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LUÍS NEVES: QUANDO AS EXPLICAÇÕES JÁ NÃO CHEGAM

2 September 2026 at 22:37

Há crises políticas que resultam de uma única decisão errada. Outras resultam de um conjunto de acontecimentos que, isoladamente, poderiam eventualmente ser explicados, mas que, acumulados, criam uma realidade politicamente insustentável. O caso Luís Neves pertence claramente à segunda categoria.
O que verdadeiramente distingue esta crise não é apenas a gravidade de cada episódio. É a sucessão de factos, contradições, relações pessoais, decisões administrativas e explicações posteriores que foram surgindo ao longo das últimas semanas. E é precisamente essa acumulação que levanta uma pergunta inevitável: até quando pode Luís Montenegro manter no Governo um ministro cuja permanência se tornou, ela própria, um problema político para o Executivo?
Tudo começou com as obras numa propriedade em São Teotónio, no concelho de Odemira. O empreiteiro responsável, João dos Santos Carvalho, da Construbarcelos, não era um desconhecido de Luís Neves. A empresa tinha realizado trabalhos para a Polícia Judiciária durante o período em que Luís Neves dirigiu aquela instituição. Posteriormente, foi o mesmo empreiteiro a realizar obras na propriedade privada do atual ministro da Administração Interna.
A questão não é afirmar que uma relação pessoal ou profissional constitui, por si só, um crime. Não constitui. Mas a proximidade entre quem dirigia a Polícia Judiciária e um empresário cuja empresa recebeu contratos daquela instituição exige um escrutínio particularmente rigoroso. Quando essa mesma empresa passa depois a realizar obras na propriedade pessoal do antigo diretor nacional da PJ, a exigência de transparência torna-se ainda maior.
As obras no Alentejo levantaram outras dúvidas. Foram divulgadas informações relativas a 108 faturas, emitidas por 13 empresas, num valor superior a 23 mil euros. Durante algum tempo, uma das principais questões foi precisamente a ausência pública dos comprovativos de pagamento. Luís Neves afirmou ter pago cinco mil euros ao empreiteiro, mas a forma como determinados pagamentos foram realizados e a documentação disponível tornou-se objeto de escrutínio público.
Também a própria legalidade urbanística das obras foi questionada. A Câmara Municipal de Odemira confirmou que estava a averiguar a situação e que não existia processo de licenciamento ou comunicação prévia para as obras referidas. Luís Neves acabaria por admitir a necessidade de regularizar a situação.
Mas foi o episódio do atrelado que transformou uma polémica numa verdadeira crise política.
Um atrelado apreendido no âmbito da Operação Pacoba, relacionada com tráfico de droga, foi encontrado nas instalações da empresa Construbarcelos, pertencente precisamente ao empreiteiro amigo do ministro. A Polícia Judiciária abriu um inquérito para apurar as circunstâncias da situação.
Importa ser rigoroso: a PJ esclareceu que os produtos encontrados no interior do atrelado não eram estupefacientes. Contudo, o atrelado tinha sido apreendido numa investigação de combate ao tráfico de droga e continha materiais e produtos químicos associados à operação que levou à sua apreensão. A questão central não é, portanto, insinuar que o empreiteiro ou o ministro traficavam droga. Não há qualquer fundamento para essa afirmação. A questão é outra e é suficientemente grave: como chegou um bem apreendido pela Polícia Judiciária às instalações privadas de um empresário próximo do então diretor nacional da PJ?
Há ainda uma questão adicional, relacionada com a segurança do próprio atrelado e do seu conteúdo. Segundo foi noticiado, a Marinha não queria que o atrelado permanecesse nas suas instalações por razões de segurança. Perante essa preocupação, o atrelado acabou por ser transportado ao longo de vários quilómetros e armazenado nas instalações do empreiteiro, aparentemente sem condições adequadas de segurança ou de custódia.
Esta circunstância torna a decisão ainda mais difícil de compreender. Se existiam preocupações de segurança suficientemente sérias para levar a Marinha a recusar a permanência do atrelado nas suas instalações, como se considerou aceitável transportá-lo para um espaço privado, sem condições comparáveis e pertencente a um empresário com uma relação de proximidade com o então diretor nacional da PJ?
Luís Neves assumiu posteriormente ter autorizado a deslocação do atrelado, defendendo que a decisão permitiu poupar dinheiro ao Estado e afirmando que não existia qualquer problema com o atrelado enquanto este esteve na posse do empreiteiro. Mas essa explicação levanta uma pergunta inevitável: se estava tudo bem com o atrelado e com o seu conteúdo, por que razão a Polícia Judiciária foi imediatamente apreendê-lo quando soube que se encontrava nas instalações do empreiteiro?
A apreensão posterior não prova, por si só, que tenha existido qualquer irregularidade criminal. Mas demonstra que a situação era suficientemente sensível para justificar uma intervenção imediata das autoridades. E essa intervenção contradiz, pelo menos politicamente, a ideia de que se tratava de uma solução normal, segura e sem qualquer risco.
A explicação, contudo, não encerrou a polémica. Pelo contrário, colocou no centro do debate a relação entre a decisão administrativa, a entidade que beneficiou da guarda do bem, as condições de segurança do armazenamento e a amizade existente entre o então diretor nacional da PJ e o proprietário da empresa.
