❌

Reading view

Zucco destinou emenda pix para evento evangélico liderado por pastor bolsonarista

O político do Partido Liberal (PL) de Santa Maria, Jader Maretoli, se intitula como um apóstolo. Foi com essa autodenominação que ele coordenou um evento gospel realizado no final do ano passado. No encerramento do Dia da Família, em 7 de dezembro, o pastor da Jesus Church pediu bênçãos para o padrinho do evento, o tenente-coronel Luciano Zucco, então deputado federal bolsonarista.

“Nós precisamos honrar quem merece honra. A Bíblia nos diz isso. Se tem alguém que nos ajudou muito, que é o grande padrinho deste evento, é o tenente-coronel Zucco”, disse aos fiéis presentes. “Eu quero que você, nas suas orações, nessa noite, ore pela vida dele, porque, com certeza, Deus vai o abençoar muito mais, para que ele continue nos abençoando e sendo canal de Deus nos próximos anos aqui na nossa cidade, na nossa região.”

Zucco não estava presente no evento, mas destinou R$ 200 mil para custear o Dia da Família de 5 a 7 de dezembro. O evento, que reuniu de motoqueiros a fiéis evangélicos, incluiu também a contratação de um cantor gospel sem licitação. O repasse destoa do perfil das emendas pix enviadas pelo então deputado federal e atual candidato ao governo do Rio Grande do Sul e foi a única ocasião em que Zucco destinou a eventos. 

Uma análise feita pela Matinal das emendas pix enviadas por Zucco entre 2024 e 2026, com base no Emendômetro, mostra que a maior parte dos R$ 5,6 milhões foi destinada à educação e segurança pública. Quase não há detalhamento de onde foi parar o dinheiro enviado a escolas. No que tange à segurança pública, os recursos foram aplicados na compra de veículos, armas e outros materiais para guardas municipais, Polícia Militar e delegacias.

Apesar de Maretoli ter homenageado Zucco como padrinho do evento, a equipe de comunicação do candidato do PL disse à Matinal que a demanda partiu do próprio município. “O mandato recebe solicitações apresentadas por prefeituras, câmaras de vereadores, entidades, associações, representantes municipais e também por cidadãos”, informou. 

Com base nestas demandas, a comunicação do candidato especificou que são considerados critérios técnicos e legais como “relevância e o interesse público, a pertinência para o município, a possibilidade legal de atendimento, a adequação do objeto à modalidade do recurso, a disponibilidade orçamentária e a viabilidade de execução”. Após a resposta, questionamos qual seria a relevância social e a pertinência do Dia da Família, mas a comunicação do candidato disse que não ia prestar novos esclarecimentos. Disse ter atendido às demandas do veículo e que o questionamento sobre o destino da emenda está ligado ao alinhamento editorial do veículo.

Nas respostas enviadas, Zucco e sua equipe afirmam zelar pela correta destinação das emendas parlamentares. “Caso seja identificado qualquer indício de irregularidade na aplicação dos recursos, o mandato exerce sua prerrogativa de fiscalização e adota as providências cabíveis perante os órgãos competentes”, diz a nota. O deputado também enviou ofício à Controladoria Geral da União solicitando fiscalização das emendas parlamentares individuais indicadas por ele no exercício de 2025, visando a lisura e transparência na execução.

Porém, disse também que, durante a indicação da emenda parlamentar para o evento em Santa Maria, o mandato só tinha conhecimento de que a ocasião denominava-se “Marcha da Família” e nada mais (confira as respostas na íntegra).

A reportagem entrou em contato com o pastor Jader Maretoli quatro vezes, sem sucesso. No último contato, ele comprometeu-se a prestar esclarecimentos, e pediu que as perguntas fossem enviadas por mensagem de WhatsApp, mas, até o momento, não houve resposta.

Além de apóstolo da Jesus Church de Santa Maria e organizador do Dia da Família, Maretoli é vereador suplente e concorreu pelo PL em 2024. De 2019 a 2020, enquanto filiado ao Republicanos, Maretoli ocupou o cargo de secretário-adjunto da Secretaria Estadual do Esporte e Lazer do governo Eduardo Leite (PSDB). 

Ele se apresenta, no Instagram, como o 12º vereador mais votado na cidade, apesar de não ter sido eleito. Hoje, pouco menos de 12 meses depois do evento, atua como cabo eleitoral de Zucco e dos candidatos ao Senado, Marcel Van Hattem (Novo) e Sanderson (PL). 

O sogro de Maretoli, o pastor Oséas Costa, concorre ao cargo de deputado estadual pelo Republicanos. No Dia da Família, Costa figurou como atração.

Da esquerda para a direita: Sanderson, Jader Maretoli, Érika Maretoli, Zucco e Van Hattem
Da esquerda para a direita: Sanderson, Jader Maretoli, Érika Maretoli, Zucco e Van Hattem

Prefeitura de SM se omite 

Organizadora oficial do Dia da Família, a gestão de Rodrigo Decimo (PSDB) não respondeu aos questionamentos enviados pela Matinal. Decimo esteve no evento e posou para fotos com Maretoli.

