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O que a ‘fábrica de bots’ apreendida de Fernando Cerimedo pode revelar sobre o Brasil?

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Peço desculpas pelo atraso no envio desta coluna, mas passei os últimos dias envolta com os ataques misóginos sofridos por mim e pela Agência Pública por parte de Paulo Figueiredo e Eduardo Bolsonaro. É a velha tática de atacar o mensageiro em vez de responder à reportagem. Publicamos esta nota aqui e nos comprometemos a não parar de investigar os elos da extrema direita no exterior. Apoie este trabalho aqui. 

Começo, agora, com a pergunta que não me sai da cabeça. Na semana passada, o deputado federal petista Rui Falcão pediu para o STF requerer acesso aos equipamentos eletrônicos encontrados em apartamentos ligados ao argentino Fernando Cerimedo, aliado de Eduardo Bolsonaro, preso na Bolívia em 18 de agosto, quando saía do país depois de uma tentativa de feminicídio contra sua ex-namorada, a advogada boliviana Nadia Beller.

Falcão argumenta que Cerimedo, que chegou a ser investigado pela tentativa de Golpes de Estado de 8 de janeiro, não foi indiciado por falta de provas. E que as provas que se espera podem estar nos equipamentos apreendidos pela polícia boliviana.

A promotoria de Justiça boliviana afirmou no final de agosto ter realizado buscas em cinco propriedades ligadas a Cerimedo, onde teriam aprendido 43 mil dólares, documentos e uma “minifazenda de bots”. A defesa de Cerimedo afirma que eram apenas telefones via satélite e modems, em vez de bots.

Como se sabe, Cerimedo foi fundamental para a disseminação da mentira sobre fraude nas urnas nas eleições de 2022. Sua live, realizada semanas depois dele ter organizado uma viagem de Eduardo Bolsonaro à Argentina, teve como base um dossiê criado por Mauro Cid, o ajudante de ordens de Bolsonaro. A história falsificada dizia que as urnas eletrônicas fabricadas antes de 2020 usariam um código fonte diferente das produzidas depois desta data. Bolsonaro teria ido pior nas áreas que usaram urnas mais antigas.

“Nosso pessoal que fez… hahahahah… Isso foi a base do argelino [argentino]”, teria se gabado Mauro Cid. Cid também ajudou a circular o link da live de Cerimedo, mesmo depois que ela tinha sido suspensa pelo TSE. “Fizeram um site completo, com todo o material da investigação sobre a maior fraude do século! Nosso time é bom demais, incrível”, festejou outro militar, tenente coronel Marques de Almeida, integrante do Comando de Operações Terrestres do Exército (Coter). Ambos foram condenados pela tentativa de golpe de 8 de janeiro de 2023.

Foi essa live, assim como a participação como coordenador digital da campanha de Milei na Argentina, que ajudaram a impulsionar a fama internacional de Cerimedo na extrema direita do continente. Chamado de “O homem MAGA na América Latina” pelo site The Economist, ele admitiu à Pública e sites parceiros que comandava muitos “trolls” – contas falsas nas redes sociais que interagem com um script definido para falsificar conversas – para enganar os algoritmos e, dessa forma, dar um melhor posicionamento à mensagem de seus clientes. Negou, entretanto, que produzia Fake News.

Mas nem era necessário. Suas lives e as reproduções do seu site La Derecha Diário – que agora tenta se dissociar dele – eram carregadas de mentiras.

Da cama de hospital, onde está se recuperando dos tiros, a ex-namorada afirmou que o motivo da tentativa de assassinato era justamente porque ela havia decidido abrir o bico sobre as campanhas de manipulação do ex-namorado. Ela também o acusou de ter oferecido proteção a voos clandestinos ligados ao narcotráfico.

Sobre o Brasil, ela disse à Folha de S. Paulo que Cerimedo contou ter usado “bots” a favor de Jair Bolsonaro em 2022 e que ele “lutaria por Flávio” nessas eleições.