Quando um cidadão comum olha para este caso, é legítimo que pergunte se o mesmo tratamento teria sido dado a qualquer empresário sem qualquer ligação pessoal ao responsável máximo da Polícia Judiciária.
E as dúvidas não terminaram aí.
Surgiu depois a questão de uma viatura apreendida pela PJ e utilizada por Luís Neves. O ministro tinha afirmado, numa conferência de imprensa, possuir apenas um automóvel familiar com cerca de quinze anos. Posteriormente, tornou-se público que tinha outra viatura pessoal e utilizava ainda um automóvel que tinha sido apreendido pela Polícia Judiciária e posteriormente cedido ao Ministério da Administração Interna.
A questão deixou, assim, de ser apenas a utilização de uma viatura. Passou também a ser uma questão de credibilidade. Quando um governante presta esclarecimentos públicos e a informação posteriormente conhecida demonstra que a realidade é mais complexa do que aquela inicialmente apresentada, é inevitável que a confiança nas suas explicações seja afetada.
Também foram levantadas questões públicas sobre outros bens apreendidos e sobre a gestão e utilização de património proveniente de processos sob tutela da PJ. Todas estas matérias devem ser investigadas com rigor, sem julgamentos antecipados e sem condenações mediáticas. Mas há uma diferença fundamental entre respeitar a presunção de inocência e exigir responsabilidade política.
Um ministro não precisa de ser condenado por um tribunal para deixar de reunir condições políticas para permanecer no Governo.
É precisamente aqui que a responsabilidade passa diretamente para Luís Montenegro.
Porque mantém o primeiro-ministro Luís Neves no Governo?
Essa é hoje uma das perguntas mais importantes desta crise. Montenegro continua a manifestar confiança no ministro, apesar da sucessão de episódios, das investigações e do desgaste evidente da imagem do Governo.
A explicação poderá ser política: afastar Luís Neves poderia ser entendido como admitir que a escolha foi errada. Mas mantê-lo tem igualmente um preço. Cada nova revelação prolonga a crise. Cada nova contradição transforma o problema de um ministro num problema do próprio primeiro-ministro.
E é também impossível ignorar o comportamento da restante oposição.
O silêncio ou a contenção de alguns partidos perante uma crise desta dimensão merece reflexão. O Partido Socialista, em particular, não demonstrou a mesma intensidade política que tantas vezes manifesta perante casos de menor dimensão quando os protagonistas pertencem a outros quadrantes políticos.
É legítimo perguntar porquê.
Não significa afirmar que existe qualquer acordo oculto, comprometimento ou cumplicidade. Não existem elementos públicos que permitam fazer essa acusação. Mas politicamente é legítimo questionar se determinados silêncios resultam de uma estratégia de prudência ou do receio de que uma escalada do escrutínio sobre relações entre poder político, empresas e instituições possa trazer novamente à superfície outros casos do passado.
É neste contexto que o CHEGA decidiu assumir uma posição clara.
André Ventura exigiu a demissão de Luís Neves e alertou para o risco de perda de confiança dos portugueses nas instituições. O partido apresentou uma moção de censura e procurou colocar o caso no centro do debate parlamentar.
A comissão de inquérito proposta pelo CHEGA tem igualmente uma importância política fundamental. O Parlamento não pode limitar-se a assistir às revelações e esperar que o tempo resolva aquilo que a política tem obrigação de esclarecer. Uma comissão parlamentar de inquérito permitiria chamar responsáveis, analisar decisões, conhecer documentos e perceber como foi possível que um bem apreendido pela PJ fosse parar às instalações de um empresário próximo do seu então diretor nacional, em condições de segurança aparentemente inadequadas.
Mais do que uma iniciativa contra uma pessoa, trata-se de defender uma regra essencial: ninguém pode estar acima do escrutínio democrático.
O Presidente da República também deixou claro, através das intervenções e alertas dirigidos ao funcionamento das instituições e à necessidade de responsabilidade política, que Portugal não pode normalizar crises permanentes no Governo. A estabilidade não pode significar silêncio. A estabilidade não pode significar tolerar indefinidamente situações que fragilizam a confiança dos cidadãos.
A moção de censura apresentada pelo CHEGA deve, por isso, ser analisada para além do seu resultado aritmético.
Mesmo que não tenha condições para derrubar o Governo, tem um significado político inequívoco: o CHEGA recusou ser cúmplice, recusou fechar os olhos e posicionou-se claramente contra um Governo que prometeu rigor, transparência e exigência, mas que hoje mantém no seu interior um ministro envolvido numa sucessão de casos que continuam por esclarecer.
O CHEGA fez uma escolha política clara, não proteger o Governo apenas porque algumas das suas posições podem coincidir pontualmente com propostas defendidas pelo partido.
O Governo de Luís Montenegro deve ser avaliado pelos seus atos. E, neste caso, o ato mais relevante do primeiro-ministro é precisamente aquilo que ainda não fez.
Ainda não retirou Luís Neves do Governo.
E enquanto isso não acontecer, a crise continuará a ter dois protagonistas, Luís Neves, por tudo aquilo que ainda precisa de explicar, e Luís Montenegro, por continuar a decidir que essas explicações são suficientes.
Talvez sejam suficientes para o primeiro-ministro.
Mas a pergunta verdadeiramente importante é outra: serão suficientes para os portugueses?
Acho que não.

