Boxe Adaptado: Há vitórias que não cabem num ringue

É também nesta modalidade que Filipa encontrou o seu lugar. Tem nove anos e gosta de pintar. Gosta de vir ao treino, de fazer corda, de bater no saco e, sobretudo, gosta de ganhar. Um dia, quando o exercício já tinha terminado, continuou agarrada à corda naval com toda a força, recusando-se a aceitar que a disputa tinha acabado. Queria ficar com ela. Queria vencer. E venceu. Depois andou pelo espaço com a corda atrás, orgulhosa da sua conquista, enquanto os restantes se riam da cena. Para quem olha de fora, pode parecer apenas uma brincadeira. Para Abelo Jesus, foi muito mais do que isso. Foi um daqueles pequenos momentos que explicam por que razão continua a acreditar que o desporto pode mudar a vida de uma pessoa.
Filipa treina boxe adaptado com Abelo Jesus | Créditos: Jéssica Mestre
Filipa chega aos treinos através do CACI — Centro de Atividades e Capacitação para a Inclusão, da Casa do Povo de Moncarapacho. Tem trissomia 21 e, durante a conversa, sorriu quase sempre. “És feliz aqui?”, perguntei. “Sim, muito”, respondeu. “Gosto muito do professor!”, acrescentou. Quando se fala de boxe, pensa-se em golpes, competição e combate. Poucos pensam em inclusão. No entanto, entre sacos, luvas e movimentos treinados, a modalidade pode ser também uma ferramenta para pessoas com deficiência recuperarem capacidades, ganharem confiança e conquistarem autonomia. É essa outra face do boxe que Abelo Jesus quer dar a conhecer. No espaço onde trabalha, A.S.D.C Boxing Abelo de Jesus, há pessoas com diferentes condições e necessidades. Algumas chegam através de instituições, outras procuram-no diretamente. Não existe um treino igual para todos porque também não existem duas pessoas iguais. “Temos que ter o conhecimento do que é que cada pessoa tem”, explica. Antes de começar a trabalhar com alguém, é preciso perceber a condição, os sintomas, as limitações e aquilo que pode ou não ser feito. No boxe adaptado, a primeira preocupação não é saber com que força se bate. É perceber como se pode ajudar aquela pessoa a mexer-se melhor, a ganhar confiança e a fazer mais do que fazia antes. No treino, há corda, corrida, técnica, saco e trabalho. Os exercícios são adaptados àquilo que cada pessoa consegue fazer. E é aí que regressa Filipa. Não pela condição que tem, mas por aquilo que conseguiu fazer. A história da corda ainda hoje faz Abelo rir, mas recorda sobretudo a alegria dela naquele momento: “A felicidade que ela tinha naquele momento de conseguir, de vencer e ficar com a corda.” É uma situação que explica o que acontece naquele espaço. Ali, Filipa não está apenas a ser acompanhada pela sua condição. Está a competir, a brincar, a fazer esforço e a celebrar uma vitória. Um boxe diferente O boxe é, à partida, um desporto difícil de associar a palavras como inclusão, autonomia ou felicidade. É uma modalidade que durante décadas foi sobretudo vista pela lente da violência. Mas há um outro boxe, menos conhecido. Um boxe que não procura derrubar ninguém. Que não começa, ...
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