A principal pergunta que fica é: qual é o papel de Fernando Cerimedo na atuação digital dos Bolsonaro – tanto na tentativa de golpes de 2022 quanto na atual campanha de Flávio?

Como bem notou Janaína Figueiredo, Cerimedo era bem mais do que apenas um marketeiro da direita. Ele participou ativamente de tentativas de desestabilizar governos de esquerda, além de costurar alianças com o círculo de Trump.

Foi ele quem aproximou Trump do então candidato Asfura, através de um amigo, ex-assessor de Trump na campanha de 2017, Dick Morris.

Em março de 2025, Fernando Cerimedo foi nomeado representante e licenciado exclusivo na América Latina das empresas Campaign Nucleus e da Eyes Over, duas plataformas de inteligência artificial. As empresas surgiram após a aquisição da Cambridge Analytica por um consórcio de investidores norte-americanos. Elas foram usadas pela campanha de Donald Trump, em 2024, facilitando um gerenciamento de eleitores mais preciso. O desenvolvimento foi liderado por Brad Parscale, ex-diretor digital da campanha de Trump, e que foi sócio de Cerimedo na consultoria digital Numen – embora agora também esta empresa tente dissociar seu nome dele.

Depois da condenação de Jair Bolsonaro e outros cúmplices por tentativa de golpe de Estado, Eduardo Bolsonaro continuou próximo de Cerimedo – os registros públicos o impedem de negar.

Há apenas um mês, Cerimedo esteve numa live com Eduardo repetindo exatamente a mesma cascata sobre hashtags inventada pela turma de Marco Cid, conforme eu apontei nesta coluna. Nela, Eduardo disse: “Vou te agradecer aqui, tá, por essa transmissão ao vivo, pessoa de coragem, é uma pessoa que continua atuando, é empresário, analista político argentino”. Cerimedo respondeu saudando ao povo brasileiro: “Muito obrigado a você. O saúdo ao povo do Brasil. Muita, muita sorte na próxima eleição e  sempre vamos ter que lutar pela liberdade do Brasil”.

Alguns meses antes, em fevereiro, os dois estavam juntos na festa hispânica em Mar a Lago, o resort de Trump. Cerimedo foi premiado pela organização Latino Wall Street como Melhor Consultor Político Hispano do Ano. Eduardo entregou o prêmio nas mãos do argentino. “É uma honra estar aqui e abrir um espaço para um argentino. E olhem que aqui está falando um brasileiro. Mas não de que ele passou ou foi preso. E isso não é legal. Fernando Cerimedo teve a coragem de, da Argentina, ajudar o Brasil. Como? Denunciando as possíveis fraudes eleitorais que ocorreram em 2022, na eleição que colocou o socialista Lula da Silva como presidente do Brasil”, disse. E completou: “Estamos aqui hoje para dizer aos Alexandre de Moraes: não temos medo de você. Vamos ganhar as eleições de outubro”.

(Na foto, Eduardo aparece com a esposa de Cerimedo, a argentina Natalia Basil. Uma das teses da procuradoria boliviana era que a “namorada” boliviana estaria grávida. E isso teria motivado a tentativa de assassinato)

Como eu já havia apontado anteriormente, a narrativa de fraude nas urnas continua firme como narrativa subterrânea na campanha de Flávio Bolsonaro. Aliás, a afirmação que o candidato fez no Jornal Nacional na semana passada, de que ela irá ganhar no primeiro turno, repete exatamente a mesma estratégia adotada por Jair. Constrói a narrativa de que, se não ganhou, é porque houve fraude.

E Cerimedo, ao lado de Eduardo, poderia ser crucial nesta estratégia. O que se poderá descobrir sobre as fábricas de bots encontradas na Bolívia? Veremos ainda.

