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Governo ainda avalia nova vaga de saídas voluntárias na RTP


O Governo está ainda a avaliar a nova fase de saídas voluntárias propostas pela administração da RTP, que implica uma despesa de cerca de 12 milhões de euros, afirmou esta quarta-feira o ministro da presidência, António Leitão Amaro.

“Estamos a avaliar as condições da nova fase proposta pela administração da RTP“, disse o governante numa audição regimental na Comissão de Cultura, Comunicação, Juventude e Desporto. A despesa é adicional ao aumento de capital de 20 milhões de euros, que, segundo o ministro, “não incluem nenhuma verba para plano de saídas voluntárias” e se destina na totalidade ao plano de investimento. O Orçamento do Estado para 2027 já prevê uma despesa excecional de 12,5 milhões de euros para o plano de reorganização e modernização da RTP.

O prejuízo de 11 milhões de euros previsto para a RTP este ano existirá apenas caso a empresa execute ainda em 2026 o plano de saídas voluntárias, explicou Leitão Amaro. “Se esse plano for só executado em 2027, já não existirá”, afirmou, explicando que, por ser financiada com o aporte de capital do Estado, a despesa “gera contabilisticamente um prejuízo”

Dos 20 milhões, 12 já foram injetados. Os restantes oito aguardam o fim do prazo de resposta da Comissão Europeia, a quem o Governo comunicou a operação ao abrigo das regras dos auxílios de Estado, e serão transferidos “dentro deste ano”.

A reestruturação da RTP

A RTP “precisa, em nossa opinião, de uma reestruturação”, que significa “ajuste de custos e ponderação da sua capacidade de geração de receita”, defendeu Leitão Amaro. Essa reestruturação não deve exigir mais esforço aos contribuintes “para pagar despesa corrente, isto é, não passa por um aumento da CAV”, a Contribuição para o Audiovisual.

“Isto significa que a RTP está amarrada? Não pode crescer? Não se pode transformar? Não”, argumentou. Para o ministro, a empresa “pode e deve rever os seus custos”, o que significa “ser mais eficiente em algumas coisas e ponderar outras que faz e que pode não fazer”.

António Leitão Amaro considerou que a RTP pode gerar outras receitas se for “ambiciosa e inovadora”, mas “não tem feito o suficiente, tal como não tem feito o suficiente na sua revisão da sua estrutura de custos”. Admitiu, ainda assim, que “para certos investimentos de efetiva transformação digital em tecnologia, pode haver abertura para injeções pontuais do Orçamento do Estado”.

Questionado pela Iniciativa Liberal sobre a revisão das regras da publicidade, o ministro afirmou que “a grande linha é liberalizar” a lei da publicidade e o Código da Comunicação Social. O objetivo é “criar mais espaço para a liberdade de imprensa, liberdade de gerir os órgãos de comunicação social e gerir a sua obtenção de sustentabilidade”.

O ministro afastou a ideia de retirar a RTP do mercado publicitário. Questionado pelo PS, disse que o diálogo com o setor não lhe parece apontar para “um caminho de necessidade de excluir a RTP do mercado de publicidade”. “Foi uma aprendizagem. Ouvimos”, reconheceu.

Também não pensa necessariamente em mais minutos de anúncios, mas em subir o valor de cada um, com tecnologia que permita dirigir a publicidade, referindo-se ao exemplo da plataforma Playce — que acabou suspensa devido a uma decisão da Autoridade da Concorrência. A publicidade na televisão generalista vale cerca de 2 euros por unidade, enquanto a personalizada na internet ronda os 12 a 20 euros, comparou. “Há uma possibilidade, sem aumentar o número de minutos, de aumentar muito o resultado”, sustentou, acrescentando que há “um grande trabalho a fazer” na “variante de preço”.

Lusa: “Nunca disse para contratar o jornalista A ou B”

Sobre a polémica das cláusulas comerciais nos contratos dos delegados internacionais da Lusa, referiu: “Se há uma redação de algum documento que parece confiar responsabilidades de angariação de publicidade ou de marketing, essas formulações não são conformes com a lei e têm de ser alteradas“, afirmou. Disse ter sabido das cláusulas apenas quando a situação foi denunciada e não ter dado qualquer instrução.

O ministro garantiu também que não sabia previamente da contratação para a delegação de Bruxelas: “Não intervenho”. “Não digo nem nunca disse à Lusa ou à RTP para contratar o jornalista A ou B. Zero. Nunca”, sublinhou. No seu entendimento da Lei de Imprensa, o poder de contratar jornalistas cabe ao Conselho de Administração, e à Direção de Informação cabe a designação das chefias e o parecer sobre as contratações.

“Não tenho nada a ver com o processo de saída por acordo”, afirmou já sobre a saída da diretora de informação, Luísa Meireles. O Governo não deu qualquer orientação nesse sentido, garantiu, remetendo as questões para os intervenientes, que são ouvidos na quinta-feira na mesma comissão.

“A saída foi feita por acordo. Admito que cada uma das partes tenha uma visão diferente sobre a forma interpessoal como interagiram”, disse. “Se acho que este processo representa um ultrapassar de poderes? Creio que não, porque houve um acordo” acrescentou, garantindo que o Governo não se envolveu no processo.

Sobre a denúncia do Acordo de Empresa (AE), esclareceu que os aumentos salariais de 2026 na Lusa, decorrentes do regime normal de aumentos, “estão garantidos e não estão condicionados a nada desta negociação” .A denúncia do Acordo de Empresa (AE) “não foi uma decisão do Governo”, disse, e cabe à administração, tal como a gestão dos recursos humanos.

O Plano de Atividades e Orçamento (PAO) de 2026 está “aprovado e comunicado à Lusa” , garantiu ainda. O PS afirmou, porém, que a administração da agência lhe tinha transmitido há uma semana que o plano não estava aprovado.

Leitão Amaro discorda da ERC quanto aos estatutos da agência. “Discordo da interpretação que possa ser feita de que há alguma desconformidade” com o Regulamento Europeu da Liberdade dos Meios de Comunicação Social (EMFA), afirmou. “Não quero entrar em polémica com a ERC”, acrescentou, abstendo-se, por respeito institucional, de comentar “a qualidade técnica e jurídica do documento”. A Comissão Europeia pediu ao Governo que se pronunciasse sobre as queixas recebidas e, depois de explicadas as alterações, “não houve uma decisão em sentido contrário”, disse.

Com o debate parlamentar concluído, depois de na semana passada terem sido chumbadas as propostas de alteração aos estatutos, “é muito importante que as regras atuais possam ser testadas, o Conselho Consultivo completado”, defendeu. Ainda faltam os três membros a designar pela Assembleia da República.

O ministro comprometeu-se a promover, “nas próximas semanas”, a avaliação independente aos estatutos recomendada pelo parlamento, que espera que coincida com uma avaliação do Conselho Consultivo. Se essa avaliação recomendar ajustamentos “e concordarmos com eles”, poderá haver alterações, eventualmente “em diálogo parlamentar” “Acho que o final de um ano de experiência destes estatutos é um bom momento para fazer uma avaliação e eventualmente introduzir ajustamentos”, disse.

Imprensa regional: “Queriam mesmo matar aquilo”

O ministro voltou a lamentar que o parlamento tenha retirado a condição de eficácia à publicação obrigatória das deliberações autárquicas na imprensa regional e local. “Tirar a condição de eficácia é matar o essencial da força deste mecanismo”, afirmou.

Admitiu que poderá ter sido “algum lapso de última hora”.”Sinceramente acho que o que aconteceu foi como aquilo foi debatido numa comissão onde não estão os especialistas em comunicação social. A medida saiu sem essa sensibilidade”, disse, pedindo ao parlamento que revisite a decisão, “este ano, desejavelmente”.

Durante a audiência parlamentar, o PS respondeu que “um simples atraso na publicação não pode deitar abaixo um concurso, um apoio social ou uma obra” e que “o que o PS não aceitou foi uma consequência automática e desproporcionada de um simples atraso”. Lembrou ainda que a Associação Nacional de Municípios Portugueses alertou por escrito para esse risco.

Na resposta final, Leitão Amaro foi mais pessimista: “Saio daqui convencido que da parte daqueles que mataram esta parte importante da lei, eles queriam mesmo matar aquilo. E é pena”. Ainda assim, disse sair “com um bocadinho de esperança de que possamos vir ressuscitar isto”.

Sobre o apoio à reconstrução das rádios afetadas pelo comboio de tempestades no início do ano, António Leitão Amaro apontou que o Governo está a tentar “alguma reafetação da verba” depois de as candidaturas mais do que duplicarem a estimativa inicial de uma despesa à volta dos 500 mil euros.

