❌

Reading view

Cruzar os braços durante uma conversa pode fazer você parecer antipático, mas ajuda no foco e na resiliência; entenda o que diz a psicologia

Cruzar os braços é um dos gestos humanos mais comuns no dia a dia e, mesmo assim, é um dos mais misteriosos. Ao contrário de coçar o nariz, apoiar o queixo ou passar a mão pelo cabelo, os braços cruzados não têm uma justificativa óbvia: talvez por isso sejam interpretados de tantas formas diferentes pela psicologia e pelo estudo da linguagem corporal.

Por que você sente o impulso de cruzar os braços enquanto conversa com alguém, e qual mensagem isso passa para seu interlocutor? Veja as diferentes perspectivas de especialistas sobre este movimento.

Regulação emocional

Acalmar os nervos e confortar a si mesmo é um dos principais motivos para cruzar os braços, segundo o autor Joe Navarro, precursor do uso da análise de linguagem corporal pelo FBI (Federal Bureau of Investigation do governo dos Estados Unidos). Neste caso, o gesto é como um abraço discreto e pode vir acompanhado de automassagem.

Em situações de maior intensidade emocional, braços cruzados podem ajudar a controlar o medo e podem indicar ansiedade quando acompanhados de gestos como cobrir o pescoço com as mãos.

“Pessoas que se sentem inseguras podem cruzar os braços para não se sentirem tão expostas”, escreve Navarro em seu blog pessoal. Ele também afirma que o movimento pode ajudar no autocontrole, restringindo uma reação mais explosiva. “As crianças fazem isso o tempo todo. Quando pedimos que façam algo que não querem fazer, elas cruzam os braços, às vezes empunham as mãos e as pressionam firmemente contra o corpo. De várias formas, isso comunica claramente como elas se sentem, sem dizer uma palavra.”

Leia Mais:

Demonstração de poder

O especialista chama os braços cruzados de “power pose”: uma pose escolhida para indicar poder. “Especialmente homens usam este gesto para parecerem maiores”, afirma. “O Super-Homem é frequentemente apresentado desta maneira. Em escolas, é o que professores infelizmente chamam de ‘pose de valentão'”.

Outra possibilidade é adotar a pose para “criar uma barreira física e psicológica” entre você e alguém com quem você não deseja interagir, “criando distância”.

Outras explicações

Embora frequentemente lido como um gesto rude ou agressivo, cruzar os braços pode ser um movimento completamente inofensivo e involuntário. Navarro conta que pode se tratar simplesmente de um espelhamento da postura do interlocutor:

“Como analisar dois homens que estão de braços cruzados, cada um apoiado com as costas na parede e suas pernas também cruzadas? É sinal de conflito entre os dois? A resposta é não”, exemplifica. “O fato de estarem se espelhando, com as pernas cruzadas, diz que está tudo bem. Só cruzamos as pernas quando nos sentimos confortáveis o bastante com a outra pessoa.”

Uma explicação alternativa é, simplesmente, o frio. Cruzar os braços pode ajudar a aquecer a região do torso e controlar tremores causados pela temperatura.

O que dizem os psicólogos

A postura de braços cruzados em frente ao tronco foi estudada por neurologistas e psicólogos, para além da linguagem corporal. Os resultados sugerem que o gesto pode ser benéfico para quem o faz, seja em conversas ou outras atividades.

Em 2007, um experimento prático na Universidade de Rochester, Estados Unidos, fez diferentes participantes resolverem desafios de lógica com braços cruzados e descruzados, posicionados sobre as coxas. Os voluntários induzidos a cruzar os braços passaram mais tempo tentando solucionar os anagramas apresentados, e tiveram taxa de sucesso maior; não foram identificadas mudanças de humor, nível de conforto ou respeito às instruções da equipe de pesquisa.

Em 2016, foi a vez de um estudo de neuroimagem no Japão verificar os efeitos da pose no corpo. Uma análise de mil participantes revelou que cruzar os braços altera a atividade cerebral na região responsável pelo foco interno e pela percepção do corpo no espaço, além de aumentar a conexão entre diferentes locais do órgão.

Ou seja: de braços cruzados, as áreas associadas ao foco, à reflexão, à autopercepção, à tomada de decisões e ao foco externo conversam mais entre si. Mas há um efeito colateral: ao posicionar os braços e mãos do outro lado da “linha média” do corpo, as referências anatômicas e espaciais se confundem, o que pode afetar a compreensão de estímulos táteis.

Cruzar os braços durante uma conversa pode, então, ajudar no foco e na resolução de problemas, o que é útil em discussões e debates. No entanto, como existem leituras negativas do gesto sob a perspectiva da linguagem corporal, o interlocutor pode intuir insegurança, indisposição ou estresse que, por vezes, não são reais.

“Isso é mais comum entre estranhos”, diz Joe Navarro. “Se você estiver com amigos ou conhecidos, isso pode não ser visto como um distanciamento. Na verdade, muitos interpretam como uma demonstração de interesse e engajamento em um tópico. Isso pode explicar por que vemos esse gesto tão frequentemente entre colegas de trabalho.”

  •  
❌