A Secretaria de Comunicação de Santa Maria foi procurada em quatro ocasiões. Questionamos se a gestão escolheu o destino do recurso, se fez parte da realização do evento e se o evento só aconteceu por conta do repasse. A pasta confirmou o recebimento das questões, mas não respondeu até a publicação desta reportagem. O espaço segue aberto.

No plano de trabalho da emenda pix enviada por Zucco, que é de responsabilidade da prefeitura, fica claro que se tratava de um evento religioso voltado “à valorização dos valores familiares e homenagem à família”, incluindo rodas e espaços de oração e um show gospel com duração de 90 minutos, no valor de R$ 90 mil. O contratado foi o cantor David Quinlan, também alinhado ao bolsonarismo.

Outros R$ 83,4 mil foram destinados para a estrutura física da marcha, incluindo grades, cobertura, tendas e palco; R$ 24 mil, destinados à locação de um painel de LED. No total, os gastos somaram R$ 197,9 mil.

O material de divulgação do Dia da Família não cita nominalmente o deputado e menciona o apoio da prefeitura de Santa Maria e de comércios locais.

STF exigiu detalhamento de repasses a eventos até 2024

Apesar de o Supremo Tribunal Federal ter publicado uma série de regramentos para as emendas pix, como a necessidade de planos de trabalho e proibição de saques em dinheiro e de repasses para organizações não governamentais chefiadas por parentes de deputados, nenhum se debruça sobre eventos.

Em junho deste ano, a Corte definiu aplicação de multas para estados e municípios que não apresentarem informações sobre os recursos destinados a eventos, de forma retroativa, entre os anos de 2020 a 2024.

Na decisão, o ministro Flávio Dino sustentou deficiências de transparência e rastreabilidade na destinação de emendas voltadas à promoção de eventos em geral.

A fiscalização deve abranger consistência documental, compatibilidade entre o que é pactuado e efetivamente contratado, e adequação de preços e valores, respeitando a proporcionalidade dos recursos junto ao porte do evento.

  •  

No caos, evangélicos rezam para Mendonça e pulam no colo de Flávio

Nos meus 16 anos de igreja evangélica, fui ensinada a toda vez que o mundo estivesse um caos, que eu não soubesse que caminho tomar, que houvesse barulho demais, ideias demais, eu recorresse à Deus como norte e à igreja como refúgio. Me lembro que tinha até uma pulseirinha, vendida na lojinha da igreja, com as letras OQJF? “O que Jesus faria?”. É claro que o Jesus que chutou os mercadores do templo, mencionado no Novo Testamento, não era muito a referência para as igrejas neopentecostais. A gente aprendia que questionar o pastor, a congregação, e as ideias que eram apresentadas ali pelo representante de Deus na Terra era “falta de fé” e, em última instância, rebelar-se contra o próprio Deus.

Uma outra doutrina pregada reiteradamente era a de que as guerras, os conflitos, as crises políticas, econômicas – micro e macro – eram materializações de batalhas que estavam sendo travadas nos céus por anjos e demônios: batalhas espirituais.

Graças a Deus (?) os muros da igreja não foram capazes de conter minha rebeldia adolescente por muito tempo. Logo conheci o feminismo, o punk, os movimentos sociais, Marx, Foucault, Judith Butler, Simone de Beauvoir, a comunidade queer, a psicanálise. 

Mas décadas depois, voltei a mergulhar nesse universo evangélico como jornalista e pesquisadora, primeiro para uma reportagem da Agência Pública sobre a bancada evangélica no Congresso Nacional e a força política dessa fatia de uma fatia da população que crescia aceleradamente. Essa matéria levou a outras, a especiais transnacionais, a um livro que está sendo traduzido para seu terceiro idioma, e nunca mais larguei o assunto. 

Aprendi então que essas “batalhas espirituais” tinham um nome: Teologia do Domínio. A teologia do domínio basicamente defende que os cristãos devem governar e influenciar todas as esferas da sociedade, a partir de uma visão maniqueísta, na qual o poder político é visto como um instrumento legítimo de conquista espiritual e social. Ela surgiu ali no meio calvinista norte-americano entre as décadas de 1960 e 1970 e foi amplamente abraçada pelos pentecostais nos anos 1980. 

No meu livro, citei uma fala do pastor RR Soares, líder fundador da Igreja Internacional da Graça de Deus – que tem nada menos que cinco parentes concorrendo nestas eleições  – que acho que ilustra bem: “não existe nada que esteja fora da ação demoníaca. No futebol, na política, nas artes e na religião, nada escapa ao cerco do Diabo […] Satanás tem milhares de agências no mundo […] Por trás da religião, do intelectualismo, da poesia, da arte, da música, da psicologia, do entendimento humano e de tudo com o que temos contato, Satanás se esconde”. 

