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“Os sucessivos governos não souberam ler a realidade algarvia”: Máximos históricos do preço da Habitação levam o povo à rua

22 October 2026 at 20:07

O Algarve é a segunda região mais cara do país para arrendar, com 20,8 euros por metro quadrado, apenas atrás da Área Metropolitana de Lisboa (22 euros/m2). Os preços subiram 15,2% em setembro, face ao mesmo mês de 2025, a maior subida regional em todo o país e Portimão mantém-se como o município algarvio mais caro, com um preço mediano de 20,3 euros/m2, seguido de Loulé (18,8 euros/m2), Silves (15,3 euros/m2), Faro (14,8 euros/m2) e Tavira (14,4 euros/m2). Só entre julho e setembro deste ano, o aumento do preço no distrito foi de 24,5%. Se recuarmos uns anos até setembro de 2022, arrendar uma casa no Algarve custava 11 euros por metro quadrado, enquanto no mesmo mês de 2026 custa 20,8 euros. No que toca à compra o cenário é semelhante: o preço era, em setembro de 2022, 2926 euros por metro quadrado, um valor que atingiu 4216 euros quatro anos depois e assinalou um novo máximo histórico segundo dados do Idealista. Os locais mais caros continuam a ser Loulé (5.194 euros/m2), Lagos (4.729 euros/m2) e Albufeira (4.194 euros/m2) e os mais baratos Alcoutim (1179 euros/m2), Monchique (3029 euros), Olhão (3383 euros) e Silves (3398 euros). Já o site da Mareante Insights, que realiza estudos de mercado, publicou um «semáforo» de pressão no arrendamento. Entre os concelhos com 100 ou mais contratos por ano, arrendar uma casa de 70 m² pesaria, em São Brás de Alportel, cerca de 37% do rendimento mediano de um agregado. É o único município algarvio situado na cor intermédia, o amarelo. Com o vermelho de “esforço alto: acima de 40%” destaca-se Albufeira (77%), Lagos (76%), Loulé (72%) e Tavira (71%). Portimão (69%) e Silves (60%) apresentam uma percentagem acima de 60 e Vila Real de Santo António, Lagoa, Faro e Olhão acima de 50%. Também Vila do Bispo, Monchique, Castro Marim e Aljezur situam-se na zona vermelha, mas a plataforma sublinha uma “leitura frágil” devido ao número reduzido de contratos de arrendamento.

Mais de 200 pessoas manifestaram-se em Faro pelo direito à Habitação. Créditos: David José Marreiros

“Casas para morar, não para especular” O paradigma atual da Habitação levou mais de 200 pessoas a uma manifestação, no dia 17 de outubro, junto ao Forum Algarve, em Faro, organizada por vários movimentos com o apoio do Movimento “Acampada Faro”. Cidadãos de todas as idades gritaram frases como “Algarve unido jamais será vendido”, “Queremos casa, chão, direito à Habitação” e “Casas para morar, não para especular”, enquanto as apitadelas dos carros mostravam apoio à causa e, de vez em quando, ouvia-se um crítico “vão trabalhar”. Nos cartazes de protesto liam-se frases contra o Governo e a especulação, frases irónicas, piadas, sátira política e referências ao 25 de Abril. Todas convergiam numa mensagem final: “a Habitação é um direito”. Ao Jornal do Algarve, Catarina Negrão, uma das manifestantes e membro do movimento “Algarve em Resistência”, defendeu que a Habitação é hoje “um ativo financeiro que perdeu a sua função social” e é necessário “reconqui...

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Boxe Adaptado: Há vitórias que não cabem num ringue 

15 October 2026 at 11:14

É também nesta modalidade que Filipa encontrou o seu lugar. Tem nove anos e gosta de pintar. Gosta de vir ao treino, de fazer corda, de bater no saco e, sobretudo, gosta de ganhar. Um dia, quando o exercício já tinha terminado, continuou agarrada à corda naval com toda a força, recusando-se a aceitar que a disputa tinha acabado. Queria ficar com ela. Queria vencer. E venceu. Depois andou pelo espaço com a corda atrás, orgulhosa da sua conquista, enquanto os restantes se riam da cena. Para quem olha de fora, pode parecer apenas uma brincadeira. Para Abelo Jesus, foi muito mais do que isso. Foi um daqueles pequenos momentos que explicam por que razão continua a acreditar que o desporto pode mudar a vida de uma pessoa.