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Castração química: crueldade de palanque, fracasso de política pública

2 September 2026 at 16:00

No último domingo, Flávio Bolsonaro se encontrou com Gustavo Villatoro, ministro da Justiça e Segurança Pública do governo de El Salvador. Após a conversa, que aconteceu em um hotel em São Paulo, o candidato elogiou as políticas de Segurança de Nayib Bukele, que, segundo ele, foi responsável por “implementar um dos maiores e mais eficazes resgates de soberania e devolver a segurança pública para o povo deles”.

Bukele, que se autodenomina “o ditador mais cool do mundo” é hoje um dos ícones da extrema direita punitivista, sendo celebrado por seu governo de Estado de exceção permanente, encarceramento em massa que já levou mais de 100 mil pessoas para as prisões, a suspensão de garantias processuais e violações de direitos humanos que têm sido reiteradamente denunciadas por organizações como a Human Rights Watch e a Anistia Internacional.

Essa “bukelização” da segurança pública – tema de encontro da Fiesp esta semana – é bastante presente nos discursos de Flávio Bolsonaro e em seu plano de governo, intitulado “Brasil sem Medo”. Entre as propostas repetidas aos gritos de “vagabundo” isso, “ladrãozinho” aquilo, pelo candidato em seus palanques, uma se destaca por ser ao mesmo tempo tão simbólica do espírito do tempo como ineficaz e inconstitucional: A castração química para estupradores e pedófilos.

Para começar, é necessário fazer uma diferenciação. A violência sexual contra crianças e adolescentes nem sempre é cometida por um “pedófilo”. Nem todo pedófilo é abusador. E nem todo abusador sexual é um pedófilo.

A pedofilia consta na Classificação Internacional de Doenças e Problemas Relacionados à Saúde (CID) e diz respeito aos transtornos de personalidade causados pela preferência sexual por crianças e adolescentes. O pedófilo não necessariamente pratica o ato de abusar sexualmente de meninos ou meninas. O abusador é quem comete a violência sexual – independentemente de qualquer transtorno de personalidade –, geralmente se aproveitando da relação familiar de proximidade social, ou da vantagem etária e econômica. Por isso, ao contrário do que se pensa, fazer essa diferenciação não significa “passar pano” pra pedófilo. Significa que qualquer um, mesmo sem transtornos de personalidade, pode ser um predador.

