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Antes de mensagens vazadas, PF pediu sigilosamente para AGU conter Mendonça

23 September 2026 at 20:09

Às 10h50 de 23 de julho de 2026, o diretor-geral da Polícia Federal (PF), Andrei Rodrigues, enviou um ofício sigiloso ao advogado-geral da União, Jorge Messias. No documento, obtido com exclusividade pela Agência Pública, pedia-se que a Advocacia-Geral da União (AGU) analisasse e tomasse “as eventuais providências cabíveis” contra uma decisão do ministro André Mendonça, então relator do caso Master no Supremo Tribunal Federal (STF). A resposta, registrada em nota jurídica também sigilosa, foi negativa: segundo a AGU, não havia nenhuma medida judicial possível.

O pedido precedeu a fase mais aguda da crise que, em setembro, pôs ministros do Supremo em confronto e levou ao afastamento de Andrei do cargo, em decisão de André Mendonça — posteriormente revertida por Flávio Dino e mantida por Edson Fachin. Segundo integrantes do alto escalão do governo, ouvidos sob reserva pela reportagem, a negativa da AGU ao ofício teria tido o aval também da cúpula jurídica do governo e foi emitida antes da divulgação das mensagens atribuídas ao ex-banqueiro Daniel Vorcaro e ao ministro Alexandre de Moraes, que se tornaram públicas em 8 de setembro, quando Mendonça retirou o sigilo de parte das investigações do Banco Master.

Fontes do alto escalão disseram à Pública que a cúpula da AGU teria se sentido pressionada por Rodrigues com o envio do ofício e que a história teria chegado até a presidência da República. Uma reportagem da Folha de S. Paulo, publicada em 2 de setembro, relatou que a PF via uma “omissão” da AGU em relação à crise envolvendo o ministro André Mendonça. 

A Pública apurou que o Advogado-geral da União, Jorge Messias, e o ministro da Justiça e Segurança Pública, Wellington César Lima e Silva, se encontraram com André Mendonça, fora da agenda, após tomarem conhecimento do pedido da PF. No encontro entre os três, os representantes do governo buscaram uma “interlocução” para resolver o embate, mas a exposição das conversas direcionadas a Moraes, que vieram depois do encontro, afastou os governistas do caso para evitar uma associação pública do governo à crise no Supremo. 

O ministro da Advocacia-Geral da União (AGU), Jorge Messias, dá entrevista ao programa Bom Dia, Ministro.
Messias, da AGU, recebeu o pedido sigiloso da PF para analisar decisão de André Mendonça

Nesta quarta-feira, 23 de setembro, reportagem de Marcela Mattos no UOL informa que Messias e Andrei trocaram xingamentos diante de Lula: ‘Está me espionando?’. Segundo o UOL, pessoas que ouviram relatos do episódio disseram que a conversa, acompanhada a todo momento por Lula, foi “dura”, “tensa” e “ríspida”. A cobrança foi considerada a gota d’água de uma série de divergências que vinham se arrastando nos bastidores das investigações sobre o Banco Master.

Procurada, a AGU informou a Pública que “as informações apresentadas na matéria do UOL não são precisas. Divergências são naturais, evidentemente, mas nada se sobrepõe ao respeito e à consideração que o advogado-geral da União, Jorge Messias, tem pelo diretor-geral da Polícia Federal, Andrei Rodrigues, tanto no âmbito pessoal quanto institucional”

Procurada, a Polícia Federal não deu retorno até a publicação. O espaço segue aberto para manifestação.

Uma disputa que começou em fevereiro

André Mendonça herdou o caso Master de Dias Toffoli em fevereiro deste ano. Nas primeiras decisões como relator, em 19 de fevereiro, o ministro determinou que apenas os policiais diretamente envolvidos na investigação tivessem acesso às informações, com sigilo “inclusive em relação aos superiores hierárquicos”, o que incluiria Andrei Rodrigues. Seria um movimento para limitar a influência do diretor-geral na apuração, vista com desconfiança pela ala de André Mendonça. Nos bastidores, teria pesado a percepção de Mendonça de que informações sensíveis chegavam antes ao comando da PF, o que passou a causar “um certo desconforto”, segundo uma fonte do STF, até mesmo entre os juízes lotados no gabinete do ministro.

