❌

Reading view

Ana Rita Arruda a magia da lã entre a tradição e a arte contemporânea

Photo: @copyright

Da herança têxtil da Covilhã à criação de esculturas tridimensionais, Ana Rita Arruda transforma fibras de lã em peças que desafiam os limites do artesanato e da arte contemporânea. Depois de uma carreira na tradução, encontrou na feltragem a sua verdadeira vocação, dedicando-se à exploração das formas orgânicas, à experimentação artística e à formação de novas gerações.

A ligação de Ana Rita Arruda aos têxteis nasceu entre memórias familiares, tradições artesanais e o fascínio pelas cores e texturas dos tecidos. Natural da Covilhã, cidade profundamente marcada pela indústria têxtil, cresceu num ambiente onde o saber-fazer manual ocupava um lugar especial. A avó materna, professora de trabalhos manuais no antigo liceu de meninas da cidade, dominava técnicas como o bordado, o croché, o tricô e a costura, transmitindo-lhe, desde cedo, a proximidade com este universo criativo. Em criança, Ana Rita sonhava ser estilista. Fascinava-a a diversidade de tecidos e a possibilidade de transformar materiais em peças únicas. O percurso profissional, porém, começou longe das artes têxteis. Formou-se em Línguas e trabalhou durante vários anos como tradutora e intérprete de neerlandês, alemão e inglês, sem nunca abandonar por completo o interesse pelos trabalhos manuais. A mudança decisiva surgiu através do encontro com uma artista têxtil neerlandesa que, ao conhecer os trabalhos que Ana Rita desenvolvia nos tempos livres, reconheceu o seu potencial e a convidou a aprender uma nova técnica de feltragem. A experiência revelou-se determinante: em apenas três anos, deixou a tradução para se dedicar a tempo inteiro à criação artística. Hoje, a feltragem é a base de um trabalho que transforma fibras de lã soltas em esculturas sólidas e formas tridimensionais.

Sem necessidade de tecnologia complexa, o processo depende sobretudo das mãos, da água, do sabão e de um trabalho físico persistente. Através da fricção, as fibras entrelaçam-se e compactam-se, dando origem a materiais resistentes e a formas surpreendentes. Trata-se de uma técnica ancestral, preservada em diferentes tradições artesanais, nomeadamente na Mongólia, em Marrocos e na Turquia, que Ana Rita reinventa através de uma linguagem artística contemporânea. No seu ateliê, no Porto, encontra o espaço ideal para experimentar materiais, desenvolver ideias e explorar novas possibilidades. As suas criações inspiram-se frequentemente nas estruturas e formas da natureza: intestinos, ondas de água, moluscos e líquenes são algumas das referências que alimentam o seu imaginário. O resultado são peças de forte expressão orgânica, onde o contraste entre materiais, texturas e acabamentos assume um papel central. 

A lã, de aparência baça e suave, pode combinar-se com superfícies brilhantes ou elementos de maior rigidez, criando esculturas que oscilam entre o acolhedor e o inquietante, o familiar e o misterioso. Algumas parecem quase vivas, evocando formas animais ou organismos que poderiam existir num universo desconhecido. Por detrás da aparente delicadeza destas obras está um processo exigente, que requer tempo, experimentação e capacidade de superar obstáculos. Para Ana Rita, criar implica investigar, inventar e aceitar que o erro faz parte do caminho até à concretização de uma peça.

Os desafios variam consoante a dimensão e a complexidade do trabalho. Se as peças mais pequenas exigem precisão e atenção ao detalhe, as esculturas de grandes dimensões colocam dificuldades físicas consideráveis. Quando molhada, a lã pode tornar-se extremamente pesada, chegando uma única peça a atingir os 15 quilos. Dobrar, movimentar e organizar o material exige, por isso, técnicas específicas e, em determinados projetos, a colaboração de assistentes.

Entre os trabalhos que marcaram o seu percurso está O Caos e a Diva, criado para o New Hand Lab, na Covilhã. Instalado numa antiga fábrica, este espaço conjuga património industrial têxtil, criação artística e colaboração entre profissionais. A obra de Ana Rita explora o conceito matemático do caos através de uma forma entrelaçada que evoca uma borboleta, cruzando a feltragem tradicional com o tufting, técnica que permite inserir fios numa superfície com recurso a ferramentas específicas. A criação artística não esgota a atividade de Ana Rita Arruda. 

A formação e a partilha de conhecimento ocupam também um lugar importante no seu percurso. Ao longo dos anos, colaborou com instituições como a Escola Secundária Soares dos Reis e a Escola Secundária António Arroio, contribuindo para aproximar os estudantes das possibilidades expressivas das artes têxteis. Quando começou a trabalhar com feltragem, a oferta formativa nesta área em Portugal era praticamente inexistente. Perante essa realidade, assumiu o compromisso de divulgar a técnica, promover a aprendizagem e contribuir para a criação de uma comunidade em torno desta prática artística, levando-a a escolas e universidades. O seu trabalho demonstra que as técnicas tradicionais não têm de permanecer confinadas ao passado. Pelo contrário, podem constituir um ponto de partida para novas linguagens, cruzamentos disciplinares e formas de expressão. O futuro de Ana Rita Arruda passa pela participação em exposições, novos projetos e residências artísticas, incluindo uma experiência prevista na Estónia. Entre as áreas que pretende continuar a explorar está a ligação entre o têxtil e a tecnologia, nomeadamente através da soft robotics, ou robótica suave, procurando novas possibilidades de integração com a feltragem. Entre formações, encomendas personalizadas para arquitetos e colaborações multidisciplinares, a artista continua a alargar os horizontes de uma matéria-prima tão antiga quanto versátil. Na sua obra, a lã deixa de ser apenas um material associado à tradição para assumir novas formas, volumes e significados. O percurso de Ana Rita Arruda mostra como a memória artesanal pode alimentar a inovação e como, através da experimentação e da persistência, uma fibra natural se pode transformar numa expressão singular da arte contemporânea.

Paulo Perdiz/MS

  •  

Maricopa County, Arizona: The ‘main epicenter’ of gun trafficking from the US to Mexico

Maricopa County, in Arizona, has emerged as the “main epicenter” of illegal arms trafficking into Mexico, according to John Lindsay-Poland, coordinator of Stop US Arms to Mexico, an initiative that studies the illicit flow of weapons between the two countries.

Seguir leyendo

© Ross D. Franklin (AP)

View of Tempe, in Maricopa County, in a file image.
  •  
❌