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Eleições 2026: Pressão institucional para gratuidade no transporte intermunicipal no segundo turno aumenta e, mesmo assim, governo de Pernambuco ignora exigências

O governo de Pernambuco segue sem garantir passagem gratuita no transporte intermunicipal para o segundo turno das Eleições 2026, em 25 de outubro, e a pressão para que cumpra a obrigação aumentou. Nesta segunda-feira (19/10), o Ministério Público Eleitoral e a Defensoria Pública da União (DPU) se somaram ao Tribunal Regional Eleitoral de Pernambuco (TRE-PE) e ao Ministério Público de Pernambuco (MPPE) na cobrança por gratuidade nas linhas operadas pela Empresa Pernambucana de Transporte Intermunicipal (EPTI). O sistema, que atende a Zona da Mata, o Agreste e o Sertão, nunca teve Tarifa Zero em dias de votação.

O governo de Pernambuco segue sem se posicionar. A cobrança começou com a Frente de Luta pelo Transporte Público de Pernambuco, que tem assento no Conselho Superior de Transporte Metropolitano (CSTM). A entidade protocolou na terça-feira (13/10) uma representação na Procuradoria Regional Eleitoral, na DPU e na Ouvidoria do TRE-PE, pedindo gratuidade em todo o Estado e mais ônibus na Região Metropolitana do Recife (RMR). O passageiro da RMR teve ônibus de graça, inclusive com um aumento de demanda de 80%, mas a petição solicita que a oferta da frota seja maior do que os 40% de reforço anunciado pelo Estado. 

“O governo de Pernambuco está cometendo um crime eleitoral ao não cumprir a legislação eleitoral e as decisões do STF e do TSE. A governadora Raquel Lyra já foi notificada pelo Ministério Público, pela Defensoria Pública, pelo TRE, e segue omissa. Uma violação grave aos direitos dos eleitores pernambucanos. Vamos até o STF para que ela cumpra a lei”, afirma Pedro Josephi, coordenador da Frente de Luta pelo Transporte Público.

Provocado pela petição, o TRE-PE notificou a EPTI e quer saber por que a empresa não enviou à Justiça Eleitoral os itinerários, as modalidades e os horários do transporte gratuito, como determina o Artigo 23, § 4º, da Resolução TSE nº 23.751/2026. O Tribunal também cobrou providências para o segundo turno. Em 15 de outubro, o MPPE foi na mesma linha: a 36ª Promotoria de Justiça de Defesa da Cidadania da Capital recomendou que a EPTI e a Secretaria de Mobilidade e Infraestrutura (Semobi) assegurem a gratuidade e dá 48 horas para que informem se acatam o pedido - o que ainda não aconteceu.

MP ALERTA PARA CRIME ELEITORAL EM CASO DE REDUÇÃO DO SERVIÇO

TIÃO SIQUEIRA/JC IMAGEM
Pressão sobre o Estado cresce a seis dias da votação: EPTI não ofereceu Tarifa Zero no 1º turno e não enviou à Justiça Eleitoral os itinerários exigidos pela norma do TSE - TIÃO SIQUEIRA/JC IMAGEM

A Procuradoria Regional Eleitoral em Pernambuco notificou as empresas responsáveis pelo transporte coletivo urbano municipal e intermunicipal para que assegurem ônibus em frequência compatível com a dos dias úteis. As operadoras devem informar à população e ao órgão os itinerários, horários e modalidades que estarão disponíveis. O MP Eleitoral destacou, inclusive, que reduzir o serviço habitualmente oferecido no dia da eleição pode configurar crime eleitoral, de impedimento ao exercício do direito ao voto.

Para garantir o acesso às urnas, o poder público deverá, se necessário, criar linhas especiais para regiões mais distantes dos locais de votação, usar veículos públicos disponíveis e requisitar veículos para o transporte coletivo, como ônibus escolares, com preferência para os adaptados a pessoas com deficiência ou mobilidade reduzida. O Ministério Público também enviou ofício ao TRE-PE e aos promotores eleitorais pedindo informações sobre o transporte gratuito que a própria Justiça Eleitoral deve oferecer a moradores de zonas rurais, territórios indígenas e comunidades quilombolas e tradicionais.