Em tempo: termino esta coluna com uma enxurrada de novas denúncias sobre uma possível relação de corrupção de Alexandre de Moraes com o banqueiro Daniel Vorcaro – o mesmo que deu pelo menos 10 milhões de dólares para o candidato Flávio Bolsonaro para o filme Dark Horse (hoje, novas revelações dão conta de que podem ser mais). Não tenho tempo de ler e analisar tudo, mas, se forem verdadeiros, são fatos gravíssimos que têm que trazer consequências legais.

Entretanto, faço votos que não levem nossa sociedade a retroceder da punição histórica aos perpetradores da tentativa de Golpe de Estado de 8 de janeiro de 2023, uma decisão histórica que solidificou nosso regime democrático, puniu pela primeira vez militares golpistas, e deu exemplo para o mundo. A condenação dos golpistas, embora tenha contado com a atuação fundamental de Moraes, não é obra apenas do seu trabalho, mas do empenho de todo o Supremo, da PF, do jornalismo e da sociedade brasileira, que a apoiou, ajudou e respalda até hoje.

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As 10 medidas de Trump para tentar vencer as eleições de novembro nos EUA

O presidente Trump não esconde um de seus maiores medos: perder o controle republicano do Congresso dos EUA em 3 de novembro, o que possivelmente levaria a um terceiro processo de impeachment. No entanto, sua resposta é uma mistura caótica de medidas para evitar uma derrota avassaladora que poderia, de fato, concretizar seu cenário de pesadelo.

Quais são seus planos para uma vitória eleitoral? Quais condições ele criou que podem levar à sua ruína política durante os dois últimos anos de seu governo? 

As pesquisas mostram consistentemente uma taxa de impopularidade geral de Trump em torno de 63%, contra uma de aprovação de cerca de 35%, composta em grande parte por seus apoiadores leais do movimento MAGA. As duas principais questões para os eleitores continuam sendo a inflação — com o aumento dos custos de alimentos, combustíveis, fertilizantes e moradia — e a guerra contra o Irã, sem qualquer desfecho positivo visível para o governo Trump. A atual composição do Congresso confere aos republicanos uma maioria mínima de quatro cadeiras tanto na Câmara quanto no Senado, o que significa que qualquer pequena mudança na preferência dos eleitores poderia transferir o poder para os democratas nas eleições de novembro.

Plano A: redesenhar o mapa das eleições nos EUA

O plano inicial de Trump para derrotar os democratas consistia em pressionar as maiorias republicanas nas legislaturas de vários estados a redesenhar os limites dos distritos eleitorais para favorecer seu partido, realocando prováveis eleitores democratas para distritos com maioria republicana e, assim, diluindo sua força nas urnas.

Simultaneamente, os seis membros da Suprema Corte dos EUA nomeados por republicanos esvaziaram dispositivos fundamentais da histórica Lei de Direitos de Voto de 1965. Eles decidiram que levar em conta padrões históricos de discriminação racial contra eleitores negros não justificava mais medidas destinadas a proteger o peso do voto afro-americano nas eleições dos estados do Sul.

Dada a recente polarização política nos Estados Unidos, na qual a maioria dos 435 distritos da Câmara foi desenhada para favorecer um partido em detrimento do outro, as estimativas atuais apontam, pelo menos, para 49 distritos nos quais há uma disputa real entre candidatos republicanos e democratas pela representação no Congresso. Pesquisas também indicam que, em nível nacional, os democratas detêm uma vantagem de 6% a 7% sobre os republicanos, o que sugere que provavelmente conquistarão o controle da Câmara dos Representantes.

A situação no Senado é mais complexa, pois os democratas precisarão reeleger vários titulares e conquistar cadeiras em estados que apoiaram candidatos presidenciais republicanos nas últimas décadas — Alasca, Carolina do Norte, Iowa, Ohio, Texas e Maine —, embora as pesquisas atuais favoreçam os candidatos democratas nestes estados por margens estreitas.

O plano B: cortar eleitores da lista

Após não conseguir assegurar uma possível maioria republicana por meio do redesenho dos mapas distritais, a estratégia seguinte de Trump foi emitir ordens executivas destinadas a restringir o voto de prováveis apoiadores de candidatos democratas, assumindo o controle federal sobre o processo eleitoral nacional — uma responsabilidade claramente atribuída aos estados pela Constituição dos EUA.

