❌

Reading view

Infra S.A. prevê concluir estudo da Transnordestina até o fim do ano

A Infra S.A. prevê concluir até o fim deste ano o estudo de viabilidade técnica, econômica e ambiental necessário para avançar com as obras do trecho pernambucano da Ferrovia Transnordestina.

A informação foi dada pelo diretor-presidente da Infra S.A., Jorge Bastos, em entrevista ao programa Conexão Infra. Segundo ele, a empresa está atendendo às exigências do tribunal para demonstrar a viabilidade do investimento público no trecho entre Salgueiro e o Porto de Suape, em Pernambuco.

O TCU (Tribunal de Contas da União) cobra estudos atualizados que comprovem a viabilidade socioeconômica do empreendimento antes de autorizar o avanço físico das obras. Em julho, o tribunal esclareceu que a restrição não impede a continuidade de licitações, a assinatura de contratos e outros atos preparatórios, mas mantém a exigência de comprovação da viabilidade para o início da execução física.

No entanto, mesmo assim, a Corte de Contas suspendeu as obras no ramal entre Salgueiro e Suape. Havia a previsão de que o processo fosse deliberado no TCU na última semana, porém, o tema saiu da pauta.

Nesse sentido, Bastos falou que a Infra S.A está em conversas com o ministro do TCU, Jhonatan de Jesus, relator do processo, para tentar viabilizar a retomada das obras.

Bastos também defendeu a continuidade do projeto e argumentou que a avaliação da ferrovia deve considerar não apenas o retorno financeiro, mas também os benefícios sociais e logísticos. Na avaliação dele, a execução com recursos públicos pode viabilizar um trecho que, em um primeiro momento, não seria atrativo para a iniciativa privada.

“Qualquer ferrovia que se faça tem viabilidade. Talvez no primeiro momento, não econômica, mas social, não tenho a menor dúvida que isso é”, disse.

O presidente da Infra S.A. também afirmou que, após a conclusão das obras, a ferrovia poderá se tornar mais atrativa para uma futura concessão, com a perspectiva de ampliar o transporte de cargas.

Devolução de trechos

Em outra frente envolvendo a Transnordestina, na última quarta-feira (21), o TCU deu aval para as bases de um acordo de devolução de 2,9 mil quilômetros de trilhos atualmente sem operação pela Ferrovia Transnordestina Logística, empresa controlada pela CSN – Companhia Siderúrgica Nacional.

A repactuação prevê que a concessionária devolva os trechos à União e pague indenização de R$ 1,8 bilhão. O acordo também prevê investimentos em projetos de VLTs (veículos leves sobre trilhos) em Campina Grande (PB) e Arapiraca (AL). Em maio, o tribunal ajustou condições do acordo após analisar recursos apresentados pela empresa.

A devolução está relacionada à concessão da Malha Nordeste, operada pela CSN, e não se confunde com a conclusão do trecho Salgueiro–Suape, cuja estruturação está sob responsabilidade da Infra S.A. A negociação sobre a malha devolvida busca reorganizar a concessão e definir a destinação de segmentos que deixaram de operar.

A concessão original da Transnordestina tinha cerca de 4,2 mil quilômetros de extensão, distribuídos por sete estados do Nordeste. Com a repactuação, a empresa deverá manter uma malha menor, concentrada em trechos considerados estratégicos para o transporte de cargas, enquanto o governo terá de definir a destinação dos segmentos devolvidos.

Gargalos ferroviários

Durante a entrevista, Bastos também apontou dificuldades para ampliar as concessões ferroviárias no país. Segundo ele, parte da malha brasileira é antiga, tem infraestrutura precária e atravessa áreas urbanas, fatores que dificultam a modernização e reduzem a atratividade dos projetos para investidores privados.

Os últimos governos tentaram avançar nos projetos de concessões ferroviárias. Porém, até o momento, a carteira acumula atrasos. Para 2027, o Ministério dos Transportes prevê a realização de oito leilões de concessão.

O presidente da Infra S.A. defendeu a atualização dos estudos e a busca por modelos de financiamento que tornem os empreendimentos mais competitivos. Como exemplo, citou a EF-118 e a possibilidade de utilizar mecanismos de investimentos cruzados para ampliar os recursos disponíveis ao setor.

  •  

Concessões rodoviárias têm “década da transformação” e duplicam players

O mercado de concessões de rodovias passou por uma mudança significativa na última década, com a desconcentração do setor e a entrada de novos players, incluindo operadoras estrangeiras e fundos de investimentos.