Visão, AgoraEU e Comissão da Carteira

O Governo está a estudar as possibilidades do Código da Insolvência no caso da revista Visão, ameaçada pelo processo de insolvência da Trust in News. “O poder está no juiz e não nos credores”, disse o ministro, citando os próprios jornalistas da Visão, e referiu que vai “perceber se há alguma esfera de intervenção possível da administração pública”.

Leitão Amaro disse não desejar o corte de 30% proposto para o programa europeu AgoraEU, que inclui apoio ao jornalismo, mas admitiu que Portugal tem outras prioridades na negociação: “Prefiro lutar pela dotação para as regiões ultraperiféricas que chegam à Madeira e aos Açores”. Referiu também a coesão, a competitividade e a agricultura.

Já sobre o financiamento da Comissão da Carteira Profissional de Jornalista, inscrito na proposta de Orçamento do Estado, “tem de estar preto no branco numa lei da Assembleia da República e não dependente de uma negociação anual”, defendeu o ministro, estando em discussões com a entidade para apresentar no parlamento ainda este ano uma uma proposta legislativa de reforço da autorregulação profissional.

Sobre as suas declarações em janeiro, afirma ter chegado à conclusão que retirar parte da CAV à RTP para esse fim “criava mais tensão do que resolução”. A possibilidade da extinção dos emolumentos pagos pelos jornalistas ainda não foi discutida com a Comissão da Carteira, sendo que “a proposta da própria CCPJ não a prevê”.

Questionado pelo Chega, esclareceu que os 1,8 milhões de euros previstos para o modelo de inteligência artificial Amália correspondem a “despesas de funcionamento, de treino e de alargamento das capacidades” O valor a pagar aos órgãos de comunicação social pelo acesso a conteúdos vai depender da negociação: “Não posso estar a prever valores finais quando eles vão ser objeto de discussão”.

Leitão Amaro admitiu ainda que a literacia mediática “é uma coisa importante”, mas que “não tem sido, confesso-lhe, a maior das prioridades”, quando questionado sobre a execução do plano aprovado no ano passado.

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Receitas da SpaceX disparam 161% no terceiro trimestre para 14,6 mil milhões de dólares


A SpaceX, liderada por Elon Musk, viu as receitas aumentarem 161% no terceiro trimestre de 2026, para 14,6 mil milhões de dólares (cerca de 13 mil milhões de euros), face aos 5,6 mil milhões (cerca de 5 mil milhões de euros) do mesmo período do ano passado.

A empresa passou também de prejuízo a lucro trimestral, com resultados positivos de 4,4 mil milhões de dólares (3,9 mil milhões de euros), contra perdas de 1,1 mil milhões (979 milhões de euros) face ao mesmo período do ano passado. A estimativa da LSEG apontava para uma receita de 12,72 mil milhões de dólares e um lucro de 1,57 mil milhões de dólares.

A divisão de inteligência artificial, que a empresa passou a designar Super Intelligence (SI), foi a que mais faturou no trimestre. Mas quase todo o lucro operacional continua a vir da divisão de conectividade, onde está a Starlink.

As receitas da SI subiram 830%, para 7,6 mil milhões de dólares (6,78 mil milhões de euros), mais de metade do total. A SpaceX atribui o salto à ativação de novos contratos de serviços de cloud, à compra da Cursor, concluída em agosto, e à maior adoção do Grok por empresas e consumidores. A divisão teve um resultado operacional positivo de 431 milhões de dólares (383 milhões de euros), depois de perder 1,7 mil milhões (1,5 mil milhões de euros) no mesmo trimestre de 2025.

A conectividade faturou 5,2 mil milhões de dólares (+69%) — cerca de 4,6 mil milhões de euros — e quase duplicou o resultado operacional, para 2,4 mil milhões (2,14 mil milhões de euros), cerca de 85% do total da empresa.

A Starlink terminou setembro com 13,6 milhões de subscritores, mais 1,6 milhões do que em junho. No entanto, a receita média por subscritor baixou dos 99 dólares (cerca de 88 euros) em 2023 para os 69 dólares (cerca de 61 euros) neste trimestre, de acordo com a Reuters. A empresa já tinha admitido que a expansão geográfica além dos países mais ricos poderia levar a uma queda desta receita por subscritor ao longo do tempo. Os investidores têm estado atentos para perceber se essa pressão no preço já começou a aparecer à medida que entra em mais mercados internacionais.

Já a divisão espacial, responsável pelos lançamentos, cresceu 6%, para 1,8 mil milhões, mas teve um prejuízo operacional de 7 milhões (6,2 milhões de euros), penalizada pelo investimento no Starship.

Os custos totais duplicaram, de 5,8 (5,17 mil milhões de euros) para 11,8 mil milhões de dólares (10,5 mil milhões de euros). Parte do lucro líquido veio de fora da operação, já que o resultado operacional foi apenas de 2,8 mil milhões (2,5 mil milhões em euros). O investimento também disparou, para 19,6 mil milhões de dólares (17,4 mil milhões de euros) só neste trimestre, a maior parte em centros de dados para a IA.

Os primeiros nove meses do anos

Nos primeiros nove meses do ano, as receitas quase duplicaram (+97%), de 13,7 (12 mil milhões em euros) para 27,1 mil milhões de dólares (24 mil milhões de euros). . A conectividade continua a ser a divisão que mais fatura no acumulado, com 12,8 mil milhões (11,4 mil milhões de euros), embora a SI tenha sido a que mais cresceu.

As suas receitas quase quintuplicaram, para 10,9 mil milhões (9,7 mil milhões em euros). Os custos subiram de 14,9 para 26,4 mil milhões (de 13,3 para 23,5 mil milhões de euros) .

O lucro do terceiro trimestre não chegou para apagar totalmente as perdas do primeiro semestre. Nos nove meses, o prejuízo líquido atribuível aos acionistas encolheu de 2,6 para 1,1 mil milhões de dólares (de 2,3 para 979 milhões de euros) . Só a conectividade teve resultado operacional positivo, de 5,2 mil milhões (4,6 mil milhões de euros). A SI perdeu 3,3 mil milhões (2,9 mil milhões de euros) e a divisão espacial 1,2 mil milhões (1,1 mil milhões de euros).

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André Ventura diz que acampadas foram infiltradas pela extrema-esquerda e acusa PS de “hipocrisia”


O presidente do Chega, André Ventura, acusou esta terça-feira “um conjunto de arruaceiros” de se ter infiltrado nas manifestações pela habitação para “condicionar a atuação do movimento legítimo”. Em declarações aos jornalistas depois da operação policial de retirada dos acampamentos esta madrugada, Ventura afirmou que alguns desses manifestantes estão “diretamente envolvidos com movimentos de extrema-esquerda nacionais e internacionais”.

Para o líder do Chega, “a provocação às forças policiais foi absoluta e incontornável”. Ventura afirmou que jornalistas, partidos e associações dispõem de provas de apelos à violência contra a polícia, à revolução e à desobediência às instituições. Acusou também a comunicação social de “alguma tolerância jornalística”, que, na sua leitura, impediu que estes movimentos fossem descritos como de “vandalização do património público”.

“O país não pode ter tendas e acampamentos montados nos centros das cidades, em clara desobediência daquilo que é a regra vigente, a ordem pública e a capacidade do país estar minimamente organizado. Esta gente não queria isso. Queria desorganização, conflito, provocação”, afirmou.

Ventura saudou as autoridades policiais “pela paciência, pela proporcionalidade, pela educação” com que atuaram durante a manifestações e na retirada das tendas. As críticas mais duras foram para o PS. “A outra parte desta história é meter nas forças policiais o ónus de um problema que PS e PSD deviam ter resolvido nos últimos anos. Ver socialistas à procura de beneficiar desta crise é o maior exercício de hipocrisia dos últimos anos”, acrescentou.

Também o Governo de Luís Montenegro foi visado. A propósito do Orçamento, Ventura defendeu que “não vale de nada ter um Orçamento, e um Orçamento sério, se esse Orçamento não responder ao principal problema das pessoas, o aumento do custo de vida”.

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Moedas critica “vandalismo” e defende atuação da polícia na acampada pela habitação


O presidente da Câmara Municipal de Lisboa (CML) condenou esta terça-feira os atos de “vandalismo” à estátua do rei D. Pedro IV, no Rossio, local onde os manifestantes pela habitação estiveram acampados até à intervenção da Polícia de Segurança Pública (PSP), esta madrugada. Carlos Moedas considerou que a força de segurança “atuou com correção”.

“É um vandalismo de um património cultural que tem 150 anos. Isso não é manifestar. Isso é vandalismo. Isso não pode acontecer na cidade”, reagiu o autarca, em declarações aos jornalistas.

Sobre a operação policial, que terminou com a detenção de 55 pessoas, entretanto constituídas arguidas e libertadas, Carlos Moedas disse ver a situação “com normalidade” e considerou que “a polícia atuou com correção, com proporcionalidade”.