O Brasil enfrenta uma epidemia de estupros, como mostrou o último Anuário da Segurança Pública. Foram 87.545 vítimas de estupro e estupro de vulnerável contabilizadas, com cerca de 76% a 78% das vítimas menores de 18 anos ou que se enquadram na definição legal de vulnerabilidade (menores de 14 anos ou pessoas que não podem oferecer consentimento). O Mapa Nacional da Violência de Gênero, que foi divulgado no último dia 25, também traz que quase 29 milhões de mulheres foram vítimas de violência doméstica ou familiar no Brasil nos últimos 12 meses. Quando se fala em violência sexual contra crianças e adolescentes, 64% dos casos de estupro de vulneráveis também são cometidos dentro de casa.

Mas a proposta de Flávio, requentada da campanha de seu pai e de projetos de lei que tramitam na Câmara e no Senado, e embalada como resposta “firme” contra estupradores, é, na verdade, uma fraude.

Primeiro porque ela parte da ideia de que a violência sexual nasceria de um impulso masculino descontrolado, de um suposto excesso biológico que poderia ser domesticado por intervenção hormonal.

A castração química nada mais é do que um procedimento que se caracteriza pela manipulação de hormônios que buscam reduzir, temporariamente, o nível de testosterona. Essa redução pode acarretar, entre outros efeitos colaterais, em redução da libido ou da ereção. E, embora adotada em alguns países como pena voluntária ou condicional para liberdade (Como nos Estados Unidos, Coreia do Sul e Polônia) em casos de estupro, a aplicação e eficácia da medida não possui evidência científica comprovada e está longe de ser consenso entre profissionais da saúde e juristas, que consideram a prática uma pena cruel e degradante e que viola a Constituição Federal e a Convenção Americana sobre Direitos Humanos.

Vale lembrar que a castração química era empregada compulsoriamente contra homossexuais em diversos países da Europa entre os anos de 1940 e 1960, onde a homossexualidade era proibida. Um dos casos mais conhecidos foi o do matemático britânico Alan Turing, responsável por decifrar códigos nazistas na Segunda Guerra Mundial, que foi condenado por “indecência grave” em 1952 e submetido ao procedimento, o que contribuiu para o seu suicídio em 1954.

Durante o regime nazista na Alemanha, experimentos de castração química e cirúrgica também foram realizados em prisioneiros.

A biologização dos desejos, da sexualidade, da orientação sexual, do gênero, da potência e da libido têm sido uma chave para variadas narrativas da extrema direita ao longo da história, mas tem ganhado força atualmente. É o homem que só é homem se tiver um pênis, a mulher que só é mulher se tiver uma vagina, a orientação sexual fixada nas genitálias, os úteros que deveriam estar à disposição da reprodução independente da vontade das pessoas acopladas a eles, as festas de testosterona do Vale do Silício como um culto à masculinidade, o “High-T Department of War” de Trump, o determinismo genético — a lista é longa e perigosa.

Outra característica dessas narrativas é a de oferecer soluções “fáceis”, quase mágicas e imediatas para problemas complexos. Como disse a coordenadora institucional do Fórum Brasileiro de Segurança Pública, Juliana Martins, em entrevista ao Podcast Pauta Pública, os crimes sexuais no Brasil estão ligados mais à cultura que à biologia. “As violências tanto contra as mulheres quanto contra crianças e adolescentes, nesse contexto sexual, são resultado de um processo histórico de naturalização dessas violências, que têm uma construção cultural e social na base de tudo isso” definiu.

Não existe um hormônio que carrega em si códigos de instrução para cometer um crime e diversos estudos psicológicos e mesmo criminológicos apontam que a motivação principal por trás dos crimes sexuais não é a satisfação de um impulso, mas a busca por controle, poder, dominação e humilhação das vítimas. Faz porque pode. Porque é mais forte. Porque acha que tem posse. É preciso evitar a violência antes que ela aconteça e isso pede outros tipos de políticas públicas.

Lacan costumava dizer que “a anatomia não é o destino”. Para ele, o que define a sexualidade humana é como o sujeito se posiciona diante da linguagem. Os hormônios podem ditar a intensidade de um impulso decorrente da libido ou da agressividade física de base, mas é a mente humana, moldada pela cultura, escolhas e valores, que decide como canalizar essa energia. A violência sexual é um ato de dominação, poder e falta de consentimento, legitimada social e culturalmente. Não um mero processo biológico controlável.

O que a ‘fábrica de bots’ apreendida de Fernando Cerimedo pode revelar sobre o Brasil?