Filipa treina boxe adaptado com Abelo Jesus | Créditos: Jéssica Mestre

Filipa chega aos treinos através do CACI — Centro de Atividades e Capacitação para a Inclusão, da Casa do Povo de Moncarapacho. Tem trissomia 21 e, durante a conversa, sorriu quase sempre. “És feliz aqui?”, perguntei. “Sim, muito”, respondeu. “Gosto muito do professor!”, acrescentou. Quando se fala de boxe, pensa-se em golpes, competição e combate. Poucos pensam em inclusão. No entanto, entre sacos, luvas e movimentos treinados, a modalidade pode ser também uma ferramenta para pessoas com deficiência recuperarem capacidades, ganharem confiança e conquistarem autonomia. É essa outra face do boxe que Abelo Jesus quer dar a conhecer. No espaço onde trabalha, A.S.D.C Boxing Abelo de Jesus, há pessoas com diferentes condições e necessidades. Algumas chegam através de instituições, outras procuram-no diretamente. Não existe um treino igual para todos porque também não existem duas pessoas iguais. “Temos que ter o conhecimento do que é que cada pessoa tem”, explica. Antes de começar a trabalhar com alguém, é preciso perceber a condição, os sintomas, as limitações e aquilo que pode ou não ser feito. No boxe adaptado, a primeira preocupação não é saber com que força se bate. É perceber como se pode ajudar aquela pessoa a mexer-se melhor, a ganhar confiança e a fazer mais do que fazia antes. No treino, há corda, corrida, técnica, saco e trabalho. Os exercícios são adaptados àquilo que cada pessoa consegue fazer. E é aí que regressa Filipa. Não pela condição que tem, mas por aquilo que conseguiu fazer. A história da corda ainda hoje faz Abelo rir, mas recorda sobretudo a alegria dela naquele momento: “A felicidade que ela tinha naquele momento de conseguir, de vencer e ficar com a corda.” É uma situação que explica o que acontece naquele espaço. Ali, Filipa não está apenas a ser acompanhada pela sua condição. Está a competir, a brincar, a fazer esforço e a celebrar uma vitória. Um boxe diferente O boxe é, à partida, um desporto difícil de associar a palavras como inclusão, autonomia ou felicidade. É uma modalidade que durante décadas foi sobretudo vista pela lente da violência. Mas há um outro boxe, menos conhecido. Um boxe que não procura derrubar ninguém. Que não começa, ...

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Nas urgências do Hospital de Faro há quem espere, mas nem sempre alcance

8 October 2026 at 19:06

As pessoas entram a uma velocidade superior às que saem e depressa as cadeiras azuis, pretas e cinzentas deixam de estar despovoadas. De tempo a tempo, uma voz omnipresente anuncia um nome, seguido de “sala de triagem” ou “sala número…”. Depois, alguém se levanta e as outras – as que não estão cabisbaixas no ecrã ou com os pescoços pendurados de cansaço – olham-na com o cuidado de um soslaio; com uma curiosidade respeitosa que propositadamente evita ser invasiva com alguém semelhante que ali expõe a sua fragilidade. Outras ainda, lá fora, deixam o café a meio, pisam o cigarro, ordenam mentalmente à porta automática que se abra e andam apressadamente até ao destino ordenado. O ar está abafado. Cheira a desinfetante, a tosse e a transpiração. Ao entrar, a realidade ganha um novo tom que não está na paleta de cores nem é visível através do olho humano: o «cinzento-psicológico», que torna a atmosfera carregada, pesa sobre a pele, sobre a alma. Numa sala de espera das urgências existe como que uma consciência comum. Pessoas que não se conhecem juntam-se e, passadas horas em que dividem sofrimento, sentem-se próximas e confiam umas às outras coisas que noutro contexto não fariam. Um “serviço de saúde pouco capaz” é o primeiro denominador comum que encontram. Nas urgências do Hospital de Faro as máquinas de venda têm sumos, iogurtes, garrafas de água, pacotinhos de leite, bolachas, chocolates e sandes que alimentam barrigas barulhentas e servem de pequeno-almoço, almoço e jantar. Uma pequena televisão a três metros de altura faz companhia com notícias, programas e publicidade sem som. Às 11h40 estão 40 e tal pessoas na sala de espera e meia dúzia à porta, onde um homem em chamada, impaciente, diz que vai ficar até à hora de almoço porque depois tem de ir para Albufeira, enquanto por ele passam duas mulheres com lágrimas já no queixo para se encontrarem com outro homem para lhe darem as notícias. Um idoso numa cadeira de rodas – pele e osso – em volume de sussurro: “tenho fome”. “Vamos para casa depois comes lá”, respondeu-lhe a sua companhia. Enquanto as crianças fazem birra junto dos pais - porque é difícil domar a impaciência das crianças num ambiente que suga o estado de espírito – e uma médica se desloca à sala de espera para, carismaticamente, tentar animar uma paciente idosa naquela que foi, provavelmente, a única situação em que alguém sorriu neste local durante o dia, o ecrã na parede mostra tempos de espera dentro do limite. Até à uma da tarde, os tempos de espera para a primeira observação de pessoas com pulseira amarela (casos urgentes) mantiveram-se sempre abaixo de uma hora, dados do portal do Serviço Nacional de Saúde. Este é o principal indicador para diagnosticar um serviço de urgência, mas não capta toda a realidade. De acordo com o conhecido Sistema de Triagem de Manchester, os limites para primeira observação, consoante a cor da pulseira, são: vermelha (atendimento imediato); laranja (muito urgente), até 10 minutos; amarela (urgente),...

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