“O direito à manifestação é sagrado e as pessoas estão ali a manifestar e bem. Agora não podem estar a vandalizar, no caso de uma estátua que tem 150 anos, e não podem estar constantemente no espaço público, que é de todos”, sustentou.

Apesar das críticas, o autarca garantiu estar “com as pessoas na sua causas” e lembrou que a autarquia apoiou “quase duas mil pessoas a pagar a renda em Lisboa”. “Agora, temos todos de respeitar a lei”, frisou, acrescentando que “a Câmara está sempre disponível para receber todos”.

Carlos Moedas aproveitou também para criticar os executivos anteriores, liderados pelo PS entre 2007 e 2021. Segundo o presidente da CML, quando chegou à Câmara, em 2021, a cidade vinha de dez anos “parados “. “A ideologia não dá casa a ninguém. Aliás, a ideologia durante dez anos não deu mesmo casa a ninguém. A responsabilidade é de quem não fez”, atirou.

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Media e os dinossauros que estão a “perder as maneiras”


Carlos Eugénio, diretor executivo da Visapress, Nuno Francisco, diretor do Jornal da Fundão, Carlos Rodrigues, diretor-geral editorial da Medialivre, Ricardo Costa, chief product officer do grupo Impresa, James Hewes, consultor estratégico para os media, e Carla Ascenção, moderadora

“O direito de autor é que nos salva.” Para Carlos Eugénio, diretor executivo da Visapress, entidade que gere coletivamente os direitos de autor dos editores de imprensa, este é o mecanismo que permite aos publishers fazer valer os seus direitos no ambiente digital, incluindo no desenvolvimento da inteligência artificial (IA). O problema, descreveu Ricardo Costa, chief product officer da Impresa, é que os “dinossauros” que dominam o mercado, como a Google e a Meta, viram chegar novos rivais e estão a “perder as maneiras e alguns cuidados que tinham”.

O debate “O Futuro dos Media Portugueses – Confiança, Inovação e Sustentabilidade no Jornalismo” foi um dos momentos centrais do Dia Nacional da Imprensa 2026, o encontro anual do setor promovido pela Associação Portuguesa de Imprensa (API), na sexta-feira. Contou ainda com Carlos Rodrigues, diretor-geral editorial da Medialivre, Nuno Francisco, diretor do Jornal do Fundão, e James Hewes, consultor estratégico para os media.

Um planalto com novos dinossauros

Ricardo Costa recorreu a uma metáfora para descrever a mudança sentida nos últimos anos pela indústria. Durante anos, os media viveram num planalto dominado por “grandes dinossauros”, como a Google, a Meta e o TikTok, e iam “tentando comer algumas folhas” que estes lhes deixavam. “Dava para irmos sobrevivendo. Agora há uma alteração estrutural.” Com a chegada da OpenAI e da Anthropic ao mesmo planalto, a disputa pelas receitas publicitárias ganhou novos concorrentes.

É por isso, defende, que as grandes plataformas “estão claramente a perder as maneiras”. “A abordagem jurídica dos últimos meses da Meta e da Google mudou. É claramente mais descarada e mais perigosa.” Os modelos de IA precisam de conteúdos jornalísticos para funcionar, mas as tecnológicas “não pagam, não querem pagar, não vão pagar”.

James Hewes citou um responsável do New York Times, para quem eletricidade, computação, talento e conteúdos são os quatro pilares das plataformas de inteligência artificial, e que a indústria paga “preços incríveis” pela computação e pelo talento. “Não existe nenhum outro produto, em nenhuma indústria, em que uma das partes fundamentais não seja paga.”

As plataformas, sublinhou Ricardo Costa, “não estão fora da lei. Estão sempre à frente da lei”. O responsável da Impresa alertou ainda que às vezes introduzem nos contratos normas que só “um ou dois anos depois” se percebe para que servem.

Carlos Eugénio explica-o assim. “São eles que desenvolvem a tecnologia.” E recordou uma conversa de 2019. Depois de fechado o direito conexo, disse a um interlocutor da Google que o passo seguinte seria falar de inteligência artificial. A resposta foi “nem pensar”. “Em 2020 percebi porquê.”

“No ambiente digital, a única forma que temos de fazer valer os nossos direitos é mesmo o regime do direito de autor”

Carlos Eugénio

diretor executivo da Visapress

O exemplo mais recente chegou na véspera do debate. A Meta alterou, sem aviso, os termos das contas empresariais do Facebook e do Instagram. A redação inicial dos novos termos levantou receios de que a Meta pudesse recolher conteúdos de sites associados a contas empresariais e utilizá-los no desenvolvimento dos seus produtos de IA. “Má-fé pura e dura”, acusou Carlos Eugénio, que disse não ter “palavras para qualificar o quão violenta” é esta política e pediu às instâncias europeias que intervenham.

Ricardo Costa relacionou a mudança com o lançamento do Muse, o assistente pessoal de IA da Meta, e considerou que, para competir com modelos que vê como mais avançados, a empresa “precisa de muitos conteúdos”.

Depois da data do debate, a Meta reviu os termos e retirou a referência explícita ao treino de IA. Ainda assim, a nova redação continuou a suscitar dúvidas sobre a possibilidade de recolha e análise de conteúdos de sites associados a contas empresariais. A empresa contestou a interpretação de que os termos lhe conferiam novos direitos para recolher conteúdos jornalísticos para treinar os seus modelos de IA.

Direitos de autor como solução?

Para Carlos Eugénio, “no ambiente digital, a única forma que temos de fazer valer os nossos direitos é mesmo o regime do direito de autor”, e a IA “tem de cumprir esses requisitos”.

As negociações com as plataformas, porém, mostram os limites desse caminho. O tráfego dos sites noticiosos “vem muito do Google, do Facebook e do Instagram”, lembrou o responsável da Visapress. “O Google ainda paga alguma coisa.” Já a Meta “sempre se recusou a negociar e a pagar o que quer que fosse”. Segundo Carlos Eugénio, a Meta transmitiu aos editores, quando a obrigação legal se aproximou: “Ou nos cedem os direitos de autor gratuitamente, ou deixam de poder publicar e de contar com o nosso tráfego.”

Segundo o próprio, durante as negociações, a Google, que Carlos Eugénio não nomeou — “começa por G e não digo mais” –, ameaçou retirar do motor de pesquisa todos os conteúdos dos editores se não houvesse acordo. Sem um mecanismo de arbitragem regulamentado em Portugal, os editores ficaram “numa posição muito enfraquecida”. “Se tivéssemos um mecanismo de arbitragem, as coisas seriam diferentes e poderíamos ter um valor de direito conexo mais significativo para distribuir.”

Em maio, o Tribunal de Justiça da União Europeia considerou que o direito da União permite um regime como o italiano, que prevê remuneração equitativa para os editores pela utilização online das suas publicações, bem como negociações sem redução da visibilidade dos conteúdos e a intervenção do regulador em caso de desacordo, desde que sejam respeitadas determinadas condições.

Segundo o relatório de transparência de 2025, a Visapress distribuiu nesse ano 247 mil euros de direito conexo. Somando o licenciamento e a compensação equitativa pela cópia privada, incluindo o que ficou por distribuir no segundo semestre, os valores distribuídos aos editores relativos a 2025 chegam a cerca de 1,94 milhões de euros.

Não vou parar o vento com as mãos. O que quero é que tenham as mesmas regras.

Ricardo Costa

chief product officer da Impresa

Gestão, a outra crise?

Mas nem tudo se explica pelas plataformas. Questionado sobre uma frase sua numa entrevista ao +M — “não há crise dos media. O que há é uma crise na gestão dos media“ –, Carlos Rodrigues manteve a provocação.

“Um negócio de media tem de ser gerido de tal forma que tenha mais receitas do que despesas” defendeu, criticando a “ilusão” de quem gere redações à espera dos “amanhãs que cantam”. “Há de vir a grande revolução digital, há de vir a grande revolução das assinaturas.” Mas “essas revoluções nunca chegam, ou, quando chegam, as receitas ficam algures, não necessariamente nos produtores de conteúdos”. O princípio, disse, aprendeu-o com Francisco Pinto Balsemão: “O jornalismo sem dar lucro não pode ser independente.”

Ricardo Costa subscreveu a ideia e lembrou que está inscrita nos estatutos editoriais da Impresa: “A independência económica precede a independência editorial.” Mas deixou um aviso: “Outra coisa é acharmos que as condições económicas e concorrenciais são as mesmas. Não são.” No caso das big techs, essas condições “pura e simplesmente não existem”, argumentou.

“O grande concorrente da SIC hoje não é a TVI”

Para Ricardo Costa, a concorrência desigual sente-se sobretudo na publicidade. “O grande concorrente da SIC hoje não é a TVI, e o grande concorrente da SIC Notícias não é a CMTV.” São o YouTube, o TikTok e a Meta, e em breve a OpenAI, a Anthropic e a Perplexity, “porque disputam publicidade”.