1 September 2026 at 21:33

Quer receber os textos desta coluna em primeira mão no seu e-mail? Assine a newsletter Xeque na Democracia, enviada toda segunda-feira, 12h. Para receber as próximas edições, inscreva-se aqui.

Peço desculpas pelo atraso no envio desta coluna, mas passei os últimos dias envolta com os ataques misóginos sofridos por mim e pela Agência Pública por parte de Paulo Figueiredo e Eduardo Bolsonaro. É a velha tática de atacar o mensageiro em vez de responder à reportagem. Publicamos esta nota aqui e nos comprometemos a não parar de investigar os elos da extrema direita no exterior. Apoie este trabalho aqui. 

Começo, agora, com a pergunta que não me sai da cabeça. Na semana passada, o deputado federal petista Rui Falcão pediu para o STF requerer acesso aos equipamentos eletrônicos encontrados em apartamentos ligados ao argentino Fernando Cerimedo, aliado de Eduardo Bolsonaro, preso na Bolívia em 18 de agosto, quando saía do país depois de uma tentativa de feminicídio contra sua ex-namorada, a advogada boliviana Nadia Beller.

Falcão argumenta que Cerimedo, que chegou a ser investigado pela tentativa de Golpes de Estado de 8 de janeiro, não foi indiciado por falta de provas. E que as provas que se espera podem estar nos equipamentos apreendidos pela polícia boliviana.

A promotoria de Justiça boliviana afirmou no final de agosto ter realizado buscas em cinco propriedades ligadas a Cerimedo, onde teriam aprendido 43 mil dólares, documentos e uma “minifazenda de bots”. A defesa de Cerimedo afirma que eram apenas telefones via satélite e modems, em vez de bots.

Como se sabe, Cerimedo foi fundamental para a disseminação da mentira sobre fraude nas urnas nas eleições de 2022. Sua live, realizada semanas depois dele ter organizado uma viagem de Eduardo Bolsonaro à Argentina, teve como base um dossiê criado por Mauro Cid, o ajudante de ordens de Bolsonaro. A história falsificada dizia que as urnas eletrônicas fabricadas antes de 2020 usariam um código fonte diferente das produzidas depois desta data. Bolsonaro teria ido pior nas áreas que usaram urnas mais antigas.

“Nosso pessoal que fez… hahahahah… Isso foi a base do argelino [argentino]”, teria se gabado Mauro Cid. Cid também ajudou a circular o link da live de Cerimedo, mesmo depois que ela tinha sido suspensa pelo TSE. “Fizeram um site completo, com todo o material da investigação sobre a maior fraude do século! Nosso time é bom demais, incrível”, festejou outro militar, tenente coronel Marques de Almeida, integrante do Comando de Operações Terrestres do Exército (Coter). Ambos foram condenados pela tentativa de golpe de 8 de janeiro de 2023.

Foi essa live, assim como a participação como coordenador digital da campanha de Milei na Argentina, que ajudaram a impulsionar a fama internacional de Cerimedo na extrema direita do continente. Chamado de “O homem MAGA na América Latina” pelo site The Economist, ele admitiu à Pública e sites parceiros que comandava muitos “trolls” – contas falsas nas redes sociais que interagem com um script definido para falsificar conversas – para enganar os algoritmos e, dessa forma, dar um melhor posicionamento à mensagem de seus clientes. Negou, entretanto, que produzia Fake News.

Mas nem era necessário. Suas lives e as reproduções do seu site La Derecha Diário – que agora tenta se dissociar dele – eram carregadas de mentiras.

Da cama de hospital, onde está se recuperando dos tiros, a ex-namorada afirmou que o motivo da tentativa de assassinato era justamente porque ela havia decidido abrir o bico sobre as campanhas de manipulação do ex-namorado. Ela também o acusou de ter oferecido proteção a voos clandestinos ligados ao narcotráfico.

Sobre o Brasil, ela disse à Folha de S. Paulo que Cerimedo contou ter usado “bots” a favor de Jair Bolsonaro em 2022 e que ele “lutaria por Flávio” nessas eleições.

A principal pergunta que fica é: qual é o papel de Fernando Cerimedo na atuação digital dos Bolsonaro – tanto na tentativa de golpes de 2022 quanto na atual campanha de Flávio?

Como bem notou Janaína Figueiredo, Cerimedo era bem mais do que apenas um marketeiro da direita. Ele participou ativamente de tentativas de desestabilizar governos de esquerda, além de costurar alianças com o círculo de Trump.

