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Transatlantic Talks. Europa deve apostar nas melhores aplicações de IA, não nos melhores modelos
A Europa está muito atrás dos EUA e da China no desenvolvimento de modelos de inteligência artificial. A estratégia não deve ser, no entanto, gastar amplos recursos financeiros para chegar à frente da corrida, mas antes investir em criar as melhores aplicações para o uso dos modelos existentes, defendem Sofia Marta, country manager da Google Cloud em Portugal, e Arlindo Oliveira, presidente do INESC.
“Não é por não termos um modelo que é o estado da arte desse dia que nos impede de usar modelos”, começou por realçar Arlindo Oliveira, no Transatlantic Talks, o podcast do ECO e da Amcham Portugal, que este ano celebra o 75º aniversário.
“Defenderia uma abordagem mais inspirada na estratégia chinesa do que na estratégia americana, se é que podemos falar de estratégia americana, porque realmente a estratégia americana é uma estratégia das grandes empresas”, afirma o também professor catedrático distinto do Instituto Superior Técnico. “O que nós queremos é ter as melhores aplicações dos modelos que existem. Alguns nossos, outros que não são nossos”, conclui. E deixa um apelo: “vamos pôr as pessoas a usar modelos, vamos pôr as máquinas de lavar, os carros, os comboios, tudo a usar modelos, e não são só modelos de linguagem, são uma série de outros modelos”.
O foco neste momento tem que ser a utilização desta tecnologia em prol da reinvenção daquilo que são os setores tradicionais, ou mesmo a estimulação daquilo que é o ecossistema de inovação na Europa.
Sofia Marta, da Google, concorda. “Neste momento, a Europa não deveria colocar o foco em ter o frontier model mais avançado. O foco neste momento tem de ser a utilização desta tecnologia em prol da reinvenção daquilo que são os setores tradicionais, ou mesmo a estimulação daquilo que é o ecossistema de inovação na Europa”, defende.
“O acesso e a democratização do acesso de uma startup em Lisboa é o mesmo, em termos de capacidade de computação, do que uma startup que está em Silicon Valley”, considera. Para a gestora, o foco deve estar também na “cooperação da Europa com os Estados Unidos, numa ótica de parceria estratégica, de tirar partido daquilo que é infraestrutura, a inovação e o que são estas capacidades tecnológicas, em prol da evolução e do impacto económico que possam ter ao incorporar esta tecnologia”.

A Europa tem várias desvantagens face aos EUA e à China. Arlindo Oliveira aponta a “falta de escala por causa da fragmentação legislativa e até cultural” e a “falta de investimento”. “Qualquer coisa que se faça nos Estados Unidos é muito mais fácil. Não quer dizer que os 50 Estados tenham todos a mesma legislação. Não é esse o caso. Mas são muito mais uniformes em termos de cultura e de legislação. Na Europa é muito mais difícil”, reforça.
“Esta fragmentação que existe na Europa, técnica e funcional, é um dos temas em que per si, cada um dos países, e Portugal em particular, pode fazer o seu caminho”, afirma Sofia Marta. “Se nós trabalharmos também em algo que seja uma interoperabilidade entre os vários países, vai nos dar muito maior escala e teremos mais impacto com as iniciativas que levemos a cabo”, recomenda a country manager da Google Cloud. Para a gestora, seria muito relevante olhar para os temas da infraestrutura, da cloud, da inteligência artificial e dos dados “quase como uma moeda única”, permitindo “circular com fluidez entre os vários países da Europa”.
Sofia Marta afirma que Portugal deveria investir mais em inteligência artificial, apontando que a adoção de cloud em Portugal está nos 38%, acima da média da União Europeia mas “significativamente abaixo da média da OCDE” de 54%. “Por outro lado, se formos olhar para aquilo que é o estado de maturidade, também se calhar muitas dessas organizações que já estão a utilizar cloud estão a fazê-lo para armazenamento ou email, e não efetivamente para uma transformação daquilo que é o seu negócio”, alerta, deixando um apelo: “Temos de realmente acelerar se queremos que Portugal esteja a liderar”.
Arlindo Oliveira também defendeu a necessidade de um maior investimento, apontando o sucesso da Sword, que fez parte de uma das agendas mobilizadoras do PRR, como uma demonstração de que é possível ter retorno. “Nós não precisamos ter sucesso em todos os investimentos; basta que alguns investimentos sejam muito bem-sucedidos”, afirmou, acrescentando que o mesmo pode ser feito no Estado.
Um país pobre não pode ter vícios, mas, se nós não pensarmos também em usar o Orçamento do Estado para investir em ciência e tecnologia, e em AI em particular, vamos andar sempre atrasados.
“O nosso investimento em ciência e tecnologia, em geral, é muito baixo. Nós temos aquela famosa meta dos 3%. Não só estamos muito longe dos 3%, como o que temos é muito criativo. Muito disso é usado através de uma série de subterfúgios”, critica o presidente do INESC. E deixa um alerta: “Um país pobre não pode ter vícios, mas, se nós não pensarmos também em usar o Orçamento do Estado para investir em ciência e tecnologia, e em AI em particular, vamos andar sempre atrasados”.
Sofia Marta recorda um estudo pedido pela Google à Universidade Católica e ao Implement Consulting Group, que concluiu que a adoção de IA pode gerar um aumento de cerca de 8% do PIB português. “Há um espaço de melhoria gigante que não podemos desperdiçar”.
Mais talento precisa-se
A amarração do cabo submarino Nuvem da Google, que liga Portugal aos EUA, foi concluída em julho. Segundo um estudo da Câmara de Comércio Americana em Portugal (AmCham Portugal), até ao final deste ano, o país deverá contar com 20 cabos submarinos amarrados à costa.
“Neste momento temos quase uma autoestrada que liga Portugal e a Europa à América do Norte, à América do Sul e África. Coloca-nos, de facto, como esse hub digital, de porta para o mundo”, salienta Sofia Marta. “Esta infraestrutura em termos de cabos coloca-nos a nós também num ponto muito apetecível de captação de investimento para os data centers“, acrescenta, juntando ainda o acesso a energia renovável como um fator que distingue positivamente o país.

“Uma das razões pelas quais os Estados Unidos e a China são competitivos nesta área é que a energia lá é muito mais barata do que na Europa, por razões que conhecemos. Portugal, desse ponto de vista, é competitivo, por causa também da nossa estrutura de produção de energia”, concorda Arlindo Oliveira.
A country manager da Google Cloud defende que aumentar a disponibilidade de talento nesta área deve ser uma prioridade. Sofia Marta considera que tem havido um esforço grande para aumentar a literacia digital, mas é necessário ir mais longe, até porque de nada vale ter a infraestrutura se não tivermos as pessoas que têm o conhecimento para tirar partido dela. “Temos que fazer atração, mas temos também que fazer upskilling daquilo que são os conhecimentos da generalidade das pessoas”, defende. A empresa americana tem feito programas de formação em colaboração com a APDC e lançou recentemente a AI Academy, em Coimbra, para o setor público.
“Nós neste momento, dos nossos graduados nestas áreas de engenharia, estamos a perder provavelmente mais de um terço e se calhar 50% para países do Norte da Europa, onde vão ganhar salários muito mais elevados, talvez o dobro e em alguns casos o triplo”, alerta Arlindo Oliveira. Portugal tem alguma capacidade de atração, “mas o tratamento dos vistos de imigração continua a ser muito difícil“, lamenta o presidente do INESC. “Recebemos muitos pedidos de iranianos, mas é um sarilho. Vai demorar quase um ano até legalizar”.
