O aeroporto de Lisboa estagnou este verão segundo dados publicados pela Vinci, dona da ANA. Nos Açores, o tráfego de passageiros caiu 6,4% face ao mesmo período do ano passado, quando a Ryanair ainda voava para Ponta Delgada. Em sentido oposto, o Francisco Sá Carneiro foi o que mais cresceu.
Durante o terceiro trimestre passaram 10,21 milhões de passageiros pelo Aeroporto Humberto Delgado, menos 0,2% do que no mesmo período do ano anterior, segundo dados divulgados esta segunda-feira pela Vinci. No acumulado de janeiro a setembro, o crescimento é de apenas 0,7%.
Já o Porto voltou a registar um crescimento, com 5,43 milhões de passageiros a passarem pelo Francisco Sá Carneiro no terceiro trimestre, mais 7,1% do que no período homólogo. No acumulado do ano o aumento é exatamente da mesma ordem.
Também a crescer estão os aeroportos de Faro e Funchal, com crescimentos de 3,7% e 3%, respetivamente. Nos Açores, a ausência da Ryanair desde março faz-se notar nos números, com menos 6,4% de passageiros entre julho e setembro deste ano, tendência que se agrava para 8% quando contabilizados os primeiros nove meses.
Estes comportamentos individuais ditaram um crescimento homólogo de 2,1% no terceiro trimestre para o conjunto dos aeroportos nacionais, com um total de 22,5 milhões de passageiros. No acumulado do ano, o aumento é de 2,4% para 57,3 milhões de passageiros. Isto depois de setembro ter terminado com uma variação de 1,5%.
Dados que comparam com a quebra agregada de 1,5% em setembro nos aeroportos do grupo Vinci. No terceiro trimestre, o recuo é mais ligeiro: -0,6%. Neste período, destaque para os crescimentos da Sérvia (6,7%), Costa Rica (5,6%) e Cabo Verde (5,5%).
O fito do Governo sempre foi vender a maioria do capital da TAP. As circunstâncias parlamentares impuseram uma venda minoritária, até 49,9%, mas até isso de alguma forma foi contornado. Mesmo com menos de metade do capital, a Lufthansa vai mandar como se tivesse uma larga maioria, decidindo a gestão da frota, a política comercial, o lançamento de novas rotas ou o investimento corrente.
Era inevitável. De outra forma, nem a Air France-KLM nem o grupo alemão se teriam dado ao trabalho de olhar para a companhia portuguesa.
Este artigo é exclusivo para assinantes
Assine o ECO Premium e continue a ler esta e todas as notícias exclusivas, sem limites.
Aviões da TAP Air Portugal e da Lufthansa no aeroporto de Lisboa. JOÃO RELVAS/LUSAJOÃO RELVAS/LUSA
O Vereinigung Cockpit, sindicato dos pilotos alemães, considera que a Lufthansa pagou um preço “excecionalmente” caro pela participação minoritária na TAP. E não está sozinho. Analistas e imprensa alemã também apontam para um valor elevado.
“O resultado constitui sobretudo um grande sucesso para o Governo português: consegue um preço excecionalmente elevado por uma participação minoritária e, ao mesmo tempo, mantém a maioria do capital da empresa”, afirma o Vereinigung Cockpit numa nota publicada esta sexta-feira no seu site.
O sindicato sustenta a análise no facto de a oferta da Lufthansa por 44,9%, de 1.025 milhões de euros (pelos 49,9% sobe para 1.201 milhões) ser 21% mais elevada que a da Air France-KLM, cuja proposta foi preterida pelo Governo.
“É igualmente de salientar que a International Airlines Group (IAG), o mais rentável dos três grandes grupos europeus de companhias aéreas de rede, retirou a sua participação no concurso”, afirma Oliver Löwe, vice-presidente da Vereinigung Cockpit, citado no comunicado. “Aparentemente, o fator decisivo foi o facto de uma participação minoritária, sem um caminho garantido para o controlo total, não ser suficientemente atrativa do ponto de vista económico para a IAG”, acrescenta.
O sindicato alemão realça também o que considera ser uma contradição entre a indisponibilidade para ir mais longe na melhoria das condições dos trabalhadores e a oferta generosa feita pela TAP. “Quem em Lisboa convence pela sua força financeira e está disposto a pagar um prémio significativo por uma participação minoritária não pode, ao mesmo tempo, agir perante os seus próprios trabalhadores como se cortes duros fossem inevitáveis. A administração tem de explicar por que razão, aparentemente, se aplicam critérios económicos diferentes às aquisições e às pessoas que, todos os dias, asseguram o sucesso do grupo”, afirma Oliver Löwe.
O Vereinigung Cockpit afirma ainda que vai intensificar ainda mais a sua longa e consolidada cooperação com o Sindicato dos Pilotos da Aviação Civil (SPAC) em Portugal. A estrutura portuguesa dirigiu uma carta ao CEO da Lufthansa a transmitir o apreço pela operação e já se congratulou publicamente com a escolha do grupo alemão, considerando que “esta nova etapa poderá representar um passo fundamental para assegurar a estabilidade, competitividade e sustentabilidade futura da companhia aérea portuguesa”. O Sindicato Independente de Pilotos de Linhas Aéreas (SIPLA) também saudou hoje a escolha da Lufthansa para a privatização parcial da TAP e anunciou que vai solicitar reuniões ao Governo e à gestão da companhia aérea portuguesa.
