A esquerda que quer proteger os inquilinos de terem casa

A discussão sobre o mercado da habitação, em muitos fóruns, não anda muito longe do tosco. Há quem nos queira convencer de que o nosso excecionalismo nos permite escapar às mais básicas leis do mercado. Receio desiludi-los, mas não. A demografia, a pouca construção ou um contínuo êxodo rural, por exemplo, estavam disponíveis para quem quisesse ver. Nada disto é rocket science e, por muitos defeitos que tenham os simplificados modelos de oferta e procura, isto conseguiam antecipar.
A questão que naturalmente segue daqui é: onde fica a responsabilidade do Estado? A inação não nos trouxe até aqui, mas é inegável que amplificou as consequências. A rede ferroviária, pesada ou ligeira, está há décadas praticamente congelada. Os planos foram sendo adiados e muitos ficaram no papel. Os transportes são insuficientes e totalmente depauperados. Do lado da construção, a regulação excessiva, dantesca, atrasou ou hipotecou novos projetos. Ainda do lado da oferta, o Estado foi incapaz de assumir o seu papel de proprietário, identificando o potencial dos seus edifícios e reconvertendo-os quando possível. A somar a isto, quiseram-nos convencer de que a entrada de um milhão de pessoas viria sem consequências e que medidas de expansão da procura, como as de apoio aos jovens, seriam inócuas. Entre a inércia e a inaptidão reside parte da culpa.
Para agravar a uma discussão que não ultrapassa a banalidade dos diagnósticos, surge o populismo económico, fundado em propostas mirabolantes de soluções imediatas, sem custos ou consequências. As propostas variam, mas os resultados são os mesmos e fáceis de prever.
A falácia mais comum é a dos tetos às rendas. Parecem simples, diretos e com resultados compreensíveis. Aproveitando-se disto, os propagandistas, não muito incomodados com a verdade, atiram com a tautologia de que os preços caem. Pois claro, se impomos um valor máximo, a média cai. O que falta dizer é que o número de contratos também cai, há filas de espera e famílias desesperadas acabam por aceitar rendas mais altas, mas sem contratos, ou com contratos sazonais. A médio prazo, os que já tinham contrato ficam melhor e os outsiders pagam o custo completo da política através de instabilidade e muito piores condições de vida. Não sou eu quem o diz: é a realidade de Barcelona e tantos outros sítios que cederam à demagogia.
Não sou nenhum purista. Compreendo que, em momentos de aflição, possa caber aos governos algum tipo de contenção da procura, através de desincentivos fiscais bem direcionados. Agora, avançar para isso sem pôr termo às medidas de expansão da procura ou sem estimular a oferta, tanto no longo prazo – através de licenciamentos e construção – como, mais residualmente, no curto e médio prazo, através da reabilitação e dos incentivos à colocação de casas no mercado, não passa de pólvora seca.
Não me arrogo o direito de representar uma geração. Nunca o fiz, nem o farei. Para além de ser um sinal de fraqueza argumentativa, ninguém me elegeu para tal. Represento-me a mim mesmo. E mal. E, nessa posição, assumo-me como um dos lesados da crise. Quando, em janeiro, entrar no mercado de trabalho, serei um daqueles jovens que alugam quartos, com os quais tanto comentariado fantasia. Não o digo com qualquer intuito de vitimização, postura que não combina bem comigo, mas com a certeza de que se a extrema-esquerda levasse o seu populismo avante, seria eu a pagar a fava da proteção dos insiders. Ver jovens a defender isso provoca-me, mais do que pena, uma profunda tristeza. É que as leis da economia têm um defeito inconveniente para os populistas: não deixam de funcionar só porque alguém decide ignorá-las.