❌

Reading view

Estamos vendo o início do fim do pesadelo Trump?

Em menos de uma semana, o Brasil vai às urnas para o primeiro turno das eleições que decidem presidente, governadores, senadores e deputados. E, em menos de seis, serão os Estados Unidos que irão votar em nomes para o Congresso e os governos estaduais.

Isso ocorre em um período no qual a popularidade de Donald Trump continua caindo nas pesquisas – levantamento do American Research Group aponta seu índice mais baixo de todos os tempos: 29% de aprovação.

Especialistas avaliam que os republicanos podem perder o controle da Câmara dos Representantes e, possivelmente, até mesmo do Senado. Isso abriria caminho para sérias investigações do Congresso contra o presidente por sua má conduta no exercício do cargo. 

Mas esse movimento gera uma dúvida: diante de um declínio político de Trump, ele pode se tornar ainda mais agressivo e descontrolado para manter seu poder?

A guerra sem fim contra o Irã

Na semana passada, nas Nações Unidas, Trump chocou o mundo ao ameaçar aniquilar o Irã — o que, se ocorresse, seria o maior crime contra a humanidade desde a Segunda Guerra Mundial. No entanto, sua ameaça não é um sinal de força, mas sim de fraqueza. Ele embarcou em uma guerra insensata, sem uma estratégia clara para vencer ou retirar os Estados Unidos do conflito de maneira elegante.

Nate Silver, importante analista político, ao acompanhar a média das pesquisas de opinião, constatou que 59% dos americanos são contra a guerra, enquanto o apoio a ela gira em torno de 34%.

Trump agora afirma, cinicamente, que a liderança da República Islâmica do Irã só concordará em negociações sérias após as eleições de meio de mandato. Ao mesmo tempo, ele acaba de rejeitar as iniciativas iranianas de sentar-se e conversar. Ele nega que os estoques de armas do Pentágono estejam esgotados, e o “Departamento de Guerra” — nome que ele deu ao Departamento de Defesa — oculta o número de soldados americanos feridos ou mortos durante o conflito.

Ainda assim, o Estreito de Ormuz permanece funcionalmente fechado, e os Houthis — aliados do Irã — estão bloqueando a navegação no Mar Vermelho. Além disso, eles explodiram o oleoduto saudita projetado para contornar o bloqueio imposto pelo Irã. Como resultado, os preços do petróleo e do diesel continuam exorbitantes, mantendo elevados os custos de alimentos, fertilizantes e transporte nos Estados Unidos e em todo o mundo.

O boicote da imprensa ao autoritarismo de Trump

Nesta semana, Trump decidiu demonstrar força política ao proibir o acesso à Casa Branca de dois canais de notícias a cabo de orientação moderada a esquerdista — a CNN e a MS Now (anteriormente MSNBC) — bem como do Politico, uma organização internacional de notícias que cobre política e políticas públicas. Ao anunciar a ordem executiva, o presidente insistiu que ela puniria veículos de imprensa que promovessem “fake news” (notícias falsas), uma medida que viola claramente a Primeira Emenda da Constituição dos EUA, que garante a liberdade de imprensa.

Em uma demonstração surpreendente de solidariedade, o grupo de imprensa (press pool) da Casa Branca — um pequeno conjunto de jornalistas, fotógrafos e emissoras de televisão que, em sistema de rodízio, compartilham a cobertura de notícias com outros membros da imprensa — concordou em boicotar conjuntamente qualquer reportagem sobre o presidente até que a proibição fosse revogada. Isso incluiu a Fox News, que, historicamente, tem apoiado Trump de forma leal. Ao defender a ordem executiva no tribunal, o governo Trump mudou sua justificativa, alegando que esses veículos de imprensa violavam a “segurança nacional”. O juiz, no entanto, ordenou a revogação da proibição, embora agora Trump tenha impedido a CNN de acompanhá-lo a bordo do Air Force One, o avião presidencial. 

Não está claro por quanto tempo essas agências de notícias manterão o plano de negar ao presidente a cobertura televisiva que ele tanto deseja. Ainda assim, embora a proibição possa ter reforçado o apoio entre seus seguidores mais leais, ela também revela, de forma contundente, as tendências autoritárias do presidente.

De repente, a “segurança nacional” tornou-se a justificativa para quase todas as medidas que Trump adota para ampliar seu poder presidencial. Ele usou a expressão para defender a construção de seu salão de baile dourado, argumentando que abrigos (bunkers) e sistemas de segurança seriam instalados sob o megaedifício anexo à Casa Branca. Após críticos se oporem à construção de um arco do triunfo de cerca de 76 metros de altura em Washington, ele alegou que a estrutura estava sendo projetada como um local de “segurança nacional” para atiradores de elite e para repelir ataques de drones. Qualquer pessoa que já tenha subido ao topo do Arco do Triunfo, em Paris, sabe o quão surreal é essa afirmação.

A cruzada anticomunista paga com dinheiro público 

Trump também parece ter violado a legislação eleitoral federal ao produzir um anúncio pago pelo governo dos EUA para promover sua candidatura à presidência — ação que não pode ser contestada porque a Comissão Eleitoral Federal não possui quórum de comissários para adotar medidas legais, devido à recusa de Trump em nomear novos membros para o conselho. O anúncio de trinta segundos exibe uma montagem de imagens de Trump, com frases que aparecem repetidamente na tela, proclamando: “O maior corte de impostos da história dos EUA” e “A América nunca será um país comunista”. A trilha sonora traz um coro cantando “ame-me” (love me), revelando, de forma patética, uma das principais vulnerabilidades psicológicas de Trump.

Quando repórteres questionaram a adequação do anúncio, a Casa Branca alegou tratar-se de uma mensagem de utilidade pública. A senadora de New Hampshire, Maggie Hassan, argumentou que se tratava de propaganda governamental proibida por lei federal, e o deputado de Maryland, Jaime Raskin, prometeu iniciar investigações logo após a posse do novo Congresso.

O tema anticomunista, no entanto, não é novidade no repertório de Trump. Quando o socialista democrata Zohran Mamdani venceu a eleição para a prefeitura de Nova York no ano passado, isso impulsionou uma pequena onda de vitórias semelhantes de candidatos de esquerda nas primárias do Partido Democrata em todo o país. Em resposta, os republicanos lançaram anúncios alegando que todos os democratas — até mesmo os mais moderados — eram comunistas radicais. Contudo, em sua eterna busca por amor e aceitação, Trump reuniu-se com Mamdani na semana passada em Nova York, elogiou o prefeito e insistiu que ele deveria ir à Casa Branca para aprender com o presidente.

O fervor anticomunista, no entanto, não se manifestou quando ele organizou uma visita de Estado de três dias de Xi Jinping, presidente da República Popular da China, supostamente para abordar as diferenças entre os dois países. Trump recebeu o presidente chinês no aeroporto, uma honra não concedida a chefes de Estado há décadas. Ele também insistiu em um grande tour pela Casa Branca, mostrando com orgulho um heliponto recém-instalado e a enorme escavação de uma obra que, em breve, será seu precioso salão de baile.

Embora Trump tenha estendido o tapete vermelho para receber o chefe do Partido Comunista Chinês, nada parece ter saído desse encontro. Não houve declaração conjunta sobre como controlar os aspectos perigosos da inteligência artificial ou sobre como encerrar a guerra com o Irã. As divergências comerciais foram deixadas para negociações futuras. Em vez disso, a China mostrou ao mundo que agora está em pé de igualdade com os Estados Unidos.

Trump também não vê problemas em convidar Vladimir Putin para uma reunião do G20 em Miami, em dezembro de 2026, ocasião em que provavelmente mostrará ao presidente russo sua residência na Flórida. Líderes europeus que apoiam os esforços da Ucrânia para se defender da invasão russa expressaram séria preocupação com o convite. Ao mesmo tempo, observadores políticos continuam intrigados com a forte afinidade de Trump por líderes autoritários.

As derrotas e decisões irracionais do presidente

Como tudo ao redor de Trump parece estar dando errado, seria de esperar que ele fizesse escolhas sensatas diante da derrota eleitoral prevista para o próximo mês. Embora uma maioria favorável na Suprema Corte dos EUA tenha acabado de emitir uma decisão que beneficia a iniciativa de Trump de permitir que o governo federal utilize listas de eleitores controladas pelos estados para excluir nomes dos registros — visando verificar a cidadania de supostos eleitores inelegíveis —, a medida provavelmente será ineficaz, dado o pouco tempo restante até as eleições.