Nessa lógica, o crente está sempre sendo atacado por representantes do diabo que “vêm para matar, roubar e destruir” e no jogo político, quem não tem as bençãos do pastor, é parte do front inimigo. 

A extrema direita, em especial o Bolsonarismo, foi espertamente se amalgamando a essas narrativas e colocando que a esquerda, o “comunismo”, as feministas, as universidades, os “professores doutrinadores”, a imprensa, a comunidade LGBT+, como inimigos a serem combatidos em nome de batalhas mais profundas, missionárias, messiânicas.

É daí que vem esse apoio crescente de grande parcela dos evangélicos à Flávio Bolsonaro e à André Mendonça, nesse momento de crise política em que ambos estão diretamente implicados e com os rabos mais presos que calango em boca de sapo no escândalo do Banco Master, por mais incoerente que pareça. Ele não surpreende quem cresceu dentro dessa doutrina. 

Há alguns dias, o ministro André Mendonça, que é pastor evangélico, publicou um vídeo em suas redes sociais agradecendo as mensagens de “oração e carinho” de líderes religiosos e disse que essas “preces a Deus têm sido fundamentais” para o sustentar. Em seguida, Michelle Bolsonaro afirmou que Mendonça é “escolhido e ungido do Senhor” e que Mendonça permaneceu fiel aos princípios e se manteve forte e corajoso. “Você foi chamado para este tempo. A nossa maior alegria é saber que você é um grande e verdadeiro homem de Deus”, disse em suas redes sociais. Correntes de fiéis têm chamado às orações por Mendonça.

É a jornada do STF sendo transformada em cruzada, em missão, levada a cabo corajosamente por Mendonça, sobretudo contra Alexandre de Moraes, que encarna o mal.

Nessa cruzada, Flávio Bolsonaro, que tem rodado igrejas evangélicas pelo país e que não era exatamente amado pelos evangélicos no início da campanha por conta da querela com Michelle, tem conseguido se inserir como opção divina pela proximidade a Mendonça, pela contraposição à figura de Alexandre de Moraes e pelos ataques ao STF. Arrisco dizer que é isso que tem levado a um crescimento nas pesquisas de intenção de votos dessa população. 

A última pesquisa Quaest, por exemplo, mostra Flávio à frente de Lula no segundo turno, com 42% contra 40% do atual presidente. 

Numa doutrina em que a política é entendida como batalha espiritual, nenhum escândalo vai pesar mais do que uma unção, porque duvidar do ungido segue sendo, para milhões de fiéis, duvidar do próprio Deus. 

E como me disse uma vez o pastor presbiteriano Caio Fábio, que foi presidente e fundador da Associação Evangélica Brasileira (AEVB) e é alguém que conhece os bastidores da articulação política dos evangélicos: “enquanto o Diabo continuar a existir para os evangélicos da forma como existe, eles [os políticos que dizem representar a Deus] podem continuar roubando, porque o Diabo pagará a conta das acusações. Em nome de Deus, a canalhice é santificada.”

  •  

André Mendonça “furou a bolha” bolsonarista e se tornou “o colocado por Deus”, diz teólogo

No centro do embate no Supremo Tribunal Federal (STF), a figura do ministro André Mendonça “furou a bolha” da militância radical e alcançou uma fatia expressiva do eleitorado evangélico moderado.Com uma narrativa quase bíblica, o ministro teria encarnado o “servo de Deus” que luta contra um sistema corrompido – em uma leitura simplificada de guerra espiritual.

O teólogo Ronilso Pacheco, diretor-executivo do Instituto de Estudos da Religião (Iser), analisa a construção da imagem de Mendonça como um novo “herói do Judiciário”, porém, diferente de outros que já foram apontados para esta categoria, como Sergio Moro e Joaquim Barbosa. Em entrevista à Agência Pública, Pacheco alerta para o avanço global do nacionalismo cristão e defende que o combate à instrumentalização religiosa não passa por calar as comunidades de fé. Para ele, o caminho para proteger a democracia e o Estado laico exige lideranças religiosas corajosas, capazes de inspirar a defesa dos direitos humanos.

Ronilso Pacheco, mestre em teologia pela Universidade Columbia e diretor do Iser (Instituto de Estudos da Religião)
Ronilso Pacheco, mestre em teologia pela Universidade Columbia e diretor do Iser (Instituto de Estudos da Religião)

O que a figura de Mendonça simboliza hoje, em especial para o eleitorado evangélico?

