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Habitação: Centenas de pessoas da área da Cultura repudiam violência em carta aberta

21 October 2026 at 17:42

Quase 900 pessoas, maioritariamente trabalhadores da Cultura, repudiam, numa carta aberta hoje divulgada, “a violência vivida no Porto e em Lisboa”, nos protestos pelo direito à habitação, considerando que “coloca em causa o direito constitucional à manifestação”.

A carta aberta “Cultura pelo Direito à Habitação”, a que a Lusa teve, esta quarta-feira, acesso, lançada na terça-feira, contava pelas 16:00 de hoje com 891 assinaturas.

O documento conta, entre os primeiros subscritores, com músicos como Salvador Sobral, Dino D’Santiago, Manuela Azevedo (Clã), Luca Argel, Filipe Melo, A Garota Não, Mário Laginha, Cristina Branco e Capicua, atores como Gonçalo Waddington, Beatriz Batarda, Ana Brandão e Isabel Zuaa, o escritor Valter Hugo Mãe, o realizador Miguel Gonçalves Mendes, os encenadores Pedro Penim (diretor do Teatro Nacional D.Maria II) e Tiago Rodrigues (diretor do festival de teatro d’Avignon, em França), a coreógrafa e bailarina Olga Roriz, a presidente da Fundação José Saramago, Pílar del Rio, o designer José António Tenente e a artista visual Kruella D’Enfer.

Os subscritores da carta “repudiam a violência vivida no Porto e também em Lisboa, que coloca em causa o direito constitucional à manifestação”, e “solidarizam-se com a iniciativa e com as exigências de todas as pessoas que se manifestam por uma política de habitação que permita fazer cumprir a Constituição, garantindo a todos os cidadãos que vivem em Portugal condições para ter uma habitação e vida dignas”.

No início da carta, recorda-se que “a Constituição da República Portuguesa define, no Artigo 65.º do capítulo II – Direitos e Deveres Sociais, que ‘todos têm direito, para si e para a sua família, a uma habitação de dimensão adequada, em condições de higiene e conforto e que preserve a intimidade pessoal e a privacidade familiar’, e incumbe ao Estado o dever de assegurar as condições necessárias de acesso a esse direito”.

Os subscritores defendem que “hoje, em pleno século XXI, o direito à habitação está longe de ser garantido”, referindo que “são inúmeras, demasiadas, as pessoas que não conseguem ter uma habitação condigna para viver: entregam grande parte dos seus rendimentos para conseguir manter uma casa, vivem sob ameaça de despejo, ou são forçadas a abandonar as suas casas e as suas comunidades”.

“Apesar de continuarmos a viver com um salário mínimo e médio dos mais baixos da União Europeia, Portugal regista a maior subida de preços da habitação na UE, com uma subida homóloga de 16,5% no segundo trimestre de 2026 (números do Eurostat), alcançando um máximo histórico em Setembro de 2026. A reforma à lei do arrendamento de 2026 fragiliza ainda mais o acesso à habitação, aumenta a precariedade e acelera os despejos. Para quem trabalha na cultura, esta realidade também é evidente”, afirmam.

É neste contexto, recordam, que “cidadãos dos mais diversos contextos sociais, jovens e menos jovens, saem à rua, ocupam as praças, no pleno direito de se manifestarem até que sejam dadas respostas e soluções adequadas para um problema que é transversal a todas as gerações, e que impede que a vida seja vivida de forma plena”.

A carta estará, nos próximos dias, aberta a novas subscrições, através do seguinte link: https://docs.google.com/document/d/1Y2TBTbXQHpBgKbpBD5Neh-3MYcW3ik_-SeGMuNg2504/edit?usp=sharing.

Os atuais protestos pelo direito à habitação e o custo de vida em Portugal tiveram início na cidade do Porto, no dia 10, com cerca de 1.500 manifestantes a juntarem-se na Praça D. João I e a pernoitarem no local em tendas de campismo.