Essa medida, que ignora uma tradição jurídica de duzentos e cinquenta anos segundo a qual governos estaduais e locais administram as eleições, é consistente com outras decisões da maioria de direita da Corte. Tais decisões reverteram práticas anteriores em que o governo federal intervinha nas eleições apenas para garantir o direito de voto dos cidadãos — especialmente quando muitos estados do Sul impediam a participação de negros.

No entanto, em uma derrota para a estratégia de Trump de restringir o voto nas próximas eleições — e em mais uma decisão da Suprema Corte —, seus aliados conservadores no Judiciário barraram suas tentativas de impedir o voto por correio, baseadas em alegações infundadas de que centenas de milhares de não cidadãos teriam votado ilegalmente em eleições recentes.

Considerando que os Democratas poderiam conquistar o controle da Câmara e talvez até do Senado, seria de se esperar que Trump fizesse tudo o que pudesse para favorecer seus candidatos em disputas acirradas. Ele anunciou recentemente que faria campanha em 35 dos distritos eleitorais mais disputados do país. Em vez disso, nesta semana ele estará no Alabama — estado que venceu com uma vantagem de 35 pontos percentuais sobre Kamala Harris em 2024 — e em Oklahoma, onde obteve 34,3% de votos a mais do que seu oponente democrata. Essas decisões políticas não fazem sentido, a menos que se entenda que Trump valoriza mais um grande comício em local fechado, cercado por um público que o adora, do que comparecer a locais onde seus candidatos enfrentam forte oposição.

Economia ruim pressiona candidaturas de republicanos

À medida que as taxas de juros sobem e os preços de alimentos e energia aumentam, mais disputas parlamentares — que, num passado recente, provavelmente seriam vencidas por republicanos — passam a ser ameaçadas por candidatos democratas. Nesse cenário, candidaturas para o Congresso e para os governos estaduais tornam-se mais competitivas, forçando os republicanos a gastar centenas de milhões de dólares em locais que, há seis meses, eram considerados redutos conservadores. Em estados tradicionalmente controlados pelo Partido Republicano, candidatos democratas estão ganhando terreno nas pesquisas. No Texas e na Flórida, por exemplo — onde o Partido Republicano domina a política há décadas —, candidatos democratas podem vir a derrotar seus oponentes.

De repente, candidatos republicanos em distritos onde o eleitorado está quase igualmente dividido entre os dois partidos estão se distanciando do presidente para atrair eleitores que podem ter votado em Trump há dois anos, mas que agora se arrependem. Os candidatos republicanos em situação de vulnerabilidade não querem que Trump faça campanha por eles, e alguns chegaram a remover das redes sociais fotos com o presidente ou declarações de apoio às suas políticas.

No entanto, assim como faz com a mídia que critica sua gestão, Trump também não hesita em atacar aqueles que o desafiam, especialmente dentro do Partido Republicano. Isso ficou evidente depois que a deputada conservadora de origem cubana Maria Elvira Salazar, da Flórida, gravou um anúncio em frente ao Capitólio, afirmando que as políticas de Trump na aplicação das leis de imigração haviam “ido longe demais” e destacando que 50% das pessoas detidas pelo Serviço de Imigração e Alfândega (ICE) não tinham antecedentes criminais.

Logo após a veiculação do anúncio, Salazar disse à imprensa que tivera uma “conversa muito boa” com o presidente sobre o assunto. Inicialmente, Trump afirmou discordar de Salazar, mas manteve seu apoio a ela, o que parecia indicar que os congressistas republicanos poderiam, então, criticar a Casa Branca sem medo de represálias. Contudo, poucos dias depois, Trump disparou uma série de ataques à deputada nas redes sociais, revelando que continua extremamente suscetível a críticas e pouco tolerante com membros do próprio partido que se opõem às suas políticas.

Alguns candidatos republicanos de outros distritos fortemente divididos também se distanciaram do presidente quanto ao conflito com o Irã, especialmente devido aos impactos nos preços dos alimentos e dos combustíveis. No entanto, no Congresso, eles votaram contra resoluções que pediam o fim da guerra. Ainda assim, a imagem do Partido Republicano vem perdendo força, uma vez que Trump parece incapaz de reverter a queda de sua popularidade.

Caso os republicanos percam o controle de uma das casas legislativas ou de todo o Congresso e passem a investigar a corrupção e o abuso de poder do Executivo por parte de Trump, ele inevitavelmente reagirá com uma campanha agressiva, questionando o processo eleitoral, a cobertura da mídia e os candidatos democratas vitoriosos.

Para citar o poeta galês Dylan Thomas, é pouco provável que Trump “entre docemente naquela noite serena” e aceite a derrota. Resta saber quanto dano Trump causará aos Estados Unidos e ao mundo à medida que seu poder, influência e popularidade diminuem.

  •  

Pesquisa: Vídeo de Porchat sobre Master “fura bolha” mas campanha de Lula falha nas redes

O vídeo “Grandes Igrejas, Master Negócios, publicado pelo ator e comediante Fábio Porchat, na semana passada conseguiu dois feitos almejados pela campanha eleitoral do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, candidato à reeleição. O primeiro foi “furar a bolha” dos grupos já alinhados com as pautas de esquerda, e o segundo foi explicitar o elo entre o maior escândalo financeiro do país, o caso Master, e o grupo político ligado ao principal adversário de Lula na corrida presidencial, senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ). A conclusão é do cientista político e diretor executivo da Ipse Global, Leonardo Magalhães. 

“O Flávio Bolsonaro aparece como o segundo nome mais citado em um caso que nem é diretamente sobre ele, mas o envolve como um potencial beneficiário ou agente envolvido. Depois vêm o André Valadão com 11,6%, e o Nicolas Ferreira com 2,9%.”

O vídeo de Porchat foi alvo de um relatório da Ipse Global que realiza monitoramentos dos temas que movimentam a esfera pública digital para o desenvolvimento de estratégias de marketing político e eleitoral. Em entrevista à Agência Pública, Magalhães não aponta apenas pontos positivos sobre a campanha do presidente candidato à reeleição. 

Magalhães explica que o acesso ao vídeo do Porchat para fora da “bolha” de Lula não significa conversão em voto. “O material circulou mais fora do campo que o produziu do que dentro dele, o que é um caso raro. Mas o alcance não é [necessariamente] adesão. Nós medimos a exposição”, explica. 

Além disso, o cientista político afirma que o marketing eleitoral dos dois principais candidatos à Presidência da República estão perdendo oportunidades de obter resultados melhores nas redes sociais. O motivo seria a adoção de estratégias rígidas, ou como Magalhães nomeou: “receitas de bolo”. Para o diretor, o sucesso do filho do ex-presidente Jair Bolsonaro tem ocorrido nas frentes digitais da corrida eleitoral “mais por lacunas deixadas pela campanha do Lula do que por outra coisa.”  

O diretor executivo também faz um alerta, vindo das pesquisas qualitativas realizadas pela Ipse Global. A falta de confiança do eleitor nas instituições e no futuro segue crescendo, o que mantém um forte sentimento anti-sistema. 

“Quem vem com uma proposta de resetar o sistema, uma coisa muito forte em 2018, fabricada pelo [Jair] Bolsonaro, acaba mantendo um eleitorado cativo. E quem sugere uma mudança no sistema, segura esse eleitorado”, argumenta.

Segundo Magalhães, isso é um desafio para o presidente que está no poder e, para o eleitor, mantém e representa esse mesmo sistema. “A campanha do Lula não entendeu que precisa dar esperança, que as pessoas precisam de caminho. [Falta dizer] ‘olha, nós também estamos insatisfeitos, se nós pudéssemos, teríamos feito mais, não tivemos oportunidade, mas, a gente quer fazer mais’”, conclui. 

Leia os principais trechos da entrevista de Leonardo Magalhães à Pública: 

Cientista político e diretor executivo da Ipse Global, Leonardo Magalhães
Cientista político e diretor executivo da Ipse Global, Leonardo Magalhães

No relatório sobre as reações ao vídeo do ator Fábio Porchat, os dados mostram que o engajamento diário saltou de 1,15% para 5,78% em uma semana. Esse vídeo conseguiu furar a bolha e chegar aos eleitores indecisos?