Carsten Spohr, CEO da Lufthansa.Lufthansa2024
Analistas também veem preço elevado
O sindicato alemão não é o único a considerar o preço elevado. “A avaliação parece elevada e reflete sobretudo a escassez estratégica do ativo”, afirma o ODDOBHF numa nota enviada aos clientes.
O grupo independente de serviços financeiros franco-alemão assinala que, com base nos resultados da TAP de 2025, a operação da Lufthansa implica múltiplos de 1,1 vezes as receitas e 5,9 vezes o EBITDA recorrente (incluindo dívida de locações sem opção de compra). Sem uma melhoria nas contas da TAP no segundo semestre deste ano, o que normalmente ocorre, o múltiplo poderá atingir 8,3 vezes o EBITDA. “Em comparação, as empresas que acompanhamos negoceiam, em média, a 4,6 vezes o EBITDA de 2026 e 3,8 vezes o de 2027, incluindo as companhias low-cost”, aponta.
“O prémio pago pela Lufthansa é, portanto, significativo e coloca a captura de sinergias no centro da equação financeira”, conclui o ODDO BHF. Assinala, ainda assim, a importância estratégica da aquisição por dar à Lufthansa uma quota de 20% na América do Sul.
Também o banco de investimento Bernstein, que chegou a estimar cerca de 700 milhões de euros para a participação de 44,9% da TAP, considerou o investimento na TAP “estrategicamente sólido, mas caro”, tendo em conta os múltiplos implícitos no negócios.
Na imprensa alemã também há quem questione o preço. “A Lufthansa venceu a disputa por uma participação na TAP Air Portugal e está sobretudo de olho no negócio em direção à América do Sul. Mas a compra é cara”, afirma o site WirtschaftsWoche.
Operação permitirá criar novos empregos
Já o chefe da diplomacia alemã, Johann Wadephul, defendeu junto do homólogo português que a aquisição de parte da TAP pela companhia aérea alemã Lufthansavai “fortalecer a Europa como localização” e permitirá criar novos empregos.
Numa conferência de imprensa conjunta em Berlim, após um encontro com Paulo Rangel, o ministro dos Negócios Estrangeiros alemão destacou a “estreita cooperação estratégica” entre Portugal e Alemanha, relatou a agência Lusa.
Para Wadephul, a decisão do Governo português de escolher a companhia aérea alemã Lufthansa para adquirir parte do capital da TAP vai nesse sentido. “Muito está a ser investido nesta parceria, especialmente em Portugal, e muitos contactos, cooperações e novos empregos vão surgir”, destacou na mesma conferência de imprensa, transmitida em direto através a plataforma Youtube.
Por seu lado, o ministro Paulo Rangel afirmou que o Governo português está “muito satisfeito” com o negócio, que classificou como “um enorme sucesso”. “Algo que distingue as empresas alemãs é a mentalidade. Isso significa que pensam a médio e longo prazo. E claro, isso também ficou muito claro nesta transação”, comentou.
O ministro de Estado e dos Negócios Estrangeiros português disse esperar que a compra seja concluída no próximo ano, “com base nas regulamentações europeias” e fez votos de que o negócio “traga frutos positivos para ambos os países, mas também para a Europa”. E, destacou, “é também muito favorável para ambas as empresas”.
A Lufthansa vai ter de realizar ainda este ano um pagamento inicial ao Estado de 2,5% do valor que ofereceu pela TAP, além de prestar garantias bancárias. Determinação consta da Resolução de Conselho de Ministros que seleciona o grupo alemão para ficar com até 49,9% da companhia aérea.
O caderno de encargos da privatização dava ao Governo a possibilidade de exigir o vencedor um pagamento inicial “no valor de até 5 % do valor global oferecido pelo conjunto das ações da TAP, a adquirir nos termos constantes da proposta selecionada”. Um despacho publicado em junho fixou esse ‘sinal’ em 2,5%.
O diploma aprovado no Conselho de Ministros de quarta-feira passada, diz que “o proponente selecionado deve (…) comprovar a realização do pagamento da prestação pecuniária inicial e prestar a respetiva garantia bancária, ou outro instrumento financeiro idóneo para o mesmo efeito.
Se for considerada a oferta total da Lufthansa de 1.201 milhões de euros pelos 49,9% — que incluem os 5% destinados preferencialmente aos trabalhadores — o pagamento inicial será de 30,03 milhões de euros. Caso o critério sejam os 44,9%, o ‘sinal’ será de 25,63 milhões.
Quando é que é devido o pagamento? O despacho de julho diz que “o pagamento da prestação pecuniária inicial (…) deve ser efetuado até à data da celebração dos instrumentos contratuais que concretizam a venda direta de referência”. Ora o Governo já afirmou que quer assinar os contratos com a Lufthansa até ao final do ano.
A Lufthansa tem também de prestar garantias bancárias para o valor oferecido. No final de junho o grupo alemão tinha disponibilidades de liquidez de 10.727 milhões de euros.