Nesse dia, a plataforma cívica “Não dá mais para viver assim” promoveu protestos também em Aveiro, Braga e Lisboa, reivindicando o controlo dos preços dos bens essenciais e dos combustíveis, impostos sobre os lucros extraordinários das grandes empresas do setor bancário, energético e da distribuição e medidas que respondam à crise na habitação.

No dia 15, o movimento que protestava no Porto, já no formato de uma acampada, denunciou uma carga policial violenta durante a madrugada que causou ferimentos em 39 dos participantes, dois dos quais ficaram em estado grave, e num polícia, e à noite cerca de três mil pessoas juntaram-se aos manifestantes iniciais, mas acabaram por dispersar.

Na terça-feira de madrugada, enquanto o protesto da cidade nortenha foi terminado perante os avisos de intervenção policial, as autoridades removeram dezenas de tendas na capital e detiveram 55 pessoas por desobediência, entretanto libertadas que serão ouvidas por um juiz no dia 27.

Concentrações pelo direito à habitação alargaram-se também a cidades como Coimbra, Évora, Faro e Leiria.

Projeto vencedor do Open Call MAAT + Atlético vai vestir o túnel da Tapadinha

21 October 2026 at 15:31

O MAAT – Museu de Arte, Arquitetura e Tecnologia e o Atlético Clube de Portugal – Futebol, SAD lançaram, em julho, uma Open Call em que desafiaram criadores a apresentarem propostas para a requalificação do túnel que conduz ao estádio do Atlético. Objetivo? Apoiar artistas emergentes e promover o diálogo entre arte contemporânea, comunidade e espaço público.

A proposta vencedora, hoje anunciada, tem a assinatura da artista visual Dora Moneti Faggin, e inspira-se na relação histórica entre Alcântara e o Atlético Clube de Portugal, explorando os conceitos de pertença, diversidade e encontro. Na génese desta criação esteve um processo de escuta junto de pessoas ligadas ao bairro e ao clube, agora plasmado numa “instalação têxtil composta por tiras de vários tipos de tecido acetinados e telas usadas em barcos bordados à mão sobre rede metálica”, que cria “uma composição marcada pela cor, movimento e sobreposição de diferentes identidades”, conforme detalhado em comunicado.

A obra, intitulada “Torcidas”, será instalada na primavera de 2027, transformando um dos espaços mais simbólicos da ligação entre o bairro de Alcântara e o histórico clube lisboeta. A artista brasileira, radicada em Lisboa desde 2018, criou uma instalação, com mais de 10 metros de comprimento, que irá ocupar o teto e a parte superior das paredes do túnel. A paleta parte do azul, do vermelho e do amarelo do Atlético, com laranjas, roxos e rosas criando transições. O trabalho manual, realizado tira a tira, evoca também o cuidado cotidiano das pessoas que sustentam a vida do clube.

Este projeto dá continuidade à pesquisa de Dora Moneti Faggin, que aqui retoma ideias exploradas em instalações têxteis e esculturas de grande escala, concebidas em diálogo com lugares marcados pela sua história e arquitetura, como nas intervenções que fez no Chipre e na Turquia.

Para João Pinharanda, diretor do MAAT, “a proposta da artista foi destacada pela sua radical originalidade.” E prossegue, explicando que “o título da obra, ‘Torcida’ – termo brasileiro que, embora não muito utilizado em Portugal, é perfeitamente entendido entre nós – justifica a imagem que nos é apresentada: uma enorme extensão de panejamentos coloridos e entrelaçados estende-se desde o interior do túnel central de acesso ao estádio dele saindo como uma torrente de água ou de fogo – ou como um grito de apoio dos adeptos.”