Chegou a quem não tem lado fixo, mas não há evidência matemática de que tenha convertido alguém. Na análise de mídias sociais, você não consegue cravar a conversão de voto a menos que tenha uma massa histórica de dados muito explícita. O que o dado preciso nos mostra é que o engajamento quintuplicou em uma semana, e o pico não aconteceu no dia do lançamento do vídeo, mas no dia da remoção do perfil do ator pelas plataformas.

Foram duas pautas que se somaram: a denúncia original e a pauta da censura. Essa segunda acabou se sobrepondo, o que atraiu muito o público que consome teorias de conspiração e polêmicas. Entre os perfis sem posicionamento definido, uma em cada quatro publicações nomeava o vídeo ou o Porchat. Na bolha de esquerda, era apenas uma em cada oito. O material circulou mais fora do campo que o produziu do que dentro dele, o que é um caso raro. Mas o alcance não é [necessariamente] adesão. Nós medimos a exposição. 

Entre os nomes citados no caso, Daniel Vorcaro concentra o maior desgaste, seguido por Flávio Bolsonaro; instituições como a Igreja Batista da Lagoinha lideram o engajamento. É possível concluir que o episódio conseguiu ‘colar’ o escândalo do Banco Master ao campo bolsonarista?

Sim, eu diria que sim, os nomes citados e a forma como eles são citados também evidenciam isso. O Flávio Bolsonaro aparece como o segundo nome mais citado em um caso que nem é diretamente sobre ele, mas o envolve como um potencial beneficiário ou agente envolvido. Depois vêm o André Valadão com 11,6%, e o Nicolas Ferreira com 2,9%.

O dado mais forte é que a associação da Igreja da Lagoinha com o caso, que lidera com 49% do engajamento, não foi construída por um argumento lógico-racional, mas, sim, por cenas e imagens que circularam massivamente. O caso produziu uma quantidade enorme de registros visuais e testemunhos, o que fixa a denúncia no imaginário de forma muito mais profunda do que um texto escrito. 

A campanha de Lula tenta explorar esses episódios de corrupção do adversário, mas sem o mesmo sucesso digital. Por que o vídeo do Porchat funcionou e a comunicação oficial do governo não funciona?

Porque o emissor faz parte da mensagem. No caso do Banco Master, os influenciadores respondem por 38,5% do engajamento e os políticos por apenas 21,2%. No debate digital sobre o presidente Lula na ONU, por exemplo, a proporção se inverte: 55,3% da indignação da oposição é produzida diretamente por agentes políticos e não por influenciadores.

[Essa] denúncia feita por um político é imediatamente lida pelo eleitor como peça de campanha. Ela ativa o modo de defesa do campo adversário na mesma hora. Já a denúncia feita por alguém de fora do sistema partidário é lida como apuração independente ou como uma resposta legítima da sociedade. 

O adversário fica sem saber como responder, porque ele não pode atacar a sociedade civil diretamente, a menos que tente rotular aquele emissor como militante. Esse caminho de usar influenciadores, a campanha pode estimular na informalidade, mas não pode assinar, porque no momento que assina, que isso faz parte da campanha, o efeito [positivo] acaba sendo desfeito.

O campo bolsonarista optou pelo silêncio estratégico sobre o vídeo do Porchat. Essa tática de não responder foi positiva para eles nas redes?

Para eles foi, na verdade, a melhor opção que tinham à disposição. E, claramente, foi bem mais deliberado do que parece. Na bolha de direita, não localizamos publicações de destaque mencionando o Porchat ou o vídeo. Eles falam do “caso Master”, mas ignoram a peça que os acusa.

Na lógica das plataformas, responder equivale a distribuir. Cada refutação que eles tentassem fazer entregaria ao denunciante uma audiência que ele não teria sozinho, transformando uma acusação de terceiros em uma conversa entre pares. 

Por outro lado, o silêncio custa caro para o Flávio Bolsonaro: quem não responde, não enquadra o assunto. Eles perderam a chance de definir o significado do caso, aceitaram o enquadramento do adversário e deixaram o tema livre para ser reciclado no futuro. 

O que a força desses escândalos e a fragilidade do debate eleitoral formal revelam sobre quem pauta uma campanha digital hoje?

Não existe uma resposta única e isso fica evidente na diferença entre os casos [analisados]. O escândalo [do Master] é pautado por quem está fora da política institucional, ou na oposição. Já a disputa eleitoral, propriamente dita, continua nas mãos dos políticos. 

No debate sobre o presidente Lula na ONU, 55,3% [do engajamento] foi gerado por políticos da oposição e 38,2% [gerado por políticos aliados] de apoio. [A soma é de 93% do engajamento total]. 

A imprensa é minoritária em engajamento nos dois casos citados: Master ou campanha eleitoral. […] A gente está vendo também um desarranjo muito grande do sistema de mídia, que é um sistema híbrido [tradicional e redes sociais]. 

A gente tem uma pauta que está ocupando a agenda inteira [caso Master]. A campanha está muito morna, não se fala praticamente de campanha, não se sente um clima de campanha. Isso de alguma maneira está gerando um prejuízo para a campanha do Lula, que é quem deveria, ou poderia, estar falando dos feitos deste último governo, de qual direção quer para o futuro, e não estão conseguindo. Está falando basicamente [do caso Master]. 

A própria mídia ajuda muito nisso e eu entendo. É interessante falar e explorar o caso Master por uma questão de audiência. Se não fizer isso, vai perder a audiência para outro que vai fazer. É o caso mais interessante e ficar falando de proposta acaba não sendo tão palatável, pensando na lógica da economia da atenção.

Pensando em Lula e Flávio Bolsonaro, alguma campanha está vencendo o debate sobre o caso Master?   

Não acredito que o campo da oposição, dos bolsonaristas, tenha entendido como usar melhor o caso. Acredito que a campanha do Lula está comendo algumas bolas, [vejo] oportunidades perdidas. Talvez por não entender como utilizar o marketing político, porque ele está cheio de “receita de bolo”. Por mais que a gente fale de profissionalização e modernização das campanhas eleitorais, e de uso maior de dados segmentados, que é como a Cambridge Analytica, que ficou famosa há anos atrás.

Na minha visão, ambas as campanhas estão usando essas “receitas de bolo” para ganhar vantagem em cima do adversário. A do Flávio Bolsonaro está usando uma estratégia mais de contenção e está se dando bem mais por lacunas deixadas pela campanha do Lula do que por outra coisa.

A campanha do Lula aplicou uma regra que tende a funcionar em eleições genéricas que é a da campanha negativa, para desidratar um adversário. Principalmente, quando o adversário está tão associado, de forma tão óbvia, com provas, com imagens, a um caso de corrupção grande como é o caso Master. 

Só que eles [da campanha de Lula] estão esquecendo de analisar o presente, como as coisas estão funcionando de fato, com uma mentalidade mais pragmática, não o que normalmente funciona. Na questão do Banco Master, tudo aquilo que envolve corrupção, as pessoas [que votam em Flávio] já colocaram na conta. 

A campanha de Lula não entendeu [isso], apesar de todo o barulho que vários atores estão fazendo, imprensa, influenciadores, a própria campanha, toda a esfera política aliada ao Lula, e nem isso está desidratando o Flávio. 

Como o governo poderia quebrar essa dinâmica?

A oposição não tem como lutar no terreno da entrega material, campo no qual o governo teria vantagem, mas, por algum motivo, está ignorando isso. Acredito que seja porque [Lula optou por] aplicar uma “receita de bolo” na campanha eleitoral. 

O que a oposição faz é lutar num terreno mais favorável e o próprio campo governista está contribuindo. Em qualquer outra eleição, com qualquer outro candidato, em qualquer outra circunstância, um candidato com as suspeitas que recaem sobre o Flávio Bolsonaro não teria a menor chance de vencer. Não alcançaria nem 5% [dos votos]. Mas, evidentemente, tem alguma coisa ligada ao antipetismo [ou] ao bolsonarismo, que faz a oposição lutar em um terreno mais favorável.

Para reverter isso [é preciso] atuar com mais informação. [A campanha de Lula] tem que dar uma forma narrativa ao que já foi entregue [pelo governo]. Com rosto, emoção, lugar, conflito, mostrar um antes e um depois, indicar para onde quer ir.

