Lula e Flávio podem perder a eleição para os próprios eleitores
Lula (PT) e Flávio Bolsonaro (PL) passaram o debate de domingo tentando convencer os brasileiros de que o adversário não merece ser presidente da República. O problema é que podem ter convencido parte dos eleitores de que nenhum dos dois merece sequer o esforço de sair de casa para votar.
Pesquisas qualitativas realizadas depois do confronto mostraram uma reação preocupante. Houve indecisos que disseram preferir anular o voto. Até eleitores que já tinham escolhido um candidato demonstraram decepção. As duas campanhas precisam considerar que parte dos votos com os quais estão contando pode simplesmente não aparecer nas urnas.
Ausentes
O cientista político Antônio Lavareda, em artigo recente, apresentou um dado que deveria tirar o sono das duas campanhas. Mais de 33 milhões de brasileiros deixaram de votar no primeiro turno, uma abstenção superior a 21% do eleitorado. E essa ausência não prejudica todos os candidatos da mesma maneira.
Na comparação entre a última pesquisa e o resultado das urnas, considerando o eleitorado total, Lula perdeu oito pontos percentuais. Flávio perdeu cinco. Foi uma diferença suficiente para ajudar a explicar por que o petista, que aparecia à frente nas pesquisas, terminou ultrapassado pelo adversário. Portanto, não basta ter a preferência do eleitor. É preciso que ele compareça para transformar essa preferência em voto.
Desigualdade
Lavareda demonstra que a abstenção tem endereço social. Desde 2002, os candidatos presidenciais do PT registraram, em média, uma redução de oito pontos entre as pesquisas da véspera e os resultados das urnas, enquanto seus principais adversários perderam apenas dois. A explicação está, em parte, na composição do eleitorado. Cerca de seis em cada dez eleitores de Lula recebem até dois salários mínimos. Entre os de Flávio, pouco mais de um terço. Dados de 2022 mostram uma abstenção de 52,1% entre os eleitores analfabetos, contra 12,4% entre os que têm ensino superior completo. O voto tem o mesmo valor para todos, mas chegar até a urna pode exigir esforços muito diferentes.
Desânimo
É justamente aí que o debate de domingo ganha uma dimensão ainda mais preocupante. O eleitor que já enfrenta dificuldades para votar precisa encontrar uma razão para superar esses obstáculos. E o que Lula e Flávio ofereceram? Um presidente cansado, irritado e incapaz de explicar satisfatoriamente seu projeto para os próximos quatro anos.
Do outro lado, um candidato arrogante, agressivo e aparentemente mais interessado em debochar do adversário do que em apresentar soluções. A campanha eleitoral, que deveria estimular a participação, pode estar fazendo o contrário. As pesquisas qualitativas não permitem afirmar que a abstenção vai aumentar, mas mostram que os dois conseguiram produzir um sentimento perigoso para quem precisa de votos.
Mobilização
O risco é diferente para cada um. Lula tem uma base social historicamente mais vulnerável à abstenção e precisa impedir que o desânimo afaste seus próprios eleitores das urnas. Flávio depende de brasileiros que querem mudar o governo, mas não são necessariamente bolsonaristas. Se continuar oferecendo agressividade em vez de segurança, pode desestimular justamente quem precisa conquistar.
A eleição será decidida também pela capacidade de transformar preferência em comparecimento. Na reta final, os dois estão preocupados em conquistar os últimos indecisos. Mas deveriam olhar com mais atenção para os milhões de brasileiros que já escolheram um candidato e podem simplesmente não aparecer no domingo, porque acreditam que têm coisa melhor para fazer.


© ALOISIO MAURICIO/FOTOARENA/ESTADÃO CONTEÚDO