Já Gifford Miller, Presidente e Chairman do Atlético Clube de Portugal – Futebol, SAD, destaca o carácter surpresa e inspirador da intervenção de Dora Moneti Faggin, que acredita ter o poder de transformar “a forma como este espaço tão especial é vivido por sócios, adeptos e jogadores. Ao levar a sua obra para o universo do desporto, lembramo-nos de que a arte é de todos e para todos.” E conclui dizendo que está “ansioso por vê-la instalada já nesta primavera” no Tapadinha.

O júri distinguiu ainda com menções honrosas os projetos “A Nossa Casa”, da artista visual Inês Castelo Branco, uma proposta centrada na memória, na pertença e na relação entre o clube e o bairro, e “Atar”, de Joana Tomás – Muro Atelier, que parte do gesto de atar os atacadores para simbolizar os laços que unem o Atlético Clube de Portugal a Alcântara, às diferentes gerações que fazem parte da sua história e, claro, aos seus adeptos.

Esta iniciativa enquadra-se no âmbito do projeto MAAT + Atlético, que cruza cultura artística e cultura desportiva, e que conta, em diferentes espaços do Tapadinha, com instalações de Joana Vasconcelos, Vhils e Bela Silva.

Marcelino Sambé estreia-se como coreógrafo na CNB e sonha renovar dança clássica

20 October 2026 at 10:38

O bailarino Marcelino Sambé, estreia-se na quinta-feira como coreógrafo, na Companhia Nacional de Bailado (CNB), em Lisboa, com uma peça inspirada em Fernando Pessoa, e quer contribuir para renovar o bailado clássico, aproximando-o de novos públicos, sem perder a tradição.

Em “Eles, Invertidos”, uma das duas novas coreografias do espetáculo “Desassossego”, da CNB, o artista parte do universo introspetivo do “Livro do Desassossego”, de Bernardo Soares/Fernando Pessoa, para explorar o pensamento interior e as perguntas que atravessam a existência humana.

“Há uma beleza em tentar traduzir palavras em movimento”, disse Marcelino Sambé em entrevista à agência Lusa, entre ensaios, por telefone, a partir de Londres, onde é bailarino principal no Royal Ballet.

Com 13 bailarinos em palco, a peça – que marcará a primeira colaboração coreográfica de Sambé com a CNB – procura traduzir em movimento a dimensão interior através de uma espécie de inversão do ser humano, “como se fosse possível virar o corpo do avesso e observar cada um dos seus órgãos”, explicou.

No processo de criação, Sambé concluiu que a obra de Fernando Pessoa exigia ser profundamente sentida e refletida, por colocar questões como “quem somos, o que queremos fazer, de onde viemos, como vemos o mundo”.

“Quando comecei a pensar na forma como esta peça me fazia sentir, foi quase como uma inversão do ser humano, como virar do avesso o corpo e fazer uma inspeção por completo”, descreveu sobre o resultado coreográfico a partir da obra literária.

Questionado sobre o que espera da reação do público, o coreógrafo afirmou que não procurou antecipá-la, preferindo partir da sua própria experiência, da relação com os bailarinos e da música, sem determinar o que os espetadores devem sentir.

“Eu quero fazer algo que talvez faça com que o público levante questões, e que fique um pouco mais curioso”, afirmou, comparando a experiência desta criação à leitura do livro, que considera aberta à interpretação individual.

Publicado pela primeira vez em 1982, quase meio século após a morte de Fernando Pessoa (1888-1935), o “Livro do Desassossego” reúne reflexões sobre a consciência, a existência e a vida quotidiana em Lisboa, atribuídas em grande parte ao semi-heterónimo Bernardo Soares, ajudante de guarda-livros na Rua dos Douradores.

A estreia na CNB representa um novo passo no percurso artístico de Marcelino Sambé, bailarino principal do Royal Ballet, em Londres, onde ingressou em 2012 e foi promovido à categoria mais elevada da companhia em 2019.

Embora já tenha coreografado em Londres, sobretudo em projetos de menor dimensão, e trabalhado em direção de movimento para a moda, esta é a primeira vez que cria uma peça para a CNB e que desenvolve um trabalho desta natureza com uma companhia profissional de bailado, apontou à Lusa.