O pretexto utilizado é a suposta ocorrência generalizada de votos de não cidadãos, argumento que se alinha convenientemente à campanha agressiva de Trump contra imigrantes, mantida há uma década. No entanto, todas as investigações confiáveis sobre possíveis votos ilegais de não cidadãos revelam um número ínfimo de pessoas que efetivamente violaram a lei. Tal fato jamais determinou a vitória ou a derrota de um candidato em qualquer disputa eleitoral.

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Terceiro plano: pressionar governadores democratas

A terceira iniciativa de Trump consistiu em exigir que governadores de estados com tendência democrata repassassem ao governo federal informações de registro eleitoral, para que este pudesse determinar quais eleitores registrados eram elegíveis para votar.

Isso conferiria ao Departamento de Segurança Interna poder ilimitado para definir quem seria considerado um eleitor legítimo e quem, na sua visão, não seria elegível ao voto. Até o momento, governadores democratas recusaram-se a cumprir a medida, e a ordem de Trump está bloqueada judicialmente.

Plano 4: exigir mais documentos para votar

Paralelamente, uma quarta estratégia utilizada por Trump para tentar favorecer os republicanos na eleição é uma proposta de lei no Congresso, conhecida como Save America Act, que exigiria que os eleitores comprovassem sua cidadania por meio de certidão de nascimento ou de passaporte dos EUA. Nos Estados Unidos, não existe um documento de identidade nacional que indique o status de cidadania, e estima-se que 21 milhões de eleitores em potencial não possuam passaporte nem acesso fácil às suas certidões de nascimento.

Essa disposição criaria complicações adicionais para pessoas que se casaram e alteraram seus nomes. Até mesmo alguns senadores republicanos consideram o projeto uma exigência excessivamente onerosa para os eleitores e recusaram-se a apoiá-lo, o que significa que ele não se tornará lei.

Quinto alvo: o voto por correio

Um quinto esforço tem sido o de bloquear o voto por correio, um método atualmente utilizado por um terço do eleitorado americano para participar das eleições. Embora o próprio Trump tenha votado por correio em duas eleições recentes na Flórida, o Save America Act e um novo conjunto de diretrizes do Serviço Postal dos EUA concederiam à agência o poder de determinar quais destinatários têm direito a receber a cédula para votar por correio, com base em registros de eleitores compilados pelo governo federal.

É provável que a Suprema Corte analise contestações às diretrizes do Serviço Postal nas próximas duas semanas. Caso a maioria conservadora apoie o plano de Trump, isso representará uma reinterpretação sem precedentes da Constituição, ao concentrar poder nas mãos de um órgão governamental que foi explicitamente excluído da organização das eleições.

Trump nunca se recuperou de sua derrota eleitoral de 2020 e continua a insistir que as eleições foram roubadas. No entanto, ele perdeu 62 ações judiciais em que não encontrou fundamento para suas alegações. Isso levou à sua tentativa desesperada de impedir a posse de Biden como presidente, mobilizando seus apoiadores para invadirem o Capitólio dos EUA em 6 de janeiro de 2023. Desde então, centenas de partidários leais a Trump foram eleitos ou nomeados para juntas eleitorais estaduais e locais, onde provavelmente tentarão direcionar os resultados eleitorais finais a favor de candidatos republicanos caso haja contestação.

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Plano 6: supervisionar as eleições

A sexta medida de Trump tem sido enviar observadores eleitorais a estados que realizaram eleições recentemente, visando construir argumentos para uma supervisão federal (e possível interferência) em disputas acirradas.