O diretor geral da PF, Andrei Rodrigues
Andrei Rodrigues, diretor-geral da PF, enviou ofício à AGU em 23 de julho de 2026

Em 22 de maio, na investigação sobre fraudes no INSS (Operação Sem Desconto), da qual Mendonça também era o relator, o ministro teria reagido a uma mudança na chefia do caso e exigido ser avisado de qualquer nova alteração na equipe. Em 15 de maio, na semana anterior à exigência de Mendonça, o comando da PF trocou a área responsável pelos inquéritos do INSS: o caso foi transferido da Divisão de Repressão a Crimes Previdenciários (DPrev) para a Coordenação de Inquéritos em Tribunais Superiores (Cinq). Simultaneamente, o delegado que chefiava a operação, Guilherme da Silva, solicitou transferência para Minas Gerais, estado natal dele. À época, a PF não revelou o nome do novo chefe da operação e justificou que a mudança assegurava “maior eficiência e continuidade das investigações”.

Em 13 de julho, Mendonça repetiu a ordem no caso Master (Operação Compliance Zero): a equipe de investigadores deveria ser mantida e qualquer troca deveria ser comunicada a ele previamente; as informações também deveriam ficar restritas às coordenações responsáveis, e o material bruto extraído de celulares e computadores apreendidos deveria ser enviado ao seu gabinete.

Ministro André Mendonça na sessão da Segunda Turma do STF.
Mendonça impôs restrições ao acesso às informações da investigação do Master

Dez dias depois, em 23 de julho, Andrei oficiou à AGU com direcionamento a Jorge Messias, conforme o documento obtido pela Pública. O documento da PF registra que não há “qualquer indício de irregularidade” nas investigações e classifica como “desarrazoada” uma decisão que limitasse as atribuições administrativas da PF. O documento registra, ainda, que o controle externo da polícia cabe ao Ministério Público Federal. No pedido, foi citada a decisão de Mendonça de maio como “de conteúdo semelhante”, na qual se fundamentou na lei que permite à AGU defender, na Justiça, agentes públicos por atos praticados no exercício do cargo. 

A análise sigilosa da AGU 

O ofício foi enviado à Secretaria-Geral de Contencioso, braço da AGU que representa a União no STF. Em 24 de julho, uma reunião no gabinete do advogado-geral substituto apontou os primeiros problemas do pedido: a repercussão na imprensa sobre o incômodo da PF, no dia anterior, tratava da decisão de maio, não da de julho; faltavam documentos; e a AGU nem sequer tinha acesso aos processos em sigilo, apenas às cópias das decisões.

A nota registra ainda que, segundo a própria PF, informou à AGU em 27 de julho que o material bruto relacionado a Vorcaro já havia sido entregue ao gabinete do relator na semana anterior. 

A Nota Jurídica enumera os motivos da recusa ao pedido da PF. Primeiro, diz que não se tratava de defender um agente público. Segundo, registrou que a AGU não atua em investigação criminal, tarefa do Ministério Público. Terceiro, avaliou que a PF não demonstrou “prejuízo concreto” decorrente da exigência de avisar sobre trocas na equipe. E, quarto, a PF perdeu o prazo: as regras já estavam na decisão de maio, e a de sigilo interno vinha desde o início do caso, sem que a PF recorresse. A nota menciona “inércia prolongada da autoridade policial” e afirma que uma nova decisão não reabriria o prazo já vencido. Por fim, como o material já havia sido entregue, não haveria o que suspender.

Na resposta à PF, a AGU sugeriu dois caminhos: conversar diretamente com o relator ou levar o caso ao Ministério Público Federal. As páginas obtidas pela reportagem não mostram a data de assinatura da nota.

Fachada da Advocacia Geral da União (AGU)
Sede da Advocacia-Geral da União, que analisou e recusou o pedido feito pela Polícia Federal

Afastamento e volta em 24 horas

Segundo a Folha de S.Paulo, Mendonça teria dito ao presidente do STF, Edson Fachin, no início de agosto, que suspeitava de viés político de Andrei Rodrigues para blindar a campanha de Lula; Andrei teria relatado a Fachin a suspeita inversa, de que o ministro prejudicava a esquerda e aliviava aliados de Flávio Bolsonaro (PL). 