Deu o exemplo do Mundial, transmitido em Portugal também no YouTube, através da LiveModeTV. A Sagres, patrocinadora da seleção, só pode anunciar na televisão a partir das 22h30. No YouTube “pode pôr às dez da manhã, e pode estar a ver uma criança de cinco anos”.

O mesmo acontece com as apostas. Ricardo Costa diz-se a favor da publicidade ao betting legal, mas recusa que haja regras para uns e, “literalmente ao lado”, nenhumas para outros. “Não vou parar o vento com as mãos. O que quero é que tenham as mesmas regras.”

Ricardo Costa defendeu que o Governo deve procurar condições concorrenciais mais equilibradas, adaptar a legislação e criar incentivos à modernização do setor.

“O papel não é um dogma. Não faço papel porque me apetece ou porque acho que a informação impressa fica mais bonita.”

Nuno Francisco

diretor do Jornal do Fundão

A imprensa regional “não tem condições nenhumas”

Nuno Francisco trouxe a outra ponta do setor. O Jornal do Fundão, com 80 anos, foi comprado em 2018 por jornalistas e professores universitários que “juntaram as poupanças”. Hoje, o jornal mantém-se graças a cerca de 5.000 assinantes em papel e a alguns milhares de vendas em banca.

“O papel não é um dogma. Não faço papel porque me apetece ou porque acho que a informação impressa fica mais bonita. Faço-o porque há um público muito recetivo a isso”. Na imprensa regional, notou, “só dois ou três jornais exclusivamente digitais conseguiram vingar”.

O diretor alertou para jornais e rádios locais reduzidos a um único profissional, muitas vezes transformado em “repassador de notas de imprensa”, enquanto os gabinetes de comunicação de autarquias e empresas têm “cinco, seis, sete, oito ou nove profissionais”.

“Se estamos a gastar dinheiro a imprimir e distribuir um jornal feito de notas de imprensa, estamos a contribuir para este círculo vicioso, para a própria degradação da profissão. Ninguém compra um jornal para ler notas de imprensa”, afirmou. “O jornalismo tal como o conhecemos, e como queremos que continue, não pode funcionar nestas condições.”

James Hewes, que acompanhou jornais locais no programa APINext, vê nos conteúdos pagos a principal saída. É, disse, “the only game in town”. Na sua opinião, os jornais locais têm uma vantagem: são marcas conhecidas no concelho e não dependem tanto do tráfego do Google. O primeiro passo é conhecer a audiência. Deu o exemplo de um jornal que julgava ter 2.000 leitores e que poderia chegar a “15 mil ou 20 mil” se contabilizasse também seguidores nas redes sociais e contactos de e-mail. Depois mais facilmente se consegue desenvolver estratégias de conteúdos pagos.

Há mil e um exemplos de restrições à atividade publicitária nos media que estão completamente fora do mundo moderno.

Carlos Rodrigues

diretor-geral editorial da Medialivre

Os apelos ao ministro

Carlos Rodrigues disse não ter tempo para esperar que as grandes tecnológicas mudem, pediu às instituições europeias que “deixem de ser anãs” e preferiu deixar ao ministro da Presidência, António Leitão Amaro, presente na sala, “pequenos passos” concretos.

O primeiro é a revisão da lei da publicidade. É “de tal forma urgente” que, se estivesse no lugar do ministro, seria “provavelmente essa a minha missão principal”. Admitiu, contudo, que a resistência será grande, por causa de uma mentalidade “conservadora” nos media, nas associações, nos sindicatos e no regulador “que, só de falar nisto, acredito que sobretudo um governo minoritário tenha logo dificuldade”. “Há mil e um exemplos de restrições à atividade publicitária nos media que estão completamente fora do mundo moderno”, argumentou.

Pediu ainda que se conclua rapidamente o processo de contratualização da distribuição de jornais. Defendeu também uma abordagem mais transparente à contratualização pública dos media. Hoje, quando um jornal organiza uma conferência com uma câmara municipal ou associação, “é aqui d’el-rei, que estamos a violar os princípios fundamentais do jornalismo”. “Se a inteligência artificial não acaba com o mundo, ai de certeza que aquela conferência vai acabar, porque põe em causa a independência jornalística”, ironizou.

Para Carlos Rodrigues, isso é “obsoleto”, pedindo uma intervenção legislativa “para que isto seja mais transparente e mais possível. Porque hoje em dia é uma via muito importante de viabilização dos media”. Pediu também a revisão da fatura que os grupos privados pagam à Lusa, “pesadíssima” no caso da Medialivre.

Sobre o Amália, o modelo de linguagem artificial do Estado, deixou um alerta: pagar pouco aos editores pelos conteúdos criaria um precedente junto das multinacionais. “Se vocês venderam ao Amália por dez réis, porque é que pedem à Google 3 milhões?”

Carlos Eugénio pediu ao ministro que lute em Bruxelas contra o regime de opt-out no digital — “uma total inversão daquilo que é a lógica do direito de autor” e “uma aberração que só prejudica todo o ecossistema”.

Defendeu ainda a revisão do Código do Procedimento Administrativo, argumentando que deixou de obrigar os organismos públicos a publicar decisões e contas nos jornais, o que, segundo ele, retirou receitas à imprensa e tornou o sistema menos transparente. Saudou também a lei aprovada nesse dia no Parlamento, que obriga as autarquias a publicar as suas deliberações na imprensa regional e local: “É um passo.”

Na intervenção de encerramento, o ministro António Leitão Amaro anunciou medidas em algumas das áreas discutidas. O Governo prepara um novo código da publicidade, assim como descontos de até 90% nos serviços da Lusa a partir de 2027, e está em negociações para que o Amália passe a utilizar conteúdos dos media em tempo real, mediante acordo de pagamento.

A fechar, James Hewes deixou uma nota otimista. Comparado com outros mercados europeus onde trabalha, o português tem “um grande talento”, confiança nas marcas noticiosas e uma pluralidade “impressionante”. “Vocês devem fazer passar isso lá para fora.”

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A vender o local sem traduções, Filipe Bonina, da Octant Hotels, na primeira pessoa


Filipe Bonina, diretor de marketing da Octant Hotels

“Nunca comunicamos nada que não estejamos absolutamente convencidos de que é verdadeiro. Se acharmos que a verdade que temos não é suficientemente interessante para o consumidor, significa que temos de desenvolver mais o nosso produto.” É assim que Filipe Bonina, diretor de marketing da Octant Hotels, traduz em conversa com o +M como o conceito “Local Kind of Luxury” é aplicado no marketing.

Este conceito esteve na base da criação da Octant em 2022 pelo grupo de gestão hoteleira Discovery Hotel Management (DHM). A marca reuniu hotéis que já existiam e que “estavam falidos, basicamente” antes de serem recuperados. O grupo nunca construiu um hotel de raiz para a Octant. No entanto, faltava uma base comum para vários locais, com conceitos e arquiteturas diferentes. Um dos focos foi o localismo. “Queremos ser o melhor hotel para se estar e para se conhecer cada uma das regiões onde estamos.”

Por trás está uma leitura do que procura quem viaja. “Na hospitalidade temos o dever de defender aquilo que é verdadeiro. Vivemos numa época em que estamos rodeados de ilusões. Em momentos de lazer sobretudo, há uma tendência muito forte para as pessoas procurarem coisas de verdade, ou seja, saberem que aquilo que lhes é proposto e oferecido realmente tem uma base e uma raiz que é absolutamente verdadeira “, defende.

“Em Portugal, temos a mania de traduzir tudo. Os hóspedes que tentamos cativar gostam da verdade”

Filipe Bonina admite que “todos os dias” são tentados a fugir do localismo, mas que a persistência tem permitido “evoluir para cada vez mais ter este posicionamento concretizado”. O posicionamento é o mesmo quer para o mercado nacional, quer para o internacional. “Desde a raiz daquilo que produzimos, temos sempre a preocupação de ter uma mensagem e também formatos que se apliquem a todos os mercados em que estamos presentes”, nota.

Nos restaurantes dos hotéis, o conceito passa por produtos e receituário locais. “Não somos absolutamente rigorosos nisso, porque achamos que podemos, dentro da tradição gastronómica portuguesa, também apresentar a um hóspede estrangeiro pratos de outras regiões do país e, portanto, não vemos isso como uma falha no posicionamento”.

A aposta no local levou a marca a criar o “Como em Casa”, iniciativa que convida habitantes das localidades onde estão os hotéis a preparar refeições para os hóspedes, com base na cozinha da região. O nome nunca foi traduzido, nem nos Estados Unidos (EUA). “Limito-me a imitar os italianos que toda a gente adora e que, por exemplo, nunca traduzem nada para ninguém. Em Portugal, temos a mania de traduzir tudo. Os hóspedes que tentamos cativar gostam da verdade, não gostam de chegar a um sítio e de repente perceber que andaram a tentar imitar aquilo que eles têm em casa”, argumenta.