Isso que o governo deveria fazer, enriquecer essa narrativa para se diferenciar do adversário, ele pode fazer isso. Mas tem que entregar de uma maneira mais sistêmica essa narrativa. Não é colocar todas as fichas em cima de falar sobre os defeitos do adversário, quando isso não está funcionando e talvez não funcione também no segundo turno. 

O vídeo [do Porchat] é um modelo de formato. Ele conta uma história que funciona, com personagens, não é um balanço de governo. Como campanha negativa, [porém], não é a resposta ideal para a campanha do Lula porque continua jogando exclusivamente nesse campo [de abordar o escândalo do Master] que é um campo menos pior para o adversário [Flávio Bolsonaro].  

O relatório aponta que o enquadramento de “corrupção moral” responde por 67,2% dos debates do caso Master. Já os sentimentos de indignação e desprezo geram 85% de reações relacionadas a ele. Por que a pauta moral engaja tanto mais do que os debates sobre economia e entregas sociais?

A razão disso é mais econômica, no sentido de custo [pessoal]. A acusação moral não exige que o eleitor verifique nada, é o suficiente. [O eleitor] precisa apenas reconhecer uma cena. Já a entrega material exige que o eleitor identifique um benefício na própria vida, ou na vida de quem ele reconhece como família, ou, de maneira um pouco mais ampliada, como comunidade. E esse processo é bem mais lento e menos compartilhável.

O que as pesquisas qualitativas estão identificando e como isso afeta o comportamento eleitoral brasileiro?

O que a gente vê é uma falta de confiança enorme, crescente, nas instituições, no futuro, no outro. E também uma insatisfação muito grande com o sistema. Como se, após várias décadas de promessas de que haveria crescimento na qualidade de vida, isso não se sustentasse mais.

As pessoas estão insatisfeitas, têm que colocar a culpa em alguém. Então, quem vem com uma proposta de resetar o sistema, uma coisa muito forte em 2018, fabricada pelo [Jair] Bolsonaro, acaba mantendo um eleitorado cativo. E quem sugere uma mudança no sistema, segura esse eleitorado.

A campanha do Lula não entendeu que precisa dar esperança, que as pessoas precisam de caminho. [Falta dizer] ‘olha, nós também estamos insatisfeitos, se nós pudéssemos, teríamos feito mais, não tivemos oportunidade, mas, a gente quer fazer mais’. 

A resposta que [o governo Lula] deu nos últimos anos é muito baseada na defesa do sistema, em fazer certos acordos, e não em combater o bolsonarismo. Apesar de ser mais neoliberal, mais pró-sistema do que o governo Lula, [o bolsonarismo] habilmente monopolizou a rebelião antissistema.

  •  

Família de condenado por garimpo na terra Yanomami bancou vida de Ramagem nos EUA

“Oii Pri, boa noite. Você tem como me enviar uma conta do apartamento de vocês no nome do meu pai? Água, luz, telefone, internet… Vamos tentar tirar a driver license do Alexandre amanhã no DMV”, diz a primeira mensagem. E a seguir: “Fiz o contrato aqui também para ele levar como se tivesse alugado o quarto. Vamos ver como vai ser”.

Essas mensagens de WhatsApp fazem parte da investigação da Polícia Federal (PF) sobre a fuga de Alexandre Ramagem para os Estados Unidos em setembro do ano passado. Elas foram enviadas por Celso Rodrigo de Mello, filho de Rodrigo Martins de Mello, conhecido como Rodrigo Cataratas, para a esposa de seu pai em 15 de setembro de 2025. Cataratas foi condenado em fevereiro deste ano a mais de 16 anos de prisão por liderar uma organização criminosa responsável pela mineração ilegal de cassiterita e ouro dentro da Terra Indígena Yanomami. Em resposta, Priscila Freitas de Melo diz apenas “Oi 🙋‍♀️ Deixa eu ver aqui”. DMV é o departamento estadual de trânsito da Flórida.

As mensagens fazem parte de uma série de diálogos, fotos e notas recuperados do celular de Priscila aos quais a Agência Pública teve acesso. Elas comprovam que a família de Rodrigo Cataratas ciceroneou, forneceu auxílio material e hospedou Ramagem logo na sua chegada à Flórida, foragido do Brasil. A apuração foi feita com apoio do ICIJ, Consórcio Internacional de Jornalistas Investigativos.

Diretor da Abin (Agência Brasileira de Inteligência) durante o governo Bolsonaro, Ramagem foi condenado pelo Supremo Tribunal Federal (STF) em 11 de setembro de 2025 a 16 anos de prisão pela tentativa de golpe de Estado. Os ministros consideraram que ele utilizou a estrutura da Abin para monitorar adversários e apoiar a trama golpista do ex-presidente Jair Bolsonaro. Na ocasião, ele também perdeu o seu mandato como deputado federal (PL-RR) e o cargo que tinha na Polícia Federal. Desde 21 de novembro, antes da condenação, o STF já havia decretado sua prisão preventiva por suspeita de fuga. Ele segue foragido da Justiça brasileira.

A família de Cataratas, incluindo Priscila e Celso, é investigada por ter ajudado a fuga de Ramagem do Brasil através do município de Bonfim, em Roraima, que faz fronteira com a cidade de Lethem, na Guiana, em 9 de setembro de 2025. Da Guiana, Ramagem pegou um avião para os Estados Unidos, onde teria chegado no dia 11 de setembro, segundo a PF. Ramagem estava proibido de sair do Brasil desde junho de 2025 por medida cautelar determinada por Moraes, que também o obrigou a entregar todos os seus passaportes.

O ex-diretor da Abin chegou a ser detido pelo ICE, serviço de imigração dos Estados Unidos, motivado por uma infração de trânsito. Entretanto, ele foi liberado dois dias depois com ajuda direta da Casa Branca. Ele teria feito um pedido de asilo aos EUA “por perseguição política” e o ICE disse à época que ele poderia esperar os trâmites em liberdade.

A reportagem não encontrou Alexandre Ramagem, Rodrigo Cataratas e Celso de Mello para comentar. O espaço permanece aberto.

“Nosso amigo Ramagem”

Segundo as mensagens analisadas, Priscila era o principal elo de ligação entre a família e a administração do Condomínio Sole Mia, residencial de luxo no norte de Miami onde Ramagem ficou hospedado durante três meses. Foi ela a encarregada, em 17 de setembro, de enviar uma mensagem pedindo um “cartão de acesso” ao estacionamento. A mensagem, assinada por Priscila e dirigida à administradora do condomínio, se referia a Ramagem como um “amigo nosso” – dela e do então marido, Rodrigo Cataratas.

“Estou escrevendo para te pedir gentilmente um cartão de acesso para o portão, já que infelizmente perdemos o originalmente designado para nosso apartamento. Como estamos viajando, não vamos conseguir retirá-lo. Portanto, autorizamos um amigo nosso, Alexandre Rodrigues Ramagem, a coletar o novo cartão em nosso nome”.

O pedido pretendia resolver um problema que Ramagem enfrentou assim que chegou nos EUA. O filho Celso estava contestando duas multas que o “amigo” teria tomado no Sole Mia por estacionar na vaga errada.

O Sole Mia é um residencial de luxo mesmo para os padrões de Miami. Os moradores e hóspedes podem usufruir de uma piscina e um lago artificial de 28 mil metros quadrados, com areia e coqueiros plantados ao redor, além de campo de futebol, quadras esportivas, playground, pista de cooper, trilhas para caminhadas e spa. O apartamento de Cataratas tem 96 m², dois quartos e dois banheiros, uma enorme varanda com vista para o majestoso lago, além de cozinha montada com pia, fogão e geladeira em aço inoxidável. O valor do aluguel começa em cerca de 20 mil reais por mês (3,7 mil dólares).