Mendonça chegou devagar e conquistou o seu espaço. O roteiro é perfeito para a ideia do chamado bíblico. Um pastor presbiteriano, servidor de carreira, que foi alçado ao STF. Um homem de Deus, discreto, que de repente herda um caso que se tornaria um dos mais importantes da República. Hostilizado e zombado pelos que escarneceram de seu momento de oração após o resultado de sua sabatina, ele é agora o “colocado por Deus”, como alguns dizem, no centro do poder, batendo de frente com um dos ministros mais poderosos da corte. Qualquer pastor pega essa história e transforma em uma campanha de oração poderosa por Mendonça. As lideranças evangélicas bolsonaristas tinham pouco a oferecer para motivar as pessoas a engajar na pauta política, e ele criou essa deixa. As pessoas não fazem a menor ideia do que são limites jurídicos, procedimentos, protocolos, qual o papel do plenário. As pessoas em geral, incluindo evangélicas, assimilam mais facilmente que o pastor presbiteriano, irmão em Cristo, expôs a relação indecente de um juiz com um banqueiro corrupto e por isso está sendo perseguido. 

O apelo da figura de Mendonça consegue furar a bolha bolsonarista radical e engajar o eleitor evangélico moderado?

Sim, acho que isso já está acontecendo. Eu estou inserido nesse universo e já vejo em parentes, amigos, e até em pessoas aleatórias, que essa bolha foi furada. Saiu do circuito do bolsonarismo radical e chegou a uma ideia de indignação do campo evangélico. Já se criou uma espécie de capa de proteção para o Mendonça. O que a gente pode esperar ver nos próximos dias é uma saia-justa complicada, porque, a depender da decisão do plenário, se houver uma decisão que atinja o ministro, ela já está prontinha para ser vista como uma perseguição religiosa contra o único membro da corte que é um pastor.

O Brasil costuma ter “heróis do Judiciário” em diferentes momentos, como Joaquim Barbosa, Sergio Moro e Alexandre de Moraes. Mendonça agora pode ocupar esse papel? Qual é a diferença dele para os demais, considerando que é o mais associado a uma religião?

A manifestação de 7 de Setembro na Avenida Paulista, em São Paulo, com o boneco inflável do Mendonça, já mostrou que ele está sendo colocado nesse papel, sobretudo por bolsonaristas que querem inflar, com o perdão do trocadilho, a imagem dele como um contraponto ao Alexandre de Moraes. Ele está gradativamente ocupando esse lugar, mas com diferenciais significativos. Acho que Joaquim Barbosa e Sérgio Moro tiveram outro tipo de adesão, no sentido de ter sido uma movimentação ligada ao combate contra a corrupção. Moro tinha alguma proximidade com o universo evangélico, pela parceria dele com o [ex-procurador da Lava Jato] Deltan Dallagnol, que é evangélico, de uma igreja batista de Curitiba. O Dallagnol arregimentou o campo evangélico para a campanha contra a corrupção que tinha Moro à frente. Ele foi colocado nesse lugar heróico por uma parte da população, mas também por um campo evangélico significativo, que queria fazer parte de um momento de transformação do país. O Dallagnol fazia quase que turnê em igreja, já assisti a ele em pelo menos três para falar sobre corrupção e como a igreja pode se envolver. Agora é diferente, é mais uma disputa política. Uma das forças políticas quer tornar o André Mendonça uma espécie de herói. O Moro era herói de um movimento que queria passar o Brasil a limpo, e isso significava enfrentar a corrupção. O André Mendonça é o herói de uma disputa de forças políticas que querem decidir sobre o país.

  • Ato de 7 de Setembro na Avenida Paulista reuniu milhares de pessoas. A manifestação foi convocada e liderada pelo senador e candidato à Presidência Flávio Bolsonaro (PL)
    Ato de 7 de Setembro na Avenida Paulista reuniu milhares de pessoas. A manifestação foi convocada e liderada pelo senador e candidato à Presidência Flávio Bolsonaro (PL)
  • Ato de 7 de Setembro na Avenida Paulista reuniu milhares de pessoas. A manifestação foi convocada e liderada pelo senador e candidato à Presidência Flávio Bolsonaro (PL)
    Ato de 7 de Setembro na Avenida Paulista reuniu milhares de pessoas. A manifestação foi convocada e liderada pelo senador e candidato à Presidência Flávio Bolsonaro (PL)

Qual pode ser o impacto de naturalizar trâmites jurídicos e disputas políticas como “batalhas do bem contra o mal”, ou de “Deus contra o diabo”?

O pior possível. O Estado laico vai embora. A gente sabe que a laicidade do Estado é muito limitada no Brasil, temos uma cultura religiosa que serve como background da formação da sociedade brasileira. E com as narrativas religiosas, de uma disputa do bem contra o mal, o impacto pode ser o pior possível. Esse não é um movimento isolado, não é uma coisa do Brasil. É algo proposital, sobretudo por forças ultraconservadoras que usam a narrativa religiosa cristã. Isso aparece em praticamente todos os partidos de extrema-direita que ascenderam na Europa nos últimos anos, e mesmo nos governos de direita que têm ascendido na América Latina, principalmente no discurso de segurança pública e de combate ao narcoterrorismo, como diz Donald Trump, com a linguagem religiosa. Não é à toa que o [Nayib] Bukele [presidente de El Salvador] fala de guerra espiritual, o [Abelardo de la] Espriella [da Colômbia] também. O uso dessa linguagem religiosa para descrever política e embates políticos está alinhado com um movimento global onde a religião tem se tornado uma linguagem preferencial para criar vínculos, conexões e mobilizar o engajamento a partir da base popular.