Nos vídeos, as cozinheiras falam em português, com legendas para os mercados estrangeiros. “Mostramos pessoas que vão encontrar se vierem a Évora. Isto cria uma comunicação quase documental que acreditamos que é valorizada hoje em dia”. O formato também tem resultado. Foram feitas peças de cerca de 30 segundos, uma por hotel, e no YouTube mais de 80% das pessoas viram-nas até ao fim, segundo dados da marca. “A questão não é se é curto ou se é longo. Quando estamos a expor uma peça, estamos também a entreter as pessoas, para além de estarmos obviamente a apresentar-nos como produto. Se somos suficientemente interessantes, a peça até pode ter 5 minutos. Claro que o esforço é muito maior”, considera.

A lógica do localismo aplica-se às experiências, cada vez mais importantes num país que “vendia basicamente turismo de sol”, em que as pessoas iam à praia “e depois iam todas vermelhas para casa, mas felizes”. Com mais investimento em destinos menos óbvios e do interior, é preciso “oferecer mais profundidade na estadia”, defende. O risco, alerta, é acabar “num catálogo de milhares de experiências, todas assim mais ou menos”.

No caso da Octant, têm procurado o contrário, de forma a que o hóspede diga “só aqui é que eu poderia ter tido esta experiência ou nunca tinha visto isto”. Exemplos dados por Filipe Bonina passam, no Octant Douro, por passeios no rio num barco rabelo reconstruído, assim como por um festival dedicado à região que celebrou o rio “desde a nascente até à foz”. Quando o mercado começa a imitar, considera que o caminho passa por “continuar a imaginar coisas para estarmos sempre um bocadinho à frente”.

Quatro anos depois do lançamento, a prioridade é consolidar. A Octant começou com oito hotéis e passou para seis, deixando cair unidades mais pequenas que “teriam alguma dificuldade em acompanhar o ritmo de crescimento pretendido”. A expansão virá depois, quando todos os hotéis atuais chegarem ao nível desejado, e é “muito improvável” que passe por outros hotéis que já pertencem ao grupo.

Consolidar passa também por melhorar os hotéis atuais. As expansões deste ano no Octant Praia Verde e no Octant Vila Monte, este último onde as obras ainda decorrem, têm sido divulgadas aos poucos, para “não parecer só uma coisa bang que aconteceu”. Este verão, o foco esteve sobretudo no Praia Verde, um hotel que “depende muito da época alta” e onde a marca queria arrancar bem.

Para ganhar o foco na consolidação, a estrutura acionista decidiu em fevereiro “autonomizar” a marca. “Foi uma espécie de spin-off”, que abrangeu os departamentos top line como o marketing, o revenue e as vendas. A nova entidade partilha alguns serviços com o grupo, mas opera de forma independente. Filipe Bonina, até então diretor de marketing da DHM, ficou só com a Octant, e Cláudia Silva, que fazia parte da equipa, passou a dirigir o marketing do resto do negócio.

Com a autonomia, Filipe Bonina ganhou tempo para o detalhe. “Uma marca de luxo de hospitalidade precisa de detalhe”, defende. Passou a visitar mais os hotéis e a observar “como os hóspedes atuam, o que é que pensam de nós, o que é que encontram de bom e mau”. Longe do dia a dia de um portefólio que incluía campos de golfe, a equipa pode concentrar-se na estratégia e nos projetos para o futuro das seis unidades, “de uma forma muito criteriosa e muito detalhista”.

“Sentimos que muitas vezes éramos viciados para aquilo que é a nossa realidade e não para a compreensão do mercado internacional”

A equipa de marketing é composta no total por seis pessoas. Dois marketing managers ligados aos hotéis, que fazem a estratégia da marca e de cada unidade e trabalham com as agências. Depois uma pessoa dedicada à produção e ao desenvolvimento de experiências. “Esta é a pessoa que, depois da ideia estar concretizada, tem de a produzir e garantir que vai para o ar.” Há ainda a responsável pelas relações públicas e marketing de influência (Ana Stilwell) e um responsável pela gestão e desenvolvimento do ecossistema digital.

O marketing de influência é feito internamente, sem parceiro externo, com “uma curadoria muito grande” dos perfis convidados. “Queremos garantir que mantemos alguma genuinidade naquilo que é a experiência que depois passamos também para fora e que não é uma coisa construída artificialmente”. As peças de que mais gosta são aquelas em que se percebe que as pessoas “foram para um hotel nosso com os filhos e estão, de facto, a partilhar um fim de semana bem passado”.

A rede de parceiros segue uma lógica entre o local e o internacional. Na criatividade, a mais recente é a holandesa KesselsKramer, escolhida pela experiência em hospitalidade e em mercados externos. “Estamos em Portugal mas estamos a vender uma parte importante do nosso produto para o estrangeiro. Sentimos que muitas vezes éramos viciados para aquilo que é a nossa realidade e não para a compreensão do mercado internacional. Portanto, encontrámos uma agência que tem esta experiência de trabalhar neste tipo de negócios”.

Na comunicação, há uma agência por mercado. A Burson em Portugal, a Laura Davidson Public Relations nos EUA, a Sauce Collective no Reino Unido e a IMS Consulting em Espanha, que cobre também a Europa Central. A marca conta ainda com as agências criativas Experimenta Studio e Poets & Painters — esta também no design –, a agência digital Voilà Maison, o designer Diogo Potes, a produtora Tendência Fidalga, de Afonso Sousa, as agências de eventos H2N e Lohad e a fotógrafa Joana Freitas.

“Quando vendemos um produto de hospitalidade, estamos a pedir às pessoas não só dinheiro, mas também o seu tempo de lazer, que é um bem muito escasso”

O passado no grande consumo

Filipe Bonina chegou à hotelaria depois de passar muitos anos no grande consumo, em empresas como a Unilever, a Kellogg, a Coca-Cola e a Central de Cervejas e Bebidas. “Estou sempre a dizer que é a primeira vez que eu trabalho numa coisa que não se mete dentro de uma embalagem”, brinca. Precisava de “uma experiência nova” e encontrou uma indústria numa fase “muito divertida para quem trabalha nela”, a passar de um setor “muito tradicional, muito familiar” para um que”se está a sofisticar e a crescer”.

Questionado sobre o que trouxe do grande consumo, responde sobretudo com o que mudou. Na hotelaria, nota, a valorização do produto e da experiência é “muito profunda”, e as críticas, boas ou más, são “sempre muito efusivas”. A razão, acredita, está no que se pede ao cliente, e ajuda a explicar a regra com que a marca comunica.

“Quando vendemos um produto de hospitalidade, estamos a pedir às pessoas não só dinheiro, mas também o seu tempo de lazer, que é um bem muito escasso. A maior parte de nós tem 22 dias de férias por ano”. Por isso, diz, o marketing tem de ser “mais responsável do que em qualquer outro setor” onde trabalhou. “É muito errado iludir as pessoas. Isso tem um preço e paga-se rapidamente em pouco tempo”.

E dá um exemplo: “Na Coca-Cola era bom a bebida estar fresca, mas se um dia não está, gastámos dois euros e passados cinco minutos já não nos lembramos. Uma experiência má de hospitalidade, nunca mais somos visitados por aquelas pessoas.”

Para ser um bom profissional de marketing, defende, bastam senso comum, disciplina e criatividade. Não é preciso “nenhuma formação muito específica nem excecional”. “O marketing é para parvos”, brinca. O senso comum, ressalva, é “uma coisa muito difícil de alimentar e de produzir”. Já a criatividade “alimenta-se e cria-se a viver”.

“Viver significa estarmos expostos à atividade cultural, ao dia a dia das pessoas e que não sejam só as pessoas da nossa bolha privada. Compreendermos realidades que estão para além da nossa”, exemplifica.”Quando se passa de um bom marketeer para um marketeer excecional, é esta a parte que faz a maior diferença — perceber que a nossa vida não é um espelho da humanidade nem das pessoas que queremos impactar”, resume.

No seu caso, ajudou ter passado por várias empresas e países — exemplo dos anos em Madrid pela Coca-Cola –, mas sobretudo a curiosidade. “Há pessoas que já estiveram em mais de 50 países e que os viveram muito pouco.” Em Madrid, foi aos sítios onde os bailarinos de flamenco vão depois dos espetáculos e aos restaurantes mais populares, “não apenas aos Michelin e recomendados”. “É importante depois também desligarmo-nos um pouco de preconceitos e estarmos abertos para criarmos amizades com pessoas que são diferentes de nós. Isso depois também nos leva para outras dimensões e para outros sítios“, nota.