  • O condomínio Sole Mia, em Miami, onde a família de Cataratas hospedou Ramagem, tem apartamentos que custam mais de R$ 20 mil por mês
  • O condomínio Sole Mia, em Miami, onde a família de Cataratas hospedou Ramagem, tem apartamentos que custam mais de R$ 20 mil por mês
  • O condomínio Sole Mia, em Miami, onde a família de Cataratas hospedou Ramagem, tem apartamentos que custam mais de R$ 20 mil por mês
  • O condomínio Sole Mia, em Miami, onde a família de Cataratas hospedou Ramagem, tem apartamentos que custam mais de R$ 20 mil por mês
  • O condomínio Sole Mia, em Miami, onde a família de Cataratas hospedou Ramagem, tem apartamentos que custam mais de R$ 20 mil por mês
  • O condomínio Sole Mia, em Miami, onde a família de Cataratas hospedou Ramagem, tem apartamentos que custam mais de R$ 20 mil por mês
  • O condomínio Sole Mia, em Miami, onde a família de Cataratas hospedou Ramagem, tem apartamentos que custam mais de R$ 20 mil por mês
  • O condomínio Sole Mia, em Miami, onde a família de Cataratas hospedou Ramagem, tem apartamentos que custam mais de R$ 20 mil por mês
  • O condomínio Sole Mia, em Miami, onde a família de Cataratas hospedou Ramagem, tem apartamentos que custam mais de R$ 20 mil por mês
  • O condomínio Sole Mia, em Miami, onde a família de Cataratas hospedou Ramagem, tem apartamentos que custam mais de R$ 20 mil por mês
  • O condomínio Sole Mia, em Miami, onde a família de Cataratas hospedou Ramagem, tem apartamentos que custam mais de R$ 20 mil por mês

Em 17 de novembro, a esposa de Ramagem e as filhas chegaram a Miami, onde também ficaram no apartamento dos Martins de Mello. Antes disso, Rebeca Ramagem, que hoje concorre a uma vaga de deputada federal (PL-RJ), chegou a ser parada pela PF no aeroporto do Galeão, no Rio de Janeiro, e teve o celular e computadores apreendidos, mas conseguiu seguir viagem.

Para a PF, Cataratas, Priscila e Celso desempenharam “papel de protagonismo na manutenção clandestina de Alexandre Ramagem em Miami/EUA, porquanto estão viabilizando a sua moradia em condomínio luxo, além de estarem auxiliando o foragido a ludibriar as autoridades americanas com documentos falsos a fim de obter a chamada driver license (carteira de motorista)”.

A revelação complica ainda mais o grupo ligado a Eduardo Bolsonaro nos Estados Unidos que atua em lobby na construção de ataques ao STF e contra a investigação sobre o 8 de janeiro de 2023. Desde que chegou aos EUA, Alexandre Ramagem tem apresentado o programa da Revista Timeline no Youtube, ao lado de Allan dos Santos, onde Eduardo é convidado frequente. Ramagem também tem participado de eventos com a extrema direita norte-americana junto com o filho 02 de Jair Bolsonaro.

O financiamento de Eduardo nos EUA tem sido investigado desde a revelação que ele teria orientado a captação e uso de recursos do filme Dark Horse, financiado por doação do ex-banqueiro Daniel Vorcaro através de uma empresa acusada de lavagem de dinheiro, a Entre Investimentos. 

Agora, a manutenção dos Ramagem na Flórida passa a estar associada a pessoa ligada a outro grupo criminoso, investigado por uma série de crimes ambientais.

Crimes contra os Yanomami e a Amazônia

Rodrigo Martins de Mello foi condenado em fevereiro deste ano a 16 anos e sete meses de prisão por liderar uma organização criminosa responsável pela mineração ilegal de cassiterita e ouro dentro da Terra Indígena Yanomami. Rodrigo Cataratas era responsável pela logística, com uma frota de helicópteros adulterados que faziam o trânsito do pessoal, de combustível e dos minerais. Seu filho Celso também foi condenado a oito anos de prisão por atuar na gestão financeira e logística do grupo. Ambos estão recorrendo em liberdade.

Cataratas foi também denunciado por financiar a destruição de uma caminhonete Hillux pertencente ao Ibama e por patrocinar a invasão da superintendência de Roraima na tentativa de queimar um helicóptero do órgão como retaliação a operações de combate ao garimpo em 2021. Além disso, ele também foi denunciado criminalmente e responde a uma ação civil pública que pede reparação de danos e multa, dentro da Operação Forja de Efestos, por conta da extração e comercialização de cassiterita proveniente de terra indígena.

Cataratas, Celso e Priscila também são investigados pelo STF por terem dado apoio à fuga de Ramagem para a Guiana. Celso chegou a ser preso em Manaus em dezembro do ano passado, mas hoje responde em liberdade, com uma tornozeleira eletrônica. Procurado, o STF afirmou que o caso está sob sigilo e não poderia passar mais detalhes. 

“O garimpo geralmente é uma organização criminosa que, em regra, trabalha com os familiares. O Cataratas trabalha também nesse sentido: os filhos trabalham junto”, explica o procurador Alisson Marugal, do Ministério Público Federal (MPF) de Roraima.

Foto de perfil de Cataratas em rede social mostra o empresário ao lado do ex-presidente Jair Bolsonaro

Ele detalha que a atuação da família Martins de Mello na exploração da terra Yanomami levou não apenas à destruição de grandes partes da floresta, mas também à deterioração da vida e da saúde dos indígenas. Aquelas cenas que o mundo todo acompanhou na TV, de crianças desnutridas sendo hospitalizadas em situação de emergência circularam pelo mundo. Este foi o fruto mais visível do garimpo ilegal, que inclui corrupção, aliciamento de indígenas, violação sexual de adolescentes e mulheres e a transmissão de doenças. Na época, reportagem do site Sumaúma mostrou que 570 crianças indígenas morreram por doenças evitáveis entre 2018 e 2022.

“O garimpo alcança pontos mais distantes do território, nessas comunidades ainda mais sensíveis, mais desprotegidas, de recente contato, mais vulneráveis do ponto de vista epidemiológico, e toma conta do território muito rápido”, explica Marugal. Para a exploração de cassiterita, na qual se especializaram os Martins de Mello, o garimpo desvia água dos rios e destroi suas encostas. “O garimpeiro, quando chega na terra indígena, paga para deixar que eles instalem o garimpo. E aí vem uma dependência também dos indígenas, que passam a trabalhar nos garimpos de cassiterita e deixam de cultivar a sua roça’’, diz.

“Destruíram todos os rios, corromperam os indígenas, fecharam postos de saúde. A situação de segurança pública se deteriora rapidamente, os profissionais de saúde não vão mais às comunidades. As crianças começam a ficar doentes… foi o caos nesse período entre 2021 e 2022”, lembra o procurador.

Atualmente, o MPF em Roraima investiga um potencial genocídio do povo indígena Yanomami a partir da invasão deliberada de suas terras e a ação do garimpo entre 2021 e 2022. Ao menos 23 aeronaves foram empregadas no esquema de extração ilegal de ouro e cassiterita no território.

Meses antes de ser condenado, Rodrigo Cataratas, que chegou a anunciar que concorreria ao Senado (PRD-RR), mudou-se para a Guiana, onde segue operando no garimpo. Na época, ele pagou um publieditorial no jornal Folha de Boa Vista anunciando que, “com coragem e ação”, estava levando sua retroescavadeira para o país vizinho. Segundo a Repórter Brasil, ele chegou a anunciar um projeto em parceria com o país, com investimento de 10 milhões de dólares, levando a um alerta da organização local Rede Anticorrupção na Guiana. Seu Instagram tem como foto de perfil uma imagem abraçado a Jair Bolsonaro com a mensagem “anistia já”. 

Apagando os rastros

Tanto Alexandre Ramagem quanto Rodrigo Martins de Mello admitem que se conhecem. Eles estiveram juntos em 31 de março de 2025, ocasião em que Cataratas postou uma imagem nas redes: “Tive a honra de receber em Boa Vista o deputado federal Alexandre Ramagem, grande aliado do presidente Jair Bolsonaro e defensor incansável da liberdade e da soberania nacional”, escreveu Cataratas.

Post de 31 de março de 2025 em que Cataratas (à direita) celebra encontro com Ramagem em Boa Vista

Ele negou, entretanto, que a família tenha auxiliado na fuga. “Nos últimos dias, meu nome apareceu ligado ao caso do deputado Alexandre Ramagem”, escreveu em novembro do ano passado nas redes sociais, atribuindo a notícia à “perseguição” à direita. “Quando o Ramagem esteve comigo, ele não tinha qualquer condenação ou impedimento legal que o proibisse de sair do Brasil.”