“É uma grande honra [coreografar para a CNB], e é mais um passo para o meu futuro numa área mais multidisciplinar”, afirmou, acrescentando que, apesar de o bailado clássico continuar a ser uma das suas prioridades, sempre se interessou pelo teatro, pela televisão, o cinema e as artes visuais.

A experiência como coreógrafo surge também num momento em que sente maior confiança para explorar outras linguagens, depois de interpretar recentemente um dos protagonistas de “Manon”, numa coreografia de Kenneth MacMillan, no Royal Ballet.

O contacto com artistas de diferentes áreas tem contribuído para o desenvolvimento da maturidade profissional e para a forma como pensa o futuro da dança, sublinhou o bailarino de 32 anos, nascido em Lisboa, de origem luso-guineense.

“Há um estigma muito grande em relação ao que um bailarino pode ou não pode fazer, porque nós passamos a vida no estúdio e somos sempre estudantes”, observou, defendendo que a formação e a dedicação exigidas pelo bailado clássico não devem impedir a experimentação artística.

Para Marcelino Sambé, a dança precisa de dialogar com as formas contemporâneas de pensar e com questões sociais atuais, de modo a encontrar novas linguagens e atrair públicos mais jovens.

“A dança não pode ser só condenada aos parâmetros que já foram feitos nos anos 1800. Nós temos de fazer ‘updates’ e encontrar novas formas de encontrar outros públicos e de cativar os jovens a dançar e virem ver dança”, sustentou o artista que passou pela Escola Artística de Dança do Conservatório Nacional e a Royal Ballet School.

O objetivo não passa, contudo, por abandonar a tradição, mas por descobrir novas possibilidades dentro de uma linguagem com séculos de desenvolvimento técnico e artístico, ressalvou na entrevista à Lusa.

“Eu não quero tentar replicar o ‘Lago dos Cisnes’ e outros clássicos outra vez. Quero mostrar onde é que estão as novas histórias”, disse, defendendo a exploração de novas situações e contextos para o bailado, sem deixar de lado a dança clássica em pontas.

O coreógrafo considera que ainda há muito por descobrir nas técnicas e formas existentes, através da desconstrução e da sua utilização em novos contextos, sem que a procura de uma linguagem inovadora conduza ao abandono do conhecimento acumulado dos clássicos.

“É tentar pôr o ballet em novas situações, em novos momentos”, resumiu Marcelino Sambé.

Portugal assume, neste percurso, um lugar particular, que o artista descreve como um espaço de segurança e liberdade criativa, onde sente que pode experimentar caminhos que talvez não fossem possíveis noutros países.

“Eu vejo Portugal como um porto seguro onde sei que os braços estarão sempre abertos”, afirmou, destacando a coexistência entre um forte vínculo ao passado e um olhar dirigido ao futuro.

Depois de ter conquistado vários prémios em concursos internacionais de dança, Marcelino Sambé foi galardoado com o Critics’ Circle National Dance Award (2017), o Prémio Personalidade do Ano / Martha de la Cal (2022), atribuído pela imprensa estrangeira em Portugal, a Medalha de Mérito da Câmara Municipal de Oeiras (2020), e a condecoração oficial como Cavaleiro da Ordem Militar de Sant’Iago da Espada (2022).

“Desassossego”, que abre a temporada 2026/2027 da CNB, reúne duas criações inspiradas no “Livro do Desassossego”, de Fernando Pessoa: além de Marcelino Sambé, também o bailarino e coreógrafo Daniel Cardoso, cria igualmente pela primeira vez um bailado para a companhia, com a peça “Elsewhere within stillness”.

O espetáculo estreia-se na quinta-feira, no Teatro Camões, e terá apresentações até 01 de novembro, no âmbito da programação de celebração dos 50 anos da CNB, fundada em dezembro de 1977.

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