As medidas partiram de uma comunicação registrada na Ouvidoria do TRE-PE, que relata que a abstenção no primeiro turno decorreu, em parte, da falta de transporte público gratuito no Estado. O procurador regional eleitoral auxiliar Wellington Cabral Saraiva afirmou que a responsabilidade do poder público está prevista em resoluções do Tribunal Superior Eleitoral (TSE) e em julgamento do Supremo Tribunal Federal (STF). "A gratuidade promove igualdade de participação dos eleitores e evita que a falta de locomoção interfira no resultado da votação", declarou.

DPU RECOMENDA TARIFA ZERO EM TODAS AS LINHAS E CITA DESCUMPRIMENTO NO 1º TURNO

JC Imagem
Tarifa Zero foi oferecida no 1º turno nos ônibus da RMR, que tiveram um aumento de 80% na demanda de passageiros - JC Imagem
ALEXANDRE GONDIM/JC IMAGEM
Tarifa Zero foi oferecida no 1º turno no Metrô do Recife, que teve aumento de 100% na demanda, até porque não abre aos domingos há dois anos. No segundo turno o sistema também terá gratuidade - ALEXANDRE GONDIM/JC IMAGEM

A DPU expediu na segunda-feira (19/10) uma recomendação à governadora, ao secretário estadual responsável pela mobilidade (Semobi) e ao diretor-presidente da EPTI, com cópia para a presidência do TRE-PE, a Procuradoria Regional Eleitoral e o Grande Recife Consórcio de Transporte Metropolitano (CTM).

O documento, assinado pela defensora regional de Direitos Humanos em Pernambuco, Ana Carolina Cavalcanti Erhardt, tem como base a ADPF nº 1.013/DF, em que o STF fixou, por unanimidade, que é inconstitucional o poder público não ofertar, nas zonas urbanas em dias de eleição, transporte coletivo gratuito e com frequência compatível com a dos dias úteis. A decisão vale para o transporte municipal e o intermunicipal, inclusive o metropolitano, e a Corte já afirmou que a falta de previsão orçamentária não justifica o descumprimento.

A DPU lembra que, segundo nota da própria EPTI divulgada pela imprensa, a empresa não ofereceu transporte intermunicipal gratuito no primeiro turno, em 4 de outubro. Segundo o documento, no interior a gratuidade ficou restrita aos sistemas municipais de Caruaru, Garanhuns e Petrolina, sem cobertura das linhas intermunicipais e do transporte complementar.

A abstenção no Estado teria chegado a 1.312.388 eleitores (18,17%), e o Agreste Meridional registrou 22,2%, com cerca de 29% em Correntes, Saloá e Iati. A Defensoria cita ainda que São Paulo e Paraíba estenderam a gratuidade a linhas intermunicipais rodoviárias e semiurbanas no primeiro turno, e que o Rio de Janeiro fez o mesmo onde não há linha intermunicipal urbana, o que, para o órgão, demonstra a viabilidade da medida.

Entre as nove recomendações, a DPU pede gratuidade em todas as linhas regulares da EPTI que atendam zonas urbanas, incluindo as de caráter semiurbano, o serviço complementar e as rodoviárias, ao menos nos trechos sem alternativa urbana até o local de votação. O órgão também quer frequência de dia útil das 5h às 19h, gratuidade na ida e na volta sem exigência de título de eleitor ou cadastro, ato normativo (decreto, portaria ou resolução) com ordem de liberação de catracas e ampla divulgação até 24 de outubro.

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Sistema intermunicipal de Pernambuco, regulado pela EPTI, não teve gratuidade em 2024 nem no primeiro turno de 2026 - JC Imagem

PRAZOS DE 48 HORAS E RISCO DE AÇÃO JUDICIAL NO STF

Os prazos para ofertar a gratuidade são apertados. A DPU deu 48 horas para que o governo do Estado e operadores informem se acatam a recomendação, e o MPPE estabeleceu até 21 de outubro para a apresentação das medidas adotadas e 30 de outubro para o relatório de execução. A Defensoria também pede, em até cinco dias após o pleito, um relatório com a frota e as viagens efetivamente operadas, comparadas às de um dia útil, além das reclamações recebidas.

O descumprimento pode ter consequências. A DPU avisa que a ausência de resposta pode levar a uma reclamação no STF por descumprimento da ADPF 1.013, a uma ação civil pública e à comunicação ao juízo eleitoral e ao MP Eleitoral. O MPPE também prevê ação civil pública e apuração de responsabilidade dos gestores. Em um sistema que costuma reduzir linhas, horários e frota aos domingos e feriados, o promotor Leonardo Brito Caribé alertou que a prática "pode esvaziar a gratuidade e inviabilizar o acesso aos locais de votação".