Por sua vez, em vídeo postado no Instagram depois da prisão de Celso por facilitar a fuga, Ramagem afirmou que não conhecia “uma tal de” Priscila e nem Celso. “Prenderam um jovem, um rapaz, que só me conheceu quando eu já estava nos EUA. Eu não conhecia no Brasil. Inclusive esse rapaz é americano”.

Uma foto obtida pela Pública, que segundo investigadores estava no celular da Priscila, desmente a versão de Ramagem sobre não conhecer os familiares de Rodrigo Cataratas. Trata-se de uma imagem sua, sorridente, em um prédio público na Guiana em 10 de setembro de 2025, provavelmente em um posto de imigração. A foto foi tirada um dia depois de Ramagem chegar à Guiana e um dia antes de partir para os EUA, e segundo a PF teria sido tirada por Rodrigo Cataratas.

Celso de Mello tem cidadania dos Estados Unidos e tem, inclusive, registro de eleitor. Por conta disso, a família “notificou” o consulado dos EUA, segundo Rodrigo publicou em suas redes.

Foto de Ramagem que, segundo os investigadores, estava no celular da filha de Cataratas

Ramagem e sua família tiveram que sair às pressas do apartamento de luxo da família de Cataratas em Miami no final de novembro de 2025. No dia 19 daquele mês, Rebeca e Alexandre foram flagrados pela coluna do jornalista Guilherme Amado caminhando tranquilamente no condomínio sob o sol da Flórida, trajando roupas esportivas.

Foto publicada no site PlatôBR mostra Ramagem, foragido, e sua mulher Rebeca no condomínio em Miami

Dois dias depois, em 21 de novembro, Priscila teria enviado uma nova mensagem à gerente do La Sole Mia, desta vez tentando dissociar o nome do seu marido da família Ramagem. A anotação sobre a carta foi encontrada no bloco de notas do celular de Priscila.

“No meu apartamento localizado no Sole Mia, tem atualmente um visitante, Sr Alexandre Ramagem. No entanto, eu descobri através da imprensa que este indivíduo não tem permissão de deixar o Brasil por causa de questões judiciais. Não consegui contato com ele para pedir que ele saia do apartamento. Portanto, para evitar quaisquer problemas para o condomínio ou para mim mesmo, eu peço que o Condomínio notifique-o IMEDIATAMENTE da minha determinação de que ele deixe minha propriedade. Sinceramente, Rodrigo Martins de Mello”.

Desta vez, a carta foi assinada pelo próprio Rodrigo. As duas comunicações ao Sole Mia, contraditórias entre si, revelam um cuidado de Rodrigo Cataratas em relação ao condomínio e às autoridades norte-americanas. Afinal, pelos diálogos fica claro que seu filho Celso tinha acesso direto à Ramagem.

Para a PF, Rodrigo e Priscila redigiram o texto após a imprensa nacional vincular o seu apartamento à fuga de Ramagem como medida de precaução.

A vida da família de Cataratas na Flórida

Conforme apurou a Agência Pública, a família de Rodrigo Martins de Mello está frequentemente na Flórida.

Na época em que Alexandre Ramagem chegou nos Estados Unidos, seu filho Celso e a esposa Mariana Poerschke de Mello estavam morando em Coral Bay, subúrbio a menos de uma hora de Miami. A mulher, que é influenciadora digital, chegou a promover eventos de consultoria em marketing nos EUA e conquistou o status de cidadã legal em fevereiro de 2025. 

A realidade mudou no final de 2025 – depois do apoio aos Ramagem. Em novembro, Rodrigo Cataratas anunciou que seu filho estava de volta ao Brasil. No mês seguinte, em 15 de dezembro, Celso foi preso em Manaus por facilitar a fuga do ex-diretor da Abin. Questionado, o STF não pode compartilhar informações sobre o pedido de prisão e o andamento das investigações, pois o inquérito está em sigilo.

Poucos dias antes, Mariana já havia anunciado a seus seguidores que a família estava se mudando de volta para o Brasil em uma publicação em parceria com uma consultoria de transporte internacional de animais de estimação, responsável pelo transporte do cachorro do casal, um pit bull caramelo, à Boa Vista.

Post da mulher de Celso, em dezembro, anuncia transporte do cachorro dos EUA para o Brasil

Até meados deste ano, no entanto, ficaram entre Miami e Boa Vista, segundo apurou a Pública. A casa em que ambos moravam foi vendida por 519 mil dólares em maio (aproximadamente R$ 2,6 milhões na cotação da época), segundo classificados de imóveis.

Hoje grávida do segundo filho, a influenciadora vive em uma mansão recém-reformada em Boa Vista enquanto o marido cumpre medidas cautelares – nas postagens no Instagram é possível ver fotos de Celso usando uma tornozeleira eletrônica.

Durante chá revelação da gravidez de sua esposa em Boa Vista, Celso de Mello aparece com tornozeleira eletrônica

Nos EUA, Ramagem segue fazendo política com Bolsonaros

Mais do que fugir da lei brasileira, a ida de Alexandre Ramagem aos EUA representa a continuidade de seus atos contra a democracia do Brasil.

Condenado a 16 anos de prisão por tentativa de golpe de Estado, o ex-diretor da Abin segue disseminando desinformação sobre as eleições e ataques a instituições brasileiras do território americano.

Desde dezembro do ano passado, ele apresenta o programa Conversa TimeLine ao lado do também foragido Allan dos Santos. Nele, frequentemente Ramagem nega que tenha havido tentativa de golpe de estado no Brasil e afirma que o país vive em uma “ditadura da toga”.

A ofensiva não se limita a publicações nas redes sociais. Desde que chegou aos EUA, em setembro de 2025, Ramagem já se encontrou ao menos quatro vezes com Eduardo Bolsonaro e Paulo Figueiredo, neto do ditador João Figueiredo e ex-apresentador da Jovem Pan que tem liderado ao lado de Eduardo Bolsonaro o lobby por retaliações da Casa Branca contra o Brasil.

Em março, ele participou de evento fechado organizado pela think tank de extrema direita Heritage Foundation. O Miami Security Forum contou com a presença de políticos republicanos como a deputada Maria Elvira Salazar, aliada de Figueiredo e Eduardo – Figueiredo chegou a fazer doação para sua campanha, segundo revelou a Pública.

Na ocasião, o empresário participou de uma mesa intitulada “Realinhamento político das Américas: implicações para o futuro da segurança hemisférica”, ao lado de congressistas do Chile, Colômbia e Honduras. “Falamos de PCC, CV, narcoterrorismo e até Foro de São Paulo”, revelou em post no X. O evento influenciou a política externa de Donald Trump para países latino-americanos que levou à inclusão das facções brasileiras no rol de organizações terroristas.

No mesmo mês, Ramagem e Allan fizeram uma cobertura ao vivo do CPAC, sigla em inglês para Conferência de Ação Política Conservadora, evento que reuniu líderes da extrema direita mundial em Dallas, no Texas. O cadastro garantiu acesso dos influenciadores a palestrantes e organizadores do evento, entre eles o Eduardo Bolsonaro e o candidato à presidência Flávio Bolsonaro.

Em abril, depois de ser detido pelo ICE, serviço de imigração dos Estados Unidos, Alexandre Ramagem recebeu mais uma visita de Eduardo Bolsonaro em Miami. A detenção de Ramagem, que durou dois dias, foi motivada por uma infração de trânsito e foi revertida com ajuda direta da Casa Branca.

Depois disso, Rebeca Ramagem foi anunciada como candidata a deputada federal pelo PL no Rio de Janeiro. Sua campanha tem como mote a anistia aos condenados pela tentativa de golpe de estado de 8 de janeiro, em especial, seu marido. No lançamento da candidatura de Flávio Bolsonaro à Presidência, na praia de Copacabana, a candidata enviou totens de papelão dela e do marido em tamanho real – exibidos pela esposa de Flávio Bolsonaro – e fez camisetas estampadas com a frase “Tragam a família Ramagem de volta, façam Justiça”, exibida pelo próprio candidato à Presidência.