Qual você acredita que deve ser o papel da política dentro das igrejas? É preciso ter um afastamento total ou é possível conciliar de um modo saudável?

É preciso ter uma aproximação equilibrada, saudável e justa. Recentemente o mundo ficou impactado com a votação da AfD (partido de extrema direita alemão) na Saxônia, um partido com ideias que flertam com o neonazismo. Semanas antes das eleições, várias igrejas protestantes da Saxônia se juntaram e fizeram cultos para mobilizar a sua membresia a não votar na AfD. Não conseguiram, a AfD foi eleita, mas essas igrejas tentaram evitar o pior. Precisamos de lideranças religiosas que inspirem suas comunidades de fé a defenderem a democracia, o Estado laico, os direitos humanos, que respeitem as diferenças e defendam um país justo, que saibam entender os sinais dos riscos de um governo autoritário e as armadilhas da instrumentalização da extrema direita. Não acho que as comunidades de fé devem ser caladas politicamente. Acho que é um risco que precisamos aprender a correr. As pessoas não vão para a igreja para ter um curso de ativismo político, nem para a esquerda nem para a direita. Elas vão pelo culto, a devoção, a cultura. Mas também precisamos entender que a igreja não é um lugar solto no mundo. Assim que a pessoa sai da igreja, vai ser impactada pelas decisões políticas, pela política pública, pela crise institucional que se instala no país.

  •  

Quem são os “coaches” de Michelle Bolsonaro

Investigamos o que importa para os brasileiros além do que passa na campanha eleitoral. Leia mais reportagens como essa clicando aqui.

Michelle Bolsonaro não compareceu aos atos de 7 de Setembro com a justificativa de que precisava cuidar do marido, Jair Bolsonaro.  Mas a ex-primeira dama não ficou fora do clima de “guerra santa” que cercou o palanque do enteado Flávio nas manifestações em São Paulo. No  Instagram, prestou uma homenagem ao ministro André Mendonça, do Supremo Tribunal Federal (STF), o ícone do 7 de setembro na Paulista, a quem chamou de “ungido” e “escolhido por Deus”. Também reproduziu uma mensagem em conjunto com o bispo Robson Rodovalho, da Igreja Sara Nossa Terra, pedindo oração para que “o Brasil experimente um verdadeiro despertamento espiritual”. 

As mensagens têm um componente simbólico: representam que ela e seus aliados – como o próprio Mendonça, de quem foi fiadora em 2021 – estão no “lado do bem”, o “lado de Deus”, ao contrário de seus adversários. Pastores e especialistas em religião ouvidos pela Agência Pública dizem que a postura pode ter sido influenciada por pessoas de quem ela se cercou: lideranças evangélicas que acreditam que os cristãos devem participar – se não dominar – todas as esferas da sociedade, incluindo o governo, para subordinar o Estado aos valores bíblicos – a chamada teologia do domínio.

A imagem de Michelle migrou de uma primeira-dama tímida e apagada para uma das lideranças políticas mais influentes do país – mesmo disputando seu primeiro cargo eletivo só agora, aos 44 anos, ao Senado. E isso coincide com sua aproximação cada vez maior com esses grupos, que consideram ser dever do cristão ocupar cargos de poder para “libertar” os espaços da influência do diabo. Vale para política, educação, família, religião, mídia, entretenimento e negócios – considerados os “sete montes de influência”. Esse entendimento alcança várias das lideranças evangélicas mais conhecidas do Brasil hoje. Boa parte delas é do círculo pessoal de Michelle, consideradas por ela seus conselheiros espirituais, e que moldaram a sua maneira de ver o mundo.

Ex-primeira dama Michelle Bolsonaro olha para o marido, o ex-presidente Jair Bolsonaro
De primeira-dama discreta a liderança política: Michelle Bolsonaro se cercou de líderes ligados à teologia do domínio atual

Três episódios ocorridos entre as eleições de 2018 e 2026 ajudam a ilustrar como ela passou a transitar entre esses dois polos – religião e política – e cravar o seu espaço no pólo conservador com apoio dos adeptos mais ferrenhos da teologia do domínio, e que podem ter peso para a candidatura de Flávio Bolsonaro. 

Pouco antes das eleições de 2018, o pastor José Wellington Bezerra, um dos principais líderes da Assembleia de Deus no Brasil, visitou a casa de Bolsonaro, então postulante à Presidência. “De todos os candidatos, o único que fala o idioma do evangélico é Bolsonaro”, ele disse, na época. A frase costuma ser lembrada por incutir uma certa contradição: apesar de receber apoio massivo do público evangélico, Bolsonaro se declara católico. Ainda pouco conhecida do público, Michelle não apareceu nas fotos divulgadas do dia.