Em 2020, o procurador-geral de Trump, William Barr, bloqueou a tentativa do presidente de confiscar urnas eletrônicas no Arizona. Neste ciclo eleitoral, o Departamento de Justiça anunciou que mais de mil agentes estão sendo treinados para monitorar as eleições em estados-chave. Eles seriam, sem dúvida, bem recebidos pelas centenas de negacionistas eleitorais que supervisionam as eleições em diferentes estados. Trump poderia declarar emergência nacional e ordenar a requisição das urnas para questionar resultados eleitorais desfavoráveis e manipulá-los em favor dos republicanos.

Sétimo plano: caça aos comunistas

A sétima ação de Trump tem sido lançar uma campanha agressiva contra candidatos democratas, especialmente aqueles com inclinações socialistas democráticas, alegando que são comunistas. Embora esse discurso possa parecer um retorno anacrônico à era da Guerra Fria, ele ressoa com a base de Trump. Alguns líderes democratas moderados alimentaram esse discurso ao argumentar que alguns candidatos democratas ao Senado — Dr. Abdul El-Sayed, de Michigan, e Angela Nixon, da Flórida — estão muito à esquerda para conquistar eleitores independentes nessas duas disputas decisivas.

Medida número 8: negacionismo de guerra

Para responder aos preços elevados da gasolina e ao seu efeito em cascata na economia, como oitava medida, Trump tentou manipular o mercado declarando que a guerra com o Irã havia terminado e que sua “missão foi cumprida” — uma referência bizarra à declaração do presidente Bush na Guerra do Iraque, quando aquele conflito perdurou por vários anos a mais.

Uma campanha anunciada de sanções econômicas totais contra o Irã também parece fadada ao fracasso, pois exigiria a improvável cooperação da China, que atualmente importa entre 80% e 90% de seu petróleo do Irã.

Plano 9: se não têm picanha, que comam moída!

Em uma tentativa ineficaz de reduzir os preços, a nona ação de Trump consistiu em anunciar que os Estados Unidos importarão 300 mil toneladas métricas de carne bovina moída e aparas de carne magra estrangeiras em um prazo de 90 dias — presumivelmente da Argentina — e as venderão no mercado americano por um quarto do custo da carne nacional, prejudicando drasticamente os produtores locais.

Essa proposta enfrentou forte resistência de agricultores de inclinação conservadora em estados-chave que, por sua vez, podem determinar quem controlará o Senado. Trump também anunciou um possível acordo com a Venezuela, no qual o Pentágono faria parceria com uma empresa venezuelana para acessar o petróleo do país pelos próximos cem anos, embora qualquer nova produção significativa provavelmente demorasse anos para influenciar o preço internacional do petróleo. 

Ideia número 10: uma campanha multimilionária para se promover

A décima medida de Trump para influenciar o resultado da eleição é a promessa de gastar parte dos 400 milhões de dólares em fundos de campanha sob seu controle para produzir anúncios eleitorais nacionais que destacassem suas principais realizações nos últimos dois anos, transformando a eleição em um referendo sobre sua gestão. Isso poderia ter o efeito oposto, lembrando os eleitores, em disputas legislativas cruciais, de quão poucas de suas promessas eleitorais de 2024 Trump realmente cumpriu.

Ao mesmo tempo, e sem razão lógica aparente, Trump decidiu travar uma guerra tarifária com o Canadá, o aliado mais leal dos Estados Unidos e um importante parceiro comercial. As tarifas de 50% ameaçadas sobre produtos canadenses não apenas aumentarão os preços para os consumidores americanos, mas também devastarão a economia dos estados que fazem fronteira com o Canadá — Maine, Michigan, Wisconsin e Missouri —, onde candidatos democratas e republicanos travam disputas acirradas. A decisão extravagante de Trump de ordenar a mudança do nome do Lago Ontário para Lago América, apenas para irritar os canadenses, só acende mais lenha na fogueira do conflito entre os dois países.