Outro ponto de inspiração podem ser os transportes públicos. “É um local de observação muito bom de comportamentos. Para percebermos como é que as pessoas estão, o que querem, procuram, atuam, o que falam”. “Acho que nos transportes públicos se calhar nunca tive nenhuma ideia, mas acho que alimentei o meu subconsciente com esses momentos.” As ideias, essas, surgem-lhe a conduzir.

Fora do trabalho, vive na Ajuda, em Lisboa, “e não é num palácio”, brinca. Gosta de cinema, de ir ao Estádio da Luz ver o Benfica e de desfrutar de vinho e queijo. “Costumo dizer que ninguém é infeliz enquanto está a beber vinho e a comer queijo.”

No seu dia a dia, faz questão de que todas as semanas haja “coisas divertidas e ligeiras” para fazer, e deixa um conselho.”Não vivam para as férias. Depois, quando forem de férias, podem vir para os Octant, mas até lá alimentem a vida todos os dias com coisas divertidas e boas”.

Esse tipo de atitude, acredita, “faz com que não estejamos ansiosos no último dia de férias quando vimos trabalhar, porque não vai ser assim tão mau. Nem as férias são tão boas como às vezes imaginamos, nem os dias de trabalho tão maus como às vezes os percebemos. A vida tem de ser levada com alguma ligeireza”.

Filipe Bonina em discurso direto
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Que campanhas gostava de ter feito/aprovado? Porquê?
A nível nacional, a da marca Olá, na primeira campanha de Inverno, que mostrava um vendedor de gelados a caminhar e a apregoar gelados numa praia deserta e que assinava “nos locais habituais”. A nível internacional, a campanha da Patek Philippe: “Você nunca possui realmente um Patek Philippe. Você apenas cuida dele para a próxima geração.” A razão para ambas as escolhas deve-se à clareza e à simplicidade com que expõem o posicionamento de longevidade e justificam a compra.
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Qual é a decisão mais difícil para um marketeer?
Abandonar um caminho. Ter a capacidade para reconhecer que algo que lançámos não funciona e que tem de ser retirado ou transformado.

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No seu top of mind está sempre?
Ser diferente.
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O briefing ideal deve…
Ser como uma boa anedota: curto e claro, sem necessidade de explicação. Se assim for, o resultado final também será assim.

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E a agência ideal é aquela que…
Que nos desafia, que entrega diferença e que tem um bom serviço.

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Em publicidade é mais importante jogar pelo seguro ou arriscar?
Arriscar.

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O que faria se tivesse um orçamento ilimitado?
Demitia-me e procurava uma empresa que precisasse de mim.
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A publicidade em Portugal, numa frase?
Cheia de medo. Culpa de clientes e agências.

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Construção de marca é?
Coragem e persistência.
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Que profissão teria, se não trabalhasse em marketing?
Dono de uma gelataria.

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Governo prepara novo código com menos regras para a publicidade. “Vai haver viúvas”


O Governo está a rever as regras da publicidade e prepara um novo código que pretende “reduzir ao ponto de partida, com condensação, atualização e modernização de todas as principais leis do setor”. O anúncio foi feito por António Leitão Amaro, ministro da Presidência, no Dia Nacional da Imprensa 2026, o encontro anual dos media portugueses promovido pela Associação Portuguesa de Imprensa (API).

“Estamos a reduzir, era o ponto de partida, com condensação, atualização e modernização de todas as principais leis do setor e, evidentemente, a abolição de todas aquelas barreiras, por mais bem intencionadas que fossem”, afirmou.

E deixou um aviso. “Quando a proposta do código sair, vai haver viúvas, vão existir viúvas das leis anteriores e da limitação para isto e para aquilo. Há viúvas e viúvos porque vamos optar por, na desregulamentação de algumas destas limitações, acreditar na liberdade e confiar nos meios”, explicou.

Leitão Amaro deu como exemplo as restrições de horário e de tempo de publicidade na televisão e na rádio, que desaparecem quando o mesmo conteúdo é visto numa aplicação. “Hoje já nem é no sítio ao lado, é na mesma televisão. Ando para as aplicações e entro ali e desapareceu a restrição”, disse. “Mas isto é só a primeira camada.”

A segunda, explicou, é a publicidade dirigida. “Porque é que a publicidade está a fugir? Porque a publicidade nas plataformas é dirigida, é customizada para quem a vê”, argumentou. “Se conseguirmos permitir que os meios de comunicação social façam a mesma utilização da tecnologia, ou equivalente, para utilizar a publicidade dirigida, o preço dispara.”

O ministro recordou, “com muita cautela” e “por respeito institucional”, a decisão da Autoridade da Concorrência que pôs fim à Playce, a ferramenta de publicidade dirigida nas boxes de televisão.

“Uma decisão da Autoridade da Concorrência deitou abaixo um instrumento que as televisões e as operadoras de cabo tinham encontrado e que valia, pasme-se, no ano em que foi destruído, 20 milhões de euros de publicidade. Neste ano estávamos a começar a caminhar para 30”, afirmou. O novo código, defendeu, deve “criar condições” para que os meios possam “aproveitar tecnologicamente as possibilidades” e tornar esse valor “apropriável”.

“Podemos fazer, por intervenções legislativas, um desencadear de receitas que podem ajudar muito. As regras da publicidade são um exemplo”, sublinhou.

Uma decisão da Autoridade da Concorrência deitou abaixo um instrumento que as televisões e as operadoras de cabo tinham encontrado e que valia, pasme-se, no ano em que foi destruído, 20 milhões de euros de publicidade.

António Leitão Amaro

Ministro da Presidência

Amália já em negociações com comunicação social

No apoio à transição digital, o Governo está “a olhar seriamente para o tema da criação das condições de arbitragem necessárias” nas negociações entre os media e as plataformas. E quer dar o exemplo com o Amália, o modelo de linguagem do Estado.

Leitão Amaro contou que, no início do verão, perguntou em Conselho de Ministros quanto é que o Amália pagava aos órgãos de comunicação social. A resposta foi “nada”. Com base num parecer jurídico, o modelo limitava-se a usar conteúdos com mais de dois anos, que não estariam assim protegidos por direitos. O Governo já iniciou conversações com os media para que o Amália passe a ir buscar conteúdos em tempo real “se e apenas se” houver um acordo de pagamento, com termos comerciais, regras de transparência e de referenciação dos conteúdos. O preço será calculado de forma objetiva, em função do tráfego de cada meio. O objetivo é que sirva de exemplo nas negociações bilaterais de cada órgão de comunicação social com as plataformas.

O ministro anunciou também a retoma da linha de apoio à digitalização de arquivos, criada em 2023-2024, e alargada agora ao tratamento de bases de dados.

Lusa até 90% mais barata

Leitão Amaro destacou ainda a verba de até dois milhões de euros prevista no Orçamento do Estado para a Comissão da Carteira Profissional de Jornalista, destinada a “financiar todas as atividades de autorregulação, que podem ir desde o funcionamento normal da Comissão da Carteira até funções novas”, como a formação, a capacitação e a modernização tecnológica dos jornalistas.

Sobre a Lusa, revelou que, a partir de 1 de janeiro de 2027, os órgãos de comunicação social vão ter descontos que “atingem 90% do que é hoje a cobrança da Lusa”, com uma verba de dois milhões de euros inscrita o Orçamento do Estado.

Quanto ao concurso de apoio à distribuição de publicações, o relatório final deverá sair na próxima semana. “Ambos [os concorrentes] colocaram muitas questões sobre a proposta do outro e pedi que houvesse o escrúpulo máximo, exigência máxima, avaliação máxima de todas as observações, para que não subsistam dúvidas nenhumas sobre a integridade da decisão”, explicou. “Quisemos lançar um processo que descobrisse o preço certo e não uma renda pedida”, acrescentou.

Para as rádios, o ministro referiu o apoio extraordinário de 500 mil euros às estações que tiveram retransmissores destruídos pelas tempestades do início do ano e uma verba de 23 milhões de euros no Orçamento para financiar a resiliência da rede de rádio. “São mais de 23 milhões de euros disponíveis para financiar a resiliência da rede de rádios nacionais”, destacou.

Apoio aos órgãos de comunicação locais

O Governo fixou esta sexta-feira uma dotação de mais de 1,4 milhões de euros para o Regime de Incentivos do Estado à Comunicação Social.

O despacho conjunto do Ministro da Presidência, do Ministro de Estado e das Finanças e do Ministro da Economia e da Coesão Territorial fixa, de acordo com o Governo, em 1.417.639,71 euros a dotação para 2026. Segundo o comunicado, o valor representa um aumento de 45,4% face a 2025. O despacho será publicado em Diário da República no início da próxima semana.