Na campanha de 2022, a equipe de Bolsonaro percebeu que ela poderia ser uma peça-chave para acessar mulheres evangélicas, um dos públicos mais reticentes com o bolsonarismo. A partir de agosto daquele ano, ela se tornou quase onipresente nos eventos da campanha. Em longas falas parecidas com sermões de igreja, ela declarava que o marido era um “escolhido de Deus” e que a sua reeleição tinha um “propósito de libertação” da nação. 

Foi o ponto decisivo para a entrada de Michelle na política, galgando espaço para o seu projeto mais ambicioso: o PL Mulher, ala do partido que promove encontros entre mulheres conservadoras – onde se discute política ao mesmo tempo em que se fala de religião, família, cuidado e outros assuntos considerados femininos (não feministas). Sob a batuta de Michelle, o PL Mulher se espalhou por todos os estados como uma versão brasileira dos encontros de mulheres republicanas dos Estados Unidos.

Michelle e Jair Bolsonaro durante evento em Pelotas (RS)
Desde 2022, Michelle Bolsonaro se tornou uma das principais pontes entre o bolsonarismo e o eleitorado evangélico

Dois dias depois do primeiro turno, quando o presidente Luiz Inácio Lula da Silva já demonstrava vantagem sobre Bolsonaro, o casal Bolsonaro retribuiu a visita de José Wellington na eleição anterior no megatemplo que ele preside, em São Paulo. O pastor pediu abertamente votos para o capitão. Mas, desta vez, Michelle estava no púlpito, e discursou enquanto o marido chorava. A primeira-dama comparou a disputa eleitoral a uma batalha da “luz contra as trevas” e cobrou a igreja a ter uma posição no segundo turno. “A gente precisa se voltar ao Senhor. A igreja precisa se posicionar, a igreja precisa aprender”, disse ela.

Já em 2026, com Bolsonaro em prisão domiciliar, seu filho Flávio foi o escolhido pelo patriarca para disputar a presidência. Com dificuldades para ter o mesmo apoio recebido pelo pai entre os evangélicos, o filho 01 decidiu fazer um tour por várias denominações – e começou justamente pela igreja do pastor José Wellington, que lhe ofereceu a mesma simpatia. “Que o Senhor o leve para ser presidente da nossa nação” disse na ocasião, enquanto ungia o senador. 

Senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) durante encontro com lideranças evangélicas na Assembleia de Deus, Ministério de Belém
Senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) durante encontro com lideranças evangélicas na Assembleia de Deus, Ministério de Belém

Ele não contava, porém, que o estopim de uma das maiores crises de sua pré-campanha viria do núcleo familiar daquele líder religioso. Priscila Costa – deputada federal, sobrinha neta de José Wellington, vice-presidente do PL Mulher e aliada de primeira hora de Michelle – foi preterida por Flávio nas negociações do PL no Ceará.

O episódio foi a gota d’água para que Michelle gravasse um vídeo com críticas diretas ao enteado, divulgado poucas semanas depois do pedido de dinheiro de Flávio para o banqueiro Daniel Vorcaro, do banco Master ter se tornado público. Tanto o áudio da conversa como o vídeo de Michelle impactaram a imagem do candidato, que caiu 10 pontos percentuais entre o eleitorado feminino e oito pontos entre os que se denominam evangélicos, segundo pesquisa AtlasIntel/Bloomberg do final de junho.

Para remediar, Flávio gravou vídeos pedindo desculpas à Michelle e até cogitou indicar Priscila para compor sua vice-presidência – o que não foi concretizado. A ex-primeira-dama respondeu que o perdoava, sem ter abaixado a cabeça. Para muitos, foi uma queda de braço vencida por Michelle, que consolidou sua imagem de influência no campo evangélico, especialmente entre os nomes mais fortes da teologia do domínio.

Uma pesquisa recente do Instituto de Estudos da Religião (Iser) mostra que Michelle é frequentemente associada a valores positivos por mulheres evangélicas – ela é considerada “exemplar”, “cristã virtuosa”, “elegante” e “forte”. “Sua trajetória pessoal, sua forma de se apresentar como mulher, mãe, esposa e cristã e gestos como ajoelhar-se em eventos públicos aproximam sua atuação política de uma linguagem religiosa reconhecível pelas entrevistadas. O testemunho funciona, assim, como uma técnica política: transforma a experiência pessoal em exemplo e torna valores como família e nação legíveis a partir de uma gramática cristã”, diz o relatório.