Foi ele quem aproximou Trump do então candidato Asfura, através de um amigo, ex-assessor de Trump na campanha de 2017, Dick Morris.

Em março de 2025, Fernando Cerimedo foi nomeado representante e licenciado exclusivo na América Latina das empresas Campaign Nucleus e da Eyes Over, duas plataformas de inteligência artificial. As empresas surgiram após a aquisição da Cambridge Analytica por um consórcio de investidores norte-americanos. Elas foram usadas pela campanha de Donald Trump, em 2024, facilitando um gerenciamento de eleitores mais preciso. O desenvolvimento foi liderado por Brad Parscale, ex-diretor digital da campanha de Trump, e que foi sócio de Cerimedo na consultoria digital Numen – embora agora também esta empresa tente dissociar seu nome dele.

Depois da condenação de Jair Bolsonaro e outros cúmplices por tentativa de golpe de Estado, Eduardo Bolsonaro continuou próximo de Cerimedo – os registros públicos o impedem de negar.

Há apenas um mês, Cerimedo esteve numa live com Eduardo repetindo exatamente a mesma cascata sobre hashtags inventada pela turma de Marco Cid, conforme eu apontei nesta coluna. Nela, Eduardo disse: “Vou te agradecer aqui, tá, por essa transmissão ao vivo, pessoa de coragem, é uma pessoa que continua atuando, é empresário, analista político argentino”. Cerimedo respondeu saudando ao povo brasileiro: “Muito obrigado a você. O saúdo ao povo do Brasil. Muita, muita sorte na próxima eleição e  sempre vamos ter que lutar pela liberdade do Brasil”.

Alguns meses antes, em fevereiro, os dois estavam juntos na festa hispânica em Mar a Lago, o resort de Trump. Cerimedo foi premiado pela organização Latino Wall Street como Melhor Consultor Político Hispano do Ano. Eduardo entregou o prêmio nas mãos do argentino. “É uma honra estar aqui e abrir um espaço para um argentino. E olhem que aqui está falando um brasileiro. Mas não de que ele passou ou foi preso. E isso não é legal. Fernando Cerimedo teve a coragem de, da Argentina, ajudar o Brasil. Como? Denunciando as possíveis fraudes eleitorais que ocorreram em 2022, na eleição que colocou o socialista Lula da Silva como presidente do Brasil”, disse. E completou: “Estamos aqui hoje para dizer aos Alexandre de Moraes: não temos medo de você. Vamos ganhar as eleições de outubro”.

(Na foto, Eduardo aparece com a esposa de Cerimedo, a argentina Natalia Basil. Uma das teses da procuradoria boliviana era que a “namorada” boliviana estaria grávida. E isso teria motivado a tentativa de assassinato)

Como eu já havia apontado anteriormente, a narrativa de fraude nas urnas continua firme como narrativa subterrânea na campanha de Flávio Bolsonaro. Aliás, a afirmação que o candidato fez no Jornal Nacional na semana passada, de que ela irá ganhar no primeiro turno, repete exatamente a mesma estratégia adotada por Jair. Constrói a narrativa de que, se não ganhou, é porque houve fraude.

E Cerimedo, ao lado de Eduardo, poderia ser crucial nesta estratégia. O que se poderá descobrir sobre as fábricas de bots encontradas na Bolívia? Veremos ainda.

Em tempo: termino esta coluna com uma enxurrada de novas denúncias sobre uma possível relação de corrupção de Alexandre de Moraes com o banqueiro Daniel Vorcaro – o mesmo que deu pelo menos 10 milhões de dólares para o candidato Flávio Bolsonaro para o filme Dark Horse (hoje, novas revelações dão conta de que podem ser mais). Não tenho tempo de ler e analisar tudo, mas, se forem verdadeiros, são fatos gravíssimos que têm que trazer consequências legais.

Entretanto, faço votos que não levem nossa sociedade a retroceder da punição histórica aos perpetradores da tentativa de Golpe de Estado de 8 de janeiro de 2023, uma decisão histórica que solidificou nosso regime democrático, puniu pela primeira vez militares golpistas, e deu exemplo para o mundo. A condenação dos golpistas, embora tenha contado com a atuação fundamental de Moraes, não é obra apenas do seu trabalho, mas do empenho de todo o Supremo, da PF, do jornalismo e da sociedade brasileira, que a apoiou, ajudou e respalda até hoje.

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