Flávio Bolsonaro mostra camiseta com a estampa "Tragam a família Ramagem de volta, façam justiça!"
Flávio Bolsonaro mostra camiseta com a estampa “Tragam a família Ramagem de volta, façam justiça!”
Mulher de Flávio Bolsonaro posa com totens da candidata Rebeca Ramagem e do marido
Mulher de Flávio Bolsonaro posa com totens da candidata Rebeca Ramagem e do marido

A campanha, que recebeu R$ 1,5 milhão do fundo partidário do PL, usou recursos para contratar associados de Alexandre Ramagem, entre eles ex-funcionários de seu gabinete na Câmara dos Deputados que foram desligados após a cassação de seu mandato, e a irmã do influenciador Allan dos Santos, seu parceiro de bancada no canal Revista TimeLine.

  •  

Nossa Senhora Aparecida vira evento eleitoral e aprofunda crise entre ministros do STF

Nossa Senhora Aparecida se transformou em um dos maiores eventos políticos de 2026, com 1,3 milhão de publicações e 12,4 milhões de interações entre 23 e 27 de setembro, ou seja, na penúltima semana antes do primeiro turno das eleições. A informação é do monitoramento realizado nas redes sociais neste período pelo Instituto Democracia em Xeque (IDX).

Não foi sem razão, portanto, que a campanha do senador e candidato à Presidência, Flávio Bolsonaro (PL-RJ) acionou, já na sexta-feira, 25 de setembro, o Tribunal Superior Eleitoral (TSE) tendo como o alvo a publicação do humorista Antonio Tabet.

A alegação dos advogados de Flávio era que se tratava de desinformação, uma mentira, afirmar que ele apoiava a retirada do título de “padroeira do Brasil” da santa. De fato, o post de Tabet ocorreu em meio a uma onda de desinformação sobre a relação do senador com um Projeto de Lei apresentado pelo então deputado Professor Victório Galli (PP-MT), pastor evangélico e arquivado em 2008. A proposta alterava a lei do feriado de 12 de outubro, trocando “padroeira do Brasil” por “padroeira dos brasileiros católicos apostólicos romanos”, conforme a Agência Pública mostrou.

Flávio Bolsonaro batizado no rio Jordão, em Israel, numa repetição de ato feito pelo pai em 2016
Flávio Bolsonaro batizado no rio Jordão, em Israel, numa repetição de ato feito pelo pai em 2016

O que o relatório do IDX mostra, entretanto, é que o debate sobre o assunto nas redes sociais ultrapassou rapidamente a “fake news” e se desenvolveu no embate político sobre liberdade religiosa, intolerância, defesa da padroeira e impacto eleitoral.

“A maior parte da conversação está em torno do debate cultural, religioso, judicialização, liberdade de expressão e defesa da padroeira, com 83% do universo analisado. Somente 17% do universo mencionam a acusação que originou a controvérsia”, afirma o relatório do Instituto.

A própria publicação de Antonio Tabet não faz relação direta ao projeto de lei. Trata-se de uma imagem da santa com a frase: “A família miliciana odeia tanto mulher preta, que resolveu atacar Nossa Senhora Aparecida!”.

Dino versus Mendonça

O tangenciamento entre o que é desinformação e o que acabou se tornando debate político, gerou uma nova batalha de decisões entre ministros de dois tribunais superiores, que deve ser levada ao plenário do Supremo Tribunal Federal (STF).

No domingo, 27 de setembro, o ministro do STF Flávio Dino suspendeu as decisões do colega André Mendonça da última sexta-feira, 25, que determinava às redes sociais como X (antigo Twitter), Facebook, Instagram, TikTok e YouTube a retirada de postagem de Tabet e de outras contas nas redes sociais. Uma das decisões de Mendonça relaciona mais de mil links de publicações sobre o mesmo tema que deveriam ser retiradas pelas empresas responsáveis pelas mídias sociais.

Mendonça também afirmou na decisão, como atual vice-presidente do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), que as redes sociais “atuem preventivamente contra a disseminação dos conteúdos abrangidos por esta decisão”. A decisão do ministro, derrubada por Dino, ainda fixa uma multa diária de R$ 50 mil ao provedor que não cumprir a medida.

Entre as justificativas do ministro Flávio Dino para anular as decisões de Mendonça está o risco de “censura em massa”, diante da “‘derrubada’ de milhares de postagens, inclusive de adeptos do culto à Nossa Senhora Aparecida”. Além disso, Dino afirma que o TSE “delegou largos poderes censórios às empresas de internet”, e que é necessário um “debate sobre o controle de constitucionalidade de decisões monocráticas de um ilustre ministro que faz parte de um Tribunal Superior”.

O ministro ainda salienta no documento a importância de valores como a liberdade religiosa, “já que o tema de fundo em discussão pública refere-se à determinação legal de ser Nossa Senhora Aparecida a ‘Padroeira do Brasil’”. Na mesma decisão, Dino solicita a análise da questão pelo plenário do Supremo.

Com a suspensão da derrubada de seu posicionamento, Tabet, também no domingo, publicou novamente a foto da santa com a mesma frase. O humorista ainda escreveu na rede social X: “Flavio Dino acabou de derrubar a decisão de André Mendonça, ‘preservando a liberdade de expressão e a liberdade religiosa’ dos que defendem Nossa Senhora Aparecida. Como será impossível restabelecer a postagem que foi apagada, vou publicá-la novamente. E conto com vocês para fazê-la chegar mais uma vez a todos que a viram e aos que não puderam vê-la”.

Nesta segunda-feira, 28 de setembro, a defesa de Flávio Bolsonaro solicitou ao ministro Luiz Fux que suspenda a decisão que liberou o post de Antonio Tabet e de outras contas nas redes sociais. A tese defendida agora pelos advogados de Flávio é que o combate à desinformação eleitoral cabe apenas ao TSE, e não ao STF.

As divergências mostram como as decisões dos ministros nos dois tribunais superiores influenciam e estão influenciadas pela disputa eleitoral. O presidente do STF, ministro Edson Fachin, aceitou reunir-se com o presidente do TSE, ministro Nunes Marques, com o vice do tribunal eleitoral, André Mendonça, e com o ministro Dias Toffoli, que também faz parte das duas cortes, também nesta segunda-feira, após a publicação da decisão de Flávio Dino.

Segundo o blog do Oswaldo Cruz, no G1, os ministros estariam levando ao presidente Fachin o descontentamento por uma suposta tentativa dos outros membros da Corte, como Gilmar Mendes, Flávio Dino e Alexandre de Moraes, de levar a crise do STF para o TSE. Eles criticam uma postagem feita pelo ministro decano Gilmar Mendes de 19 de setembro, nas redes sociais, onde afirmou que o Tribunal Superior Eleitoral deve se comprometer com “uma atuação apartidária e fiel à Constituição”.

Tanto Nunes Marques quanto André Mendonça foram indicados pelo ex-presidente Jair Bolsonaro, pai de Flávio. Já Flávio Dino foi indicado pelo presidente Lula e tem se manifestado no STF em concordância com Gilmar Mendes, indicado por Fernando Henrique Cardoso, e Alexandre de Moraes, indicado por Michel Temer.

O ministro Flávio Dino reafirmou em documento à determinação legal de ser Nossa Senhora Aparecida a ‘Padroeira do Brasil’

O que não é “fake news”

Um possível ataque por políticos evangélicos à Nossa Senhora Aparecida não é um tema recente na política brasileira. O boato de que Jair Bolsonaro, caso ganhasse as eleições, tiraria o título de “padroeira do Brasil” também circulou nas eleições de 2022.

A resposta do senador Flávio Bolsonaro à desinformação neste pleito, afirmando que se tratava de uma ação orquestrada entre a campanha do adversário Lula e a Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB), entretanto, não agradou a entidade que respondeu. “A Conferência repudia a produção e a utilização de informações falsas, independentemente de sua origem ou de quem possam beneficiar ou prejudicar”, afirma uma nota de esclarecimento publicada no site da CNBB.

A jornalista Daniela Lima, do Uol, apurou que os ataques à Nossa Senhora são monitorados pela Igreja Católica há cerca de sete anos, junto com o aumento da intolerância religiosa que inclui também ataques a templos, inclusive de religiões afro-brasileiras, católicos e judeus. Ela cita um vídeo publicado em agosto deste ano pelo candidato do PL em que, ao explicar por que não pretendia participar de debates sem a presença de Lula, afirma: “quero debater com quem não acredita em Deus, porque, quando eu for presidente, um dos meus primeiros atos será decretar que o Brasil é do Senhor Jesus Cristo”.