© Divulgação

Tarifa Zero foi oferecida no 1º turno nos ônibus da RMR. No sistema intermunicipal, a gratuidade nunca ocorreu
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Passagem de graça nos fins de semana: Quanto custa a proposta de Lula, segundo o setor de transporte

A proposta de oferecer passagem de graça nos fins de semana em todo o País - lançada pelo presidente e candidato à reeleição Luiz Inácio Lula da Silva a dez dias do segundo turno - custaria quase R$ 21 bilhões por ano. Pelo menos esse é o custo calculado pelo setor de transporte público urbano, leia-se a Associação Nacional das Empresas de Transportes Urbanos (NTU).

No dia 15/10, Lula anunciou a intenção de enviar, ainda esta semana, uma Proposta de Emenda à Constituição (PEC) ao Congresso Nacional para zerar a tarifa do transporte público coletivo aos sábados e domingos. A medida prevê a utilização de recursos de emendas parlamentares para custear a gratuidade nas cidades que contam com sistema de transporte coletivo.

"Eu vou mandar uma PEC para o Congresso garantindo o Passe Livre no final de semana para todas as cidades que tiverem transporte coletivo neste País. Fim de semana tem passagem gratuita para você passear com sua família". Lula também acrescentou que "o povo vai ficar feliz, e os deputados estarão dando utilidade às suas emendas".

A proposta, entretanto, traz para o centro do debate político a questão da sustentabilidade fiscal e do financiamento do transporte público. Anteriormente, a coordenação da campanha havia evitado incluir a Tarifa Zero no plano de governo devido à determinação de Lula por propostas factíveis e à necessidade de uma reestruturação complexa no financiamento do setor. Na ocasião, estudos preliminares encomendados pelo Ministério da Fazenda para avaliar caminhos como o “SUS do Transporte Público” indicaram que o custo fiscal da gratuidade total poderia superar R$ 80 bilhões.

Focando especificamente na gratuidade aos sábados, domingos e feriados, a NTU calculou que a medida teria um custo anual estimado em R$ 20,8 bilhões. Esse valor engloba o custo operacional atual de ônibus urbanos, trens e metrôs nos dias de descanso — avaliado em R$ 17,3 bilhões por ano, sendo R$ 14,5 bilhões correspondentes apenas aos ônibus — somado a uma expectativa de aumento médio de 20% na demanda de passageiros, acompanhando a tendência de cidades que adotaram a isenção.

PASSE LIVRE É BOM, MAS O FINANCIAMENTO CONTÍNUO É O DESAFIO

Divulgação
Estimativas da NTU apontam que a gratuidade aos sábados, domingos e feriados pode gerar um aumento médio de 20% na demanda de passageiros - Divulgação

A NTU reconheceu a iniciativa da gratuidade do transporte público nos fins de semana como um avanço para valorizar o serviço essencial, favorecer a inclusão social e o acesso ao lazer, à cultura e ao comércio, especialmente para famílias de menor renda. Contudo, a entidade ressalta que a medida tem alcance pontual e não resolve os problemas estruturais do financiamento do transporte coletivo.

“A Tarifa Zero aos fins de semana e feriados coloca o transporte público coletivo no centro do debate político e é um passo importante para valorizar o serviço e ampliar o acesso da população à cidade. Mas precisamos olhar também para quem depende do ônibus de segunda a sexta-feira. O grande desafio é construir um modelo de financiamento que permita reduzir o peso da passagem no orçamento das famílias e, ao mesmo tempo, garantir a qualidade e a sustentabilidade do serviço”, alertou o diretor-presidente da NTU, Francisco Christovam.

A entidade destacou como aspecto altamente positivo a previsão de participação do governo federal no custeio do transporte, uma responsabilidade hoje concentrada nas prefeituras e estados. Para o setor, o envolvimento da União é fundamental para aliviar os orçamentos municipais e viabilizar uma política nacional de mobilidade. “A participação do governo federal no financiamento do transporte é uma reivindicação histórica do setor. Não podemos continuar atribuindo exclusivamente às prefeituras a responsabilidade de custear um serviço essencial para milhões de brasileiros. Precisamos de um modelo permanente, com responsabilidades compartilhadas entre União, estados, municípios e iniciativa privada”, pontuou Francisco Christovam.

