderosos, estão sempre no alvo.

Quem é quem neste jogo? A quem servem jogadas ensaiadas? De onde vem informações bombásticas e a quem servem? É isso que tentaremos destrinchar no programa, com a tranquilidade de quem acompanha as notícias, mas não se deixa levar pela enxurrada – e dorme à noite sem peso na consciência.

Logo na estreia, vamos analisar como foram os comícios e protestos de 7 de Setembro em todo o Brasil, lembrando como a data foi cooptada pelo bolsonarismo na última década. Para aprofundar a conversa, traremos detalhes importantíssimos do livro “Eu disse não! Uma trincheira antigolpista”, escrito pelo ex-comandante da Aeronáutica Carlos Baptista Júnior.

Além disso, vamos olhar para o que sobra da crise interna no STF e ir além: em diálogo com o nosso colunista James Green — brasilianista, professor emérito da Brown University e co-coordenador da Rede nos Estados Unidos pela Democracia no Brasil —, analisaremos a ingerência norte-americana que já está ocorrendo nas nossas eleições e discutir como nossa sociedade pode e deve se preparar para reagir a elas. 

Clique aqui para ativar o sininho e ser avisado da nossa live!

Te espero por lá!

E se você perdeu, pode ainda ouvir no Spotify na terça cedinho!

O que a ‘fábrica de bots’ apreendida de Fernando Cerimedo pode revelar sobre o Brasil?

1 September 2026 at 21:33

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Peço desculpas pelo atraso no envio desta coluna, mas passei os últimos dias envolta com os ataques misóginos sofridos por mim e pela Agência Pública por parte de Paulo Figueiredo e Eduardo Bolsonaro. É a velha tática de atacar o mensageiro em vez de responder à reportagem. Publicamos esta nota aqui e nos comprometemos a não parar de investigar os elos da extrema direita no exterior. Apoie este trabalho aqui. 

Começo, agora, com a pergunta que não me sai da cabeça. Na semana passada, o deputado federal petista Rui Falcão pediu para o STF requerer acesso aos equipamentos eletrônicos encontrados em apartamentos ligados ao argentino Fernando Cerimedo, aliado de Eduardo Bolsonaro, preso na Bolívia em 18 de agosto, quando saía do país depois de uma tentativa de feminicídio contra sua ex-namorada, a advogada boliviana Nadia Beller.

Falcão argumenta que Cerimedo, que chegou a ser investigado pela tentativa de Golpes de Estado de 8 de janeiro, não foi indiciado por falta de provas. E que as provas que se espera podem estar nos equipamentos apreendidos pela polícia boliviana.

A promotoria de Justiça boliviana afirmou no final de agosto ter realizado buscas em cinco propriedades ligadas a Cerimedo, onde teriam aprendido 43 mil dólares, documentos e uma “minifazenda de bots”. A defesa de Cerimedo afirma que eram apenas telefones via satélite e modems, em vez de bots.

Como se sabe, Cerimedo foi fundamental para a disseminação da mentira sobre fraude nas urnas nas eleições de 2022. Sua live, realizada semanas depois dele ter organizado uma viagem de Eduardo Bolsonaro à Argentina, teve como base um dossiê criado por Mauro Cid, o ajudante de ordens de Bolsonaro. A história falsificada dizia que as urnas eletrônicas fabricadas antes de 2020 usariam um código fonte diferente das produzidas depois desta data. Bolsonaro teria ido pior nas áreas que usaram urnas mais antigas.

“Nosso pessoal que fez… hahahahah… Isso foi a base do argelino [argentino]”, teria se gabado Mauro Cid. Cid também ajudou a circular o link da live de Cerimedo, mesmo depois que ela tinha sido suspensa pelo TSE. “Fizeram um site completo, com todo o material da investigação sobre a maior fraude do século! Nosso time é bom demais, incrível”, festejou outro militar, tenente coronel Marques de Almeida, integrante do Comando de Operações Terrestres do Exército (Coter). Ambos foram condenados pela tentativa de golpe de 8 de janeiro de 2023.

Foi essa live, assim como a participação como coordenador digital da campanha de Milei na Argentina, que ajudaram a impulsionar a fama internacional de Cerimedo na extrema direita do continente. Chamado de “O homem MAGA na América Latina” pelo site The Economist, ele admitiu à Pública e sites parceiros que comandava muitos “trolls” – contas falsas nas redes sociais que interagem com um script definido para falsificar conversas – para enganar os algoritmos e, dessa forma, dar um melhor posicionamento à mensagem de seus clientes. Negou, entretanto, que produzia Fake News.

Mas nem era necessário. Suas lives e as reproduções do seu site La Derecha Diário – que agora tenta se dissociar dele – eram carregadas de mentiras.