A frase dita por Flávio aparece no monitoramento das redes sociais. Segundo o relatório, “no recorte temático, conteúdos sobre ‘retirada do título e eleição’ somam 108.563 resultados, enquanto ‘PL 2.623, Galli e Bolsonaros’ reúne 73.622.” Em sua análise, o IDX que “registros históricos de ataques à imagem de Nossa Senhora e manifestações de lideranças evangélicas” foram utilizados pelo campo progressista “para sustentar que a discussão religiosa possuía antecedentes”.

  •  

De apostas, predições e eleições

Quer receber os textos desta coluna em primeira mão no seu e-mail? Assine a newsletter Xeque na Democracia, enviada toda segunda-feira, 12h. Para receber as próximas edições, inscreva-se aqui.

A seis dias da eleição, tudo o que queremos é saber: quem vai ganhar? A urgência de adiantar o futuro, ou tentar mudar um futuro que nos parece imutável, é o que faz com que nós, pobres humanos, busquemos os oráculos, as adivinhações e as apostas. 

Foi a vontade de sair do buraco que levou milhões de brasileiras e brasileiros ao vício em apostas online, as bets, que sempre tiveram uma vantagem enorme sobre outros tipos, inclusive ilegais, como o Jogo do Bicho, porque aprenderam com as Big Techs a navegarem em um ambiente onde já estamos viciados à tela. Neste contexto, fazer um design para viciar pessoas em jogos online é fácil e, como demonstrou nossa investigação, extremamente barato, menos de mil reais. O resultado, sabemos: uma nação viciada em jogos, ludopatia levando pessoas desesperadas ao SUS e ao suicídio, e uma fuga de 140 bilhões da economia brasileira. 

Pois isso tudo acabou na última sexta-feira, com uma canetada do presidente Lula. Ou melhor: é o começo do fim. 

São Paulo (SP), 25/09/2026 - O presidente Luiz Inácio Lula da Silva participa da apresentação de novas medidas de proteção às famílias e à economia popular, como o fim das bets.
O presidente Luiz Inácio Lula da Silva durante apresentação de novas medidas de proteção às famílias e à economia popular, como o fim das bets

Não há nenhuma dúvida de que Lula fez isso de olho nas eleições; seu objetivo era claramente se colocar como aquele que acabou com as bets. Mas a Medida Provisória terá efeito para muito além do resultado eleitoral. Vai abrir um embate legal mais profundo – as bets vão recorrer à Justiça, o Congresso vai tentar derrubar – e, com isso, a sociedade será chamada a opinar, se mobilizar, a se mostrar de que lado está. 

Para fazer do seu ato algo permanente, Lula tem ao seu lado pesquisas que apontam que 75% dos brasileiros apoiam a proibição. Se outras pesquisas mostram que maioria diz que não vai mudar de voto por causa deste tema, isso é um problema menor. Em 5 de outubro, as malditas propagandas do tigrinho vão desaparecer das redes sociais, dos sites de notícias e dos programas esportivos da TV. Os aplicativos vão sumir das lojas de APPs; a poluição mental vai diminuir. Afinal, acessar os jogos ilegais tem um custo e uma fricção muito maior. 

Poderemos escutar o silêncio. 

Raramente dá pra dizer que uma investigação jornalística tem um impacto tão direto numa decisão do governo federal. Mas desta vez, podemos dizer com orgulho: foi a nossa cobertura que tornou o tema relevante a ponto de convencer o presidente da República. 

Desde 2025, preparamos com nossos repórteres uma grande investigação sobre o mercado de apostas online, em meio à epidemia de ludopatia. Para isso, fizemos uma campanha de arrecadação junto ao nosso público, e nos dedicamos a levantar histórias, documentos e dados sobre quem estava lucrando – inclusive os políticos que faziam lobby no Congresso – e quem eram as vítimas dessa realidade. Lançamos o especial “Jogo perigoso: O Brasil das Bets”, em junho deste ano. 

Dentre os muitos documentos analisados pela nossa equipe, os jornalistas Thiago Domenici e Ed Wanderley encontraram uma carta de Vania Souza Borges, que perdeu o filho Rafael por causa de dívidas com as bets. A carta da professora de Uberlândia havia sido ignorada pela CPI das Bets – que terminou sem indiciar ninguém – mas Vânia abriu o coração aos nossos repórteres e comparou, pela primeira vez, as bets com traficantes de drogas. 

A história viralizou, e, em setembro, Vânia foi convidada para conhecer o presidente Lula. A ele, ela fez um pedido direto: “proíba as bets”. O pedido desta mãe, órfã de seu filho, foi hoje atendido pelo presidente da República.

Quando nenhum veículo dedica esforço e investimento para investigar a fundo o mundo das bets, nosso especial “Jogo perigoso: O Brasil das Bets” fez a diferença. 

Lula usou a comparação com vício em crack e lembrou da Vânia ao assinar a Medida Provisória. Compartilho aqui o agradecimento dessa mãe ao nosso trabalho. “Obrigada, Thiago! Devo muito à @agenciapublica toda a repercussão da minha triste história”.

Mas, enquanto podemos celebrar o fim das apostas, quero lembrar que, depois das bets, vêm os sites de apostas preditivas. Graças à coalizão LIE – Laboratórios de Investigação Eleitoral, uma parceria da Pública com Aos Fatos, Amado Mundo e Núcleo, conseguimos mapear páginas da Polymarket em redes sociais postando loucamente sobre as eleições brasileiras, mesmo sendo a atividade proibida no Brasil. 

Se você não lembra o que é aposta preditiva: sites como Polymarket e Kalchi permitem que qualquer usuário crie uma aposta, e outros usuários podem apostar dinheiro. Só que pode-se apostar em qualquer coisa, inclusive em resultados eleitorais e bombardeios durante uma guerra. 

Um dos efeitos deletérios desta prática ficou bem clara nesta eleição, como mostrou reportagem colaborativa feita pela coalizão LIE. Os resultados das apostas feitas no Polymarket, assim que Flávio Bolsonaro ganhou a dianteira nas apostas, passaram a ser repostados por uma série de influenciadores em posts pagos como evidência concreta. Como se fossem um resultado científico. Até o Flávio postou. E o próprio Elon Musk comentou em uma dessas postagens, ampliando seu alcance. 

Como mostrou a reportagem assinada por Jennifer Mendonça, do Núcleo, a legislação eleitoral proíbe que candidatos postem dados de pesquisas falsas. Depois das reportagens, a AGU pediu investigação contra a Polymarket, que já tinha até contratado representantes oficiais no Brasil para fazer seu lobby.

Tomara que, com o fim das bets, o site – que tem Donald Trump Jr como seu consultor – desista de fazer seu lobby aqui no Brasil.  

Mas, se é o fim das predições ou apostas online, não é o fim da nossa ansiedade em saber o que vai acontecer, afinal, quando nós formos às urnas no próximo domingo. Todas as pesquisas demonstram uma proximidade maior do que em eleições anteriores – e a de 2022 já foi tremendamente apertada. Talvez a solução seja não apostar em oráculos. Sabemos que boa parte das pessoas só pensam na eleição na sua véspera. Hora de falar com vizinhos, amigos, parentes, e explicar que estamos, mais uma vez, diante do autoritarismo e do caos, e essa pode ser a eleição que define nosso futuro como país. 

Os números e as estrelas dizem: nada está decidido, ainda.

Para ajudar nosso público a entender o que predizem as pesquisas eleitorais, vamos trazer uma convidada especial para nosso programa Quase Terça, nossa live semanal que analisa os fatos mais relevantes da semana. 

Hoje, vamos entrevistar Luciana Chong, diretora do Datafolha, que vai nos ensinar a ler os dados das diversas pesquisas que têm pipocado por aí. Além dela, a Vania Souza Borges, que pediu pessoalmente a proibição das bets ao presidente Lula, vai estar conosco para refletir sobre essa grande vitória para ela e para familiares de vítimas como ela.   

O programa vai ao hoje, a partir das 17h30, no Canal da Pública no YouTube, e na terça vira podcast no Spotify. Segue o link para acompanhar, ative o sininho e receba notificação. Vejo vocês por lá!  

  •  
❌