Teologia do domínio: de Malafaia aos radicais

No Rio de Janeiro, Michelle frequentava a Assembleia de Deus Vitória em Cristo, de Silas Malafaia – que celebrou o casamento dela com Bolsonaro em 2015. Em 2016, após um dos vários desentendimentos entre o pastor e seu marido, ela migrou para a Igreja Batista Atitude, do pastor Josué Valandro Júnior. Ela era a intérprete de libras dos cultos de domingo e a sua casa chegou a abrigar uma célula para crianças surdas – exceto no período em que Bolsonaro se recuperava da facada. Com a mudança de volta a Brasília por causa da posse presidencial, Michelle chegou a levar o pastor a vários eventos oficiais no Palácio do Planalto.

Mas, com a distância geográfica, a proximidade entre os dois diminuiu, e Michelle passou a frequentar outras congregações, como a Comunidade das Nações, do pastor JB Carvalho, e a Sara Nossa Terra, do bispo Robson Rodovalho, que já foi deputado federal. Entre as melhores amigas de Michelle estão a senadora Damares Alves – as duas se conhecem há mais de uma década, quando ainda eram assessoras parlamentares – e a bispa Dirce Carvalho, esposa de JB. Dirce, inclusive, organiza conferências de liderança para mulheres cristãs, sob o mote de “governar todas as áreas da vida”. Os encontros, que já reuniram mais de 15 mil mulheres, também já tiveram a presença de Michelle.

Michelle Bolsonaro e Damares Alves durante evento
A amizade entre Michelle Bolsonaro e Damares Alves se fortaleceu ainda antes da política e ganhou peso no campo conservador

Michelle e Bolsonaro também são próximos de outros nomes mais radicais do movimento, como os pastores Renê Terra Nova e Valnice Milhomens. Terra Nova, do Ministério Internacional da Restauração, é o líder da filial brasileira da International Coalition of Apostolic Leaders (Ical), fundada em 1999 nos Estados Unidos por John P. Kelly sob a presidência de C. Peter Wagner, os nomes centrais que popularizaram a teologia do domínio entre igrejas neopentecostais no mundo. Milhomens, da Igreja Nacional do Senhor Jesus Cristo, recentemente gravou um vídeo dizendo que os evangélicos devem “tomar o poder no Brasil”.

São esses os nomes dos principais representantes do dominionismo no Brasil hoje, de acordo com os especialistas ouvidos pela Pública. “A convivência da Michelle, onde ela frequenta, como a Igreja Atitude da Barra da Tijuca, são igrejas que migraram para uma radicalização do discurso que incorpora o desejo de assumir poder político. Não sei se o pastor Valandro leu o material da teologia do domínio, mas é o que ele defende”, diz Sérgio Dusilek, pastor batista e doutor em Ciência da Religião. “Quando uma pessoa frequenta esses espaços, ela acaba fazendo parte e incorporando aquele ideário, o que pra mim foi o caso da Michelle. As pessoas com quem ela anda, como a Damares, são propagadoras da teologia.”

“O principal conselheiro de Michelle costumava ser o Silas Malafaia, agora afastado da família Bolsonaro. O bispo Robson Rodovalho tem assumido esse papel e já chegou a defender Michelle como uma ‘grande líder’. Houve também encontros com a coach Obii Pax-Harry, ligada a uma corrente teológica internacional associada à teologia do domínio e à Brazil Apostolic Conference do apóstolo Renê Terra Nova, que difunde conceitos como guerra espiritual, restauração apostólica e atuação ativa de cristãos na esfera pública”, afirma a pesquisadora Pietra Cretella, mestranda da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC) que pesquisa  a interface entre religião e política. 

Nós procuramos todos os citados nesta reportagem, mas, até a sua publicação, apenas Damares Alves e a pastora nigeriana Obii Pax-Harry responderam. A senadora disse que “não defende qualquer forma de domínio religioso sobre o Estado”, mas sim a “participação democrática, proativa e consciente de todos os cidadãos na vida pública, inclusive dos cristãos”. “Sua atuação no Senado parte da defesa da dignidade humana e da construção de leis e políticas públicas que protejam direitos e criem condições para que todas as pessoas possam exercê-los, independentemente de sua religião. A senadora defende o Estado laico, compreendido como garantia da liberdade religiosa e de consciência de todos, e não como exclusão das pessoas de fé da esfera pública”, disse, em nota enviada pela assessoria de imprensa.

Damares também afirmou que Michelle Bolsonaro “conquistou, por sua própria atuação, um espaço relevante no movimento conservador brasileiro, especialmente entre as mulheres” e “vê de forma positiva o surgimento e a consolidação de lideranças femininas que defendam publicamente seus valores e estimulem outras mulheres a participar da vida política.”

A pastora nigeriana Obii Pax-Harry, uma das principais vozes globais da Ical, a organização que reúne denominações dominionistas, também respondeu à Publica. Ela tem vindo ao Brasil com frequência em conferências neopentecostais e passou uma semana ao lado de Michelle, pouco antes da ex-primeira dama publicar o vídeo contra Flávio Bolsonaro. “Eu te amo tanto, minha querida irmã e amiga, melhor primeira-dama do mundo inteiro!”, a pastora postou, em inglês, em uma seleção de fotos abraçadas com Michelle e Dirce Carvalho.