Da cama de hospital, onde está se recuperando dos tiros, a ex-namorada afirmou que o motivo da tentativa de assassinato era justamente porque ela havia decidido abrir o bico sobre as campanhas de manipulação do ex-namorado. Ela também o acusou de ter oferecido proteção a voos clandestinos ligados ao narcotráfico.

Sobre o Brasil, ela disse à Folha de S. Paulo que Cerimedo contou ter usado “bots” a favor de Jair Bolsonaro em 2022 e que ele “lutaria por Flávio” nessas eleições.

A principal pergunta que fica é: qual é o papel de Fernando Cerimedo na atuação digital dos Bolsonaro – tanto na tentativa de golpes de 2022 quanto na atual campanha de Flávio?

Como bem notou Janaína Figueiredo, Cerimedo era bem mais do que apenas um marketeiro da direita. Ele participou ativamente de tentativas de desestabilizar governos de esquerda, além de costurar alianças com o círculo de Trump.

Foi ele quem aproximou Trump do então candidato Asfura, através de um amigo, ex-assessor de Trump na campanha de 2017, Dick Morris.

Em março de 2025, Fernando Cerimedo foi nomeado representante e licenciado exclusivo na América Latina das empresas Campaign Nucleus e da Eyes Over, duas plataformas de inteligência artificial. As empresas surgiram após a aquisição da Cambridge Analytica por um consórcio de investidores norte-americanos. Elas foram usadas pela campanha de Donald Trump, em 2024, facilitando um gerenciamento de eleitores mais preciso. O desenvolvimento foi liderado por Brad Parscale, ex-diretor digital da campanha de Trump, e que foi sócio de Cerimedo na consultoria digital Numen – embora agora também esta empresa tente dissociar seu nome dele.

Depois da condenação de Jair Bolsonaro e outros cúmplices por tentativa de golpe de Estado, Eduardo Bolsonaro continuou próximo de Cerimedo – os registros públicos o impedem de negar.

Há apenas um mês, Cerimedo esteve numa live com Eduardo repetindo exatamente a mesma cascata sobre hashtags inventada pela turma de Marco Cid, conforme eu apontei nesta coluna. Nela, Eduardo disse: “Vou te agradecer aqui, tá, por essa transmissão ao vivo, pessoa de coragem, é uma pessoa que continua atuando, é empresário, analista político argentino”. Cerimedo respondeu saudando ao povo brasileiro: “Muito obrigado a você. O saúdo ao povo do Brasil. Muita, muita sorte na próxima eleição e  sempre vamos ter que lutar pela liberdade do Brasil”.

Alguns meses antes, em fevereiro, os dois estavam juntos na festa hispânica em Mar a Lago, o resort de Trump. Cerimedo foi premiado pela organização Latino Wall Street como Melhor Consultor Político Hispano do Ano. Eduardo entregou o prêmio nas mãos do argentino. “É uma honra estar aqui e abrir um espaço para um argentino. E olhem que aqui está falando um brasileiro. Mas não de que ele passou ou foi preso. E isso não é legal. Fernando Cerimedo teve a coragem de, da Argentina, ajudar o Brasil. Como? Denunciando as possíveis fraudes eleitorais que ocorreram em 2022, na eleição que colocou o socialista Lula da Silva como presidente do Brasil”, disse. E completou: “Estamos aqui hoje para dizer aos Alexandre de Moraes: não temos medo de você. Vamos ganhar as eleições de outubro”.

(Na foto, Eduardo aparece com a esposa de Cerimedo, a argentina Natalia Basil. Uma das teses da procuradoria boliviana era que a “namorada” boliviana estaria grávida. E isso teria motivado a tentativa de assassinato)

Como eu já havia apontado anteriormente, a narrativa de fraude nas urnas continua firme como narrativa subterrânea na campanha de Flávio Bolsonaro. Aliás, a afirmação que o candidato fez no Jornal Nacional na semana passada, de que ela irá ganhar no primeiro turno, repete exatamente a mesma estratégia adotada por Jair. Constrói a narrativa de que, se não ganhou, é porque houve fraude.

E Cerimedo, ao lado de Eduardo, poderia ser crucial nesta estratégia. O que se poderá descobrir sobre as fábricas de bots encontradas na Bolívia? Veremos ainda.

Em tempo: termino esta coluna com uma enxurrada de novas denúncias sobre uma possível relação de corrupção de Alexandre de Moraes com o banqueiro Daniel Vorcaro – o mesmo que deu pelo menos 10 milhões de dólares para o candidato Flávio Bolsonaro para o filme Dark Horse (hoje, novas revelações dão conta de que podem ser mais). Não tenho tempo de ler e analisar tudo, mas, se forem verdadeiros, são fatos gravíssimos que têm que trazer consequências legais.