Em vez de tranquilizar seus potenciais apoiadores de que está fazendo todo o possível para acabar com a guerra no Irã e reduzir os preços, Trump passou os últimos meses dedicando um tempo enorme a projetos de vaidade, mesmo quando ordens judiciais bloquearam seus esforços. Ele se recusa a desistir de tentar incluir seu nome, de uma forma ou de outra, no Kennedy Center for the Performing Arts. Ele prosseguiu com a construção de seu salão de baile dourado na Casa Branca. Ele se recusa a admitir que a incompetência de uma empreiteira causou danos ao espelho d’água do Washington Mall e não desistiu do plano de construir um arco de 250 pés de altura para se destacar na paisagem de Washington, D.C.

Em vez de apresentar sua presidência como um compromisso diário de melhorar a vida das pessoas comuns e encerrar aventuras militares no exterior, Trump parece cada vez mais empenhado em encontrar maneiras de aumentar sua fortuna e a de sua família, bem como a do 1% da população que detém 31% da riqueza do país.

Se a eleição resultar em uma onda de mudança política, os republicanos perderão o controle da Câmara e, possivelmente, do Senado. Se os resultados configurarem um tsunami a favor dos democratas, Trump pode não enfrentar necessariamente um terceiro julgamento de impeachment em 2027 — já que os democratas não obterão os dois terços dos votos necessários para declará-lo culpado de “crimes graves e delitos” (high crimes and misdemeanors) —, mas certamente enfrentará uma enxurrada de investigações por corrupção e má gestão.

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Eleitor: cuidado ao ler as notícias durante esta campanha

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A imprensa continua a desempenhar um papel fundamental nessa campanha eleitoral, por maior que seja a mudança na comunicação, hoje nas mãos das big techs. Não apenas por sua credibilidade em relação à fidelidade dos fatos, mas por trazer à tona as revelações que serão depois reinterpretadas, reembaladas, disseminadas, viralizadas e até ignoradas – um processo, como sabemos, bastante sujeito à distorção para efeito de propaganda eleitoral.

No noticiário, as informações aparecem fragmentadas, às vezes trazendo pequenos detalhes de um caso complexo demais para acompanhar — e o que se grava é o que se destaca no título. Por isso tantas vezes se cunhou apelidos para os casos mais notórios: privataria, mensalão, Lava-Jato, “rachadinhas” e, nesta campanha, “Caso Master”, “Dark Horse”, “escândalo do INSS”, “caso Lulinha”.

Mas é importante deixar claro para o leitor a diferença entre atores, escândalos, e gravidade das acusações em relação ao interesse público. Um exemplo é a confusão entre o escândalo do INSS — que não só ganhou um título, mas um personagem com apelido carismático, o careca do INSS — e a investigação por lobby por fornecimento de canabidiol que atinge o filho do presidente.

Ao investigar o caso do furto do dinheiro dos aposentados por descontos ilegais nas aposentadorias, a PF envolveu Lulinha em acusações que não se comprovaram, a de que teria influenciado ou obtido alguma vantagem no escândalo do INSS. Os policiais partiram então para a investigação do que se havia obtido em relação ao filho do presidente: sua ligação com a lobista Roberta Luchsinger e desta com o careca do INSS.

Pela maneira e o timing em que acusações e investigações foram divulgadas, muita gente ficou com a impressão de que se tratava do mesmo escândalo. Mas, na verdade, o caso Lulinha é referente a outro inquérito, o que investiga o lobby para obter contratos não efetivados com o Ministério da Saúde. Julgue o eleitor se fazer lobby é uma acusação tão grave quanto roubar aposentados, mas a diferenciação é importante como sabem os que exploram politicamente o escândalo.

Até porque, com esse gancho, buscou-se equiparar o suposto crime de Lulinha com outro escândalo — o de investimentos de entidades de previdência de servidores estaduais em papéis fraudados do banco Master. Neste caso, os acusados são governantes e políticos ligados ao campo oposto, como o ex-governador do Rio de Janeiro e pré-candidato ao Senado na chapa de Flávio Bolsonaro, Cláudio Castro (PL), que investiu quase 1 bilhão de reais da Previdência Rio no banco de Daniel Vorcaro.