Em entrevista à Pública, Obii afirma que tem contato com o Brasil há 15 anos, quando vendeu os direitos de um livro a uma editora brasileira. Desde então, passou a receber “pedidos de assistência de Escolas de Profetas brasileiras que usavam meu livro para treinar seus alunos.” A pastora fundou uma escola de “Governo e Política” em Abuja, capital da Nigéria, e faz treinamentos de líderes cristãos para atuar em igrejas, negócios e governos. No Brasil, Obii tem um “grupo informal” a quem dá mentoria, junto com a pastora Débora Guillen, líder da Action Church, uma dissidência da Igreja Batista da Lagoinha, em Belo Horizonte.

“Conheci Michelle Bolsonaro como uma mulher cristã em uma igreja e fui particularmente atraída pelo coração que ela tem por seus irmãos na fé, independentemente do status social deles — algo que acho raro, vindo do Reino Unido, EUA e Nigéria”, disse. 

Mas ela frisa que Michelle não é uma de suas mentoradas, como se cogitou à época da publicação do vídeo. “Não tenho nenhuma relação de trabalho formal com Michelle ou com qualquer outra pessoa no Brasil como mentora, conselheira ou instrutora. Agradeço seu interesse nisso, mas não é o que acontece. Talvez você possa me recomendar para esse trabalho (risos)”, disse.

Gramática de dominação 

Para Christina Vital, professora do Programa de Pós-graduação em Sociologia e coordenadora do laboratório de estudos em Política, Arte e Religião da Universidade Federal Fluminense (LePar), a teologia do domínio não é “um conjunto de orientações que os indivíduos seguem de maneira irrefletida e automática”, e nem “a única motivação para a atuação de evangélicos na política”. 

“A teologia do domínio não inaugura a noção de evangelização, mas oferece uma gramática e estratégias de ocupação e dominação de espaços públicos. Ela ocupa um lugar importante entre grupos religiosos e econômicos que mobilizam o repertório para fazer valer interesses institucionais – apresentados como interesses sociais e religiosos – e também interesses de conglomerados econômicos”, afirma a pesquisadora, que estuda a participação de mulheres na extrema direita brasileira.

Vital pondera, porém, que é importante considerar outros aspectos para além da teologia do domínio para analisar Michelle – como os seus interesses pessoais, econômicos, políticos e partidários. “Fazer a leitura exclusivamente pelo viés religioso é, de certa maneira, limpar essas outras dimensões, acentuando o valor espiritual das ações e encobrindo motivações que poderiam ser vistas como mundanas pelos próprios segmentos sociais reunidos em torno da fé”, afirma. 

Ela acredita que Michelle “não é simplesmente uma porta-voz de outras lideranças”, mas tem força política própria. “Ela costuma dizer que Bolsonaro é ‘um leão em público e um gatinho em casa’. Vamos acompanhar os próximos acontecimentos, mas ela vem se mostrando uma espécie de ‘leoa de direita’, tanto em casa quanto na política, para continuar nas metáforas felinas.”

Pesquisadores ouvidos concordam, porém, que o discurso de Michelle, sua arma mais importante como política, ganha densidade ao se articular com a teologia do domínio, como explica Fábio Py, doutor em Teologia que lidera o Grupo de Estudos Religião e Cidades da PUC de São Paulo. Ela articula textos bíblicos com inserção política atual, e faz isso muito bem, com tranquilidade. É natural para ela. Ela tem uma caminhada religiosa, coisa que muitos outros bolsonaristas não têm. Fez formações, estudou, compreende bem os elementos religiosos”, diz.

A pesquisadora Cretella, que estuda os discursos político-religiosos de Michelle, diz que ela costuma repetir elementos ligados à teologia do domínio, como falar em nome de Deus, da divisão entre o bem e o mal, atribuir-se um caráter divino e se vitimizar, o que também pode ser observado no vídeo contra o enteado. “Ela se colocou como vítima, citou Deus e valores cristãos para reforçar sua autoridade moral, enquanto se apresentava como ‘guardiã do bolsonarismo raiz’”, afirma a pesquisadora. 

Os elementos da teologia de domínio, ficam “escondidos” dentro das falas, explica Cretella. A narrativa de Michelle trata em uma primeira camada de lealdade, doação, cuidado, perseguição e retorno do líder. Mas, como mensagem subliminar, haveria um apelo à guerra espiritual, que funciona como um “apito de cachorro” para o núcleo mais fervoroso.

Se antes Jair Bolsonaro era a “voz dos evangélicos”, agora Michelle parece ter se tornado a favorita na política, usando a força do marido a seu favor. “Eu não diria que ela herdou o papel unificador de Bolsonaro, mas ela tem a pretensão de continuar a narrativa de que ele é o salvador, acenando ao público evangélico como um todo”, diz Cretella.

  •  
❌