Entretanto, faço votos que não levem nossa sociedade a retroceder da punição histórica aos perpetradores da tentativa de Golpe de Estado de 8 de janeiro de 2023, uma decisão histórica que solidificou nosso regime democrático, puniu pela primeira vez militares golpistas, e deu exemplo para o mundo. A condenação dos golpistas, embora tenha contado com a atuação fundamental de Moraes, não é obra apenas do seu trabalho, mas do empenho de todo o Supremo, da PF, do jornalismo e da sociedade brasileira, que a apoiou, ajudou e respalda até hoje.

Hondurasgate, Polymarket e Frutinovelas: A desinformação nas eleições latino-americanas

24 August 2026 at 21:00

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Começou a campanha eleitoral, e como você já deve estar a par, nós da Agência Pública mais uma vez juntamos forças com sites parceiros (Aos Fatos, Amado Mundo e Núcleo) para investigar campanhas de desinformação. 

Já publicamos um levantamento de quais perfis foram investigados por fake news e narrativas antidemocráticas e seguem publicando e influenciando o debate público e uma reportagem sobre como a IA tem sido usada para criar vídeos de TikTok no formato “povo fala”, nos quais falsos eleitores elogiam Lula ou Flávio Bolsonaro, ou, ainda, reforçam clichês sobre beneficiários de programas sociais do governo federal, afirmando que “não querem trabalhar”.

Mais reportagens virão, e enquanto isso, achei importante trazer alguns exemplos de como as eleições recentes na América Latina foram impactadas por campanhas desinformativas. 

Aqui, trago três conclusões: primeiro, não existe mais campanha eleitoral sem fake news; segundo, as narrativas e estratégias são repetidas de um país para outro, e, portanto, vale a pena entender o que aconteceu com nossos vizinhos; e terceiro, há uma rede de marketeiros que tem participado de diversas eleições no continente propagando desinformação, a quem investigamos como “mercenários digitais” em 2023. Fernando Cerimedo, um de seus principais expoentes, acaba de ser preso na Bolívia, onde assessorava o presidente direitista Rodrigo Paz, acusado de tentar matar a namorada.    

Houve muitas eleições, mas decidi focar em três delas: Honduras, Colômbia e Peru. Também escolhi a dedo algumas das narrativas e estratégias, por sentir que revelam mais do que as histórias em si, revelam a infraestrutura que hoje se usa para manipular a opinião pública em momentos de “crise informacional”, como as eleições. 

Em Honduras, a corrida eleitoral em novembro de 2025 abriu com o ex-presidente Juan Orlando Hernández sentenciado em Manhattan a 45 anos por ligação com narcotráfico. Em seu lugar, o aliado conservador Nasry “Tito” Asfura entrou na disputa e recebeu apoio público de Donald Trump. O argentino Fernando Cerimedo teria articulado os bastidores para que Trump postasse o endosso em suas redes. Deu certo; o mandatário americano chegou a ameaçar cortar ajuda financeira ao país caribenho se Asfura não vencesse e, dias antes do pleito, Trump indultou Hernández. 

A equipe de Asfura contou com consultores conhecidos em outros países: além de Fernando Cerimedo, Brad Parscale – que teria trabalhado no uso de dados para segmentar eleitores –, Dick Morris e o argentino Luis Rosales. O La Derecha Diário, jornal de Cerimedo sediado na Argentina, mantém um perfil hondurenho nas redes, criado três meses antes da eleição. 

Como resultado, na reta final cidadãos receberam mensagens em massa nos celulares, pressionando votos na direita. A ameaça de Trump de cortar ajuda também foi replicada por este método. Também circularam narrativas falsas de que o crime organizado estaria tentando influenciar votos na esquerda e boatos de que os partidos de esquerda acabariam com a propriedade privada.

Asfura venceu com 40,27% dos votos. Ao fim da contagem, autoridades eleitorais e o governo de esquerda de Xiomara Castro denunciaram irregularidades, mas os EUA restringiram vistos dos magistrados que pediam recontagem.

Outro ponto fundamental foi o chamado Hondurasgate. O jornal Red e o site Hondurasgate divulgaram há alguns meses supostas gravações de áudio vazadas que indicam uma trama envolvendo Estados Unidos e Israel, com apoio de Honduras, para desgastar, com notícias falsas, os governos de Claudia Sheinbaum, no México, e Gustavo Petro, na Colômbia.

Segundo a fonte que entregou os áudios aos portais, as gravações ocorreram entre janeiro e abril de 2026. Os áudios mostrariam Juan Orlando Hernández, poucos meses depois de receber o indulto, organizando a ofensiva. Em conversas com Asfura, agora presidente, e sua vice-presidente, Hernandez pediu US$ 150 mil para alugar um apartamento nos EUA e montar uma unidade de jornalismo digital: “Alguém aqui, da equipe do presidente americano, vai cuidar disso para mim. É um dos republicanos que estão nos ajudando. Eles vão montar um site de notícias para nós”, disse.