No início de setembro, Mendonça levantou o sigilo do relatório que continha mensagens enviadas por Vorcaro a um interlocutor identificado como “Alexandre de Moraes Brasília”. A maior parte das mensagens foi enviada em visualização única e aponta para a troca de informações sobre uma possível operação contra o ex-banqueiro. Em 15 de novembro, dois dias antes de ser preso, Vorcaro perguntou a Moraes: “Acha que na segunda já tenho que estar fora?”.

Os investigadores também encontraram registros digitais e metadados que indicam que Moraes atuou na edição de um contrato de R$ 130 milhões firmado entre Vorcaro e o escritório de advocacia da esposa do ministro, Viviane Barci de Moraes. Após a revelação do acordo, o escritório Barci de Moraes divulgou uma nota negando a existência de impedimentos legais à contratação. 

A partir de então, a crise no STF escalou, como a Pública mostrou ao longo de sua cobertura do caso. A sessão do STF para julgamento das suspeitas contra Alexandre de Moraes foi iniciada em 15 de setembro e marcada por bate-bocas e trocas de acusações entre os magistrados. A deliberação foi adiada após o ministro Flávio Dino pedir vistas do processo. Ou seja, mais tempo para analisar o caso, que segue sem definição. 

My Two Front Teeth

23 September 2026 at 12:00

A shattered grin, a wornout crown, a discolored incisor. How do our broken pieces define us? For The American Scholar, Joshua Bodwell offers a brief autobiography in dental work, examining the ways in which a broken tooth and a handful of interventions shaped his self-perception over decades. He also chews over (sorry) a select literary history of teeth, from Chaucer to Raymond Carver, and seems to ask virtually everyone in his life about their own smiles. His essay is an engaging study of imperfection, of a type many folks live with but might easily hide.

I left my chipped tooth untouched for a long time. It continued to discolor. I suppose I accepted it. Maybe it did make me look, as my friend suggested, tough. At the very least, it gave me an air of wildness. Or maybe it was because I was without dental insurance and acceptance was the easiest path. For long periods, I forgot about my tooth entirely. Until, of course, I met someone new who would ask, assuming it was recent, “What happened to your tooth!?” With that I went tight-lipped.

Then a surprising thing began to happen. As I got older, became a father, moved into a more demanding career, I found that I thought about my tooth less and less. At least, I think I did. I mean, I must have: There are photos of me with friends from this period, laughing without reserve, my half fake tooth on full display. A strange thing was happening to my unchipped front tooth, too: It began to seem more perfect than it actually was simply because it shared the stage with a chipped partner.

Brazil’s intelligence agency warns of high risk of US interference in Brazilian elections

23 September 2026 at 15:57
A giant balloon depicting US President Donald Trump holding Brazil's President Luiz Inacio Lula da Silva is seen as supporters of Brazilian presidential candidate Flavio Bolsonaro, of the Liberal Party (PL), take part in a rally during the Independence Day parade at Paulista Avenue in Sao Paulo, Brazil, on September 7, 2026. Photo by Miguel SCHINCARIOL / AFP via Getty Images

This story originally appeared in Panamerican Dispatch on Sep. 21, 2026, and is shared with permission.

The Brazilian Intelligence Agency (ABIN) has raised the risk of external influence and interference by the United States in Brazil’s 2026 elections to a “critical level.” The confidential report was sent to the Presidency, the Supreme Electoral Court, and the Ministry of Justice. In it, the agency points to escalating pressure from the administration of Donald Trump on Brazil. It ties Washington’s actions to a broader strategy to politically reorient Latin America.

The document is titled, “Threats to the 2026 electoral process.” It was forwarded to authorities in late August, and its contents were revealed this Saturday, Sept. 19, by journalist Mônica Bergamo’s column in the Folha de S.Paulo newspaper.

According to the report, there is a “trend of escalating pressure on Brazil” and a “selective intensification and reconfiguration of the pressure exerted by the United States,” albeit within a historic pattern of U.S. influence over the region.

The report’s assessment does not mention ballot tampering or altering the election results. The intelligence agency’s warning addresses the possibility that political, economic and diplomatic pressures could interfere with the institutional environment and with public debate during the electoral process.