Entre 2016 e 2026, o número de empresas praticamente dobrou, passando de 18 para 35. Na direção contrária, a malha administrada pelo “top five” diminuiu de 64% para 54% do total.

O levantamento foi feito pela A&M Infra, divisão de infraestrutura e projetos de capital, a pedido da CNN. Ele capta um período em que as rodovias federais ou estaduais operadas pela iniciativa privada saltaram de aproximadamente 19 mil para cerca de 36 mil quilômetros.

“Nos últimos dez anos, esse mercado foi marcado por forte dinamismo no Brasil, com reestruturações importantes e um pipeline acelerado de projetos a partir de 2020”, afirma Tiago Barros, diretor-sênior da A&M Infra.

• CNN Infra

Em 2016, a liderança era dividida pela espanhola Arteris e pela CCR (hoje Motiva), com 17% de participação. Depois vinham Invepar (12%), Ecorodovias (9%) e Triunfo (9%).

Alguns players, como a Roadis (dona da Via Bahia) e a Odebrecht Transport, deixaram o mercado. A Triunfo saiu da BR-040, entre o Rio de Janeiro e Juiz de Fora (MG), e deve deixar outras operações.

Hoje, a dianteira do setor é disputada palmo a palmo por Motiva e Ecorodovias, cada uma com 14%. A EPR, fundada em 2022 pelos grupos Equipav e Perfin, detém 10%. Pátria Investimentos (9%) e Arteris (7%) vêm em seguida.

Atores recentes, porém, chamam a atenção. Um deles é a Nova Rodovias, que promoveu um “casamento” do Opportunity com quatro construtoras reunidas na 4UM (JMalucelli, Carioca Engenharia, Aterpa e Senpar).

“Gostamos de capex alto. A capacidade do grupo de se alavancar com equity é alta. E sobra capacidade de execução”, disse recentemente o CEO da empresa, Marcelo Stachow, em entrevista à CNN.

A Nova Rodovias arrematou as concessões da BR-381, entre Belo Horizonte e Governador Valadares (MG), e da BR-364, entre Porto Velho e Vilhena (RO). Agora, estuda os leilões da Rota Agro Central e da Rota do Pequi, além da relicitação da BR-163 entre Sinop (MT) e Miritituba (PA).

O Pátria, que entrou em concessões de rodovias federais e estaduais, vê um marco regulatório com previsibilidade no setor e investidores estrangeiros — como fundos de pensão e fundos soberanos — confiantes na segurança dos contratos.

“É um setor do qual gostamos bastante, estamos presentes há dez anos e pretendemos continuar participando”, afirmou Thiago Bronzi, sócio-líder de investimentos em rodovias e saneamento da gestora de recursos.

A francesa Vinci, uma das maiores operadoras privadas de rodovias do mundo, arrematou a Rota dos Cristais — entre Belo Horizonte (MG) e Cristalina (GO) — e adquiriu a Entrevias (SP).

Carteira de leilões

A continuidade das concessões de rodovias é apontada pela A&M Infra como um fator que ainda reconfigurar o mercado brasileiro nos próximos anos, além de oportunidades de fusões e aquisições.

Na semana passada, o Ministério dos Transportes divulgou sua carteira de leilões para o próximo quadriênio. Está prevista a oferta de 11 ativos somente em 2027, incluindo três lotes em Santa Catarina e a Rota Portuária Itaqui, entre São Luís (MA) e Teresina (PI). Há trechos como a Rota do Café (BR-393/RJ) e a otimização da BR-153 em São Paulo (Transbrasiliana). Esses projetos preveem investimentos de R$ 102,6 bilhões.

“É um número extremamente ousado de leilões”, afirmou o ministro George Santoro. De forma geral, o mercado entende pode haver nuances dependendo do resultado das eleições presidenciais, mas que a agenda de concessões rodoviárias hoje é um consenso entre os candidatos.

O diretor-presidente da ABCR (Associação Brasileira de Concessionárias de Rodovias), Marco Aurélio Barcelos, avalia que investidores internacionais ainda enxergam oportunidades no mercado brasileiro e pode haver novos entrantes.

De acordo com ele, o setor tornou-se um mobilizador de outras importantes atividades econômicas no país, que vão de construtoras a empresas de atendimento pré-hospitalar (responsáveis pelos primeiros socorros e assistência médica em estradas pedagiadas).

Para não colocar em risco a disposição dos investidores, acrescenta Barcelos, é fundamental que os contratos sejam integralmente respeitados e os governos empossados em 2027 não cedam a pressões populistas contra a cobrança de tarifas, que se revertem em investimentos recordes no setor e melhoria das condições oferecidas aos usuários.

  •  
❌