Asfura confirmou a entrega da verba, que viria da Secretaria de Infraestrutura e Serviços Públicos. Hernández respondeu então: “Conseguimos conversar com Javier Milei, e ele também está contribuindo com US$ 350 mil.”

Em outra mensagem, Hernández teria reconhecido que o primeiro-ministro de Israel foi fundamental para sua libertação e que ele apoiaria o plano.

Colômbia: IA e Pollymarket 

Vídeos falsos rodaram tanto no primeiro quanto no segundo turno das eleições colombianas, ocorridos em maio e junho. Ali, apareceu a mesma narrativa de tentar associar a esquerda com o crime violento. Em um deles, um homem que finge ser um dissidente das FARCs exigia que agricultores votassem em Ivan Cepeda, candidato da esquerda apoiado pelo ex-presidente Gustavo Petro. 

Cepeda foi para o segundo turno contra o candidato trumpista, o empresário e advogado Abelardo de la Espriella, que venceu as eleições com 49,6%. 

Por lá, um dos fenômenos mais interessantes, usado em especial por candidatos da direita, foram as “frutinovelas”, que por aqui são conhecidas como “novelas das frutas”. Feitas com IA, elas foram onipresentes nas redes durante a campanha eleitoral. 

Abelardo de la Espriella, conhecido como “O Tigre”, usou vastamente o formato, aparecendo como um enorme tigre que destrói um trem representando a política tradicional. Outra candidata na direita, a senadora uribista Paloma Valencia, era retratada como um abacaxi feliz contra as bananas da esquerda e os cocos de De la Espriella.

Depois da derrota eleitoral, Petro passou a disseminar dúvidas sobre o sistema eleitoral colombiano, afirmando a existência de um mecanismo de edição dos votos, falta de transparência e de auditoria e apontando padrões matemáticos anormais na contagem.

Mas, assim como fez Jair Bolsonaro nas eleições de 2022, Petro já acusava fraude muito antes das eleições acontecerem, desde meses antes das eleições. Por isso, a Justiça Eleitoral exigiu que Petro se retratasse, o que ele não fez. As denúncias foram verificadas e desmentidas por agências de checagem. Ao final, Petro reconheceu a vitória de De la Espriella.  

Outro fato digno de nota: o site de apostas preditivas Polymarket foi usado pela campanha de De la Espriella e citado como fonte confiável de pesquisa por veículos de imprensa colombiana. 

O próprio candidato promoveu o site como um termômetro mais confiável que pesquisas, afirmando que arriscar dinheiro próprio exige um prognóstico correto. Pior ainda, jornais tradicionais como La República passaram a reportar estes dados como se fossem verdadeiras pesquisas eleitorais. 

Mas obviamente as apostas no site são sujeitas a manipulação. Em setembro de 2025, o site La Silla Vacía revelou que apenas 82 contas participavam das apostas eleitorais sobre a Colômbia, e uma única conta concentrava 40% de todo o dinheiro investido a favor de De la Espriella, mais de 100 mil dólares. A pesquisa classificou várias dessas contas como “infladoras” de apoio, ou seja, eram simpatizantes usando a plataforma como vitrine política. O site Factchequeado revelou ainda que a Polymarket pagava publicidade a influenciadores para apresentar Espriella como o “Bukele ou Milei colombiano”. 

Peru: candidato de Trump alegou “fraude nas urnas”

No primeiro turno, em maio, o candidato favorito de Trump na eleição de 2026, Rafael López Aliaga ficou de fora do segundo turno por apenas 21 mil votos. Como resposta, ele alega fraude e pediu a anulação do resultado. 

Rafael iniciou uma campanha apontando fraude, que, segundo investigação do site Ojo Publico, mobilizou perfis já pré-estabelecidos para espalhar sua mensagem. Foram 53 contas com impacto sobre milhares de usuários, espalhando mensagens para construir a imagem de uma eleição manipulada, sem apresentar qualquer evidência. Um exemplo: uma narrativa afirmava que mais de 1 milhão de eleitores haviam sido impedidos de votar em Lima, sendo que o número real de afetados pela não instalação de mesas – um erro da Justiça Eleitoral do país – foi de 55 mil pessoas. No final, o candidato trumpista perdeu e Keiko Fujimori acabou recebendo as bênçãos de Trump. 

Assim, tanto a narrativa de fraude nas urnas está viva na América Latina, como a tentativa de associar qualquer grupo de esquerda com o crime organizado, dois motes que já estamos vendo acontecer também por aqui. 

Como se sabe, nada se cria, tudo se copia.  

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