Como alternativa abrangente, a NTU defende a implementação do programa “Transporte para Todos”, apresentado em agosto de 2026, visando reestruturar o modelo atual em que 80% dos custos são cobertos pela arrecadação tarifária paga pelos passageiros. O programa propõe pilares como a modernização do Vale-Transporte do Trabalhador, a criação do Vale-Transporte Social para beneficiários do Bolsa Família e o custeio das gratuidades por orçamentos de áreas correlatas (educação, saúde e assistência social).

“A gratuidade aos fins de semana pode ser um primeiro passo importante, mas o Brasil precisa de uma solução mais ampla. O que defendemos é um transporte público acessível, eficiente e financeiramente sustentável todos os dias. É justamente essa a proposta do Transporte para Todos”, afirmou.

© FELIPE RIBEIRO/JC IMAGEM

Proposta de Emenda à Constituição (PEC) prevê o uso de emendas parlamentares para custear o transporte gratuito nos fins de semana
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Motoristas de ônibus fazem paralisação na zona sul de São Paulo

Motoristas de ônibus da capital paulista iniciaram uma paralisação na manhã desta segunda-feira (19), na zona sul da cidade, atingindo as linhas do Lote D10.

Esses trabalhadores atuavam na antiga Transwolff. No entanto, desde a decretação da caducidade do contrato com a empresa em dezembro de 2025, a SPTrans administra e opera as linhas dos lotes D10 e D11.

Os motoristas alegam a ocorrência de problemas trabalhistas e pedem a regularização dos recolhimentos do Fundo de Garantia do Tempo de Serviço (FGTS) e do Instituto Nacional do Seguro Social (INSS). Além disso, reivindicam melhoria nos benefícios.

Por meio da Secretaria Municipal de Mobilidade Urbana e Transporte (SMT) e da SPTrans, a prefeitura de São Paulo informou que a paralisação afeta 267 mil passageiros do lote D10 e que o lote D11 está operando normalmente.

A prefeitura alega que a paralisação é ilegal e que todos os direitos trabalhistas dos empregados estão sendo cumpridos e que pagamentos de salários e benefícios estão sendo feitos em dia. “Os depósitos referentes ao INSS e FGTS estão sendo feitos integralmente pela SPTrans, em juízo, aguardando deliberação do Judiciário”, informou a prefeitura, em nota.

Segundo o município, o plano de saúde está em processo licitatório para contratar fornecedor, enquanto isso, os funcionários estão recebendo o valor de compensação previsto em acordo coletivo.

“Todos os envolvidos que deixaram de trabalhar durante o ato terão o dia descontado de seus pagamentos”, afirmou a prefeitura.

 

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Eleições 2026: Depois do TRE-PE, MPPE também recomenda gratuidade no transporte intermunicipal e reforço da frota na RMR durante o segundo turno

Depois do Tribunal Regional Eleitoral de Pernambuco (TRE-PE) determinar que o Estado ofereça passagem gratuita no sistema de transporte intermunicipal no segundo turno das Eleições 2026 - o que nunca aconteceu desde 2022, quando a prática começou no País -, o Ministério Público de Pernambuco (MPPE) também fez recomendações na mesma linha.

A 36ª Promotoria de Justiça de Defesa da Cidadania da Capital, que tem atribuição em transportes, recomendou que a Empresa Pernambucana de Transporte Intermunicipal (EPTI) e a Secretaria de Mobilidade e Infraestrutura (Semobi) assegurem a gratuidade do transporte coletivo intermunicipal em 25 de outubro.

A recomendação foi assinada em 15 de outubro pelo promotor Leonardo Brito Caribé. O documento pede Tarifa Zero (modelo em que o passageiro embarca sem pagar e o poder público cobre o custo) em todas as linhas e operadoras, com as providências administrativas, orçamentárias e financeiras necessárias.

“A ausência de transporte no dia da votação tem efeito direto na participação popular. A ausência de meios de deslocamento no dia da eleição compromete o exercício do direito de voto, sobretudo da população de baixa renda e das pessoas com deficiência ou mobilidade reduzida", escreve o promotor Leonardo Brito Caribé no documento.

