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Normal view

A Europa no Rossio

19 October 2026 at 08:35

Os centros das grandes cidades da Europa estão transformados num enorme jogo do Monopólio. Comprar uma casa e um hotel no Rossio e cobrar uma renda extravagante a quem pela má sorte dos dados passe acidentalmente pela casa Rossio. A ficção de um jogo de tabuleiro torna-se a descrição da vida real numa capital da Europa. Seja em Lisboa, seja em Paris. Lisboa adormece em tendas de campismo que se agarram ao mar da calçada portuguesa. Paris arde com a violência de sempre sem tendas ou calçadas, apenas com o refluxo imparável da violência política. A França não se reforma pois só sabe fazer a revolução para se reformar. Portugal não se reforma nem sabe fazer a revolução.

Em Portugal há quem revele do alto da sua ignorância política que é senhorio em Lisboa e inquilino em Barcelona e “que tem conflitos com os seus privilégios”, concluindo que é “difícil ser socialista”. Esta é uma das grandes ilusões de alguns esquerdistas eminentes que vivem no mundo confortável que a social-democracia soube construir – Ser socialista e viver como um burguês é normal. Não, não é normal porque a teoria implica que ser socialista exige uma “opção de classe” que tem um preço social e um custo político que ninguém está disposto a pagar, prescindir dos privilégios e viver a realidade do proletariado apenas com a mão-de-obra para vender no mercado. Ser de esquerda não se resume à revelação pública de uma boa consciência e solidariedade automática para efeitos de uma entrevista para as televisões em horário nobre. Esta esquerda falida em modo de autopromoção é a ruína da esquerda.

Quando os protestos se alargam a 50 cidades da Europa não se pode falar de “instrumentalização da rua” pela elite de uma esquerda em escombros. Na revolução de que todos falam, a esquerda hipócrita e oportunista seria devorada pela rua por colaboracionismo capitalista e sabotagem da causa socialista. O que existe de facto é uma fractura que atravessa o Continente e que está para além da esquerda e para além da direita.

A fractura é a falência de uma sociedade de bem-estar que já não produz riqueza para poder distribuir bem-estar. Porque é que todas as manifestações que tomam as ruas da Europa de assalto exibem um esquema colorido de bandeiras de todas as causas? A resposta tanto pode ser a ideia de uma “policrise” como pode ser o conceito de “intersectionalidade” – Todas as crises convergem num ponto, todas as opressões convergem no oprimido que é sempre o mesmo.

O caos das multidões nas cidades da Europa é o sintoma de um mau estar que se instala nas sociedades que já foram prósperas, mas que hoje apenas podem oferecer aos cidadãos do futuro um futuro pior do que aquele que foi oferecido à geração anterior. A progressão no sentido da segurança e do bem-estar está em regressão e a política contemporânea não tem solução política. A direita radical apenas capitaliza uma crise real manifestada em pessoas reais e não por construções sociais.

Na manifestação de Lisboa basta observar os cartazes para se observar o dicionário político do nosso tempo em fuga para o desespero – “Paz aos Barracos Guerra aos Palácios”; “Quando o Sistema Falha Entramos em Batalha”; Não Há Quem Não Sinta Um Cheiro a Anos 30”; “Lembra-me um Sonho Lindo quase Endividado”; “Trabalhar para Empobrecer”; “4 Rendas, 3 Cauções, 1 Fiador; 1 Rim”; “Procura-se: Senhorio com Coração pago com Sonhos e Esperança”; “Trabalhar 40 anos para pagar uma Caixa de Fósforos”; “Tenho 81 Anos e Estou a ser Despejada”; “Ciência de Primeira Salário de Bolseira”. Como construir um sentido político quando tudo vai em todas as direcções?

Os slogans não são um tratado de política nem a ideia de que a poesia está na rua, os cartazes são a face visível de uma Europa sem futuro incapaz de encontrar um conjunto de respostas políticas na esquerda clássica e na direita clássica. Para além da esquerda e da direita sobram os extremos que se anulam mutuamente em nome de uma polarização que leva à violência, à destruição, à decadência da Europa. No Rossio, com uma “Lisbon for Sale” rodeada de esplanadas para turistas, surge na memória a ideia de uma “Lisboa não sejas Francesa” porque se fores francesa o destino é o fogo e a guilhotina e a revolução. Em Portugal não há coragem sequer para uma revolução no modo como o país é governado.

As “acampadas” são representações de uma ideia distante que se designa por “democracia popular” dirigidas por “estruturas horizontais”. No meio de tantas bandeiras da Palestina e de tantos acessórios de moda em estilo keffiyeh, as “acampadas” reproduzem na essência a lógica do kibutz e o espírito dos colonatos sionistas na Cisjordânia – Uma Cisjordânia em cada cidade da Europa é uma ideia luminosa que só pode antecipar uma catástrofe.

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