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Desviar os olhos do mundo não é uma opção

“Here I Stand” é o título da exposição que abre ao público a 24 de outubro, em plena celebração do 3.º aniversário do MAC/CCB, em Lisboa. Um título que é um statement e um passaporte para nos adentrarmos no trabalho de Ângela Ferreira, uma das mais importantes artistas portuguesas contemporâneas e uma das que, em Portugal, primeiro levantou questões pertinentes sobre a condição colonial, pós-colonial e neocolonial no início da década de 1990.

Mas já lá vamos. Pois importa fazer um parêntesis para dizer que o título desta exposição também poderia servir para nomear a trajetória do MAC/CCB nestes três anos: ler o mundo sem desviar o olhar. Sem fazer concessões, trazendo para dentro do museu ‘olhos múltiplos’ e até ‘nuvens de confusão’ para aclarar realidades, anseios, demandas, utopias, singularidades que ajudem os públicos – sim, são diversos, e não uma mole humana uniforme – a descodificar a complexidade do mundo.

E aqui entra em cena Ângela Ferreira, mulher feita de geografias porosas, que carrega em si universos culturais, sociológicos e políticos, claro, de quem nasceu na então Lourenço Marques, em 1958. E que ainda em criança, aos 9 anos, se mudou, com a família, para a África do Sul. O labor do pai, que trabalhava numa multinacional, implicava uma certa itinerância. Na adolescência, a jovem Ângela veio passar uma temporada a Portugal. Vibrou com o 25 de Abril, “ainda que só tivesse uns 14 anos”, e depois regressou à África do Sul, onde viveu a primeira parte da sua vida adulta. Aqui se formou em Belas-Artes na Michaelis School of Fine Arts, na Universidade da Cidade do Cabo, e aqui começou a desenhar-se o que a artista apelida de “identidade híbrida”, i.e., a sua condição de outsider e insider que agrega a voz do eu e a voz do Outro, europeu e africano. E o seu olhar crítico face a Moçambique, África do Sul e Portugal.

Uma exposição “ruidosa”

A artista escolheu desmantelar a amnésia histrórica e o silêncio associados à descolonização. Ponto de partida? A investigação que desenvolve em torno das marcas do colonialismo e do apartheid nas paisagens urbanas, nos edifícios e nas memórias coletivas. Para depois criar instalações e esculturas que confrontam a herança colonial com o presente. Para contrariar o silêncio. Por isso esta exposição é “ruidosa”, como Ângela Ferreira fez questão de sublinhar durante a visita de imprensa.

Sem seguir uma cronologia, sem ser uma exposição antológica, “Here I Stand” abarca desde os seus primeiros trabalhos, na década de 1990, a criações mais recentes, que nos dão conta da relação entre estruturas arquitetónicas, modos de vida e relações de poder. O que a artista faz é explorar o valor das coisas e a possibilidade de compreender a sociedade através da sua produção material e simbólica.

As tensões são constantes. Entre tradição e desenvolvimento, entre produção artesanal e industrial, entre “poder que ajuda mas que também discrimina” – como a série de fotografias “Sites and Services” (1991–1992), cujo título remete para uma política de planeamento urbano do regime do apartheid, que disponibilizava infraestruturas básicas (lotes, vias públicas, saneamento e pontos de água) para que os próprios residentes erguessem as suas casas. Embora visasse responder à urbanização acelerada, funcionava, acima de tudo, como um instrumento político de controlo e segregação dos townships.

Mais uma vez, é a sua “identidade híbrida”, enquanto africana de origem europeia que viveu o colonialismo em Moçambique e o apartheid na África do Sul, e testemunha dos impactos causados por ambos os regimes, que a move em “The Portuguese Tendency to Forget” (2015). Nesta obra expõe aquilo que considera terem sido atos desrespeitosos contra os macondes cometidos pelo casal de antropólogos Jorge e Margot Dias – cuja investigação sobre o povo maconde, de Moçambique, lhes trouxe reconhecimento internacional nas décadas de 1960 e 1970 –, nomeadamente a captação de imagens da intimidade das pessoas que compunham esta comunidade, sem a sua autorização. Assim como a intenção dúplice de estudar e, ao mesmo tempo, vigiar essa mesma comunidade, como os testemunhos em “Adventures in Mozambique” ilustram.

Quatro salas, 25 obras. O que nos dizem? Que a descolonização consiste não apenas na revisão do passado, mas também na transformação do modo como esse passado determina a nossa compreensão do presente.

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MAC/CCB celebra 3 anos com 3 dias de festa

De 23 a 25 de outubro é tempo de celebrar o 3.º aniversário do Museu de Arte Contemporânea do Centro Cultural de Belém (MAC/CCB), em Lisboa. A entrada é livre e o leque de propostas não podia ser mais eclético.

Ângela Ferreira, artista visual reconhecida internacionalmente pelo seu trabalho na interseção das artes plásticas, arquitetura e história colonial, traz ao museu a exposição “Here I Stand”, que transborda até à praça do CCB com uma obra de grande dimensão, Zip Zap Circus School, que será ativada pela Escola de Circo do Chapitô, sexta-feira 23, a partir das 19h30.

Antes disso, às 18h00, a artista estará à conversa com a curadora e diretora artística do MAC/CCB, Nuria Enguita. Oportunidade para conhecer melhor o percurso e a obra de uma das mais importantes artistas portuguesas contemporâneas.

O serão de sexta-feira completa-se com o DJ set de Party Smith, e, no sábado, terá lugar o primeiro concerto do “Ciclo de Música Discreta”, que organiza oito artistas em duplas para criarem ambientes únicos inspirados nas obras e no espaço onde estão expostas. Nkisi, DJ, produtora e artista visual nascida no Congo e criada na Bélgica, junta-se a Gonçalo F. Cardoso, músico itinerante e artista sonoro, para darem corpo a um site-specific sonoro.

As conversas também estarão em destaque nestes três dias de festa. Sábado, 24 de outubro, às 15h00, a curadora Marta Mestre, o Colectivo FACA (Andreia Coutinho e Maribel Mendes Sobreira) e Ícaro Lira, vão dar pistas sobre o universo de trabalho e prática artística de Frida Orupabo, no contexto da exposição “Cloud Of Confusion”, a primeira individual da artista em Portugal, e que pode ser vista no MAC/CCB até dia 1 de novembro.

E visitas guiadas, claro. Serão várias (11:30, 12:00, 12:30, 14:30, 17:00 e 17:30) nos dias 24 e 25. Uma proposta da equipa de Educação e Mediação para os visitantes descobrirem, em 30 minutos, diversas coleções do museu. A par das atividades em família, com epicentro na Sala Lúdica. E da apresentação dos mais recentes catálogos dedicados às exposições “Terra Crua”, “Olhos Múltiplos”, “Cloud of Confusion” e “May I Help You? Posso Ajudar?” Artes e Artistas da década de 1970 em diante.

E ainda uma palestra de António Guerreiro, com apresentação da diretora artística do MAC/CCB, Nuria Enguita. O que pode a crítica iluminar sobre as dúvidas que nos assaltam? No encerramento do 3.º aniversário do MAC/CCB, às 17h00, o repto lançado a António Guerreiro é esclarecer o público sobre a dimensão crítica da arte face ao conformismo temático.

Veja aqui o programa completo do 2.º aniversário do MAC/CCB.

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