O que nos leva a outro escândalo com impacto na campanha, esse bem documentado e com envolvimento direto do candidato do PL à presidência, Flávio Bolsonaro, flagrado pedindo dinheiro a Vorcaro — em áudios gravados — para o filme Dark Horse, uma biografia fantasiada do ex-presidente Jair Bolsonaro com fins políticos. Segundo o The Intercept Brasil, pelo menos 10,6 milhões de dólares foram efetivamente pagos por Vorcaro e parte deste valor foi destinada ao fundo Havengate, sediado no Texas, que tem entre seus controladores o advogado de Eduardo Bolsonaro, Paulo Calixto.

Mas, apesar das provas de que Flávio pediu dinheiro ao ex-banqueiro e de que milhões de dólares foram enviados a um fundo no Texas controlado pelo advogado de Eduardo, não se teve mais notícias sobre o caso, que tem por trás o lobby de Eduardo, Paulo Figueiredo e do próprio Flávio por interferência dos Estados Unidos nas eleições brasileiras – já em curso, como a Pública não nos deixa esquecer.

Enquanto isso, multiplicaram-se os vazamentos seletivos sobre o caso de Lulinha, e de Marcola, chefe do gabinete de Lula na presidência, que aceitou dinheiro e presentes da lobista Roberta, ao que se sabe, pelos mesmo lobby por contratos de fornecimento de canabidiol que não foram efetivados pelo Ministério da Saúde. Do lado de lá, a imprensa não tem revelado muita coisa, talvez pela maior dificuldade de investigar.

Nesta terça-feira, o advogado Marco Aurélio de Carvalho, conhecido por participar do grupo Prerrogativas e agora defensor de Lulinha, pediu mais uma vez à PF que investigue o vazamento de informações sigilosas feito de forma “fracionada, recorrente e cronologicamente ajustada ao calendário eleitoral” sobre o filho do presidente, um procedimento que se assemelha ao caso Lava-Jato, em que informações vazadas seletivamente alimentaram o noticiário contra Lula, até que a interferência política no processo fosse desnudada pela Vaza-Jato, e a condenação anulada pelo STF.

Se a imprensa tem que noticiar o que recebe de informação, é preciso ter cautela com falsas equiparações, sobretudo ao lidar com informações provenientes de um lado só. Para complicar, o diretor da PF e o ministro do STF, André Mendonça, protagonistas na investigação de ambos os casos, estão em guerra, e isso em plena campanha eleitoral. Além disso, dados do caso Lulinha foram compartilhados com a CPI do INSS, portanto com parlamentares da oposição, o que aumenta a desconfiança sobre os vazamentos.

Andrei Rodrigues, da PF, acusa Mendonça, indicado para o cargo por Jair Bolsonaro, de dirigir politicamente as investigações e expõe o descompasso entre as revelações sobre o caso Lulinha/Marcola e Dark Horse/Flávio Bolsonaro. Por sua vez, Mendonça acusa Andrei de atrapalhar as investigações sobre o filho do presidente, embora o fato mais comprometedor para o diretor da PF se localize do lado de lá — o do Master, já que Andrei participou de pelo menos uma comemoração luxuosa de Vorcaro, em Londres.

O efeito eleitoral dos escândalos é evidente, com a queda de Flávio entre abril e junho, quando o Dark Horse apareceu na imprensa, seguida de recuperação progressiva a partir de julho, quando a investigação sobre os Bolsonaro, a direita e Vorcaro aparentemente perdeu fôlego. Já Lula perdeu pontos, especialmente nas últimas pesquisas, enquanto o noticiário sobre seu filho ganhava temperatura.

Para impedir que a campanha descambe para acusações oportunistas, desviando dos assuntos importantes para o país, a imprensa tem que cobrar transparência por parte da PF e do STF, denunciar manipulações e transmitir as informações com a cautela e o equilíbrio que os eleitores merecem, principalmente em eleições com ameaças inéditas por parte de um país estrangeiro e com o domínio das redes pela extrema direita.

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