The agency places these actions within the strategy adopted by the second Trump administration to reaffirm U.S. hegemony in Latin America.

According to the analysis, strategic documents released by the U.S. government between November 2025 and May of this year point to its objectives as reducing the influence of powers considered rivals and preventing their access to the region’s “strategic assets, natural resources and infrastructure.”

ABIN identifies China as one of the primary targets of this policy. In the agency’s assessment, Washington seeks to expand its direct or indirect control over these resources, whether through the U.S. government or the country’s private investment.

Support for conservative governments

The report pays special attention to the actions of U.S. Secretary of State and National Security Advisor Marco Rubio. According to ABIN, his policy toward Latin America has an ideological bent and he seeks to “influence and reorient the foreign policy of countries in the region.”

According to the document, this strategy involves steering Latin American countries away from China and promoting a domestic political shift “by supporting the rise of conservative governments.”

The agency cites a U.S. Senate hearing held in June, during which Rubio linked the restoration of U.S. hegemony in Latin America to the presence of governments aligned with Washington.

At the time, Rubio stated that the region had come to rely on several governments “friendly” to the United States during Trump’s second term. He singled out Brazil, Colombia, Cuba, Nicaragua, and Venezuela as exceptions.

The document also noted statements in which Rubio held Brazilian President Luiz Inácio Lula da Silva responsible for U.S. tariffs on Brazilian products, alleging that Brazil had not negotiated “in good faith.”

In ABIN’s view, this approach personalizes the pressure exerted on the country and has the potential to impact public debate in Brazil during the electoral period.

Brazil targeted for defending autonomy, says ABIN

The intelligence agency assessed that Brazil holds a unique position in U.S. strategy, because it has a government with “greater political will and the means to defend its strategic autonomy” in the face of Washington’s pressure for concessions and geopolitical realignment.

The report states that, despite periods of easing tensions between Lula and Trump, actions taken by the United States since May indicate a trend of increasing pressure.

Among the actions cited is the U.S. designation of Brazilian criminal organizations as terrorist groups and sanctions announced in July against two Brazilians and companies based in Brazil and Portugal. The U.S. government accused them of ties to money-laundering networks linked to the Primeiro Comando da Capital (PCC) drug gang. For ABIN, these sanctions represented a “transition” because they caused U.S. pressure to have concrete effects on Brazilian individuals and companies.

“As a result, U.S. external interference now directly impacts financial relationships, corporate reputation, access to the dollar, international operations, and the exposure of third parties to the risk of secondary sanctions,” states an excerpt from the report released by Folha de S. Paulo.

According to the analysis, the U.S. strategy is happening in a “gradual, combined and adaptive” manner, linking Brazilian organizations to threats against U.S. national security. This is then followed by measures capable of affecting the country’s companies, banks and other institutions.

The Brazilian Intelligence Agency warns that these types of sanctions could prompt Brazilian and foreign economic actors to alter their decisions out of fear of losing access to the U.S. financial system or being impacted by secondary sanctions.

U.S. Makes Demands Over Brazilian Election

The report has also emerged amid tensions between Brasília and Washington directly related to the 2026 elections.

During negotiations held in 2025, the Trump administration presented Brazil with a draft joint statement that outlined a Brazilian commitment to not “arbitrarily” detain, arrest or limit the participation of “political dissidents” in the electoral process. The proposal stated that Brazil should commit to holding “free and fair” elections and ensure the participation of such individuals in the vote.

On Thursday. Sept. 17, Lula stated in an interview with Rádio Itatiaia that the proposal had become a “dead issue” for the Brazilian government. The president also rejected the possibility of granting the United States preferential access to the country’s mineral resources.

The confidential agency report delves deeper into the concerns previously raised in public analyses by the Brazilian Intelligence Agency. In a document released this year regarding intelligence challenges for 2026, the agency identified foreign interference as a threat to sovereignty. It warned that a combination of technological dependence, disinformation, espionage, and coercion could enable foreign actors to influence public debate and decision-making processes in Brazil.

Edited by Geisa Marques. This article was originally published by Brasil de Fato. It can be read in its original form, in Portuguese, here.

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