JC/IMAGEM
Ônibus do sistema intermunicipal, que atende a Zona da Mata, o Agreste e o Sertão, nunca teve Tarifa Zero em dias de votação - JC/IMAGEM


A EPTI e a Semobi têm 48 horas para informar se acatam a recomendação, até 21 de outubro para apresentar as medidas adotadas e até 30 de outubro para entregar o relatório de execução. O descumprimento pode levar a uma ação civil pública e à apuração de responsabilidade dos gestores.

O texto se apoia na decisão do Supremo Tribunal Federal (STF) na ADPF nº 1.013/DF, que reconheceu o dever do poder público de ofertar transporte coletivo gratuito nos dias de votação. Cita também a Resolução TSE nº 23.753/2026, do programa Seu Voto Importa, segundo a qual o transporte especial gratuito para eleitores com deficiência ou mobilidade reduzida não substitui essa obrigação. Para a Promotoria, a falta de meios de deslocamento compromete o exercício do voto, sobretudo da população de baixa renda e das pessoas com deficiência. Alegações de insuficiência orçamentária, segundo o documento, não afastam o dever do Estado.

FROTA DE ÔNIBUS NA RMR SEMELHANTE AOS DIAS ÚTEIS

BRUNO CAMPOS/JC IMAGEM
Passagem de graça volta a valer nos ônibus e no metrô do Grande Recife no primeiro e segundo turno das eleições. Transporte intermunicipal, entretanto, ficou de fora mais uma vez - BRUNO CAMPOS/JC IMAGEM

A recomendação vai além da gratuidade da tarifa. O MPPE também pede que a EPTI e a Semobi mantenham frota e frequência equivalentes às de um dia útil, sem redução de linhas, horários ou veículos, com reforço nos horários de maior demanda e nos municípios mais distantes dos locais de votação.

O promotor ainda destaca no texto que, cortar o serviço aos domingos e feriados é prática usual no sistema intermunicipal, o que pode esvaziar a gratuidade. “A redução de linhas, horários e frota aos domingos e feriados, prática usual no transporte intermunicipal, pode esvaziar a gratuidade e inviabilizar o acesso aos locais de votação", alerta. Os órgãos também devem notificar formalmente as operadoras e organizar a fiscalização no dia da eleição.

Há ainda exigências de acessibilidade e transparência. Terminais e pontos de parada precisam ser acessíveis, e motoristas e cobradores devem ser orientados para atender pessoas com deficiência. A divulgação da gratuidade, dos horários e dos itinerários deve ocorrer com ao menos 48 horas de antecedência, em formatos acessíveis, como Libras e linguagem simples.

RECOMENDAÇÃO CHEGA APÓS PETIÇÃO DA FRENTE DE LUTA E COBRANÇA DO TRE-PE

A recomendação do MPPE acontece dias depois de a Frente de Luta pelo Transporte Público de Pernambuco, que representa os passageiros e tem assento no Conselho Superior de Transporte Metropolitano (CSTM), protocolar uma representação na Procuradoria Regional Eleitoral, na Defensoria Pública da União (DPU) e na Ouvidoria do Tribunal Regional Eleitoral de Pernambuco (TRE-PE). Protocolada na terça-feira (13/10), a petição pede gratuidade em todo o Estado e mais ônibus na Região Metropolitana do Recife (RMR). O alvo principal é o sistema intermunicipal, planejado e fiscalizado pela EPTI, que nunca teve Tarifa Zero em dias de votação: nem em 2022, nem em 2024, nem no primeiro turno de 2026.

Provocado pela petição, o TRE-PE notificou a EPTI e pediu esclarecimentos sobre a gratuidade no sistema. O Tribunal quer saber por que a empresa não enviou à Justiça Eleitoral as informações sobre itinerários, modalidades e horários do transporte gratuito, como determina o Artigo 23, § 4º, da Resolução TSE nº 23.751/2026. Segundo o TRE-PE, a obrigação é determinada pela norma federal e independe de notificação individual. O órgão também cobrou as providências da EPTI para garantir a gratuidade no intermunicipal de caráter urbano no segundo turno.

GRATUIDADE DO METRÔ DO RECIFE E DOS ÔNIBUS DA RMR NO SEGUNDO TURNO

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Na Região Metropolitana do Recife (RMR), a gratuidade no primeiro turno abrangeu as linhas de ônibus, o serviço complementar de microônibus, e as Linhas Centro e Sul do Metrô do Recife. E se repetirá no segundo turno - ALEXANDRE GONDIM/JC IMAGEM

O Metrô do Recife e os ônibus da RMR voltarão a ter tarifa gratuita no domingo (25/10), segundo turno das Eleições 2026. No Metrô do Recife, a operação será realizada normalmente, das 5h às 23h. No primeiro turno, o sistema metroferroviários da RMR teve uma aumento de 100% na demanda de passageiros.