No ano passado, o montante total de apoios a atribuir foi de 955.062,45 euros para Portugal Continental, a que se juntaram, numa portaria separada, 19.998 euros para a comunicação social madeirense. Os Açores ficaram de foram destes incentivos, por não terem sido recebidas candidaturas consideradas elegíveis. Os 45,4% avançados pelo Governo parecem resultar da soma destes dois valores. Se a dotação de 2026 disser respeito apenas ao Continente, como o despacho do ano passado, o aumento é de 48,4%.

Os apoios destinam-se a promover a modernização tecnológica, o desenvolvimento digital, a acessibilidade, as parcerias estratégicas e a literacia e educação para a comunicação social, “reforçando a capacidade dos órgãos de comunicação social regionais e locais para responder aos desafios do setor”, explica o executivo.

Divulgação das decisões autárquicas nos media avança

A Assembleia da República aprovou esta sexta-feira, em votação final global, a proposta do Governo que altera o Regime Jurídico das Autarquias Locais. Votaram a favor PSD, Chega, PS, IL, Livre, CDS-PP, BE, PAN e JPP e o PCP absteve-se.

A lei obriga as autarquias a divulgar as suas deliberações na comunicação social regional e local. A obrigação já estava prevista na legislação desde 2013, mas nunca foi regulamentada nem aplicada. O novo texto alarga-a aos meios digitais e define que a regulamentação tem de ser aprovada nos 60 dias seguintes à publicação da lei, que entra em vigor 90 dias depois de publicada.

Durante a sua intervenção no evento, Leitão Amaro acusou PS e Chega de terem retirado a norma que considerava central. “À última hora, havia uma regra mais importante, sagrada de todas: a deliberação autárquica não produz efeito se não for publicitada na comunicação social. Isto, pelas nossas contas, representava muito mais que o porte pago em termos de consumo público. Hoje, o PS e o Chega juntaram-se para retirar essa norma da lei.” E prometeu: “Vou continuar a tentar.”

O novo regime prevê a divulgação obrigatória de um resumo “deliberações dos órgãos autárquicos colegiais destinadas a ter eficácia externa” em meios de comunicação social regionais ou locais, em suporte impresso e digital. O mesmo vale para atos que determinem contratos públicos acima do limiar do ajuste direto, “quando produzam efeitos externos e envolvam a realização de despesa pública”.

Para serem elegíveis, os meios têm de acompanhar com regularidade a atualidade do município ou da freguesia em questão. Os jornais impressos não podem ser gratuitos, têm de sair pelo menos uma vez por mês e têm de estar entre os seis de maior circulação no município. Os digitais têm de ser atualizados todos os dias. Os sítios de internet das rádios regionais e locais são igualmente abrangidos, “com exceção das rádios que apenas façam retransmissão de outros serviços de programas”.

Se o concelho tiver apenas um meio elegível, a divulgação deve ser feita nesse meio. Se tiver vários, as autarquias devem alternar entre eles, com base nos critérios que vão ser definidos. Se não tiver nenhum, deve-se recorrer a um “órgão regional ou local de município limítrofe, de âmbito intermunicipal ou metropolitano, de âmbito regional ou de âmbito nacional”.

As tabelas de referência serão fixadas todos os anos por portaria dos membros do Governo responsáveis pela comunicação social e pela administração local. Antes disso, o Governo terá de ouvir as associações do setor e mediante parecer, no prazo de 20 dias úteis, da Associação Nacional de Municípios Portugueses (ANMP), da Associação Nacional de Freguesias (ANAFRE) e da Associação Nacional das Assembleias Municipais (ANAM).

Se o preço proposto por um meio local exceder o valor constante da tabela, a autarquia deve promover a publicação, “em cada modalidade, em órgão de comunicação social de município limítrofe, de âmbito intermunicipal ou metropolitano, de âmbito regional ou de âmbito nacional”. Se todos propuserem um valor superior, o órgão municipal e de freguesia fica dispensado da publicação, “devendo justificar documentalmente essa decisão”.

A legislação prevê ainda a avaliação da aplicação do regime e a previsão de verbas nos Orçamentos do Estado para fazer face aos encargos adicionais das autarquias.

“É uma notícia que a API saúda de forma muito particular, depois de mais de 12 anos de espera pela publicação efetiva deste regime”, afirmou Cláudia Maia, presidente da Associação Portuguesa da Imprensa (API), na abertura do evento e destacou que o trabalho na especialidade “acolheu várias das preocupações e propostas” da associação.

Ainda assim, a presidente da API deixou um aviso: “A aprovação da lei não encerra este trabalho. Pelo contrário, começa agora a fase decisiva da sua execução. Durante mais de 12 anos, uma obrigação prevista na lei ficou sem aplicação efetiva por falta de regulamentação. Não podemos permitir que a história se repita.” A associação pediu que a verba prevista para cobrir os encargos das autarquias tenha “tradução efetiva e atempada no Orçamento do Estado de 2027, para que a falta de recursos não volte a ser um obstáculo à aplicação da medida”.

Histórico

Tal como nota o Plano de Ação para a Comunicação Social, o Regime Jurídico das Autarquias Locais (RJAL) ainda em vigor já obrigava a publicitar, nos jornais regionais e locais, todas as deliberações e decisões com eficácia externa. No entanto, “esta norma é claramente desproporcionada ao nível da sua exigência e complexidade. Assim, esta norma do art.º 56º da Lei n.º 75/2013, de 12 de setembro, nunca foi regulamentada e, por isso, nunca implementada”, lê-se no documento.

De forma a resolver esta questão, o Governo havia promovido na legislatura anterior uma revisão da mesma, tendo sido aprovada na generalidade em outubro de 2024. Foi até a primeira proposta do plano de ação para os media a ser aprovada. A medida estava já a ser discutida na especialidade, mas acabou por cair com a queda do Governo em março de 2025.

Em janeiro de 2025, num parecer sobre essa versão, o Conselho Regulador da Entidade Reguladora para a Comunicação Social (ERC) avisava que a proposta podia “não ser eficaz” e que continha “formulações imprecisas e equívocas”.

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Pod_Scope: Observador mantém liderança nas marcas em setembro, apesar de recuperação da Renascença


Os podcasts produzidos em Portugal auditados pelo ranking Pod_Scope, serviço da Marktest para a medição técnica, auditada e independente, registaram cerca de 10,2 milhões de downloads no mês de setembro, uma recuperação de 41,5% face aos 7,21 milhões registados no mês de agosto. O valor representa mesmo assim o segundo registo mais baixo do ano.

A liderança dos publishers continua nas mãos do grupo Impresa, que registou 3,38 milhões de downloads mensais, cerca de 846 mil downloads semanais e 485 mil listeners semanais.

Logo a seguir, o Observador mantém-se no segundo lugar, com 2,53 milhões de downloads mensais. Já o Grupo Renascença regista 2,18 milhões, não conseguindo recuperar o segundo lugar perdido em agosto. A Bauer Media mantém-se no quarto lugar, com 1,42 milhões de downloads e a RTP no quinto lugar, com 687 mil. Esta ordenação mantém-se tanto nos downloads semanais como nos listeners semanais.

Analisando por marcas, o Observador mantém-se na liderança, obtida em agosto, com 2,53 milhões de downloads mensais. A Renascença recupera, ultrapassando o Expresso, mas não o suficiente para voltar ao lugar cimeiro de julho. Em setembro, a marca do Grupo Renascença Multimédia alcançou 2,08 milhões de downloads e a marca da Impresa registou cerca de 1,55 milhões.

A Rádio Comercial mantém-se no quarto lugar, com quase 1,3 milhões de downloads. A SIC Notícias fecha o top cinco com cerca de 1,27 milhões de downloads.

No universo de 25 marcas analisadas, 14 viram os seus números mensais aumentar em setembro, 10 desceram e uma ficou igual, a Cidade FM, com exatamente 856 downloads nos dois meses. Em agosto tinham sido 22 marcas em queda. A RTP Notícias registou um crescimento de 131,8% — de 5.105 downloads para 11.834 downloads. Tal permitiu à marca subir de 16.º para 13.º, alcançando a maior subida de posições do mês.

O “top 3” – Observador, Renascença e Expresso – continua a reunir a maioria da quota de mercado, representando 60,46% dos downloads entre as marcas analisadas.

No que toca aos listeners semanais – dispositivos/apps conectados à internet que efetuaram downloads de podcasts entre 31 de agosto e 27 de setembro –, o Observador mantém a liderança, com 288 mil. O Expresso mantém-se no segundo lugar — com 250 mil — e a Renascença recupera para o terceiro lugar — com 218 mil –, não conseguindo ainda voltar ao lugar cimeiro que ocupava em julho. A SIC Notícias cai assim do terceiro para a quarta posição — com 208 mil — e a SIC mantém o quinto lugar, com 109 mil.

No mês anterior, recorde-se, o pódio era ocupado por Observador, Expresso e SIC Notícias, por esta ordem.