Foram 55 mil passageiros transportados no domingo (4/10), quando, em média, são 27 mil nos dias em que o sistema funciona - já que está fechando aos domingos há mais de dois anos, com algumas exceções pontuais. Os ônibus registraram 624.324 passageiros com gratuidade, demanda 80% maior que a média dos domingos de setembro de 2026.

© BRUNO CAMPOS/JC IMAGEM

Documento do MPPE reforça a petição da Frente de Luta e a cobrança do TRE-PE
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Tarifa Zero no transporte público: Livro mostra por que a gratuidade deixou de ser utopia e virou urgência nacional

Por anos, falar em transporte público gratuito no Brasil foi tratado por gestores públicos e empresários como um delírio populista ou um descompasso orçamentário. No entanto, o estrangulamento das cidades, o encarecimento contínuo das passagens e o esvaziamento dos ônibus evidenciaram uma realidade inevitável: o modelo de mobilidade urbana baseado na cobrança individual da tarifa está falido. Essa é a principal lição e conclusão do livro Tarifa Zero: Do Impossível ao Inevitável, lançado pela Fundação Rosa Luxemburgo e pela editora Autonomia Literária.

Organizado pela vereadora Iza Lourença e pela ativista Anna Carolina Leal, o livro surge como um manifesto técnico e político para registrar e impulsionar a transição da gratuidade de pauta marginal para prioridade na agenda pública nacional. A publicação analisa em profundidade a batalha travada para fazer vingar o Projeto de Lei nº 60/2025 em Belo Horizonte — a campanha do "Busão 0800" —, ao mesmo tempo em que conecta as experiências de mais de 140 municípios brasileiros que já aboliram a tarifa no transporte coletivo diário.

A ILUSÃO DO “USUÁRIO-PAGADOR”

Daniel Santini/Divulgação
Publicação organizada após a emblemática campanha do "Busão 0800" em Belo Horizonte (MG) reúne dados e análises tributárias - Daniel Santini/Divulgação

O livro constata que as metrópoles brasileiras vivem o que especialistas em mobilidade chamam de "espiral da morte" do transporte público. A lógica contratual que exige que a arrecadação das catracas custeie toda a operação gera um círculo vicioso perverso: a tarifa sobe para cobrir os custos operacionais, o valor afasta o passageiro que não pode pagar, a receita despenca e as empresas reagem cortando frota e horários. O resultado é um serviço caro, lotado e ineficiente, que empurra a população para o transporte individual motorizado — provocando a explosão do uso de motos, sinistros de trânsito graves, congestionamentos a qualquer hora do dia e emissões crescentes de poluentes.

CONFIRA A EXPANSÃO DA TARIFA ZERO NO PAÍS AQUI

Esse cenário afeta desproporcionalmente as famílias de baixa renda, para as quais o transporte chega a representar cerca de 20% do orçamento doméstico. Em termos concretos, a catraca atua como uma barreira de classe que impede o cidadão de exercer direitos fundamentais garantidos pelo Artigo 6º da Constituição Federal — como o acesso à saúde, à educação, ao trabalho e ao lazer.

Coordenador de projetos da Fundação Rosa Luxemburgo e um dos co-editores da publicação, o pesquisador e jornalista Daniel Santini explica como a experiência de Belo Horizonte acelerou a maturidade do debate no País. "Fizemos da Tarifa Zero a grande pauta da cidade em 2025. O projeto de lei de BH reuniu 22 assinaturas de 41 vereadores e mostrou uma proposta extremamente sólida sobre como bancar o custeio. A publicação é uma coletânea de múltiplas vozes — juristas, tributaristas, sindicalistas e movimentos sociais — que comprova que o transporte sem catraca é a única opção real para reverter a crise da mobilidade urbana e evitar o colapso das nossas cidades", defende.

Divulgação
Daniel Santini, coordenador de Projetos da Fundação Rosa Luxemburgo - Divulgação

Daniel Santini ressalta que o movimento anti tarifário brasileiro alcançou uma nova etapa de amadurecimento político e institucional. "Hoje estamos em uma terceira fase: saímos das denúncias contra aumentos de passagem e entramos na disputa concreta pela implementação da Tarifa Zero. A gratuidade deixou de ser uma abstração teórica e se tornou o principal horizonte de planejamento urbano no Brasil", diz.