Nos formatos individuais, o “Extremamente Desagradável”, da Rádio Renascença, manteve a liderança com o maior número de downloads mensais — quase 1,6 milhões, tendo sido lançados 15 episódios. “O Homem que Mordeu o Cão” – Rádio Comercial – mantém-se no segundo lugar, com 865 mil downloads mensais e novos 19 episódios. O “Expresso da Manhã” (Expresso) também mantém o terceiro lugar, com 278 mil e 24 novos episódios, face aos 305 mil registados e 25 novos episódios em agosto.

Em conjunto, estes três títulos representaram 26,84% de todo o consumo deste formato nos grupos auditados.

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“A rádio só este ano vai finalmente recuperar valores de investimento publicitário pré-pandemia”


O investimento publicitário em rádio deverá recuperar este ano os valores pré-pandemia, antecipou ao +M Vítor Dourado, chief investment officer da Havas Media Network Portugal, à margem da segunda edição do (re)THINK MEDIA, que teve como tema “Áudio: de meio ‘de fundo’ a meio de intimidade” — após uma primeira edição focada na televisão e Connected TV.

O meio rádio regista atualmente um crescimento a dois dígitos, à semelhança do exterior, enquanto a televisão linear cresce a um dígito.

“De todos os meios, a rádio foi aquele que demorou mais tempo a recuperar pós-pandemia. Enquanto todos os outros meios em dois/três anos conseguiram recuperar níveis de investimento anteriores a 2020, a rádio só este ano é que vai finalmente, pelas contas que temos e pelo forecast que é possível fazer neste momento, recuperar valores anteriores pré-pandemia“, explicou.

Sendo “o último meio a recuperar” os níveis de 2019, Vítor Dourado explica que esta recuperação mais lenta esteve relacionada com as necessidades pós-pandemia das marcas. Na sua visão, os orçamentos foram direcionados para o regresso aos eventos e ações de rua, bem como pelo “boom extraordinário” do consumo de vídeo e streaming durante a pandemia e a sua continuação nos anos seguinntes. Ainda assim, ressalva o responsável, a rádio mantém-se como um meio “muito dinâmico, inovador” e de forte intimidade com o público.

Vítor Dourado destaca ainda que “o investimento do meio exterior em Portugal tem uma fatia muito superior àquilo que é a média no mundo e isso afeta depois a quota que vai caber a todos os outros meios”.

Quanto aos novos formatos de áudio, como os podcasts, o investimento das marcas continua a ser “mais lento do que a evolução do próprio consumo”. Uma realidade que Vítor Dourado justifica com a cautela das marcas, que preferem analisar a consolidação destas tendências antes de avançarem com investimentos mais expressivos.

O valor do áudio na era da inteligência

No primeiro painel, sobre o tema “O valor do áudio na era da inteligência”, Rudolf Gruner, diretor-geral do Observador, explicou como a tecnologia é utilizada no grupo para transcrição de podcasts, sound design — criação ou procura de efeitos sonoros — , tradução noutras línguas e criação de vídeos a partir de videocasts.

Com uma publicação de 50 podcasts por dia, Rudolf Gruner frisou que a transcrição automática resolve a invisibilidade do formato nas pesquisas online. Sem isso, “do ponto de vista da internet significa que o podcast não existe”, destacou, acrescentando que “a partir do momento em que temos a transcrição feita, todo o arquivo passa a estar indexado”.

Outra das vertentes que abordou na sua apresentação foi a utilização da inteligência artificial para replicar a voz da radialista Maria João Simões — com a sua autorização — de forma a ser utilizada para ouvir artigos do jornal. Apesar dos avanços tecnológicos, sublinhou que a vertente emocional, de investigação, de escrita e conversa continua a ser estritamente humana.

Na mesma linha, Rebecca Attali, do Spotify, definiu a IA como “uma extensão da criatividade humana”. “Se a usarmos a nosso favor, percebemos que está provavelmente a trazer mais oportunidades e possibilidades do que propriamente a tirar-nos coisas. Pensem numa grande ideia que pudessem ter no passado. Se quisessem criar uma variação diferente ou até traduzi-la para vários idiomas, tinham de pensar no custo, nos recursos, em quantas pessoas teriam de trabalhar nisso. Hoje, com a IA, é muito mais fácil”, argumentou.

A plataforma conta com 3,4 milhões de utilizadores na versão com anúncios em Portugal, que utiliza maioritariamente o smartphone (77%) para aceder o serviço e cuja franja de idades com maior expressão é entre os 25 e os 34 anos (35%).

De acordo com estudo The Sound On Era, que envolveu cinco mil participantes, 105 anunciantes e 30 especialistas da indústria, 70% dos anunciantes concorda que o áudio captura a atenção de forma mais efetiva do que outra rede social. O estudo destaca ainda que dois em cada três concordam que os anúncios de áudio são mais eficazes a alcançar os consumidores quando eles estão altamente recetivos, quando comparado com outras plataformas visuais ou redes sociais.

A credibilidade foi o eixo central da intervenção seguinte. Domingos Andrade, administrador da Notícias Ilimitadas, destacou o papel da TSF, cuja audiência se concentra em 70% na classe média-alta e alta, defendendo a construção de um ecossistema assente na reputação.

“A TSF que hoje estamos a construir não é uma tentativa de regressar ao passado. Pelo contrário, o que tornou a TSF relevante é confiança, a proximidade, a reportagem, a capacidade de explicar o que está a acontecer, sendo que está a dar origem a um novo ecossistema de consumo de média e um ecossistema territorial que trabalha em conjunto com outras marcas”, explicou, apontando a importância da confiança para criar valor.

Dos clássicos aos podcasts: o áudio em constante reinvenção

No segundo painel, o foco esteve na criação de comunidades. Renata Silva, do Grupo Renascença Multimédia, trouxe a palco a personagem Tia Bli — interpretada por Vasco Pereira Coutinha — numa interação com os presentes. A responsável explicou depois como a personagem passou de uma criação de rádio a um ícone e a uma marca com uma comunidade própria. Outro dos exemplos dados foi o Extremamente Desagradável, que classificou como um “fenómeno cultural”. “Somos e sempre fomos produtores de conteúdos. Produzimos conteúdos que criam comunidades e relações entre as pessoas”, frisou.

O painel abordou também o regresso de um formato clássico, a radionovela. O grupo apostou em Cataplana de Paixão, na RFM. António Mendes, que a idealizou com Pedro Fernandes, Rui Melo e Henrique Dias, explicou que o projeto foi construído “exatamente como se fazia uma radionovela há 50 anos ou muito parecido”, mas com dupla vida — pode ser ouvida ou vista.

Por sua vez, José Manuel Gomes, da Medialivre, defendeu uma abordagem multimédia 360º, notando que “o áudio não é outro meio, é muitas vezes a porta de entrada. A mesma história pode ser lida, ouvida, partilhada, vista”.

“Hoje em dia não se fala em comprar espaço, mas sim em construir audiências”, apontou, acrescentando que o que os anunciantes querem é “mais audiência, mais relevância e mais resultados e por isso é que temos que cruzar as plataformas todas que temos”.

Já na reta final do debate, a vitalidade da rádio e a sua relação com o mercado publicitário foram postas em perspetiva. Rita Sobral, do Bauer Media Audio Group, lembrou que 82% da população portuguesa ouve rádio semanalmente e que a distribuição digital fortaleceu essa proximidade.

“A rádio não é só o FM. Há toda uma fábrica de conteúdos, além também aquilo que passa na rádio. A imagem, o vídeo e as redes sociais vieram trazer uma maior conexão e uma maior ligação às nossas comunidades e aos nossos ouvintes”, reforçou. “A forma de distribuir mudou, a ligação não mudou. Ela até se intensificou”, rematou.

Rita Sobral destacou que existem três ingredientes essenciais para as marcas se associarem à rádio nesta nova era, “criatividade para surpreender”, “confiança para alguma imprevisibilidade” perante o improviso do direto e e uma “grande obsessão pela nossa audiência”, garantindo que o conteúdo é suficientemente relevante e impactante para o público.

A maturidade do meio foi ilustrada por Pedro Ribeiro, vice-presidente da Bauer Media, através da emissão conjunta de seis rádios da Bauer Media e do Grupo Renascença Multimédia que serviu de apoio à seleção nacional, promovida pela Galp. “Perdemos muitos anos só falar uns para os outros. Quando deixamos de falar uns para os outros e passamos só a falar com as pessoas, isso mostrou que de repente o meio estava maduro o suficiente para fazer isto. Ninguém morreu, toda a gente se deu bem e eu acho que há um antes e um depois disto”, diz, notando que gostaria de fazer o mesmo com mais marcas de rádios.

Pedro Ribeiro concluiu lembrando a essência inovadora do setor, destacando que “fazer o que ainda não foi feito é aquilo que a rádio faz desde que foi inventada”.

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