DEPENDÊNCIA DO VALE-TRANSPORTE TRADICIONAL

ARTE
Tarifa Zero no transporte público: Livro mostra por que a gratuidade deixou de ser utopia e virou urgência nacional - ARTE

Um dos pontos mais debatidos na obra é a superação da dependência do vale-transporte tradicional, criado na década de 1980 e atrelado ao valor da passagem individual. Daniel Santini defende que a reformulação dos mecanismos vigentes é suficiente para financiar a gratuidade sem estourar o orçamento do Tesouro Municipal.

"Apenas a reformulação do vale-transporte, transformando-o em uma contribuição patronal direta e extratarifária, já cobriria praticamente todo o custo de operação dos sistemas municipais. O setor produtivo e a sociedade ganham com a cidade circulando e com o aumento do poder de compra da população", alerta e ensina.

O pesquisador também faz uma crítica contundente às propostas de gratuidade restrita ou voltadas apenas a cadastros sociais assistenciais - numa referência ao projeto Transporte para Todos, desenvolvido pelo setor operacional.  "A gente defende a Tarifa Zero universal, para todos. Restringir a gratuidade apenas a beneficiários do CadÚnico ou criar 'tarifas sociais' parciais pode ser muito danoso. Isso perpetua a falsa ideia de que o ônibus é um serviço ruim voltado apenas para os mais pobres, em vez de consolidar o transporte como um direito público universal e de alta qualidade para toda a sociedade", alerta. 

A URGÊNCIA DA PAUTA NACIONAL

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Tarifa Zero no transporte público: Livro mostra por que a gratuidade deixou de ser utopia e virou urgência nacional - Divulgação
FELIPE RIBEIRO/JC IMAGEM
A cobrança de tarifa individual na catraca impõe barreiras financeiras às famílias de baixa renda e alimenta o colapso do sistema coletivo - FELIPE RIBEIRO/JC IMAGEM

Apesar da consistência técnica e do respaldo de pesquisas da UFMG mostrando que a Tarifa Zero aqueceria o comércio local e geraria empregos, o Projeto de Lei nº 60/2025 em Belo Horizonte acabou rejeitado no plenário por 30 votos a 10. A votação expôs a forte pressão do lobby das concessionárias de ônibus e de entidades patronais como a FIEMG e a CDL, além da oposição do prefeito Álvaro Damião. Contudo, como demonstra a publicação, a derrota regimental se transformou em uma vitória política e pedagógica sem precedentes.

A pressão popular em Belo Horizonte forçou a prefeitura a decretar a gratuidade dos ônibus aos domingos e feriados. Mais do que isso, espalhou a proposta pelo País. Projetos de lei inspirados no modelo de financiamento do Busão 0800 foram protocolados no Distrito Federal, em Fortaleza (CE) e em Florianópolis (SC). Em maio de 2026, o Brasil contava com 144 municípios com Tarifa Zero universal diária, beneficiando mais de 8 milhões de brasileiros e tornando o país a maior referência mundial no tema.

O debate alcançou o topo do governo federal. O fortalecimento da pauta deu novo fôlego à Proposta de Emenda à Constituição nº 25/2023, de autoria da deputada federal Luiza Erundina, que institui o Sistema Único de Mobilidade (SUM). Conhecido como o "SUS do Transporte", o SUM busca criar uma estrutura federativa de financiamento e diretrizes de qualidade que garanta o transporte gratuito e universal como direito social em todo o território nacional, protegido das oscilações de gestões municipais.

ARTES
Impacto da Tarifa Zero - ARTES

Com 81% de aprovação popular no País, a Tarifa Zero provou que a mobilidade não é um gasto improdutivo, mas um investimento estrutural e o "direito-meio" indispensável para a existência da vida democrática nas cidades. A obra Tarifa Zero: Do Impossível ao Inevitável deixa claro que a pergunta não é mais se a gratuidade deve ser adotada, mas quando o País terá a coragem política de implementá-la em escala nacional.

© FELIPE RIBEIRO/JC IMAGEM

A cobrança de tarifa individual na catraca impõe barreiras financeiras às famílias de baixa renda e alimenta o colapso do sistema coletivo
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